6.5.16

DESILUSÃO





DESILUSÃO 



Quando eu tinha vinte anos
Sonhava construir,
Um mundo melhor
com as minhas próprias mãos.

Queria acabar com a miséria
abraçar a Felicidade.

Queria acabar com a guerra
e abraçar a Paz.

Queria estrangular a hipocrisia
e abraçar a Verdade.

Quando eu tinha vinte anos
tinha o futuro cheio de sonhos
e de projectos.

Agora que tenho setenta
tenho as mãos estragadas
de tanta luta inglória.
Tenho os ombros curvados
do peso das desilusões.
Os olhos sem brilho
de tanta lágrima derramada.
E o futuro cheio 

de pesadelos
e interrogações.




5.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXIV




Enquanto a vida na seca continuava, agora com menos de metade do pessoal de outrora, já que a modernização do método de trabalho fazia com que não fossem necessárias tantas pessoas, o relógio do tempo não para, e em Portugal e no resto do mundo, ele como dizia o poeta, pula e avança. A segunda filha do Manuel pensa casar no próximo ano. Tanto ela como o namorado têm emprego estável nas respectivas empresas, a rapariga está quase a fazer vinte e cinco anos, e já está para lá da data padrão de casamento na época. O namorado é um pouco mais velho, já foi à tropa, e já fez uma comissão nos comandos em Timor. Porém quando crianças, as filhas tinham feito um pacto. Se um dia se casassem uma seria madrinha da outra. Por isso a mais nova fora madrinha da mais velha, e agora esperava que o cunhado terminasse a comissão em Angola, para casar e ter a irmã como madrinha.
Estávamos em Fevereiro, Spínola acabava de lançar o livro "Portugal e o Futuro"  e quase em simultâneo aparece o primeiro comunicado do Movimento dos Capitães, que defendia a democratização e a procura de uma solução política para a questão das colónias.
E como que a dar-lhes razão, agrava-se a situação na Guiné, primeiro com uma explosão a meio do mês no quartel-general de Bissau, e já quase no fim do mês, uma bomba em Bissau, faz um morto e 63 feridos. 
No dia 8 desse mês de Fevereiro, sai o primeiro comunicado do Movimento dos Capitães, defendendo a democratização, e a procura de uma solução política para o Ultramar.
O livro de Spínola, é oferecido por Costa Gomes a Silva Cunha, que por sua vez o dá a Marcelo Caetano. Este dirá ao acabar a sua leitura  "tinha compreendido que o golpe de Estado militar; cuja marcha eu pressentia há meses, era agora inevitável." 
No dia em que o livro é posto à venda, no jornal República lê-se na primeira página  "A vitória exclusivamente militar é Inviável" 
No dia seguinte o Expresso transcreve várias passagens do livro de Spínola. 




4.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXIII

              Cidade da Beira - Moçambique colonial

O novo ano começa com o regresso do filho do Manuel ao trabalho na CP, acabado que foi o tempo de tropa, integralmente cumprido no Ministério da Marinha.  Acabou-se para eles o medo de que a qualquer momento, o filho fosse mobilizado para a guerra no Ultramar, numa altura em que as coisas por lá pareciam estar cada vez pior, a julgar pelos recentes incidentes na Beira, em Moçambique, e pela retoma pela UNITA da luta armada no leste de Angola.
De Luanda, chegam notícias da filha. Diz que já está recuperada, que regressou ao trabalho, que cada dia gosta mais da cidade, e que não fora o marido ser militar, fixariam lá residência. 
"É doida -exclamou a mulher. Onde já se viu querer ficar a viver no fim do mundo. Ainda por cima numa terra em guerra"
-A guerra não chega à cidade, mulher.
-Ainda... resmungou a Gravelina
Enquanto isso o trabalho na seca prosseguia, com outra novidade. O transporte dos fardos de bacalhau seco, ia deixar de ser feito em fragata, pelo rio.  Passaria a ser feito por camioneta. Diga-se em abono da verdade que enquanto eram precisas 30 mulheres com um carrinho de mão para carregarem uma fragata em meio dia, já que tinham de ir com ele até à cabeça da ponte, e voltar, uma camioneta carregava-se em menos de uma hora, e eram precisas apenas duas pessoas na camioneta para arrumarem os fardos, pois a camioneta estacionava por baixo, do local onde os fardos estavam prontos para o embarque, no primeiro andar do edifício como já expliquei noutro capítulo.  Punha-se a tal tábua de escorrega, directamente na camioneta e era só deixar cair os sacos.  Mais rápido e sobretudo muito mais económico.
Entretanto Spínola é nomeado Vice-Chefe EMGFA, e poucos dias depois, reúne-se com Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Lourenço.
Oficialmente, discutem-se os recentes acontecimentos na Beira. Mas seria só isso? Faltavam exactamente noventa e quatro dias para o 25 de Abril.


