A mulher que caminhava pela nave da igreja em direção ao altar, não mostrava no rosto a alegre emoção que normalmente caracteriza as noivas no dia do seu casamento.
Dava o braço a um jovem imberbe que pese o facto de
ser bastante alto, se via nitidamente ser ainda um adolescente.
Com um singelo mas elegante vestido de noiva, caminhava
vagarosamente mas com passos firmes, olhando em frente com determinação. O
cabelo castanho encontrava-se preso num artístico penteado deixando o seu rosto
descoberto e quase sem maquilhagem.
Era muito bonita. O seu rosto moreno de feições
corretas, onde brilhavam uns grandes e belos olhos castanhos, a boca pequena e
bem desenhada, o queixo redondo, a que se seguia um pescoço alto e esguio, e um
corpo bem proporcionado. Nas mãos de profissionais experientes, podia ser uma
mulher deslumbrante, mas o que naquele momento deixava transparecer. era uma
beleza suave, que lembrava a imagem de uma recatada virgem, saída do pincel de
um qualquer mestre do renascimento.
De todas as noivas que um dia chegaram ao altar
daquela igreja, aquela seria sem dúvida a que tinha menos ilusões em relação ao
casamento e à sua vida futura.
Não amava o homem a quem se ia unir, na verdade quase
nem o conhecia, e no entanto, sabia que o casamento iria durar
pelo menos quinze anos.
Junto ao altar, um homem elegantemente vestido, com um
fato escuro, de expressão severa, esperava-a. Não parecia nervoso, nem sorria. Caminhou para ela.
-Cuide bem dela, - disse o jovem com voz trémula, ao
noivo.
- Conta com isso, - respondeu ele tomando o braço da
noiva, e encaminhando-se para o altar onde os esperava o sacerdote.
Este deu início à cerimónia pensando que nunca, no já
meio século que realizava casamentos, fizera um assim.
A igreja estava praticamente vazia. No altar, do lado
do noivo havia um homem cuja idade nadaria perto do meio século, como padrinho, do lado da noiva o jovem
que a trouxera. Uma mulher de meia-idade, com duas crianças, e duas jovens,
eram os únicos prováveis convidados, já que as restantes idosas, que assistiam
à cerimónia, eram habituais frequentadoras da igreja e o padre conhecia-as a
todas.
Mentalmente pediu perdão a Deus, pelo facto de ir
abençoar um casamento onde não descortinava nenhuma emoção e continuou a cerimónia,
perguntando se havia alguém que conhecesse algum impedimento à realização
daquele casamento. Ninguém se manifestando ele perguntou:
- Clara Mendes de Sá, é de sua livre e espontânea
vontade contrair matrimónio com Ricardo de Sousa Carvalho?
- Sim
Ricardo de Sousa Carvalho é de sua livre e espontânea
vontade contrair matrimónio com Clara Mendes de Sá?
- Sim
Seguiu-se a bênção das alianças que os noivos iriam trocar e o ritual das promessas, único momento em que numa fração de segundos
foi nítida a indecisão da noiva. Foi uma coisa muito breve, que parece não ter
sido notada por mais ninguém senão pelo noivo que apertou com força a sua mão.
-Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, vos
declaro, marido e mulher. Pode beijar a noiva.
O homem inclinou-se e depositou sobre a testa feminina
um breve e casto beijo.
