27.8.15

SER HONESTO É CRIME?





A história que vou contar, passou-se numa pequena aldeia, do concelho de S. Pedro do Sul, nos gloriosos e loucos anos 20. Numa pequena casa tipicamente beirã, daquelas de granito que ficavam por cima da “loja” onde (quem os tinha ) guardava os animais, e os mais pobres guardavam apenas os utensílios de trabalho na terra,  a caruma, e a lenha para o fogo, viviam a Maria e o Manuel, mais os seus cinco filhos. A casa era composta por uma ampla entrada, onde num canto havia uma chaminé, e um pequeno forno de lenha onde a Maria cozia o pão. Não havia fogão, a refeição era cozinhada numa panela de ferro, com três pés que assentava directamente em cima da fogueira, que se acendia ao lado do forno, sobre uma placa metálica, assente em cima das pedras, que formavam o chão. Completava a decoração, uma comprida mesa de madeira e dois bancos corridos, que serviam na hora das refeições.
Além desta “sala”, a casa tinha mais dois quartos. Num dormia o casal, com o filho mais novo, no outro, os quatro filhos mais velhos. Nos quartos, mantas de trapo, sobre enxergas de palha de centeio, serviam de cama, na hora de descansar o corpo. Manuel, o marido trabalhava no campo quando havia trabalho, e quando não batia as portas das redondezas à procura de ferro-velho que depois vendia na Feira Velha, uma feira mensal que se fazia em S. Pedro a cerca de 9 km que o Manuel fazia com o seu burrico que ele baptizou com o nome de Tem Dias. Isto porque segundo ele o burro tinha dias em que era obediente à voz do dono e outros em que empancava e não se mexia por mais que recebesse ordem em contrário. Naquele longínquo ano de 1927 Maria estava de novo grávida. Estávamos no início de Setembro, Manuel não tinha trabalho, e nada havia para comer naquela casa. E se o filho mais velho com 9 anos, já estava a "servir" em Lourosa e já não dava cuidados os outros 4 tinham fome.  Maria pensou que tinha que arranjar comida para os filhos. O marido só chegaria à noite e quem sabe se traria ou não alguma coisa para comerem.  Deitou o bebé numa canastra que pôs à cabeça, pegou no outro pequeno ao colo, e seguida dos outros dois foi em busca de comida. Batia à porta das casas mais abastadas e oferecia algum trabalho em troca de comida para as crianças. Não pedia esmola, tinha vergonha. Mas as pessoas tinham pena das crianças e sempre lhe davam alguma coisa. Naquele dia, numa dobra do caminho deparou com uma carteira. Era uma bela carteira de pele com iniciais gravadas a ouro. A tremer Maria abriu a carteira e viu umas quantas notas. Cada vez mais assustada tirou-as da carteira mirou-as e viu que era 1 nota de mil escudos, 2 notas de 500 escudos 1  de 100, 3 de 50, e 5 de 10.
Uma verdadeira fortuna. Ao metê-las de novo na carteira qualquer coisa caíu no chão e Maria viu que era uma fotografia. Reconheceu o homem. Um doutor de uma aldeia vizinha, homem rico e influente com negócios em Lisboa e Porto. Maria pegou na carteira e foi a casa do tal  doutor. Lá chegada, puxou o sino do portão da herdade e uma "criada"  - naquele tempo chamavam-se assim, veio à porta. Maria disse que tinha achado a carteira e vinha entregá-la. A criada pegou na carteira e foi para dentro. Maria ficou à espera que ela voltasse. Quem sabe lhe daria alguma comida para as crianças. Um palácio daqueles devia ter mesa farta. Porém o tempo foi passando e a criada não voltava. Impaciente e cansada com o peso dos filhos e da barriga, a mulher puxou de novo a sineta do portão. E então a "criada" voltou.
-Entregou a carteira ao seu patrão? Perguntou Maria
- Entreguei - respondeu ela
- E o que ele disse?
-Guardou-a e não disse nada.
-  Por favor diga que eu estou aqui, que tenho as crianças com fome, se me pode dar alguma coisa para elas comerem.
-Espere um pouco que eu vou dizer-lhe.
A mulher virou costas e voltou pouco depois com uma corda.  Com lágrimas nos olhos estendeu-a a Maria dizendo.
- Eu fui falar com o Sr. Dr. e ele disse que era para eu lhe trazer esta corda. E quando eu perguntei o que lhe ia dizer, ele mandou que se enforcasse, porque uma pessoa que tem os filhos com fome, encontra uma fortuna e vai entregá-la, não merece viver. Desculpe, dói-me tanto, mas foi o que ele me disse.
Maria engoli-o as lágrimas, pegou os miúdos e virou costas pensando: 
-Que raio de País é este, onde ser honesto merece pena de morte?


21.8.15

TENHAM JUÍZO, SENHORES


                                 foto de Giuseppe Lami



Ouvimos, nas notícias, a toda a hora
Na Grécia, ora há, ora não há acordo.
Na China desvaloriza-se a moeda,
E as bolsas caem em todo o mundo.
Em Angola, a crise do petróleo
Faz tremer a economia
Falam da guerra civil na Síria,
E das atrocidades jihadistas.
A par dos milhares de imigrantes
Que fogem para a Europa
Na busca de um futuro melhor
Tantas vezes sepultado, no fundo do mar.
Falam dos índices de mercado,
E das milionárias transferências
No mundo do futebol.
No Brasil, preparam-se os jogos olímpicos
Entre manifestações contra o governo.


Dizem que Jesus, mandou mensagens,
Aos rivais da Luz
Antes da final da Super Taça.
E que o Benfica vai processá-lo
Por quebra de contrato.
Falam que o desemprego desceu
E que o povo está agora a viver melhor.
Prova disso, os nascimentos aumentam.
E até fizeram uma lei, para proteger os idosos
(Que só entra em vigor depois das eleições)
Eles sabem, que um, em cada cinco eleitores
Está na faixa dos idosos.
E nós sabemos o que eles querem.



Mas contra todas as estatísticas
Nós continuamos sem trabalho.
As nossas crianças continuam com fome
A procurar as cantinas da escola
Para a única refeição do dia
Mesmo em tempo de férias.
Na rua, a fila, dos desabrigados da sorte
Engrossa todos os dias.
Faltam-nos escolas, e muitas das que temos
Precisam de urgente recuperação.
A saúde, é só para quem tem dinheiro.
Longe dos filhos emigrados
Os idosos morrem sozinhos
A barriga cheia de fome e solidão
Depois de uma vida inteira de trabalho
Para terem direito
A uma reforma de miséria.




E nos dizem todos os dias, que o país está melhor?
E que nos próximos 4 anos vai ser “muito melhor”?
Que precisamos acreditar e votar neles?
A nós que sofremos na carne, a realidade diária?



 Ora tenham juízo, senhores!




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