Gente estive três dias fora. Por via disso, não houve visitas. Espero retomá-las hoje mesmo.
Amanhã já vos mostrarei algumas fotos das minhas andanças.

1.5.16

1º DE MAIO DE 2016

Porque é preciso  estarmos alerta e não adormecer nas muralhas, esta tarde o povo esteve de novo na rua. Eis aqui alguns momentos.





















DOIS EM UM COMO NO SUPER





Festeja-se hoje o dia da mãe. E o dia do trabalhador. Talvez a ordem não esteja correcta, já que o dia do trabalhador é dia primeiro de Maio e o dia da mãe, como festa móvel que é devia ser festejada como na grande maioria dos países, no segundo domingo de Maio para não coincidir nunca com o dia dos trabalhadores.  Vocês sabem, que apenas Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde, além da Espanha, Hungria e Lituânia, festejam o dia da mãe no primeiro domingo de Maio?  Então deixem-me falar primeiro do dia da mãe, já que antes de sermos trabalhadores, tivemos que nascer, e ainda não somos como os pintos que nascem às centenas nas chocadeiras. Não, não vou falar da origem do dia da mãe, que já todos conhecem, e se alguém não souber, o dr. Google conta-lhe como foi. Vou apenas desejar a todas as mães do mundo,  (e se não faço excepções, é porque as outras, aquelas que abandonam ou matam os filhos, não as considero como tal. São aberrações da natureza, a que me recuso chamar de mães.) um dia muito feliz junto dos seus filhos. E queria lembrar os filhos, que mãe é profissão sem reforma, que mãe se é desde o momento em que o médico diz à mulher que ela está grávida, até ao último suspiro da sua vida. Não o é apenas no Natal, ou no dia da mãe. E que não vale a pena gastarem muito dinheiro numa prenda toda xpto. Salvo raras excepções, o que a mãe deseja do seu filho, é um abraço, um beijo, um afago no rosto, um sorriso. Algumas se contentavam apenas em receber um telefonema, a perguntar se estão bem.
E não só hoje, mas sim todos os dias do ano.





                                      Foto do Google



E vamos então ao dia do trabalhador. De que também não vos vou contar a história que conheceis bem. Vou apenas desejar a todos os que são trabalhadores,  (e aos outros que tendo trabalhado a vida inteira, já não o são) um dia alegre e feliz.  E para todos vós, deixo um poema de que muito gosto.

PERGUNTAS DE UM OPERÁRIO LETRADO de BERTOLT BRECHT


Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis.
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstituiu? Em que casas
Da Lima dourada moravam os seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios.
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a Guerra dos Sete Anos.
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas.



Pois é isso aí. Os governantes ficam na história, mas quem a constrói são os governados.
Tenham um EXCELENTE dia.

