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31.7.14

ISABEL PARTE XXII


                                          Foto da net


No seu quarto no hotel, Miguel escrevia teclando rapidamente o computador. Acabara de ter uma ideia para um novo livro, e imediatamente tratara de registar as primeiras linhas, do primeiro capítulo. Parou ao perceber que descrevera a protagonista com as características físicas de Isabel. Fechou o portátil e foi até à janela. Depois de um rápido olhar para a rua,  atravessou o quarto a passos largos. Sentia vontade de sair. Afinal era Sexta-feira, noite de Verão. Miguel não era homem de reprimir os seus desejos. Nunca o fizera. Chegou à rua e olhou em volta. A noite estava quente, e a lua cheia, extremamente brilhante, derramava sobre a cidade toda a sua luminosidade. Se ele fosse romântico diria que estava uma noite para namorar. Mas não o era. Caminhou pela baixa em direcção à Praça do Comercio. Sempre gostara de ver o Tejo em noites assim. Desde o tempo em que ele era “o outro”. As memórias lutavam para vir à superfície e aos poucos foi deixando que elas ocupassem o seu espaço no presente.
Miguel era um jovem de 18 anos loucamente apaixonado por Odete. Eram vizinhos de bairro e conheciam-se desde meninos. Quando Miguel tinha 13 anos tomara coragem e pedira-lhe namoro. Odete dois anos mais velha e já uma mulherzinha linda aceitou. Ele ficara todo orgulhoso. E contara aos pais. O pai esboçara um sorriso e não disse nada. O pior foi a mãe. Primeiro não gostava da gaiata, que achava pretensiosa. Depois, ele era ainda um menino tinha que se dedicar aos estudos. Claro que ele tinha ficado irritado com a opinião da mãe. Na verdade aos 13 anos Miguel nada tinha de bonito. Era demasiado alto, e muito magro. A única coisa interessante nele, eram os seus olhos cinzentos que às vezes mais pareciam de prata e que se destacavam no rosto muito moreno
Decidiu mostrar à mãe que o namoro não o impediria de ser bom aluno e sempre passou com excelentes notas.
Acabado o liceu era necessário escolher a carreira, mas na altura ele não se sentia vocacionado para nada, e escolheu Direito como podia ter escolhido qualquer outra coisa. Tinha 18 anos, continuava demasiado alto e magro. E cada dia mais apaixonado. Odete já saíra da escola há muito. Na verdade não tinha grande vontade de estudar e abandonara antes mesmo de completar o 9º ano. Ele não vira mal nisso, afinal a vontade que ele tinha de estudar também não era grande, mas esse facto serviu para a mãe voltar à carga, pois o namoro já se prolongava e ela continuava a pensar que a moça não servia para o filho. Intuições de mãe, - respondia quando o filho lhe perguntava o que ela tinha contra a sua namorada. Estavam as coisas neste pé quando um dia ao chegar a casa da namorada não a encontrou, e a mãe dela lhe contou a chorar que a filha tinha fugido com o sobrinho do Henrique do talho, ela nem sabia para onde, pois não o dizia na carta que deixou de despedida.
Sentiu que o seu mundo ruía e teve vontade de morrer. Miguel tinha completado 19 anos, na semana anterior.
 Aos 19 anos um homem ainda tem uma visão muito romântica da vida. E afinal ele crescera a amar Odete e namoravam há mais de 5 anos. Fechou-se no quarto e chorou de frustração e raiva. E jurou a si mesmo que nunca mais ia confiar em mulher alguma. Nesse dia morreu o Miguel e nasceu o Nuno. Estava no 1º ano e como continuava sem grande interesse pelo curso, resolveu mudar. Optou por Literatura e Línguas. Aos 25 anos ingressou na Marinha já com o Curso terminado.

