9.11.09

MARIA - PARTE III




-Boa tarde – saudei ao reconhecê-la. Não me diga que veio ver o pôr-do-sol.

-Olá amiga – respondeu enquanto nos cumprimentávamos. Nem dei por isso. Estava aqui numa de recordar o passado.

- Às vezes recordar é viver. Veio sozinha? – Perguntei intrigada.

- Estou sozinha amiga. A minha vida deu uma volta que às vezes nem eu própria acredito. Vamos andando que lhe conto tudo. Na verdade tinha vontade de passar por sua casa. Mas receava incomodar, e por isso vim para aqui.

- Ora Maria, incomodar? Isso nem parece seu. Vamos embora. E janta connosco.

No silêncio que se seguiu dei-lhe o braço e encetámos a caminhada até minha casa. Eu aguardava que ela falasse. Há quanto tempo não a via? Oito, dez anos talvez. E admirava-me vê-la sozinha. E o marido? Porque não estava com ela?

- Estou divorciada.

Parei. Era surpreendente. Maria sempre tivera esse dom. Adivinhar os meus pensamentos. Quando criança, era uma espécie dum jogo, depois foi transformando-se num hábito. Quantas vezes pensei dizer-lhe alguma coisa, e ela me respondia antes que eu concretizasse a pergunta? Tantas que lhe perdi a conta. Era se para ela os meus pensamentos estivessem escritos na testa. O contrário Também acontecia por vezes. Mas era muito raro.

Naquele momento a minha surpresa era pelo teor da informação.

Conheci-a há quarenta anos atrás. Ela era uma menina e eu mulher feita e casada. Gostei dela assim que a vi, com aquele instinto maternal que nós mulheres temos e que nos faz olhar as crianças e pensar nelas como se fossem um pouco nossos filhos. Maria também se afeiçoou a mim e foi crescendo e alimentando a

Amizade que a unia a mim.

Maria não era uma mulher de grande beleza embora fosse considerada uma mulher bonita. Rondaria o metro e sessenta de altura, de corpo esbelto, rosto oval, olhos verdes rasgados e boca bem desenhada, que mostrava ao sorrir uma longa fileira de dentes alvos. Testa alta, cabelo curto e liso, escuro. O nariz, um pouco comprido, destoava e retirava grande parte da beleza do rosto.

Maria estava casada há quase 20 anos e ela e o marido formavam um dos casais mais apaixonados que eu conhecia. Por isso a sua informação me surpreendeu tanto. Caminhámos em silêncio, eu esperando a confidência, ela perdida nos tortuosos caminhos das duas recordações.

- Não sabe o quanto tenho sofrido. A minha vida desandou e eu fui caindo, caindo até bater no fundo. Agora estou tentando voltar a sentir gosto pela vida. Mas está difícil.

Chegámos a casa, onde o meu marido já me esperava para jantar. Também ele ficou surpreso com a presença da Maria, mas discreto não fez perguntas.

O jantar decorreu numa animação forçada. Maria esforçando-se por mostrar uma alegria que não tinha, e nós fingindo que acreditávamos. O serão decorreu sem qualquer confidência da sua parte, talvez por causa da presença do meu marido, e combinamos encontrar-nos no dia seguinte para ela “lavar a alma” palavras suas ditas baixinho enquanto me abraçava na despedida.

7.11.09

BOM FIM DE SEMANA

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Por favor não esqueçam desligar a música na sidebar para ver o filme.
BOM FIM DE SEMANA PARA TODOS.

2.11.09

O TERCEIRO FILHO - SEGUNDA FASE - PARTE VIII

Busto de Aristides de Sousa Mendes. Foto DAQUI



Quando depois dos Reis, os sogros do Manuel se foram, ficou mais um habitante no barracão. António um dos cunhados mais novos, um rapazote de 14 anos que desejava uma vida melhor do que os campos na terra. Começou a trabalhar na Seca dias depois. No barracão haviam agora 7 habitantes. O casal, os três filhos, o cunhado Luís de 12 anos que tomava conta das três crianças, e António. Mais gente a comer, mas também mais uma pessoa a trabalhar.

