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19.9.14

HELENA



                                                 Foto DAQUI



A mulher que caminha apressada pelo parque da cidade, já não é jovem, mas é ainda muito bonita. Morena, de estatura média, como a maioria das mulheres portuguesas, tem uns grandes e belos olhos negros, um rosto oval perfeito, emoldurado por uma farta cabeleira negra.
Helena foi na sua juventude uma mulher muito bonita, mas nem por isso teve uma vida fácil.
Quando ela nasceu ia o século XX a meio, era a segunda filha de um casal pobre que iria ter mais sete filhos depois dela. Os primeiros anos, foram vividos com mais sonhos que comida, coisa comum naquela época entre grande parte da população. Por companheiros de brinquedos, tinha não só os irmãos, como as outras crianças do pátio, e até os primos que viviam perto. Tudo crianças que não sabiam o que era uma boneca, ou uma bicicleta.  Às vezes quando o Bernardino, caseiro da quinta matava o porco, tratava a bexiga do mesmo, e a enchia de ar para dar aos miúdos do pátio. Era uma alegria para os rapazitos. Para as meninas não havia brinquedos. Elas eram instruídas logo de pequeninas para lavarem a loiça, fazer as camas, varrer a casa e cuidar dos irmãos mais novos. As mães trabalhavam ali perto na Seca do Bacalhau. Um trabalho duro que as fazia andar sempre cansadas para tudo, até para pegar num filho ao colo, ou dar-lhes um beijo.
Quando Helena fez a 4ª classe, foi "servir" para a casa do senhor doutor que ia uma vez por semana examinar o pessoal à Seca. Ele já tinha uma cozinheira, e uma criada para a casa, mas precisava de alguém que a ajudasse já que tinha 3 filhos e a criada levava o tempo a queixar-se que não conseguia sozinha tratar da casa e das crianças. E a esposa não tinha paciência para as crianças. Tinha as suas amigas, as visitas à igreja e os chás com as amigas. Aí levou até aos 18 anos como "criada de servir" interna. Dormia e comia em casa dos patrões, e o que ganhava ia quase por inteiro para ajudar a criar os irmãos mais novos.
Num domingo de folga encontrou uma antiga amiga, vizinha do mesmo pátio, onde ambas nasceram. Um pouco mais velha, ela tinha casado e o marido encontrava-se numa comissão no Ultramar. No meio da conversa a amiga disse-lhe que um colega do marido queria uma madrinha de guerra, e a convidou para isso. Helena aceitou e em breve se correspondia com o rapaz que até já lhe mandara a foto e era um belo moço.
Uns meses mais tarde, o rapaz pediu-lhe namoro, prometendo-lhe que se casariam logo que ele regressasse.
Helena estava farta da vida que levava. Alguém que lhe prometia uma vida diferente era tudo o que ela pedira a Deus.  Aceitou o namoro, e mentalmente preparou-se para o casamento e para a vida que ela sonhava.
Quando o rapaz chegou, foi falar com os pais dela, obteve autorização para o casamento e começaram a tratar dos papéis. Arranjaram uma casinha, um anexo num prédio perto da casa dos pais.
Não era o que ela tinha sonhado, mas ele estava na tropa, ela deixara a casa do senhor doutor e ficava a promessa de mudarem para uma casa melhor logo que fosse possível.
O rapaz não tinha família fora criado com uma tia que também não podia ajudar.
Pouco antes do casamento, Helena recebeu a visita da antiga vizinha, que acompanhada do marido lhe fez algumas advertências, dizendo-lhe que o jovem com quem ela ia casar não era bem aquilo que ela pensava, e que deveria conhecê-lo melhor, não fosse sofrer algum desgosto.  Ela porém estava demasiado iludida com a “lábia” do rapaz e não acreditou em nenhum dos avisos.
Casaram-se em Setembro de 69.


