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20.8.14

ISABEL - PARTE XXX





Passavam cinco minutos das nove, quando a campainha da porta tocou. Pensando ser a porteira, Isabel abriu a porta e deparou com Miguel. Tentou fechar a porta mas o homem apressou-se a colocar o pé entre esta e o batente impedindo-o.
- Desculpa Isabel mas vou entrar. Preciso falar contigo. Depois de me escutares, se entenderes que devo sair, prometo que o faço.
Ela não respondeu. Estava espantada. Como é que ele sabia a sua morada? E se ela não lhe abriu a porta da rua como é que a porteira o deixou subir sem ao menos avisá-la? Ele entrou e fechou a porta atrás de si.
- Vem. Já vais entender tudo, - disse como se tivesse lido os seus pensamentos.
Tremente Isabel dirigiu-se à sala seguida por ele.
 - Senta-te Isabel. A conversa vai ser longa. Mas antes deixa que te dê o livro que deixaste lá esta tarde. Tem uma dedicatória especial.
Estendeu-lhe o livro, que ela pousou sobre a mesinha. Estava pálida e os olhos apresentavam sinais evidentes de choro.
- Lê Isabel. A conversa vai ser mais fácil depois.
Ela abriu o livro e leu:
“Para a mulher da minha vida. Miguel” E logo por baixo “Com muito amor. Nuno Miguel Teixeira Fraga”
Olhou-o espantada.
- Esse é o meu nome completo. Quando eu era menino, e porque o meu pai se chama Nuno, toda a gente me chamava de Miguel. Usei esse nome até aos 19 anos. Depois…
 Miguel falou de Odete, da sua traição e do que esse facto influenciara a sua vida daí prá frente. Falou da sua vida de aventureiro, dos muitos anos vividos no estrangeiro, da sua auto caravana, do seu trabalho de jornalista independente até há bem pouco tempo, do êxito do primeiro livro, da decisão de se dedicar só à sua carreira de escritor, do desejo dos pais em vê-lo de volta ao País.
Isabel quase não se atrevia a respirar. Percebia que o homem estava desnudando a sua alma para ela, e isso era tão grandioso, tão emocionante, que todas as suas dúvidas se dissiparam.
- Quando cheguei, e antes de iniciar a minha nova vida, decidi ir uns dias de férias. Nem sei porque escolhi Lagos, - continuou Miguel. Naquele dia, por causa do nevoeiro não me apetecia ir à praia, mas sentia-me atraído para lá como se alguma coisa me puxasse. Quando me cruzei contigo fiquei intrigado. Mas quando tropeçaste e te segurei nos braços, não sei o que me aconteceu, que nunca mais deixei de pensar em ti. Depois, começaram a acontecer muitas coisas estranhas. Passei a encontrar-te em diversas ocasiões. Por vezes nem sequer me vias, mas eu sim. Quando naquele dia chocámos na esquina da rua, e te disse que me chamava Miguel, o meu subconsciente já tinha entendido aquilo que eu só entendi bem mais tarde. Porque hoje eu sou Nuno para toda a gente, excepto para duas pessoas a quem muito amo. Meus pais, para quem continuo a ser o Miguel.
As lágrimas rolavam silenciosas pelas faces de Isabel.
- Na altura nem me apercebi disso, mas hoje vejo que nesse momento já estava a dar-te um lugar muito especial na minha vida. Ontem, quando saí do metro, vi-te entrar neste prédio. Espantado, bati à porta da porteira. Acreditas que eu moro no 6º C deste mesmo prédio?
- Não é possível!
- É. E nem imaginas, a minha luta ontem, para não descer e vir ter contigo. Mas eu tinha um plano e queria cumpri-lo. Tinhas aceitado ir almoçar comigo no Domingo. Sabes onde ia levar-te? A casa dos meus pais. E lá, com eles por testemunha, e pedir-te para partilhares a minha vida, oferecendo-te em troca o meu amor.
Levantou-se.
- Oh! Miguel, e eu que pensei tão mal de ti. Perdoa-me.
Ele estendeu-lhe a mão e puxou-a para si. Apertou-a de encontro ao peito, segurou-lhe o queixo, e com a urgência de quem se buscou por toda a eternidade aprisionou a sua boca num beijo intenso e apaixonado.