continua


28.7.14

ISABEL PARTE XXI


O telemóvel tocou. Isabel pousou o livro e atendeu. Era Amélia a reforçar o convite para irem ao tal bar. Isabel voltou a descartar qualquer hipótese de sair. Desligou e olhou para o relógio. Dez e vinte, era muito cedo para se deitar, mas a chamada fizera-a perder o interesse pela leitura. Que fazer? Olhou o portátil na mesinha de bambu e vidro junto ao sofá. Mas não lhe tocou. Na verdade navegava tanto por questões de trabalho que em casa muito raramente o abria. Aconchegou o robe ao corpo seminu e estendeu-se no sofá. Fechou os olhos e reviveu a cena dessa tarde. Quem seria aquele homem? Miguel. Ele dissera que se chamava Miguel. Bom pelo menos a partir de agora o desconhecido tinha nome. Mas isso mudava alguma coisa? Lembrou-se da mãe. Ela sempre dizia que cada um nasce com o seu destino traçado. Costumava dizer que não há coincidências. As coisas acontecem, para seguir a ordem natural, dos caminhos do destino de cada um. Ela não acreditava muito no destino. Sempre acreditou que o destino, é obra do que cada um faz na vida. Agora já não tinha tanta certeza disso. Ela não fizera nada para trazer para a sua vida aquele homem, nem os estranhos desejos que a assaltavam desde que o conhecera.
Será que a mãe tinha razão? Que ele estivera sempre no seu destino, à espera da hora certa para aparecer? E se assim era, que papel ia interpretar no teatro da sua vida? Seria um grande papel, ou era um figurante apenas? De súbito deu-se conta de algo muito estranho. Ultimamente quase não se recordava de Fernando. E quando o recordava tinha dificuldade em lembrar as suas feições. Que estranho poder tinha aquele homem para invadir assim a sua vida e a sua mente, e esvaziar a gaveta das memórias que ela guardou com esmerado cuidado durante quase 20 anos?
Parecia coisa saída da imaginação delirante de algum novelista. Isabel jamais acreditaria que situações assim acontecessem na vida real. E porquê haviam de lhe acontecer logo a ela? Que já tinha desistido de ter uma família e estruturara toda a sua vida, sobre recordações? E agora que fazer? Esperar que o destino ou lá o que era os juntasse de novo? Tentar esquecer e reconstruir a muralha atrás da qual vivera todos aqueles anos? E se voltassem a encontrar-se o que ela faria? Tentaria dar uma hipótese a si mesma com dizia Amélia, ou fugiria de novo? E mais importante que tudo. Quem lhe dizia que o homem não era comprometido? E ainda que o não fosse quem lhe dizia que se ia interessar por ela? Um homem como ele devia ser como uma flor à beira de uma colmeia.
Exausta acabou por adormecer ali mesmo no sofá.


Continua

O maridão foi operado esta tarde ao segundo olho. Segundo o médico a cirurgia correu bem, mas o antes e o depois foi complicado. Entrou para a cirurgia às 15,30, saiu às 19,35. Primeiro a pupila não dilatava o suficiente para iniciar a cirurgia, depois da cirurgia a pupila não contraia para poder vendar o olho, e por fim com o nervoso em que já estava teve uma subida grande dos diabetes.
Amanhã volta à clinica para tirar o penso e ver se está tudo bem.
Mas hoje está assim. Como podem ver o olho operado na Quinta-feira está ainda muito vermelho.






26.7.14

ISABEL PARTE XX


A campainha tocou e a senhora levantou-se rapidamente. O coração dizia-lhe que era o filho. Abriu a porta e uns braços fortes levantaram-na e rodopiaram com ela.
- Pára filho. Pões-me tonta.
- E como está a mulher mais linda do mundo? – Perguntou Miguel enquanto a punha de novo no chão
Parecia impossível que aquela mulher pequena e franzina fosse a mãe de Miguel.
- Há quase 15 dias que não apareces nem dás notícias, queixou-se a mulher. Tinha acabado de comentar com o teu pai, que afinal estares em Lisboa ou na Índia, para nós era a mesma coisa.
Entraram na sala e Miguel abraçou o homem que se levantara ao vê-lo entrar. Foi um abraço forte emocionado que fez os olhos da mulher encherem-se de água. Era sempre assim quando se encontravam. Os dois grandes amores da sua vida.
Miguel era fisicamente muito parecido com o pai. A mesma altura, embora o pai fosse mais magro. O desenho da boca e o queixo voluntarioso. Da mãe herdara os belos olhos cinzentos.
- Íamos jantar. Jantas connosco?
- Claro, mãe. Porque julgas que apareci a esta hora? - Riu.
- Não me apetecia jantar no hotel. E depois tenho novidades para vos dar.
- O casal trocou um olhar onde havia uma ténue esperança, mas nem um nem outro se atreveu a dizer nada.
- Fiz hoje a escritura da minha casa. Dentro de duas semanas deve estar pronta. Depois vão lá jantar comigo um dia.
  - Que bom filho. Fico tão contente. Estar num hotel é bom em férias. Mas para viver é muito frio, muito impessoal, - disse a senhora. E acrescentou: - Isso quer dizer que estás a pensar assentar?
- Se por assentar queres dizer passar uma temporada em Lisboa, talvez sim. Se te referes às ideias do costume digo-te já que não.
Dirigiram-se para a mesa. Foi um jantar animado. A senhora não se cansava de fazer perguntas, e quase não jantou, mais preocupada em olhar com enlevo o rebento, ainda que o frango de cabidela estivesse uma delícia.
Duas horas depois Miguel despedia-se, prometendo telefonar em breve e regressava ao hotel. Pelo caminho veio-lhe à memória o inesperado encontro dessa tarde, e de súbito deu-se conta de um facto que o inquietou. Tinha-se apresentado como Miguel. Miguel era o nome do outro. Daquele que ele fora muitos anos atrás. Um nome sagrado que só os pais usavam. Porque razão, se apresentara assim? E porque é que aquela mulher o inquietara, desde que a teve nos braços, naquela manhã de nevoeiro na praia? Não era uma jovenzinha. Era bonita sim, mas na sua vida errante tinha encontrado mulheres bem mais belas, que esquecera minutos depois. Não era casada. Além de não usar aliança, viu-a em várias ocasiões sempre só. O que seria que o atraía? Talvez fosse o seu olhar de gazela assustada. Há muito que não via um olhar assim. Mas podia ser falso. Nas mulheres tudo era falso.
Miguel era muito céptico em relação às mulheres. Costumava dizer duas coisas quando o assunto era mulheres. Primeiro, as mulheres não prestam. Traem os homens e pior ainda traem-se as si mesmas. Segundo, a excepção era a sua mãe, a única mulher no mundo que não desiludira o Criador. 