Continua


17.9.14

GRAÇA


                                    Foto DAQUI
Passou por mim. Ia a chorar e nem me viu. Estranhei. Conhecemo-nos desde sempre e sempre nos falamos com a cordialidade duma amizade cimentada nos anos. Interpelei-a:
- O que aconteceu Graça?
-Foi o meu filho, -respondeu num soluço.
Peguei-lhe no braço e perguntei:
- Queres falar?
Ela não respondeu. Mas eu percebi que sim.
-Vem comigo. Vamos tomar um café.
Enquanto nos dirigíamos ao café, recordei desde quando conhecia Maria da Graça. Desde que me lembrava, sempre a conhecera. Somos mais ou menos da mesma idade. Nos anos cinquenta os pais dela vinham todos os Invernos trabalhar para a Seca do Bacalhau. Era um trabalho sazonal, mas vinha muita gente do norte do país, para trabalhar na safra. Chegavam nos últimos dias de Setembro, quando os barcos bacalhoeiros regressavam da Terra Nova e da Gronelândia, e partiam em fins de Março, quando os navios voltavam para a pesca. Maria da Graça vinha com os pais. E brincava comigo e com as outras crianças cujos pais trabalhavam na Seca. Todos os anos era a mesma coisa até que fez os 14 anos. Depois já vinha para trabalhar.
A Graça -eu sempre a chamei assim -nunca foi uma moça muito bonita. Mas era uma jovem vistosa. Alta, forte, bem proporcionada, mas com um rosto um tanto rude e uma voz demasiado forte, o que lhe dava um ar um tanto ou quanto masculino. Boa moça, boa amiga, não tinha muita sorte com os namorados. Talvez que eles se assustassem com ela. Os homens gostam de mulheres de aspecto frágil, porque isso os faz sentir mais fortes, e lhes dá a oportunidade de se armarem em protetores. Com a Graça, isso era impossível. Com 1,78m de altura e 72Kg de peso, assustava a maioria dos rapazes casadoiros.
Tinha dezanove anos quando conheceu Armindo. Armindo era um bom rapaz, trabalhador, e ainda mais rude que ela. Tinha começado ainda menino no monte a guardar gado e não sabia uma letra do tamanho dum comboio como costumava dizer. Mas encantou-se com ela e daí ao casório, lá na igreja da aldeia, foi só o tempo de correrem os "papéis". Até porque ele já tinha ido às "sortes" e estava prestes a começar o serviço militar.
Pouco mais de um ano de casado, morria numa emboscada em Cabinda, enquanto a mulher segurava uma gravidez de sete meses, apesar do desgosto.
Quando o filho nasceu, Graça voltou à vida anterior. A vir fazer a safra do Bacalhau, até porque agora precisava criar o filho, e  se a vida era muito difícil naquela época, por cá, lá na aldeia ainda era pior. Pouco tempo depois da morte do marido, Graça perdeu a mãe, e dois anos mais tarde o pai também se foi. Nessa altura ela decidiu que não ia mais lá para a aldeia. Quando o Bacalhau acabasse havia de arranjar uma casa ou duas para trabalhar a dias. Queria que o filho fosse à escola e estudasse. E se bem o pensou, logo o pôs em prática no fim da safra.
Começou por ajudar no trabalho do campo, numa das quintas da Seca, e assim conseguiu ficar a morar com os caseiros, e não pagar renda. Trabalhava na Seca do Bacalhau desde que os navios chegavam até que voltavam a abalar, e depois na quinta, até que voltavam a chegar. Assim foi ficando  por aqui, e criando o filho que mandou para a escola logo que fez sete anos.