 FIM



E a pergunta final é: Gostaram?   Oxalá tenham gostado.

19.8.14

ISABEL PARTE XXIX


Quando os três chegaram ao hotel ,onde ia decorrer o lançamento de “Vidas cruzadas”, o segundo livro de Nuno Fraga, já o evento tinha começado. Na verdade, Afonso esquecera os convites, tiveram que voltar atrás e por isso estavam atrasados. O local estava apinhado. Muita gente conhecida, gente da rádio e TV. Também muitos jornalistas e fotógrafos. Todos queriam conhecer o escritor da moda. Este encontrava-se sentado numa secretária onde autografava os livros que lhe iam apresentando. Ao lado outra mesa repleta de livros. Também havia várias mesas com doces e salgados bem como água e outras bebidas. As duas amigas compraram, o livro e dirigiram-se à mesa do autor para recolher o seu autógrafo. Quando Isabel finalmente conseguiu vê-lo, empalideceu, deixou cair o livro, e sem se preocupar em apanhá-lo dirigiu-se para a porta de saída deixando a amiga espantada. Miguel também a viu. Fechou os punhos e apertou-os com raiva. Desejou largar tudo e segui-la, mas sabia que não podia fazê-lo. Pelos seus leitores que aguardavam pacientes a sua atenção, mas também por ela. Bastava que a chamasse para atrair sobre ela a curiosidade dos jornalistas ali presentes. Continuou pois a sessão enquanto Amélia e Afonso se dirigiam para o carro onde Isabel já os esperava.
- Que aconteceu Isabel? – Perguntou-lhe a amiga. Estás a tremer.
- O Miguel, - murmurou
- O Miguel? – Admirou-se. Mas o que é que tem o Miguel?
- É ele.
- Ele quem, mulher? O escritor?
Acenou com a cabeça, os olhos marejados de lágrimas.
Virando-se para o companheiro Amélia disse:
- Afonso por favor volta para lá. Nós vamos tomar qualquer coisa ali na pastelaria em frente e já lá vamos ter.
- Não se preocupem. Eu vou. Afinal de contas ainda não tenho o autógrafo do autor.
Quando ficaram sós, Amélia disse.
- Não fiques assim. Deve haver uma explicação.
- Claro que há. Servi de cobaia ao escritor da moda. Quem sabe até devia sentir-me honrada, - disse com amargura.
 - Como tu sofres Isabel. Sabia que estavas apaixonada, mas não pensei que fosse um sentimento tão intenso.
-Como é que eu ia adivinhar? Se nunca tinha visto nenhuma fotografia dele? E depois parecia tão sincero, era tão convincente, que pelas suas palavras fui alimentando sonhos e sentimentos. Só mentiras. Estou destroçada. Por favor Amélia, leva-me a casa. Quero ficar sozinha.
- Claro. Vou ligar ao Afonso. Levo-te a casa e volto depois. Quero ver melhor esse homem.
Mas quando meia hora depois voltou, Afonso já se encontrava cá fora com o livro autografado, e não teve ensejo de rever o escritor.

continua


E agora? Será que a história vai levar mais uma volta? O que vos parece?

Agradeço a todos os que me desejaram boa sorte. Boa sorte para mim será continuar com este homem que Deus pôs no meu caminho até ao meu último suspiro.




16.8.14

BRANCA E RADIANTE VAI A NOIVA


16 de Agosto. Corriam os anos 60. A década de Paz e Amor. Curiosamente tal como hoje era um sábado. Manhãzinha chuviscou. Eu estava nervosa. Minha tia sentenciou. Boda molhada, boda abençoada. Depois o sol apareceu. Radioso. Quem não aparecia era a madrinha do noivo, que contrariamente ao combinado foi direta para o local da cerimonia. Não sei se alguém já sonhava com telemóveis, mas vinha longe a data da sua invenção. E eu cada vez mais nervosa.Minha tia voltou a sentenciar. "Ó mulher não te preocupes. Na certa foi ter com o irmão. E se lá não estiver, não deixa de haver casamento por isso. Eu mesmo faço de madrinha"
E ela tinha razão. Afinal correu tudo bem

