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28.10.15

FOLHA EM BRANCO PARTE VII



                                           foto da net


Quando a jovem entrou na cozinha a comida já estava na mesa, e Miguel esperava por ela, para iniciar a refeição.
- Sente-se. Vamos comer. Confesso que estou cheio de fome.  
Estendeu-lhe um prato com uma coxa de frango assado e batatas fritas. - Se gosta de salada, sirva-se, disse apontando para a travessa de tomate, salpicada de orégãos.
A refeição foi penosa para os dois. O homem porque tentava sem conseguir, introduzir uma conversa, que pudesse levar a jovem a vislumbrar uma nesga que fosse, sobre a sua identidade. A jovem porque estava demasiado preocupada, para ter fome. Não sabia quem era, nem como tinha chegado ali. Não sabia quem era aquele homem, nem porque estava com ele. Até ali, parecia ser confiável. Tinha agido consigo como um cavalheiro. Mas seria sempre assim? E ainda que fosse, quanto tempo demoraria a fartar-se dela e a pô-la na rua? Já não era muito jovem, via-se que estava habituado a viver sozinho. Quanto tempo aguentaria uma intrusa no seu espaço? E ela? Quem era ela? Seria solteira? Casada? Porque não se lembrava de nada?  Porque não tinha documentos? Uma mulher não sai de casa, sem mala, sem documentos. Então porque ela não tinha nada? Teria sido assaltada? Isso explicaria o facto de estar sem mala. Mas, porque raio, não se lembrava de nada? Por mais que se esforçasse, só se lembrava de ter acordado na relva, junto do pintor. Era como se tivesse nascido no momento em que abriu os olhos. Teria levado alguma pancada na cabeça? Mas não.
Tinha acabado de lavar a cabeça e não encontrara nenhum hematoma.
 Sentia-se desesperada. Queria que o pintor lhe dissesse alguma coisa, que lhe desse uma pista.
Mas ele dissera que ela não estava com ele, não era seu modelo, e nunca a tinha visto antes.Então, o que poderia ele dizer-lhe para a ajudar?
Terminaram a refeição e Miguel começou a retirar a loiça da mesa em silêncio.
- Deixe eu arrumo a cozinha – ofereceu-se ela.
- Estou habituado a fazê-lo, - respondeu ele, não sem uma ponta de dureza na voz, magoado com o silêncio da jovem.
Talvez ela tenha percebido, porque disse.
- Desculpe-me. Nem sei como lhe agradecer o que está a fazer por mim. Mas acredite que me é muito dolorosa esta situação. Nem sequer sei como me chamo. Estou desesperada.
O homem caminhou até ela, acariciou-lhe os cabelos como se ela fora uma criança e disse;
- Não se preocupe. Quando menos esperar vai lembrar-se. E se isso a faz feliz, pode lavar a loiça,- acrescentou sorrindo.