29.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXII





No final de Agosto chegaram os novos carros, uma estrutura de madeira, sobre quatro rodas, com um cabo na frente. Por baixo desse cabo que servia para duas pessoas o puxarem ao longo das mesas, fosse a estender ou a apanhar o bacalhau, havia uma peça de engate que permitia que engatassem uns nos outros e no tractor. Assim podiam ser transportados vários ao mesmo tempo. 
Em Setembro ainda antes do regresso dos navios, e enquanto por cá, as Forças Armadas, andam muito activas, e cada vez mais decididas a acabar com a guerra colonial, no Chile, um golpe militar, chefiado por Augusto Pinochet, derruba o governo democrata de Salvador Allende, implantando um regime ditatorial que se irá manter longos anos. 
Foi com um sentimento misto de consternação e revolta que os portugueses tiveram conhecimento do golpe. Em Portugal, havia uma grande admiração por Allende, e muitos o viam como um exemplo para Portugal, apesar de não se atreverem a dizê-lo por medo da PIDE.
Em Novembro já com a Seca a funcionar, este ano com cerca de metade dos trabalhadores, o ti Abel trás uma carta da filha informando que demorou mais tempo a escrever, porque esteve internada, fez uma cirurgia à barriga para retirar um tumor, mas que não ficassem preocupados, era benigno. Está a recuperar bem e em breve vai regressar ao trabalho. A mãe, lembrando-se do que sofreu quando foi operada, ficou numa aflição.
Enquanto isso, o mundo estremece com a primeira crise do petróleo, nos E.U. o caso Watergate, está ao rubro, e em Portugal nova remodelação ministerial, coloca Baltazar Rebelo de Sousa (o pai do actual PR) como ministro do ultramar.
Dias depois, os militares reunidos em S. Pedro do Estoril, falam pela primeira vez no derrube militar do regime. E em Dezembro, surge o MOFA  Movimento de Oficiais das Forças Armadas, mais tarde apenas MFA, o Movimento liderado pelos Capitães de Abril. 

28.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXI



Por esses dias chega carta da filha, que entretanto já chegara a Luanda. Diz que a cidade é muito grande, muito bonita, e que está a viver na Samba, numa casa pequena, com um quintal onde tem um mamoeiro. Ele não faz ideia do que é um mamoeiro. Diz também que já fez amizade com a vizinha, que está grávida, e que tem um filho pequeno que passa grande parte do tempo em sua casa. Nada que lhe admire. A filha é doida por crianças, e ele está admirado de que ainda não lhe tenham dado um neto.
Com as notícias da filha, ficam mais sossegados, e a Gravelina pára de chorar.
 O Verão desse ano foi mais agitado que nunca. No inicio de Julho chegam à Seca as duas máquinas de lavar bacalhau. Eram as modernizações de que se falava desde o início do ano. Também em Julho, Marcelo Caetano, recém chegado de Londres, anuncia que vai por um travão ao processo de liberalização, acabando com alguns sonhos que a Primavera Marcelista, fizera nascer.
Em Agosto, a filha informa que mudou de casa e de bairro. Vive agora num 4º andar, no Bairro de S. Paulo, mesmo em frente da Missão com o mesmo nome. Também diz que já está a trabalhar, na secretaria do Colégio Cristo-Rei, dos Irmãos Maristas. Descreve a cidade com tanto entusiasmo que o Manuel quase a vê, apesar da filha ainda só ter mandado duas fotos. Diz que vai ser madrinha do bebé que a ex-vizinha teve, mas não fala de filhos, e Manuel começa a estranhar, essa omissão, de alguém que gosta tanto de crianças. Afinal já estão casados há quatro anos. Na última carta, a mulher perguntou quando é que ia ser avó, mas na resposta só o silêncio.
Enquanto isso, a outra filha anunciou que tinha começado a namorar. O rapaz, até já tinha ido lá a casa falar com ele. Era natural de Lisboa, tinha regressado no início do ano de Timor, onde estivera em comissão militar, e trabalhava numa empresa, na mesma rua onde a filha trabalhava em Lisboa.
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