14.8.14

ISABEL PARTE XXVIII






No dia seguinte Isabel aproveitou uma pausa para convidar Amélia a beber um café. Estava ansiosa por contar à amiga o encontro do dia anterior e não queria fazê-lo na frente de Luísa.
Quando acabou Amélia disse:
-Mas que progresso Isabel. Nem dá para acreditar. Mas como sabia ele o teu nome? Donde é que te conhecia?
- Ah! Desculpa, esqueci de te contar. Pouco antes de ir à Alemanha encontrei-o aqui mesmo no quarteirão. Melhor dizendo esbarrámos um no outro e apresentamo-nos. Com o convite do Hans e a viagem não cheguei a contar-te. O que é que achas?
- O que eu acho é que estás perdidinha por ele e deves lutar por esse amor. Já é tempo de enterrares o passado e seres feliz. Fico tão contente por ti.
- E se ele não se interessa por mim?
- Ó mulher não sejas tonta. Então se não estivesse interessado tinha forçado o jantar de ontem?
- Sim, mas eu não quero ser uma aventura na vida de ninguém.
- Isso, Isabel, só depende de ti. Até pode ser que seja essa a intenção dele. Cabe-te a ti fazê-lo mudar de ideias. Não percebo a tua insegurança. És uma mulher muito bonita, inteligente, culta, com uma excelente carreira profissional. O que é que um homem pode querer mais?
Esta conversa animou Isabel, e no resto do dia o trabalho progrediu e não se falou mais no assunto.
Nessa mesma noite às nove e meia Miguel telefonou. Perguntou onde estava, como estava, como tinha sido o seu dia, enfim nada de especial. Telefonema de amigo.
No dia seguinte à mesma hora voltou a ligar, mas desta vez disse-lhe que tinha saudades dela. Na quinta-feira convidou-a para almoçar com ele no próximo Domingo. Os telefonemas eram cada dia mais íntimos. Nunca falaram de amor. No entanto os dois sabiam que ele estava presente em cada frase, em cada sussurro. Mal anoitecia, Isabel aguardava com ansiedade o telefonema.
Miguel por sua vez procurou os pais, e desabafou com eles. Falou-lhes de Isabel, de como se tinham conhecido, da inquietação que ela lhe causava, e das vezes que se surpreendia a pensar nela.
Quando acabou o pai disse:
- Se fosse no meu tempo dir-se-ia que encontraste a tua meia laranja.
E a mãe acrescentou:
-Até que enfim, filho. Deve ser uma santa para fazer o milagre de te reconciliar com o amor. Gostaríamos muito de conhecê-la.
 Prometeu que iriam lá almoçar no Domingo.  
Na Sexta-feira teve uma enorme surpresa. Ao sair do metro viu Isabel entrar no prédio onde ele morava. Ficou perplexo. O que é que ela ia fazer ali? De repente lembrou do encontro ali mesmo ao voltar a esquina. Será que estavam a morar no mesmo prédio? Não podia ser. Era absurdo demais.
Entrou no edifício e tocou a campainha da porteira.
- Boa noite D. Rosa. Preciso da sua ajuda. Disseram-me hoje, que uma amiga minha morava neste mesmo prédio. Uma senhora de nome Isabel Mendes. Será verdade?
- Boa noite Sr. Nuno. Mora uma menina no 2º D com esse nome sim. Quer que  lhe dê algum recado?
- Não, por favor. Um dia destes faço-lhe uma surpresa. Muito obrigado
Entrou no elevador. Sentiu vontade de sair no segundo e bater-lhe à porta. Mas conteve-se e seguiu para o seu andar.
Que coisa. Como é que ele tinha ido morar precisamente para aquele prédio? Ele que era escritor, nunca se lembraria de escrever uma história tão absurda.  Não podia ser coincidência. Alguém lá em cima os queria juntos. Devia ser por isso, que ele se apaixonara por ela naquela manhã de nevoeiro. Nunca acreditara em histórias de amor à primeira vista. Sempre pensara que isso era fruto da imaginação delirante de certos romancistas. Mas então que sentimento era aquele que o envolveu quando a segurou tremente em seus braços? Que destruiu todas as suas convicções e defesas em relação às mulheres? E que cada dia se tornava mais forte ao ponto de desejar passar o resto da vida a seu lado? Estava decidido. No dia seguinte seria o lançamento do seu livro e no Domingo levá-la-ia a casa dos pais. E depois… bem depois, iriam viver uma grande história de amor. Não era isso que o destino queria?
Pensar que ela estava ali tão perto desconcentrava-o. Nessa noite não conseguiu acrescentar uma só linha à novela, mas o telefonema foi mais íntimo que nunca.

