- Porque é que havia de ter? – Perguntou arqueando uma sobrancelha. Só não sei muito bem como funcionam as coisas entre esta empresa e a vossa firma. Recebi uma visita em Viena, de alguém que se apresentou como estando mandatado pela fossa firma, para me encontrar e entregar uma carta, na qual o senhor me informava da morte do meu tio, de que eu era o seu herdeiro, e devia apresentar-me na firma, onde numa reunião me seria lido o testamento, e me poriam a par de todas as questões jurídicas. Meus pais morreram muito jovens, e meu tio que assumiu a minha educação, fez-me cursar gestão e contabilidade, coisa para a qual na época não tinha nenhuma inclinação. Pelo que quando acabei o curso e ele me entregou o pouco que meus pais me tinham deixado, comprei uma moto e parti à aventura. Como tal deve compreender que não saiba como meu tio geria a empresa, que não tivesse nenhuma noção do que ela crescera, e que pensasse que meu tio tivesse aqui mesmo nos escritórios, os seus advogados, e não que a empresa estivesse a esse nível entregue a uma outra empresa.
- E o senhor tenciona fazer isso?- Perguntou Carlos
- O quê?
- Quebrar o contrato com a nossa firma, e trazer aqui
para os seus escritórios, um ou mais advogados da sua confiança, - respondeu Amélia.
Paulo sorriu, e o seu rosto suavizou-se
- Volto a repetir-me. Porque havia de o fazer, se as
coisas têm funcionado bem até agora? Limitei-me a expôr o meu desconhecimento
de causa. Mas não tenha dúvida, de que o farei se dentro de meses ou anos, algo
correr menos bem, convosco. Posso parecer indolente, desinteressado, mas sei bem cuidar, do que é meu.
Amélia baixou o olhar incomodada. Porque é que aquelas
palavras a incomodavam? Não duvidava do seu profissionalismo nem da sua
competência, não tinha que recear.
- Então, - disse Carlos abrindo a pasta- vamos lá à
leitura oficial do testamento, e à assinatura dos documentos necessários, para
que possa tomar posse do que é seu.
Mais de uma hora depois, no regresso ao escritório, os
dois advogados conversavam.
- Confesso que me enganei, quando pensei que o sobrinho
do velho António, ia ser presa fácil, para a concorrência, - disse Carlos. O
homem, tem fibra.
- Parece que sim.
-Sabes que por momentos pensei que ele ia dizer que não
estava interessado em manter o contrato, e que preferia ter os seus advogados,
perto dele, e trabalhando em exclusivo no seu escritório?
- Pensei o mesmo. Talvez reflexo de ter um chefe que não
gosta de promover mulheres, penso sempre se o cliente não é capaz de confiar em
mim, pelo facto de ser mulher. E quando anunciaste que seria eu a tratar dos
problemas jurídicos da sua empresa, fiquei à espera que me descartasse.
- Que disparate, Amélia. És mais competente, e estás
melhor preparada que os outros colegas masculinos que temos na firma. E este
cliente correu mundo, logo não tem decerto preconceitos desses. Aliás, acho que
ele gostou bastante da ideia de trabalhares para ele. Algumas vezes, creio ter surpreendido,
um certo brilhozinho nos olhos dele, quando te olhava.