Tinha o filho dez anos, quando se juntou com aquele que ela diz ter sido o homem da sua vida. Fernando era um vizinho que conhecia há muito. Casado, pai de dois filhos, bom marido, bom pai. Graça admirava-o pelas qualidades que todos lhe reconheciam. Um dia porém, a mulher de Fernando enrabichou-se, por um mariola, com pinta de artista e lábia de bom malandro. E de tal forma se apaixonou que desapareceu com ele deixando para trás o marido e os dois filhos. Com pena do vizinho, Graça, começou a tratar-lhe da casa e dos filhos. Mas a pena e a admiração que sentia depressa se transformaram num sentimento muito mais forte. Como Fernando era casado e naquela altura não havia divórcio, juntaram os trapinhos como se costuma dizer. E formaram uma nova família, mas Graça não conseguiu ter mais filhos. Anos mais tarde, depois da revolução de Abril, a mulher de Fernando apareceu a pedir o divórcio, e os filhos.
então ela pôde realizar o sonho de voltar a casar, embora apenas no registo. Mas nessa altura já Maria da Graça tinha um novo e mais grave problema na sua vida. O filho com 18 anos tinha-se ligado a uns amigos esquisitos, abandonara os estudos, não trabalhava, cada vez que saía, voltava estranho, agressivo e depois levava a dormir um dia ou dois seguidos. Droga, começaram a murmurar as vizinhas. O rapaz metia-se na droga. E a mãe levava os dias a chorar, e à noite mostrava um sorriso forçado ao marido, para não o apoquentar. Uma noite, estava ela na cozinha a "fazer horas" a ver se o filho chegava, quando o marido gritou por ela do quarto. O grito da morte, pois quando ela chegou ao quarto estava caído, meio atravessado na cama, como se tivesse tentado levantar-se e não conseguisse. E morto. Maria da Graça, nem queria acreditar. Nem deu pela chegada do delegado de saúde, nem pela ambulância que lhe levou o marido para autópsia. Era como se o espírito se tivesse ausentado do corpo.
Mais tarde soube que tinha sido um ataque cardíaco fulminante. Maria da Graça nunca mais foi a mesma mulher. Mudou de casa, perdeu a alegria, tornou-se uma mulher seca, amarga. Pouca gente sabe que se chama Maria da Graça. Toda a gente a conhece por Maria.
Chegamos ao café e sentando-nos numa mesa mais afastada. Perguntei-lhe então o que se passava.
- Tu sabes -respondeu-me, que o meu filho é um drogado. Ninguém sabe o que eu tenho sofrido com ele. Por causa da droga roubava-me todo o dinheiro, batia-me, levou-me as coisas de valor de casa e vendeu tudo. Para sobreviver fiz de tudo, até cheguei a ir aos contentores do lixo em busca de comida. Depois arranjei cartões de jogo para vender. Ele ficava-me com a pensão e com o dinheiro que eu ganhava a lavar escadas. E eu ia-me governando com o dinheiro dos cartões. Até ao dia que ele descobriu. E levou-me o dinheiro que eu tinha com a ameaça de que me ia denunciar à polícia por vender jogo clandestino. Desisti. Por medo dele, um dia, mudei a fechadura da porta.  Quando chegou fez um escarcéu para entrar e eu fingi que não estava em casa. A ver se ele se ia embora. E sabes o que ele fez? Deitou-se no chão e ali ficou caladinho.
Quando passado largo tempo abri a porta para ir ao pão, ele agarrou-me as pernas e com um puxão forte fez-me cair. E depois bateu-me. Eu gritei, gritei e os vizinhos chamaram a polícia. Ele foi preso e da esquadra, meteram-no numa casa de recuperação. Esteve lá um ano. Chegou anteontem. Pousou as coisas em casa, saiu e chegou tarde da noite, drogado. Está a dormir há quase dois dias e eu tremo de pensar que ele vai acordar a qualquer momento.
Que Deus me perdoe, mas penso que era uma sorte se ele morresse.
Olhou para mim e disse:
- Ficaste escandalizada? Achas que sou um monstro?
Sem palavras que servissem de consolo, apertei-lhe o braço e abanei negativamente a cabeça.




