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15.6.12

BLOGAGEM COLETIVA - AMOR AOS PEDAÇOS - QUESTIONAMENTO





 LUÍSA

O som estridente duma campainha sobressaltou a jovem arrancando-as das suas recordações. Pousou a caneta sobre o livro que tinha na sua frente, levantou-se, alisou a bata branca e depois de um breve olhar ao quadro, onde uma luz assinalava o quarto 9 dirigiu-se para lá.
Uma mulher precocemente envelhecida debatia-se na cama com imaginários inimigos, gritando e puxando a ligadura que a prendia à cama, para que na sua loucura não se magoasse.
Luísa tentou acalmar a mulher enquanto a fazia engolir um calmante. Movimentou a cama para deixar a doente mais confortável, e ajeitou-lhe a almofada. Aos poucos a mulher acalmou e Luísa voltou para a sala das enfermeiras.
O relógio aproximava-se das 3 da madrugada, a colega de turno, dormitava, e o hospital mergulhara de novo no silêncio.
Luísa passou a mão pela testa inquieta. E deixou que aflorassem à memórias as recordações que a atormentava.
 João fora o seu primeiro e único amor. Começaram a namorar nos bancos da escola, e cresceu a sonhar com aquele casamento. Sempre pensara que ele a amava do mesmo jeito. Mas sem saber como Luísa achou-se grávida. E desde aí João insistia para ela fazer um aborto. Recordou a última conversa na tarde do dia anterior.

“-  Mas Luísa, isso não pode ser minha querida. Não pudemos casar já. Acabei o curso agora. Nem sequer tenho trabalho. E tu acabaste de conseguir emprego. Mas ainda estás no período experimental. Se descobrem que vais ter um filho…
- Um filho que é teu, não esqueças. E porque é que não podemos casar já? Não podemos comprar tudo o que precisamos? De acordo. Compramos o indispensável.
-Mas Luísa nós somos tão novos. Um filho em princípio de vida vai ser uma prisão. Se tu quisesses…
- Não João não me venhas com propostas imorais. Não somos tão jovens que não tenhamos idade para tomar a responsabilidade dos nossos atos.
- Mas Luísa podíamos…
- Não, não e não. Já te disse que não posso nem quero fazer o que me pedes. Se não queres o teu filho, vai-te embora de vez. Eu arrostarei com as consequências da minha leviandade. Mas não me digas mais nada. O meu filho não pediu para nascer, mas tem esse direito.”

Luisa saíra batendo a porta da casa onde sonhara viver um dia, com a certeza de que estava acabado um capitulo da sua vida. Mas essa era a única certeza porque de resto tudo em si eram dúvidas.
  Se João a amava porque reagira assim quando ela descobrira que estava grávida? Porque lhe queria impor um aborto que ela não desejava? 
Como poderia João ser um ser tão imaturo e egoísta? E como é que ela nunca se apercebera disso? Sentia-se perdida. Ela nunca desejara aquela gravidez. Não sabia mesmo como fora possível pois sempre tomava a pilula. Mas alguma coisa anulara o efeito desta. Seria um sinal Divino para lhe mostrar o verdadeiro caracter do João? De uma coisa ela tinha a certeza. Nunca faria o aborto. Ainda que perdesse o namorado. E o emprego. Acabara de enterrar as suas mais caras ilusões. A sua decisão estava tomada, mas não podia deixar de se questionar. Claro que lá bem escondido num recanto do coração, morava a esperança de que João  reconsiderasse. E ela  poderia olhar para ele com o mesmo amor depois de tão grande desilusão? Até onde iria a sua capacidade de perdoar? E de apanhar os cacos e reconstruiu o encantamento que fora a sua vida até à descoberta da gravidez?
A noite decorrera na maior normalidade e Luisa acabou deixando o trabalho às 8 da manhã, completamente extenuada. Mas quando alcançou o portão e João surgiu na sua frente com um pedido de perdão no olhar, e umas minusculas botinhas de lã na mão, dissiparam-se todas as dúvidas, e o rosto abriu-se num sorriso radioso.








Este texto faz parte da minha participação na blogagem coletiva, promovida pelas amigas



15.3.12

BLOGAGEM COLETIVA - AMOR AOS PEDAÇOS - ENCANTAMENTO

Para esta blogagem coletiva eu escolhi um poema que alguns que me visitam já conhecem. Escrevi-o na longinqua decada de 70 aquando do 10º aniversário do meu casamento e claro é dedicado a meu marido. Como apesar de todos estes anos, não encontro melhores palavras para descrever o encantamento que senti quando o conheci, eis aqui o poema.



POEMA DO NOSSO AMOR NASCIDO

Ainda me recordo do tempo de solidão
quando na estação do meu desejo
embarquei ao encontro de ti.
Era Primavera? Não. Era ainda Inverno.
Mas o tempo não contava. Era um montão
de horas encerradas
na penitenciária do passado.
E foi justamente nessa altura
que te encontrei.
Trazias a noite agonizante
em teus cabelos,
enquanto nos teus olhos dourados
raiava a aurora.
Nunca te tinha visto e no entanto
soube logo que eras tu. No teu sorriso
- branco malmequer que desfolhaste,
me perdi. Com a força do desespero
que agoniza em silêncio,
o nosso amor nasceu. Depois...
bem, depois, não estava previsto
-mas aconteceu...a maçã do saber
adormeceu em nós.
A cidade, o rio, as gentes,
a vida e até a própria morte
deixaram de nos importar.
Há alguma coisa mais importante que
um homem e uma mulher que se amam?...
Lembras-te? Era o tempo dos beijos
a saber a pôr-do-sol,
das madrugadas amanhecendo
nos sorrisos sem palavras.
Era o tempo em que os nossos corpos,
prenhes de Amor, cavalgavam
pelas montanhas da Ilusão.

Elvira Carvalho

Esta blogagem é promovida por: