24.2.15

MARIA PAULA - PARTE V


              Esplanada do Baleizão. A foto é da net, desconheço o autor.

Maria Paula deu o primeiro desgosto aos pais quando completou o liceu e declarou que não ia estudar mais. Ela adorava os pais, não era tão idealista como o pai, nem tão terra a terra como a mãe, mas tinha ideias bem definidas do que queria para o futuro, e elas não passavam pela entrada na Universidade. Assim rebateu um por um todos os argumentos paternos e acabou levando a sua avante.
Começou a procurar emprego e em breve estava empregada na secretaria do Colégio Cristo-Rei, dos Irmãos Maristas.
Convém aqui dizer que conseguiu o emprego por mérito próprio, e não por interferência paterna, pois sabendo que o director era amigo do pai, não só escondeu dele o seu apelido paterno até ter obtido o emprego, como não disse nada ao pai que ia lá à entrevista para obter emprego.
Já atrás disse que Maria Paula era muito bonita. Mas era mais do que bonita. Era inteligente, simpática e afável com toda a gente.
Tinha herdade da mãe o requebro tão gracioso das mulatas, e da avó a graciosidade e exotismo, o que contribuía para torna-la tão especial. Além disso os olhos verdes na pele morena era só por si motivo suficiente para atrair o olhar de quem com ela se cruzava.
Estranho que sendo como era Maria Paula não tivesse namorado, apesar de estar quase a completar vinte anos.
Em 73 Luanda era uma cidade cosmopolita, onde não se pensava em guerra.  Os meios de informação não eram como hoje e o sistema fazia por mostrar ao mundo uma cidade pacífica e feliz onde tudo era normal, e a maioria da população portuguesa. Para isso contribuíram em muito, as mulheres dos militares de carreira, estacionados em Luanda, a quem o governo pagava as passagens para que estivessem com os maridos, não por eles, mas para espelhar a imagem de paz que o governo queria dar. Claro que também havia jovens militares solteiros. Muitos. Era só dar uma volta pela baixa, ou ir ao Baleizão tomar um café, para ver a esplanada cheia deles. Mas a maioria desses jovens seguiam para campanhas longínquas, onde a guerrilha fervilhava. 
Em Luanda ficavam os comandos gerais, o tribunal militar, os oficiais, e os militares necessários para darem assistência nesses postos.
No Colégio Cristo-Rei, onde Maria Paula se empregara as crianças eram na sua grande maioria filhos de altas patentes militares, que desejavam que os seus filhos fizessem uma boa instrução primária, que lhes permitisse ao completar a 4ª Classe, entrar para o Colégio Militar em Lisboa.



Continua


20.2.15

MARIA PAULA - IV



Maria Paula veria a luz do dia pela primeira vez antes da década de 50 ter chegado a meio. A sua chegada deveria vir completar a felicidade dos pais, não fora a agitação que se fazia sentir em Angola, e que trazia os seus progenitores bem preocupados. Tudo tinha começado com o final da guerra na Europa. A princípio era quase imperceptível, mas aos poucos foi-se tornando mais evidente que havia movimentos africanos desejando a independência e preparando-se para lutar por ela. Na verdade o jovem casal também gostaria que Angola se tornasse um país independente, mas ambos sabiam que a tão desejada independência não chegaria de mão-beijada. Paulo tinha bem presente a experiência do que a guerra podia fazer, pelo que tinha vivido em Timor. E embora soubesse que a guerra em Angola nunca estaria ao nível de uma guerra mundial, também sabia que uma guerra de guerrilhas, podia ser igualmente mortal para a maior parte da população completamente indefesa. Quase todos os meses chegavam a Luanda, contingentes de militares, que depois eram enviados para vários locais, especialmente para os pontos chave junto das fronteiras, pois os Movimentos de Libertação, estavam sediados em países limítrofes. 
 Desde cedo se notou que Maria Paula ia ser uma mulher muito bonita. Bastante morena, de cabelo negro e olhos verdes, como o pai e o avô. Inteligente e voluntariosa. Na escola destacava-se pela rápida aprendizagem. Nas brincadeiras era um tanto Maria-rapaz, e não raras vezes se impunha mesmo ao irmão, que tinha um feitio bem mais dócil.
Quando em Fevereiro de 61, a cadeia de Luanda foi assaltada, num ataque em que morreram sete polícias, reivindicado pelo Movimento Popular de Libertação de Angola, ficou bem evidente que a guerra tinha começado, embora a maioria da população da cidade, pouco informada, acreditasse na teoria do Continente, que se tinha tratado de um ataque terrorista. Quando Pedro completou o liceu, o pai decidiu enviá-lo para Coimbra. Tinha na cidade, vários amigos do tempo em que lá estudou e sabia que eles olhariam pelo filho enquanto ele estivesse na Universidade. Maria Paula sentiu a ausência do irmão, mas logo fez por esquecer a saudade e aplicou-se ainda mais nos estudos.