Dois dias depois a IBM, lança em Nova Iorque o primeiro computador de circuito integrado, um grande avanço para a época.

A 26 de Janeiro com a libertação do antigo dirigente comunista, Francisco Miguel, o antigo regime encerra o campo de concentração do Tarrafal, que viria a ser reaberto nos anos 60 agora para os defensores dos movimentos de libertação das ex-colónias.

O mês de Fevereiro começa com uma vaga de frio que assola toda a Europa. Portugal não escapa ao frio e a 2 de Fevereiro nevou durante várias horas em todo o país. Lisboa, foi surpreendida por um extenso manto branco, e até o Algarve foi invadido pela neve. Na Seca o pessoal ficou sem trabalho durante vários dias. A água congelou nos canos. No barracão o frio intenso entrava por todas as frestas da madeira, e as mantas de trapo não conseguiam aquecer os habitantes, que de dia se juntavam à roda do fogo e de noite se agrupavam nas camas para se aquecerem uns aos outros.

Em Março nasce em Lisboa Herman José, e a 3 de Abril morre em Lisboa, quase na miséria, Aristides de Sousa Mendes, o homem que salvou a vida a milhares de Judeus, durante a II Guerra Mundial.

Ainda em Abril, o mundo perde Auguste Lumiére um dos inventores do Cinematógrafo, que contrariamente ao seu irmão Louis tinha entretanto abandonado o cinema para se dedicar à medicina.

Também nesse mês acaba a safra do bacalhau. António arranja trabalho na Vacaria, e Manuel consegue enfim começar a realizar um dos seus maiores sonhos. Abrir um poço, que lhe permitisse ter água não só para a casa mas também para cultivar aquele terreno à volta do barracão. Começou por roçar um silvado, sob o qual acreditava passar um veio de água doce. Muitos se riram dele. Como queria água doce a 30 metros do rio? Mas ele lembrava-se de que lhe tinham ensinado na terra a usar a vara bifurcada, e ela dizia-lhe que ali havia água. Depois fez dois moldes redondos de madeira, um com menos 8 cm de diâmetro que o outro. Untou com sebo, o maior por dentro e o mais pequeno por fora. Meteu um dentro do outro e encheu o espaço entre os dois com uma liga de cimento água e areia.

Quando o cimento secou, pôs no chão. Tinha 1m de altura e 1,5m de diâmetro. Meteu-se dentro dele e começou a cavar e a encher baldes de terra que a mulher e os cunhados se revezavam para vazar noutro sítio. Manuel ia cavando, e a borda de cimento que formava o poço, ia descendo acompanhando o buraco. Quando a parte de cima ficou ao nível do chão, Manuel parou de cavar e fez novo anel de cimento.

Entretanto montou um tripé com uma roldana, e uma corda para puxar os baldes de terra. Pronto este, Manuel colocou-o em cima do primeiro, ligou-o com cimento, saltou para dentro do poço e recomeçou a cavar. Claro que este trabalho era feito à tarde, depois do dia de trabalho, e sobretudo ao fim de semana. Este processo foi repetido meticulosamente. A 4 metros começou a aparecer água. Mas ainda continuou a cavar mais metro e meio. Este último pedaço foi o mais difícil e trabalhoso, já que era necessário tirar não só a terra que ele ia cavando, mas também a água que ia enchendo o poço, para que pudesse continuar cavando. Foi montada uma nova roldana, e o cunhado foi também para dentro do poço. E ia escoando a água num balde e a terra no outro.

Tão embrenhado estava no seu trabalho que só teve conhecimento do assassinato de Catarina Eufémia, pela GNR quase 8 dias depois.

Em Julho, precisamente no dia em que a Alemanha Ocidental ganhou o campeonato de mundo de futebol, Manuel deu o poço por terminado, e tinha enfim água à porta para beber e para poder semear algumas coisas que lhe permitissem dar à família uma melhor alimentação.

Ainda nesse mês Portugal perde os enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli na Índia.

A 24 de Agosto Getúlio Vargas, o presidente do Brasil, suicida-se para não ceder à pressão das forças armadas que exigem a sua demissão.

