16.12.14

UMA DESCOBERTA DE NATAL


Presépio da S. C. da Misericórdia do Barreiro.  Foto minha.




Quando eu era menina (e já lá vão tantos anos) o Natal era uma festa. Meus pais, e meus avós diziam que na noite de Natal o Menino Jesus vinha recompensar os meninos bons e   trazer presentes. Nós vivíamos num barracão de madeira que em tempos fora habitado por 4 casais e respetivos filhos, mas no qual ficaram apenas os meus pais, quando os outros casais se foram. O barracão tinha um salão com 11 metros ao fundo do qual havia um fogão, constituído por duas fileiras de tijolos com uma grelha em cima, e um forno de tijolo onde minha mãe cozia o pão. Pelo Natal todos os anos vinham meus avós do Norte e se juntavam lá em casa com alguns dos filhos, – meus tios. Era uma ceia de muita gente, de muita alegria, embora as iguarias fossem poucas. Meus avós sempre traziam um pouco de queijo, minha mãe fazia rabanadas, e minha tia Celeste as filhoses. Alguns anos a tia Carolina fazia uma travessa de aletria, que tinha de ser muito bem dividida, para que todos pudessem provar.  Não havia rádio, nem TV, nem sequer luz eléctrica. Mas havia em casa 3 candeeiros a petróleo, que na noite de Natal ficavam acesos até depois da meia-noite. Muito antes do Natal, meu pai colhia no pinhal perto da nossa casa, muitas pinhas, que secava abria e debulhava. Partia alguns pinhões para comermos e os outros eram para jogarmos. Ele mesmo fazia uma piorra com o Rapa, Tira, Põe e Deixa. Ou então jogávamos ao "Pinhas alhas" que era assim. Cada um tinha 50 pinhões para começar o jogo. Pegávamos uns quantos na mão fechada, e dizíamos para os parceiros "Pinhas alhas" e o outro respondia "abre a mão e dá-lhas". "Sobre quantas?" E saía um número. Se fosse a quantidade que tínhamos na mão, tínhamos que dar os nossos pinhões. Mas se errassem, então tinham  que nos dar tantos pinhões quantos tinham nas mãos. E era o nosso entretém.
Pelas 10 horas, tios e primos regressavam às suas casas, e meu pai dizia que tínhamos de ir para a cama. Antes porém tínhamos que pôr os tamancos de madeira que ele mesmo fazia, e que eram o nosso calçado, junto ao fogão para o Menino Jesus deixar os presentes. Sapatos só tínhamos um par, e era para a ida à missa, ou ao médico. E nós lá deixávamos os tamanquitos e íamos para a cama na esperança, de que nesse ano o menino Jesus,deixasse uns brinquedos iguais aos dos filhos do capitão, que geria a Seca do Bacalhau, onde os meus pais trabalhavam e nós vivíamos. Não sei se foi assim convosco, mas eu nunca ouvi falar no Pai Natal, senão no final dos anos 60, em Lourenço Marques, atual Maputo. Talvez pela proximidade com a África do Sul, lá se cultivava muito o mito do Pai Natal. Por cá, na minha infância era o Menino Jesus que em vez de receber prendas no seu aniversário,vinha distribuí-las pelos meninos que se portaram bem durante o ano. Porém todos os anos no dia de Natal, era sempre uma desilusão, pois em vez dos brinquedos esperados, só havia meia dúzia de rebuçados e dois ou três figos secos.
Lembro-me que um ano, talvez por volta dos meus seis anos, uma vez que ainda não andava na escola, decidi esperar acordada a chegada do Menino Jesus para lhe perguntar porque é que deixava lindos brinquedos aos filhos do capitão, que eram meninos ricos, a quem não faltava nada e a nós que éramos tão pobres, que não tínhamos sequer um boneco, só deixava rebuçados. Consegui manter-me acordada e quando ouvi barulho, levantei-me e apanhei a minha mãe a pôr os rebuçados nos tamancos. Fiquei muito revoltada, pensei que o Menino Jesus não queria saber de nós e chorei tanto que a  minha avó que para me acalmar, me explicou que o Menino Jesus não vinha dar prendas a ninguém,  que era uma tradição dizerem isso porque fazia anos que Ele nascera, mas que na verdade as prendas eram dadas pelos pais e os meus não tinham dinheiro que desse para outra coisa que não os rebuçados. Foi um choque e um alívio ao mesmo tempo.





A todos os que durante este ano me acompanharam, eu desejo um Santo Natal. Muita saúde e muito amor à vossa volta.