Maria Elvira Carvalho


14.9.14

LUÍSA




O som estridente duma campainha sobressaltou a jovem arrancando-as das suas recordações. Pousou a caneta sobre o mapa que tinha na sua frente, levantou-se, alisou a bata branca e depois de um breve olhar ao quadro, onde uma luz assinalava o quarto 9 dirigiu-se para lá.
Uma mulher precocemente envelhecida debatia-se na cama com imaginários inimigos, gritando e puxando a ligadura que a prendia à cama, para que na sua loucura não se magoasse.
Luísa tentou acalmar a mulher enquanto a fazia engolir um calmante. Movimentou a cama para deixar a doente mais confortável, e ajeitou-lhe a almofada. Aos poucos a mulher acalmou e Luísa voltou para a sala das enfermeiras.
O relógio aproximava-se das 3 da madrugada, a colega de turno, dormitava, e o hospital mergulhara de novo no silêncio.
Luísa passou a mão pela testa inquieta. E deixou que aflorassem à memória as recordações que a atormentavam.
 João fora o seu primeiro e único amor. Começaram a namorar nos bancos da escola, e cresceu a sonhar com aquele casamento. Sempre pensara que ele a amava do mesmo jeito. A química entre os dois era perfeita, a paixão muito grande, e quando assim é perde-se a noção do perigo, esquecem-se precauções, e um dia, Luísa teve a desagradável surpresa de se saber grávida. Foi um choque. Não que ela não quisesse ser mãe. Esse era um dos sonhos da sua vida. Mas não agora. Um filho vinha estragar todos os seus planos atuais, mas nem por isso pensou uma única vez que fosse, em livrar-se da criança. Mas João reagiu de modo diferente do que ela esperava. Ele não queria a criança, e insistia para que ela fizesse um aborto. Recordou a última discussão na tarde do dia anterior.
“-  Mas Luísa, não podemos ter um filho nesta altura, minha querida. Não podemos casar já. Acabei o curso agora. Nem sequer tenho trabalho. E tu acabaste de conseguir emprego. Ainda estás no período experimental. Se descobrem que vais ter um filho, são capazes de te despedir…
- Um filho que é teu, não esqueças. E porque é que não podemos casar já? Não podemos comprar tudo o que precisamos? De acordo. Compramos o indispensável.
-Mas Luísa, nós somos tão novos. Um filho em princípio de vida vai ser uma prisão. Ouve o que te digo...
- Não João, não me venhas com propostas imorais. Não somos tão jovens que não tenhamos idade para tomar a responsabilidade dos nossos atos.
- Pensa bem, Luísa…
- Não, não e não. Não há o que pensar. Já te disse que não posso nem quero fazer o que me pedes. Se não queres o teu filho, vai-te embora de vez. Eu arrostarei com as consequências da minha leviandade. Mas não me digas mais nada. O meu filho não pediu para nascer, mas tem esse direito.” 
Luísa saíra batendo a porta da casa, onde sonhara viver um dia, com a certeza de que estava acabado um capítulo da sua vida. Mas essa era a única certeza, porque de resto tudo em si eram dúvidas.
  Se João a amava porque reagira assim quando ela descobrira que estava grávida? Porque lhe queria impor um aborto que ela não desejava? 
Como poderia João ser um ser tão imaturo e egoísta? E como é que ela nunca se apercebera disso? Sentia-se perdida. Ela nunca desejara aquela gravidez. Não sabia mesmo como fora possível pois sempre tomava a pilula. Mas alguma coisa anulara o efeito desta. Seria um sinal Divino para lhe mostrar o verdadeiro caracter de João? De uma coisa ela tinha a certeza. Nunca faria o aborto. Ainda que perdesse o namorado. E o emprego. Acabara de enterrar as suas mais caras ilusões. A sua decisão estava tomada, mas não podia deixar de se questionar. Claro que lá bem escondido num recanto do coração, morava a esperança de que João  reconsiderasse. Mas, e ela?  Poderia olhar para ele com o mesmo amor, depois de tão grande desilusão? Até onde iria a sua capacidade de perdoar? E de apanhar os cacos e reconstruiu o encantamento que fora a sua vida até à descoberta da gravidez?
A noite decorrera na maior normalidade e Luísa acabou deixando o trabalho às 8 da manhã, completamente extenuada. Mas quando alcançou o portão e João surgiu na sua frente com um pedido de perdão no olhar, e umas minúsculas botinhas de lã na mão, dissiparam-se todas as dúvidas, e o rosto abriu-se num sorriso radioso.