E enquanto a vida na Seca recomeçava com a chegada dos navios, “ O velho e o mar” de Hemingway é um tremendo sucesso, que lhe dá o Nobel da Literatura.

Em Novembro Nasser assume a presidência do Egipto, a Frente de libertação d Argélia começa a sua longa luta pela independência contra a França, e em Nice Henry Matisse, um dos mais altos expoentes do impressionismo despede-se da vida.

E o ano termina a estreia do filme “20 Mil Léguas Submarinas nos E. U. que viria a ser um tremendo êxito de bilheteira.

30.10.09

BOM FIM DE SEMANA

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UM BOM FIM DE SEMANA PARA TODOS

26.10.09

NOVO LIVRO DE VIEIRA CALADO





A NOSSA CASA

A nossa casa é um lugar ao vento, mas buscamos
o absoluto, a bárbara verdade duma onda sobre a praia.

Tudo nos pertence porque guardamos na memória
os restos do apego às coisas que tivemos, os gestos
de gratidão que vimos no coração dos dias violentos.

Esta época não é a nossa. Subverte os conceitos
do ânimo, os desígnios legítimos de plenitude.

Mas por isso ainda somos a centelha que arde devagar
na paisagem estreita de árvores estóicas, em momentos
de tempestade, na consciência das opções sublevadas.

do livro Transparências de Vieira Calado


Biografia

José Vieira Calado nasceu em Lagos, em 1938. Estudou em Lagos, Portimão, Faro e Lisboa. Em 1961 publicou o seu primeiro livro de poesia e, no ano seguinte, “Os Sinais da Terra”, que viria a ser proibido pela censura (Pide). Esse episódio esteve na origem da sua partida para os Pirinéus. Primeiro para Londres e depois para Paris, onde frequentou a Universidade de Vincennes. A seguir ao 25 de Abril, tendo completado o curso, voltou a Portugal, para o ensino oficial e publicou “Poema para Hoje”, que ficou na gaveta durante anos.
Residindo actualmente na cidade que o viu nascer, Vieira Calado tem variada colaboração em jornais e revistas, páginas literárias, prefácios e antologias. Apaixonado pela Astronomia, tem actualmente uma página de Astronomia no "Jornal de Lagos, além das muitas palestras em que tem participado.
No Domínio da poesia, o autor tem já muitos livros publicados. O autor possui três blogues que pode visitar AQUI, AQUI, e AQUI.

Poesia

* “37 Poemas” l 1961 - esgotado
* “Os Sinais da Terra” l 1962. Capa de Jorge Norvick - esg.
* “Poema para Hoje” l 1977 - esg.
* “Objecto Experimental” l 1978. Capa e ilustrações de Hugo Baja - esg.
* “A Palavra em Duas” l 1983. Capa de Deda - esg.
* “0 Frio dos Dias” l 1986 - esg.
* ”Como um Relógio de Areia” l 1993. Capa de Deda - Edições M.i.c.
* “Transparências” l 2000. Edição AJEA (Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve). Prefácio do Prof. Vilhena Mesquita. Capa de Deda.
* “Lagos Ontem” l 2000. Edição da Câmara Municipal de Lagos - esg.
* “Poemas Primeiros” (Reedição dos livros de 61 e 62) l 2001 - Edição AJEA
* “Por detrás das Palavras” / 2002. Capa de Adrienne Apers. Ed. Mic.
* “ Terrachã” / 2004 - Edição AJEA
* “ Poemetos” / 2004 - fora do mercado
* “ Poemas Soltos & Dispersos” / 2005 - esgotado.
* " Arabescos" / 2007 (edição Litoral)
* " Viagem através da Luz " / 2009 (edições Papiro)


Prosa

“Merdock” l 2003. 2ª edição 2004. Edição AJEA
“Estórias de Lagos & Arredores” l 2007. Edição C. M. de Lagos