continua

A cirurgia do marido na 5ª Feira correu bem. Retirou o penso ontem, tem o olho muito sanguinolento, mas recuperou a visão que tinha perdido quase na totalidade do olho direito. 2ª Feira, vai ser operado ao esquerdo, espero que corra igualmente bem, penso que o pior foi a primeira, pois ele estava muito nervoso. E como tem outros problemas de saúde a coisa podia ser complicada. Agora  perdeu o medo, penso que será mais fácil. Espero que entre hoje e amanhã consiga pôr em dia as visitas aos vossos cantinhos.
BOM FIM DE SEMANA

24.7.14

ISABEL PARTE XIX


                                           foto da net

Isabel permaneceu nos correios durante um bom bocado. Depois de expedir as cartas, dirigiu-se aos expositores de livros, e fingindo escolher um, lá permaneceu por quase meia hora, e quem sabe não teria ficado mais tempo se entretanto não chegasse a hora do encerramento. Tinha medo de voltar a encontrar Miguel. Não se reconhecia. Ela que enfrentara com coragem a morte do marido daquela forma brutal. Que lutara pelos seus sonhos mesmo quando não dormia para cuidar dos pais. Que era feito daquela mulher forte, a quem a vida madrasta não assustava? Quem era aquela mulher que tremia feito criança assustada na presença de um quase desconhecido?
Entrou no prédio e dirigiu-se ao elevador
- Boa tarde menina, - saudou a porteira que se dirigia para a porta da rua com um balde e uma esfregona.
- Boa tarde D. Rosa. Desculpe não a tinha visto. E dizendo isto abriu a porta do elevador.
- Não faz mal menina. Tenha cuidado ao sair do elevador, o chão pode não estar seco ainda.
- Terei cuidado. Até logo e obrigada pelo aviso
- Até logo menina. Vá com Deus.
Isabel fez subir o elevador. Muitas vezes subia a escada. Afinal embora o prédio fosse de 10 andares ela vivia logo no 2º.
A conversa com a porteira tivera o condão de a desviar dos seus pensamentos e sentia-se agora mais calma.
Quando em 2007 ela fora morar para o prédio já a D. Rosa lá estava. Era uma mulher sozinha. O marido morrera há anos e o único filho que tivera emigrara para França. Queria fugir dum futuro sem esperanças. Lá casou e lá foi pai por duas vezes. A princípio vinha sempre a Portugal, todos os anos em Agosto. Depois os filhos começaram a crescer, foram para a escola, arranjaram amigos e foram-se desinteressando das férias em Portugal. Afinal lá é que era a sua terra e lá estava o seu futuro. Se a nora fosse portuguesa, decerto faria pressão para vir ver a família. Mas não era. Aos poucos as visitas foram rareando. A última vez que viu o filho e os netos foi no funeral do marido. Nessa altura o filho insistiu em levá-la, tinha lá boa vida comprara casa nova e até tinha um quartinho para a mãe. Mas ela não quis. Costumava dizer “Vivi aqui toda a vida, quero repousar aqui". E depois eles têm lá a sua vida os seus costumes e eu ia para lá servir de estorvo. São outras terras, outras modas."E burro velho não aprende línguas".Aqui, tenho a sorte de ter este trabalho, tenho a casa, não pago renda, os inquilinos são como amigos, tratam-me com carinho que mais hei-de querer?”
Um dia Isabel perguntou-lhe: - Mas não tem saudades deles?
-Ai menina, se tenho. É uma mágoa sem tamanho. Mas sabe a minha avó sempre dizia. Quando casamos uma filha, ganhamos um filho, quando casamos um filho perde-mo-lo.
- Nem sempre D. Rosa, nem sempre.
- Claro, menina há excepções. Mas do mesmo modo que uma filha puxa o marido para nós, a nora também puxa o marido para a família dela.
Isabel gostava dela. Talvez fosse a solidão das duas que as aproximava.
Tomou um duche rápido, envolveu-se num roupão de seda e dirigiu-se à cozinha.
Não lhe apetecia cozinhar. Procurou no frigorífico as sobras. Tinha um pouquinho de frango assado. Também um restinho de arroz branco. Meia alface, um pimento, e um tomate.
Na dispensa havia sempre uma latinha de milho. Decidida fez uma salada de frango.