Maria Elvira Carvalho

11.9.14

INÊS



A mulher jovem e bonita, caminhava pela praia naquele fim de tarde de olhos presos no mar, completamente perdida nas suas recordações, deixando que as ondas lhe viessem envolver os delicados pés, em ternas carícias. Aberta a gaveta das memórias, Inês, revivia a sua vida passada ao lado de João, como quem assiste a um filme numa tela imensa.
João foi o grande amor da sua vida. O homem com quem casou, o amante que lhe ensinou todos os segredos do amor, que lhe despertou os sentidos e os desejos. João fora a Primavera que fizera desabrochar e resplandecer a rosa que havia em si.
Apesar de tudo Inês não era completamente feliz. João era militar e as noites de serviço, eram noites de tortura para ela. Não que ela fosse uma mulher insaciável, que não pudesse passar uma noite sem fazer amor. Nada disso. Mas era nessas noites de solidão, que os fantasmas da guerra e da profissão do marido, se vinham deitar com ela, e a amedrontavam de tal modo que a fazia passar a noite insone.
E um dia o que ela mais temia aconteceu. João foi destacado para uma missão no Kosovo. O tempo que a missão durou, foi de angústia, temor e saudade. Apesar de todos os dias falarem ao telemóvel, estes demoravam a passar e as noites de insonia, na solidão do leito de casal pareciam eternas.
O dia em que ele voltou foi de enorme alegria. O mês de férias que se seguiu, foi intensamente vivido pelo casal, numa espécie de segunda lua-de-mel. Um mês depois de João ter retomado o serviço no quartel, o seu comportamento começou a mudar. Primeiro eram dores de cabeça, depois cansaço, falta de apetite. Decorridos apenas dois meses, João não parecia o mesmo. Tinha emagrecido, estava sempre cansado, enjoado e por vezes tinha vómitos. Foi ao médico no quartel e depois fez imensos exames, foram-lhe dados alguns medicamentos, mas apesar disso não melhorava, antes pelo contrário piorava dia a dia, de tal modo que duas semanas depois da primeira consulta, estava já hospitalizado. O cabelo caía, a cor desaparecia rapidamente do seu rosto e os vómitos e diarreias tornaram-se frequentes. Os médicos não respondiam às perguntas do casal, como se houvesse qualquer coisa estranha, que eles não queriam divulgar.
Pouco menos de um mês durou o internamento de João que faleceu numa tarde de chuva no hospital militar.
Louca de dor, Inês fechou-se no quarto sem querer ver nem falar com ninguém. Não suportava a ausência do marido, não podia, nem queria viver sem ele.
Compadecida a mãe tentava arranca-la daquele desespero. E foi num desses momentos que Inês  desmaiou nos braços da mãe. Apavorada, pensando que a filha podia ter sido contagiada  pelo marido e ter a mesma doença, chamou o médico.
Este, depois de a examinar, disse sorrindo que não era nada grave. Apenas uma nova vida vinha a caminho. Inês ia ser mãe.
Foi um balsamo para o coração sofrido da jovem. A esperança de vir a ter nos braços um filho, fruto do grande amor que a unira ao marido, encheu de paz o seu espírito revoltado. E fez as pazes com a vida.
Por esses dias Inês recebeu um relatório do quartel. Segundo esse relatório, João morrera vítima de um envenenamento radioativo.
Apavorada Inês correu para o seu médico. Fez imensos exames, para ver como estava o bebé, mas estava tudo bem com ele. Claro que o médico não excluía a hipótese de problemas futuros, mas não passava de uma hipótese e de momento estava tudo bem.
A mãe de Inês dizia: “quando Deus fecha uma porta, abre sempre uma janela” .
Por isso, hoje, ao passear pela praia, a jovem acaricia a sua proeminente barriga, acreditando que a criança que carrega no ventre, é a janela que Deus abriu para ela.