Antologias, colectivos e outros

* “Antologia Anti-Floral” l 1980. Ed. Barlavento.
* Costa d’ Oiro - Cadernos de Poesia, Lagos - vários
* “Poemas de e sobre o Natal” - Viola Delta XXVI, Edições Mic l 1998
* Letras para música, de vários autores
* “Cem Anos de Garcia Lorca”l 1999. Edição Universitária
* ”Poemas Satíricos e Outros” - Viola Delta XXXIII (Bodas de Prata). Ed Mic / 2002
* “Poetânea”l 2003. Edição Hugin
* Escritores Portugueses do Algarve”l 2006. Edição Colibri
* “5 Poetas de Lagos”l 2006. Edição Grupo dos Amigos de Lagos


Divulgação Científica:
“A Terra e as Estrelas” - 2006, ed. Jornal Notícias de Lagos


Biografia elaborada a partir de informações na internet

24.10.09

BOM FIM DE SEMANA

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PARA TODOS OS AMIGOS QUE POR AQUI PASSAREM UM ESPECTÁCULO DE RARA BELEZA, E OS MEUS VOTOS DE QUE TENHAM UM EXCELENTE FIM-DE-SEMANA.

(Para ver o filme, não esqueçam desligar a musica do blogue)

18.10.09

MARIA - PARTE II

Foto minha, da Quinta do Xavier, o pinhal ao fundo, e lá em baixo o rio, com o pôr-do-sol reflectido


A Surpresa

A praia fica uns dois metros abaixo do nível da Quinta. Daí que as águas do rio nunca viessem até às oliveiras mesmo nas marés vivas de Agosto, ou quando estava mau tempo no Inverno. O mesmo não se passa do outro lado da azinhaga onde começa a Seca que ali naquele sítio está ao nível do rio. Mais lá à frente já assim não é e o arame farpado dá lugar a uma parede de cimento que nós chamávamos muralha.

Atravessei a azinhaga e mergulhei os pés na faixa de areia, agora bem pequena, e transportada para lá por camiões da Câmara, já que a areia original da praia, desapareceu toda com o empurrar do rio para o lado de cá pelos aterros da Siderurgia Nacional. Fui caminhando lentamente. As águas de tão calmas pareciam artificiais. O sol estava prestes a desaparecer no horizonte e deixava nelas um rasto avermelhado, como uma estrada de fogo.


Sentei-me na areia entre dois tufos de junco, e perdi-me nas minhas recordações. Lembrei-me daquela vez em que saí de casa para apanhar amoras naquelas silvas do outro lado da cerca, e fiquei presa nelas sem conseguir desenvencilhar-me dos picos que me prenderam a saia. Não me recordo que idade tinha, mas era muito pequenina. Chorei tanto com medo que ninguém me encontrasse. E os meus pais aflitos percorrendo a margem do rio pensando que eu teria ido para lá e quem sabe estaria afogada.

“Vi” o meu irmão, brincando sozinho com a areia, abrindo poços e fazendo construções, e a minha irmã escondendo-se com medo dos GNR, que vinham de vez em quando a cavalo até à Seca, onde se reuniam com a Guarda Fiscal, cujo posto ficava no topo norte da malta das mulheres. “Vi” o grande barracão lá bem no cantinho, encostado à cerca, e o portão que aí havia e que a minha mãe abria todas as manhãs para o pessoal que vinha do Barreiro a pé pela Caldeira do Alemão para trabalhar na Seca. Quando passava a última pessoa, a minha mãe fechava o portão e ia com ela para o trabalho na Seca. À noite saía um pouco mais cedo e vinha na frente para abrir o portão.

Lembrei do quintal enorme que meu pai cultivava, do feijão verde, que nós comíamos cru sempre que alguma vagem nos chamava a atenção, ou quando tínhamos fome e os pais ainda não tinham vindo do trabalho, os tomates as cenouras, e até as cebolas que comíamos com um pouco de sal.

“Vi” o meu pai encostando a escada de madeira ao barracão, subir ao telhado e colocar lá a bandeira do seu clube, naquele ano em que o Porto foi campeão na década de 50.

O sol desaparecera no horizonte, o dia aprestava-se para dar lugar à noite, e decidi regressar a casa.

Ao chegar à Quinta quedei-me surpreendida. Na minha frente levantava-se a mulher que me intrigara uma hora antes. E era afinal uma velha conhecida…



(Continua)

UMA BOA SEMANA PARA TODOS