Três horas da madrugada. No quarto às escuras um homem está sentado na cama com a cabeça entre as mãos. De vez em quando um ronco surdo quebra o silêncio em que a casa está mergulhada. Bruno sabe que é o pai no quarto ao lado. Desde menino habituou-se a ouvir aquele ronco. É-lhe tão familiar que há muito deixou de o ouvir. Ou pelo menos, não chega para lhe perturbar os pensamentos. Que diga-se em abono da verdade, são bem perturbadores. Bruno é um homem jovem. Completou à pouco vinte e sete anos. Baixo, faltam-lhe alguns centímetros para o metro e sessenta, e isso, sempre foi um pesadelo para ele. Porque apesar do rosto perfeito, ele sempre estivera abaixo da média em altura. Desde a escola, onde os outros meninos, lhe chamavam, anão, ou meia-leca. Ou mesmo quando rejeitavam a sua presença nos jogos do recreio, como se ele tivesse peste, apenas porque era mais pequeno do que devia. As crianças podem ser extremamente cruéis sem se darem conta, nem deixarem cair o sorriso.
Bruno foi crescendo, sentindo-se rejeitado por uma
sociedade que avalia os homens em centímetros, beleza, ou poder material, mas nunca pelo carácter. Aos
dezassete anos, apaixonou-se por uma colega de escola. Levou todo um período a
ensaiar as palavras para se declarar.
“Cresce e aparece”- disse ela, rindo-se dele.
Desde esse dia a
revolta instalou-se-lhe no peito, e como erva daninha foi devorando tudo de bom
que havia nele.
Por essa altura o irmão mais velho casou-se e o pai
emigrou para a Alemanha. Tinha uma boa profissão, arranjara um bom contrato, e seria
a hipótese de conseguir ganhar algum dinheiro e construir a casinha com que
sonhava, já que o terreno lhe deixara um tio em testamento.
Aviso ao leitor. Esta história tem apenas três capítulos. Não é real, mas podia ser. Escrevi-a como um alerta, a certas atitudes.