continua

12.8.14

ISABEL PARTE XXVII

Perturbada levou alguns segundos para reagir. Algo dentro dela lhe dizia que não podia nem devia fugir.
- Boa tarde Miguel. Não esperava encontrá-lo aqui.
“Caramba não te ocorre nada mais original?”- pensou sem saber se devia ou não estender-lhe a mão.
Ele sorriu. Um sorriso que iluminava o seu rosto dando-lhe um ar mais jovial.
- Com os encontros que a vida nos tem proporcionado, eu já não me admiro se a encontrar à mesa do pequeno-almoço.
A alusão era inconveniente pensou Isabel corando.
- Desculpe Miguel, vou comprar umas coisas para o jantar. Outro dia falamos, -disse tentando sair dali o mais depressa possível.
- Não precisa, - disse rápido. Vai jantar comigo. E não me diga que não, será um jantar de amigos, aqui mesmo num destes restaurantes.
- Não pode ser. Mal nos conhecemos…
- Então? Mais uma razão. Vamos conhecer-nos agora.
 Baixou a cabeça e murmurou quase ao seu ouvido.
- Não tenha medo. Não sou nenhum papão. E depois estamos num lugar público, cheio de gente.
Hesitou. No fundo Isabel desejava aceitar. Mas por outro lado aquele homem mexia demasiado com ela, e isso dava-lhe medo.
Miguel era demasiado vivido para não perceber a hesitação de Isabel. Suavemente pousou a sua mão no ombro dela.
- Venha. Prometo que a deixo seguir em paz mal termine o jantar.
Sentir o calor da mão masculina na sua pele quase fazia Isabel perder o controlo. Afastou-se rapidamente.
- Sendo assim vamos lá jantar.
Ele colocou-se a seu lado mas não voltou a tocar-lhe. Percebera perfeitamente a reação dela e de novo se mostrava perplexo.
Porque é que aquela mulher era tão diferente de todas as que conhecera até ali? Lembrou-se de uma conversa que tivera com a mãe há muito tempo. A mãe dizia-lhe, que ele não podia tratar todas as mulheres da mesma maneira. Havia milhares de mulheres abnegadas e amorosas, incapazes de qualquer espécie de traição. Claro que ele soltara uma gargalhada de incredulidade.  
O jantar decorreu animado. O coração foi-se aquietando e aos poucos Isabel foi-se soltando e a conversa decorreu com  naturalidade. Descobriram que tinham muitos gostos em comum. Nos filmes, na literatura, nos pratos. A certa altura ele propôs:
- Vamos tratar-nos por tu? Parece estranho continuar com o você…
- Que até já nem se usa, - disse ela rindo.
- Agora tenho que ir, - disse Isabel algum tempo depois do jantar.
- Não me ofereço para te levar, porque não tenho carro. Como já te disse estou na cidade há pouco tempo e ainda não comprei.
- Eu estou com carro. Queres que te deixe nalgum lado?
- Não. Vou caminhar um pouco. Olha o meu número do telemóvel. Dás-me o teu?
Ela abriu a mala e tirou um cartão
- Toma.
Ao pegar no cartão, puxou-a para si e abraçou-a. Sentiu-a tão tremente que a soltou sem se atrever a beijá-la.
Ela entrou rápida no carro e arrancou. Ele ficou ali largos minutos fazendo dançar o cartão entre os dedos. Depois iniciou o caminho de regresso à sua nova casa pensando completamente desconcertado.
"Que raio de sentimento é este que me inibe e me deixa trémulo como um adolescente?"
Em casa Isabel revivia os acontecimentos dessa noite e chegava à conclusão que tinha falado imenso de si, da sua vida pessoal e profissional, enquanto Miguel se limitara a ouvir e pouco falara.
De uma coisa tinha a certeza. Estava irremediavelmente apaixonada por aquele homem. Como nunca estivera em toda a sua vida. Já não era uma menina. A vida é como brisa de verão em fim de tarde. Passa rápida e poucos dão por ela. Um dia destes acordava velha. Estava decidida. Se houvesse uma hipótese de ganhar o amor de Miguel, ela lutaria por ele.

Continua

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