Continua

17.2.15

MARIA PAULA - Parte III

A actual Igreja de S. Paulo  que foi inaugurada em 1959, começou a ser erigida em 1948, pelos frades Capuchinhos, que substituíram as Irmãs de S. José de Cluny , que desde 1935 dirigiam a Missão de S. Paulo, onde existia, não uma Igreja, mas a capela de que falo no conto.  Actualmente  a Paróquia, é dirigida pelos Salesianos de Dom Bosco.







Durante a Segunda Grande Guerra, Paulo alistou-se como voluntário. Em consequência disso, foi incorporado numa companhia de tropas portuguesas com destino a Moçambique. Poucos meses depois em Fevereiro de 42, o Japão invade Timor Leste, e a companhia que tinha sido mandada para Moçambique, recebeu ordens para seguir para Timor Leste.  Tempos duros, com muitos milhares de civis mortos e outros tantos estropiados, que deixaram os médicos em serviço, extenuados. Desmobilizado após o fim da guerra, Paulo encontrou ao regressar ao seu posto no Hospital de S. Paulo, uma jovem pediatra de quem se enamorou. Luena, era uma bela e altiva mulata, que se dizia descender em linha directa da lendária rainha Ginga.
Paulo teve a sorte de ser correspondido nos seus sentimentos e em Dezembro de 47, os jovens trocavam votos de matrimónio, na pequena capela da Missão de S. Paulo, perante Deus e com a bênção do pároco, Cónego Manuel das Neves.
Três anos mais tarde, nasceu o primeiro filho do casal. Um menino a quem puseram o nome de Pedro em homenagem ao avô, que viria a falecer num acidente dois meses mais tarde. Um desgosto para ensombrar a felicidade do jovem casal. Paulo e Luena, continuavam a exercer a profissão no hospital, e nas horas vagas, num pequeno ambulatório existente no bairro da Samba, local onde foram residir após o casamento.


Continua



Gente feliz não dá enredo para contos, mas este vai continuar, porque Maria Paula, a heroína da história, ainda não nasceu.


11.2.15

MARIA PAULA - PARTE II

                                 
Paulo regressou a Angola, levando na mala, o diploma e um grande sonho. Levar o seu saber às populações mais carentes dos musseques do interior. Mas ao chegar teve a desagradável surpresa de encontrar a mãe muito doente. Na verdade depois das complicações pós parto, Alisha nunca mais fora a mesma. Apesar do grande amor que a unia ao marido, sentia saudades dos seus. Em Luanda tudo era tão diferente da sua Índia, e das tradições em que fora criada. A ausência do filho, e as saudades do seu menino, acabaram minando a sua já frágil saúde. E assim foi definhando lentamente, para grande desespero do marido que se via impotente para travar o inevitável. Peter, andara com a mulher de médico em médico, sempre na esperança da cura que não chegava. Chegara a cogitar a ideia de a levar para a Europa. Lá a medicina estava muito mais avançada. Mas Alisha não queria viajar. Ela queria morrer ali, na casa onde sempre viveram e onde sempre se sentira amada. Dias depois do regresso do filho, Alisha morreu serenamente enquanto dormia. Peter quase enlouqueceu de dor. De tal modo que o filho chegou a temer que ele tentasse o suicídio. Aos poucos porém Peter foi acalmando, mas nunca mais foi o mesmo homem.
Paulo era um idealista, nunca pensara ter um consultório particular onde só iriam as pessoas que pudessem pagar. Ele continuava a sonhar exercer a sua profissão para os mais pobres, mas naquele momento sentiu que tinha de adiar o sonho de levar a medicina aos musseques. Não queria afastar-se muito do pai. Tentou e conseguiu entrar para o Hospital na cidade.
Um ano mais tarde, totalmente integrado na rotina hospitalar, Paulo começava a sentir que era a hora de fazer alguma coisa mais. Numa conversa com o director da Cáritas, soube que a referida organização, tinha montado um pequeno consultório no musseque Cazenga, nos arredores da cidade, mas precisavam de  um médico, com espírito de voluntariado, que pudesse deslocar-se lá uma ou duas vezes por semana, a fim de cuidar daquela gente que não tinha meios de ir até ao hospital na cidade.
Era exactamente o que Paulo precisava, para concretizar o seu sonho.




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