Paula saíra de casa no Domingo de manhã, sem qualquer
ideia do sítio onde ia passar férias, decidindo apenas partir para o sul. Seguiu
pela estrada, até Setúbal, aí apanhou o barco, que a deixou na península de
Tróia, seguindo depois pela estrada nacional até Sines, terra natal do grande navegador, Vasco da
Gama, e aí fez a primeira paragem para visitar o Castelo e se encantar com toda
a paisagem envolvente. Retomou a viagem até Porto Covo, onde voltou a parar, para
almoçar e dar uma volta pela localidade que Rui Veloso imortalizou. A meio da
tarde estava tão encantada, que resolveu passar aí essa semana, e para tal procurou
alojamento. Foi uma semana em que apenas se deslocou uma vez à ilha do
pessegueiro, onde, embora não visse nenhum pessegueiro, sentiu a estranha sensação de insularidade, observou os vestígios arqueológicos romanos, as ruínas do antigo forte, e ouviu do guia, a Lenda do Menino da Gralha e a Lenda de Nossa Senhora da Queimada. O resto dos dias passou-os ora na praia, ora passeando pela bonita localidade. Revigorada pelo descanso e pelo tempo passado ao ar livre, quase
esquecera os acontecimentos do último mês. Quase, porque naquele domingo, já
por várias vezes se lembrara do casamento de Júlio Correia, da festa a que ela não
quisera ir, e interrogava-se se António simpatizara ou não com a tal mulher que
os noivos lhe queriam apresentar. Imaginava-o a dançar com ela, e isso dava-lhe
um estranho aperto no peito. “Que raio se passa comigo?” - interrogou-se
mentalmente. Ele não é nada meu. Tem o direito de ir à festa e dançar com quem
quiser. Mas esse pensamento não aliviava aquele aperto no peito. Tentando
esquecer, fez a mala, pagou a estadia e fez-se à estrada. Estava na hora de
prosseguir a viagem.
Vinte minutos depois chegava a Vila Nova de Milfontes, e
decidiu que aí ia ficar alguns dias. Enquanto tomava um café, procurou na
Internet um hotel num local sossegado mas suficientemente perto para conhecer a
localidade. Encontrou um cujo nome “Moinho da Asneira” lhe chamou a atenção e
resolveu ir até lá e ver se o local lhe agradava. Como gostou alugou quarto e
tendo guardado as suas coisas saiu para um passeio.
Durante aqueles dias, Paula deixou-se encantar pela
bonita vila. Passeou pelas ruas de casas imaculadamente brancas, onde o azul dos
céus, parecia ter descido para contornar portas e janelas, banhou-se nas límpidas águas da praia do
Malhão, provou as típicas iguarias da gastronomia alentejana em restaurantes
muito agradáveis como a “Tasca do Celso” ou o “Pátio Alentejano”, fotografou o
forte de S. Clemente, construído nos finais do século XVI, projetado pelo arquiteto
italiano Alexandre Massai, para defender a vila dos piratas, que navegavam pelo
rio Mira. Admirou e fotografou o monumento aos aviadores, homenagem a Brito Pais, Sarmento de
Beires, e Manuel Gouveia, que daqueles campos partiram em 1924 para um
arriscado voo até Macau.
Foi com um sentimento de pena que no quinto dia decidiu
seguir viagem, não sem antes ter ido ao posto de turismo saber o que mais podia
ver nos arredores. A simpática empregada, informou-a que seria uma pena se não
visitasse a praia das Furnas, local de rara e selvagem beleza, as pequenas
cascatas do mesmo nome, ou o Cabo Sardão. Deu-lhe alguns folhetos com preciosas
informações para lá chegar, e a jovem decidiu seguir as suas sugestões. Afinal
estava de férias. Se bem que começava a estar cansada das férias. Suspeitava
que o mês projetado se ia ficar pela metade. Tinha saudades do trabalho, das
conversas com a sua secretária, do irmão, de Cidália, e até do seu pai. E
quem sabe de volta ao trabalho voltava a encontrar o empresário? Afinal, ambos
se moviam no mesmo meio. Com estes pensamentos, chegou ao primeiro dos locais
assinalados no mapa. E não pôde deixar de pensar que apesar de todos os elogios
da empregada, eles ficavam muito aquém das maravilhas que os seus olhos viam. Foi
já ao fim da tarde que chegou à Zambujeira do Mar, onde iria jantar e dormir.
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