Continua

Bom fim de semana.
Tenho andado a caminho de Lisboa, com o maridão que tem andado em exames médicos e que foi ontem operado a uma catarata. A cirurgia correu bem e segunda feira vai ser operado ao outro olho. O tempo para os blogues e visitas tem sido por isso mais curto. As minhas desculpas

22.7.14

ISABEL PARTE XVIII

                                               Foto da net

Miguel  ficou parado a olhar a jovem até que ela entrou no edifício. No fundo dos seus olhos incrivelmente cinzentos havia estranheza. Depois retomou o percurso apressando o passo. Acabara de sair do notário, onde fizera a escritura da sua nova casa. Há muito que Miguel não tinha uma casa, no sentido convencional do termo, muito embora os seus pais, estivessem sempre a dizer que a casa deles, era também a sua casa e que seriam muito felizes se fosse viver com eles. Mas ele era demasiado independente para isso. Vira na agência um apartamento que lhe agradara, era perto ali mesmo no quarteirão, e com o metropolitano quase à porta. Uma vantagem para quem não tinha carro nem pretendia comprar. Miguel tinha um autocaravana maravilhosa, que essa era a sua casa na vida de aventureiro que levava há anos. 
Abriu a porta do edifício e viu uma senhora idosa a regar as plantas que adornavam o átrio.
- Boa tarde – saudou
- Boa tarde, senhor – respondeu a mulher endireitando-se
- Sou o novo proprietário do 6º C. Suponho que a senhora seja a porteira. Esperava a visita do decorador às 5 horas e atrasei-me. Sabe se alguém me procurou?
- Não senhor. A mim não. Nem sabia que o andar já tinha novo proprietário.
- Obrigado. Vou então subir e aguardar. Até logo.
- Até logo. Se precisar de alguma coisa é só dizer.
- Amanhã vou tratar dos contratos de abertura da  água, gás e eletricidade. Depois falo consigo quando souber o dia que vêm, - disse abrindo a porta do elevador.
Mal entrara no apartamento, a campainha tocou. Era o decorador.
- Boa tarde. É o senhor Nuno Fraga? Eu sou Luís o decorador enviado pela agência que o senhor contratou.
- Boa tarde, respondeu. Entre. Vamos ver o apartamento.
Este era composto por um quarto grande com roupeiro e casa de banho, um mais pequeno só com roupeiro, uma grande sala com lareira, uma casa de banho no corredor e uma cozinha não muito grande mas bem equipada e com muita luz.
- E tem alguma ideia sobre a qual possamos trabalhar ou fica tudo por minha conta? – Perguntou Luís.
- Bom, eu sou sozinho. Pretendo um apartamento simples e confortável. O quarto mais pequeno será onde vou trabalhar a maior parte do tempo, portanto será um escritório. Tudo o resto deixo consigo. O que acontece é que tenho uma certa pressa.
- Bom. Se me deixar tirar agora as medidas, amanhã à tarde apresento-lhe os croquis. Se estiverem a seu gosto, discutiremos então os elementos decorativos, cores, tecidos, quadros.
- Muito bem. E depois disso quanto tempo mais?
- Bom se tudo ficar delineado amanhã, depois é rápido. Uma semana, no máximo duas, e fica pronto.
- Combinado. Passo então pela agência a que horas?
- Às 17.Pode ser?
- Claro. Lá estarei.
Luís acabara de anotar as medidas. Guardou a fita e os apontamentos na pasta. Dirigiu-se para a porta e estendeu a mão.
- Até amanhã senhor Fraga.
Até amanhã Luís, - disse apertando-lhe a mão.
Fechou a porta e dirigiu-se à janela. Que bela vista, com o Tejo lá ao fundo. Decididamente gostava do apartamento. Ocorreu-lhe que a mãe ia gostar do lugar. Sorriu. Gostava muito dos pais mas irritava-o a mania que a mãe tinha de que ele devia “arrumar-se”. Anos atrás de cada vez que ele voltava de uma viagem, todos os dias a mãe tinha um lanche com alguma amiga. Nada demais se essa amiga não se apresentasse sempre com uma filha casadoira a tiracolo. Isso fizera com que começasse a ficar num hotel e a visitar os pais sempre de surpresa. Claro que depressa a mãe percebeu e deixou de se armar em casamenteira.

continua
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