13.12.14

PASSEIO DE ESTUDO À CASA FERNANDO PESSOA


 Começo por vos pedir desculpa pela ausência desta semana, que foi um bocado complicada, pois foi a semana de encerramento de aulas antes do Natal e houve imensas atividades, e à noite estava cansada e sem vontade de ler e comentar blogues. Retomo as visitas hoje mesmo, e espero a vossa compreensão.
Assim sendo, eis aqui o registo fotográfico de um passeio de estudo realizado na quinta feira.
 Antes da entrada na Casa em Campo de Ourique
 A entrada para a Casa
 Como sabem Fernando Pessoa se interessou por muitas coisas. Entre elas a astrologia. Eis a sua carta astral.
.Esta arca foi encontrada depois da sua morte cheia de escritos inéditos. Hoje ela contém os escritos rejeitados pelo poeta, encontrados amachucados em cestos de papéis.
 O quarto onde o poeta viveu os últimos 15 anos da sua vida. Sobre a cama o seu chapéu
 Um dos seus fatos e os sapatos
 A sua máquina de escrever
 Alguns dos seus objetos pessoais, entre os quais, os óculos
 O seu retrato 
 Escadas de acesso ao piso superior onde se encontra o sonhatório
 Colegas de estudo subindo as escadas. Por todo o lado imagens e mensagens do poeta
 O seu bilhete de identidade
 O poeta adorava ler e gostava de escrever nos livros as suas impressões.
 O sonhatório. Neste espaço, de computadores, com simples toque de dedos pode ter acesso à vida do poeta, aos seus sonhos e ao seu amor por Ofélia. 
Aqui um curioso gráfico elaborado pelo poeta, sobre as linhas de elétrico que passavam passavam pela casa de Ofélia, e o tempo demorado no percurso.
 Isto porque ele namorava no metro, e  Ofélia tinha hora marcada de chegar a casa depois do trabalho, e nos anos vinte os pais eram muito rigorosos com as filhas. Conhecendo o trajeto mais longo e horários,  eles podiam ficar um pouquinho mais de tempo juntos, antes de apanharem o elétrico, e depois Ofélia desculpava-se que se tinha enganado no elétrico
e tinha apanhado um dos mais demorados


Bom fim de semana

4.12.14

CANSAÇO



                        Aldeia semi abandonada  de Anta. 




  CANSAÇO



Estou cansada
dos homens que adormecem ao sol
como lagartos.
Estou cansada dos ideais esquecidos
condenados sem nenhum recurso
nas mentes abarrotadas de ambição
dos líderes políticos.

Estou cansada
das aldeias semi abandonadas
regadas
pelas lágrimas ardentes
de idosos que vivem e morrem

em completa solidão.
Estou cansada de crianças sem pai
que não sabem rir
porque ainda não têm pão.

Estou cansada
das filas de desempregados
que tornam caricato o pensamento
dum sol que nasce igual para todos.
Estou cansada
das mulheres que não têm noites de amor
desaparecidos os seus homens
no mar da emigração.

Estou cansada
dos operários submergidos no desespero
dos salários em atraso
que nem sabem se chegarão
Estou cansada
dos idosos que sobrevivem à fome
de reformas vergonhosas
que nem chegam a meio do mês.

Estou cansada
das promessas das campanhas eleitorais
e das promessas a longo prazo, dos governos eleitos.
(Tão a longo prazo que morrem antes de nascer)
Estou cansada desta hipocrisia
que corre em linhas de incerteza
nos lábios dos homens sem tempo
nem idade.



Maria Elvira Carvalho.


UM BOM FIM DE SEMANA

29.11.14

ESCUTA




ESCUTA


Escuta
O murmúrio do rio
 De pedra em pedra.
 Não te parece
 Alguém
 Chorando?


Talvez seja
 O choro dorido
 das pobres mães
 A quem
 Falta a comida
 Para matar a fome
 Aos filhos.

Ou quem sabe o lamento
 Do pobre velho
 Abandonado
 Num corredor de hospital
 O corpo doente
 A alma sem forças
 Para lutar.

Ou ainda
O desespero dos jovens,
 Que dia após dia,
 Rompem solas
 E energias
 Na busca de emprego
 Engolindo a raiva
 Contra aqueles
 Que lhes roubam
 O direito ao futuro.


Escuta
 O murmúrio do rio
 De pedra em pedra
 Não te parece
 Alguém
 Chorando?


elvira carvalho
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