28.9.16

VIDAS CRUZADAS PARTE VIII





Na manhã seguinte, assim que o patrão chegou, Pedro pediu para falar com ele. Este olhou-o com estranheza, mas mandou-o entrar para o seu gabinete. O mais sereno possível, o jovem pediu a demissão e contou-lhe o que se passava. Mais do que patrão, ele sempre fora ao longo dos dez anos que levava no escritório um amigo. Um amigo com quem não se tem uma grande intimidade é verdade, mas ao fim e ao cabo um amigo. O patrão olhou-o incrédulo. Custava a acreditar que um jovem como Pedro, que nunca em dez anos tinha perdido um dia por doença, viesse agora dizer-lhe aquilo que estava a ouvir. Parecia-lhe um absurdo.
- E é por isso que eu quero a demissão, e também pedir ao Sr. Costa que não conte a ninguém no escritório o que acabo de lhe dizer. Como deve compreender, não quero manifestações de pesar, que só me constrangem. Também não quero que a minha mãe possa vir a saber do que se passa.
- Claro. Se esperar um pouco eu mesmo faço as suas contas e passo já o cheque.
- Muito obrigado, Sr. Costa. Eu aguardo no meu lugar, enquanto ponho tudo em ordem.
Menos de uma hora volvida, Pedro saía do escritório sem se despedir de ninguém, com o cheque no bolso. Na verdade bem mais do que pensava receber, já que o Sr. Costa generosamente acrescentara uma  indemnização, coisa que não era habitual,nem de lei. Depositou o cheque no banco e saiu descansado. A conta sempre fora conjunta
com a sua mãe, e embora ela nunca fosse ao banco, sabia-o. E como sabia ler e escrever, não teria problemas em movimentá-la, quando ele já não fizesse parte do seu mundo.
Voltou para casa e começou os preparativos para a viagem. Estranhou a mãe não estar em casa, mas ela chegou logo depois.
- Fui aos correios mandar um telegrama à Palmira dizendo que chegavas hoje.
- Mas porquê mãe? Não era mais fácil telefonar?
- Fico mais descansada assim. A tua tia é um pouco dura de ouvido e podia entender mal o telefonema.
- E a tia Rosa? Já falou com ela?
- Já. Ontem à noite. Deve estar por aí a aparecer. Disse que vinha de táxi, mal rompesse a manhã.
Ele suspirou aliviado. Não queria ir-se sem que a tia Rosa chegasse. Assim podia continuar os preparativos. Depois de fechar a mala da roupa, escolheu criteriosamente alguns livros, entre os últimos que recebera de prenda de aniversário e meteu-os num saco. Guardou também uma caneta e um bloco de notas. Quem sabe se lhe apeteceria escrever alguma coisa? Fechou o saco e juntou-o à mala de viagem que repousava em cima da cama. Saiu do quarto e encontrou a mãe atarefada na cozinha.
- Mãe vou com o carro à oficina do Senhor Duarte. Há mais de três meses que não ando com ele, preciso saber se está tudo em ordem. Não tinha graça ficar empanado no caminho, e tenho que encher o depósito.
- Vai filho. É melhor que ele veja o carro, sim. A tua avó sempre dizia que quem vai para o mar avia-se em terra.
- Até logo, mãe.
- Vai com Deus, filho.



18 comentários:

Isa Sá disse...

A passar para acompanha a história! Tenha um ótimo dia.

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Tintinaine disse...

De repente dei comigo a pensar que no laboratório de análises pode ter havido uma troca de amostras.
Isso seria uma espécie de milagre que acabaria por salvar o Pedro!

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Está a ficar interessante vamos lá a ver como corre a viagem.
Um abraço e continuação de boa semana.
Andarilhar

✿ chica disse...

Preparativos todos providenciados e nós a te acompanhar e gostar! bjs, chica

Donetzka Cercck L. Alvarez disse...

MARAVILHOSO SEU CONTO,QUERIDA AMIGA ELVIRA! VOU TENTAR LER TODOS OS CAPÍTULOS ASSIM QUE PUDER!

Seu blog está na lista de Meus Blogs favoritos à direita do meu.

Estou somente com celular,sem computador,e é difícil ler o conteúdo dos blogs.Mas vou retribuindo as visitas aos poucos.
Obrigada por sempre me visitar e deixar seus carinhosos comentários.

Feliz e abençoada quarta_feira!

Beijos sabor carinho

Donetzka

aluap Al disse...

"Quem vai para o mar avia-se em terra" há quanto tempo não ouvia essa. Espero que corra bem a viagem.
Bj**

tulipa disse...


OLÁ ELVIRA


Não sei o que nos espera o amanhã
MAS
o futuro assusta-me

e, como já não vinha aqui há algum tempo,
tive que andar para trás
e ver a história,
pois apanhei-a numa fase já complicada.

EU vou sempre ouvir uma segunda opinião, pelo sim pelo não.


Aqui admito que tenho andado afastada dos blogues.
Há períodos nas nossas vidas que nos deixam assim,
nem sei como os apelidar.
Desmotivação, será?

O que é certo é que
ABANDONAR
eu não abandono
ando é a fazer intervalos cada vez maiores.

Aguardo por si, Amiga!

Beijinho da Tulipa

Edumanes disse...

Quem vai para o mar, avia-se em terra e quem vai viajar, de "carocha", verifica ou manda verificar o ar dos pneus e atesta o depósito de combustível.Assim como um profissional deve proceder, procede o Pedro. Para viajar em segurança os pneus são peças fundamentais! Que a mudança de ares contribua para o seu bem estar na vida e para afugente dele a maldita doença!

Boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Odete Ferreira disse...

Por esta é que eu não esperava!
Será que as análises são mesmo do Pedro???
Talvez a Elvira enverede por esta via...
Bjinho, amiga

Pedro Coimbra disse...

A caminho da viagem que o vai curar.
Abraço

Majo Dutra disse...

Maravilho-me com a riqueza de pormenores
tão realistas...
Abraço Elvira.
~~~~~~~~

O meu pensamento viaja disse...

Aguardando, expectante.
Beijo

Ailime disse...

Boa noite Elvira,
Um escrita que nos mantém suspensos!
Beijinhos,
Ailime

Smareis disse...

Vamos ver como vai ser a viagem até acasa da tia.
Beijos e bom fim de semana!

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira
Não deixe o Pedro morrer, não vá contra tudo que penso sobre a escada da vida: morre primeiro quem já está em últimos andares.
Beijos
Minicontista2

Rosemildo Sales Furtado disse...

Algo ainda me diz que a situação irá mudar. Aguardemos.

Abraços,

Furtado.

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
Milagres existem
Beijos
Minicontista2

© Piedade Araújo Sol disse...

lendo para seguir a estória
beijinho
:)