Elvira Carvalho


9.9.14

CAROLINA



                                             foto da net
Em Lisboa, arranjou trabalho numa casa grande, onde já havia uma cozinheira e uma outra rapariga que tomava conta dos bebés. Aí trabalhou dois anos, gostava da casa, dos meninos e das colegas. Aos patrões demasiado altivos nunca se afeiçoou, mas sentia-se feliz. Até ao dia em que conheceu Jorge e se enamorou perdidamente.
Conheceu-o numa das suas folgas enquanto passeava no Jardim da Estrela. Ele não era de Lisboa, estava na capital a cumprir tropa. Virgem de todas as emoções foi presa fácil do rapaz vivido e malandro que era Jorge. Assim quando se deu conta ele tinha desaparecido e ela estava grávida. Os patrões puseram-na na rua, mal souberam da gravidez, e Carolina perdida, sem saber o que fazer foi bater à porta do irmão mais velho.
Influenciado pela mulher, o irmão acabou por a recolher em casa, embora inicialmente a quisesse mandar de novo para a terra. Porém por volta do 4º mês Carolina sofreu um aborto espontâneo e daquele episódio apenas restou a amargura e a descrença nos homens. Poucos meses depois estava de novo a trabalhar como “criada de servir” numa casa em Belém.
Passaram os anos, vieram outros namoros, mas quando ela dizia que já não era virgem, a atitude dos rapazes mudava, deixavam de falar em casamento e passavam a querer levá-la para a cama. Carolina, foi ficando cada dia mais amarga e perdendo a esperança noutra vida que não aquela de cuidar de casas alheias e de filhos  alheios.  E assim, os anos foram passando, e de repente, já tinha 27 anos. Naquela época, depois dos 25, as mulheres já não sonhavam com o casamento, contentavam-se em serem tias. Foi nessa altura que conheceu o marido. Era Domingo de Páscoa,  e à saída da igreja, as suas mãos tocaram-se na pia da água benta. Olharam-se por segundos e sentiu-se corar.
Virou-se e saiu da igreja quase a correr. Ele seguiu-a e quando ela se preparava para entrar no jardim da casa onde trabalhava,  segurou-a pelo braço e perguntou-lhe se era casada. Perante a negativa ele perguntou-lhe  se queria casar com ele. Ela achou a pergunta descabida e sem sentido mas ele insistiu.
Sem saber o que pensar, ela respondeu-lhe que embora não sendo casada, já não era virgem.
Ele disse que não fora isso que perguntara, apenas queria saber se ela queria casar com ele. Era pobre, mas tinha trabalho certo, vivia com uma irmã, estava farto da vida de solteiro, tinha acabado de pedir ao Senhor uma boa companheira, achara que o encontro na pia de água benta era um sinal divino e não lhe importava o passado, já que esse era individual e só pertencia a ela. O que lhe importava era o presente, e queria saber se ela faria parte dele.
Não falava de amor, ele chegaria com o tempo, ele entregara o futuro a Deus, e confiava n’ELE de olhos fechados.
Carolina ficou encantada, e três meses depois estavam casados.
Apesar da pobreza não se arrependera nem por um segundo.
- Lina, "tás" pronta mulher? Já aqui estão os padrinhos do menino.
Sacudiu a cabeça, e o seu rosto iluminou-se num sorriso enquanto respondia.
- Ó homem manda-os entrar enquanto eu acordo o menino e o visto. 



fim

elvira carvalho
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