27.4.15

MARIA PAULA - PARTE XXI



Na manhã seguinte, ainda os primeiros raios de sol, não eram vistos, Diogo, que pouco tinha dormido, saltou da cama. Fez a barba, com certa dificuldade, pois se esquecera de comprar lâminas e nunca aprendera a usar a navalha, com a destreza com que o pai o fazia.
Quando, pronto para a viagem apareceu na cozinha, já os pais tinham tomado a primeira refeição do dia, que ali, eles chamavam de ”mata-bicho”. Não por estarem à espera dele, mas porque ali toda a gente se levantava muito cedo, e se deitava igualmente cedo. Na aldeia, apenas havia um pequeno café-mercearia com TV, onde os homens se juntavam ao domingo, quando havia um jogo importante. E as mulheres quando havia a transmissão de Fátima, em Maio ou Outubro. A aldeia ainda não tinha luz eléctrica, o café tinha um gerador. 
O resto da aldeia usava iluminação a petróleo, excepto o padrinho de Diogo que também tinha gerador.
A mãe preparara para ele, um suculento pequeno-almoço, com pão que ela própria fizera na véspera, queijo de cabra, presunto, fruta e um tinto verde.
- O carocho já está atrelado à carroça – disse o pai.
- Obrigado pai. Não me esperem para jantar. Não sei se encontrarei hoje a Maria Paula, mas ainda que assim seja, dormirei em Coimbra e volto amanhã.
- Vai com Deus, filho – disse a mãe abraçando-o
-Que ELE fique também consigo, minha mãe – respondeu, dirigindo-se à carroça, onde o pai já o esperava.
Os quarenta minutos até Amarante passaram a correr, tão amena foi a conversa entabulada entre pai e filho.
- Se te demorares mais do que o previsto, telefona para o teu padrinho, ou para o café. Não nos deixes em cuidado. Eles nos darão o recado. Tens os números?
-Tenho pai. Não se preocupem comigo. Escapei da guerra em Angola, não é em Coimbra que me vai acontecer algo de mal – disse o jovem subindo para a camioneta que o levaria até ao Porto, onde apanharia o comboio para Coimbra. À medida que o tempo passava, sentia-se mais ansioso, e cada vez mais nervoso.

25.4.15

25 DE ABRIL

                           SEMPRE A FINGIR
Ontem
Olhavas, e fingias que não vias
os órfãos e viúvas de guerras inglórias
o desespero dos emigrantes clandestinos
as terras abandonadas pelo terror da fome
a força sacrifício dos ideais feitos homens
encerrados e torturados nas prisões do meu país.
Acordaste numa manhã de Abril e ficaste admirado
porque nas nossas mãos o sangue era cravo rubro
nas nossas gargantas o medo era hino à Liberdade
os nossos braços enlaçavam-se na esperança do momento.
Acordaste... e como quem muda de camisa
puseste-te ao nosso lado.

Era o tempo
de fingires ser democrata.


Hoje
olhas, e finges que não vês
os campos perdidos sem sementes
as fábricas de máquinas paradas
o desespero e desencanto acampado à porta
do desemprego.
Olhas, e finges que não vês
as crianças que vão para a escola engolindo a fome.

Os idosos abandonados à dor da miséria.
E a juventude sem esperança, que naufraga
no mar da emigração, fugindo dum país sem futuro,
deixando atrás de si,  o desespero e a saudade
de mulheres e filhos.

E continuas a fingir ser democrata !


Elvira Carvalho

O ano passado, escrevi um texto sobre o 25 de Abril. Como não mudei uma linha no meu pensamento, e para não me repetir assinalo a data com este poema. Se alguém estiver interessado no texto pode lê-lo AQUI



24.4.15

MARIA PAULA - PARTE XX



foto minha

Sentou-se na margem do rio, e deleitou-se com a paisagem ao redor. Não pode deixar de pensar que a gente do local, era privilegiada pela natureza. Belas paisagens, bons ares, vizinhos de confiança. Ali as chaves tinham pouca serventia. As pessoas saiam de casa batendo a porta que ficava no trinco. Na volta puxavam o trinco com um cordel passado para o lado de fora por um furo na porta. De noite corriam um ferrolho pela parte de dentro. Os currais dos animais eram também fechados com ferrolho. Diogo, tinha vivido no Porto enquanto estudante, e visitara Lisboa nas várias saídas de licença, enquanto estivera na base naval do Alfeite. Conhecera bem Luanda, onde estivera 25 meses em comissão. Três belas cidades, muito diferentes entre si, mas com uma coisa em comum. Em nenhuma delas, ele encontrara aquele sossego, aquela paz, aquela confiança entre vizinhos. Alegravam-se com as alegrias e choravam com as tristezas uns dos outros. Era como se todos fossem uma grande família. Nas cidades, o progresso, e o turismo, tornaram a vida muito diferente.
“ Um dia quem sabe, o turismo chegue aqui, este é um bom lugar para uma praia fluvial, e o turismo pode alterar completamente este local” – pensou enquanto olhava os pequenos círculos na água, formados pela pedra que acabara de lançar no rio.
Levantou-se, sacudiu as calças, e dirigiu-se ao pequeno pomar, onde sabia que ia encontrar o pai.
- Boa tarde, pai. Precisa de ajuda?
- Boa tarde, filho. Uma ajuda nunca se recusa. Mas decerto não foi para isso que vieste. Queres falar? Perguntou fitando o rosto sério do filho
- Como o pai me conhece bem.
- Vem, vamos sentar-nos ali na beira do tanque. Então? É por causa da tal rapariga? A tua mãe contou-me a conversa que tiveste com ela.
- Pois é pai, é por causa da Maria Paula. Estive a pensar e cheguei à conclusão de que não vale a pena esperar a baixa da Marinha para a procurar. Decidi ir amanhã para Coimbra.
- Tens a certeza de que é o melhor para ti, filho? Essa rapariga vem de outras terras, outros costumes. Não seria melhor alguém de alguma aldeia próxima?
- Não, pai. Nunca conheci ninguém como a Maria Paula. E olhe que tive vários namoricos desde os meus quinze anos.
- Um pai sempre deseja o melhor para os seus filhos, e por eles é capaz de fazer qualquer sacrifício. Mas há uma coisa que um pai nunca consegue fazer. Viver a vida por eles. Se achas que essa rapariga é o melhor para ti...
- Maria Paula, é uma excelente rapariga, meu pai. Valente e corajosa. O pai não imagina o que ela já passou. E é de boas famílias, não se preocupe.
- Então filho, faz o que o coração te manda. Como diz o povo “quem bem faz a cama, bem se deita nela.”



E hoje é o dia internacional do livro. Um livro é sempre um amigo que nos leva a viajar por terras desconhecidas e nos desperta várias emoções. É sempre fonte de aprendizado. Se mora em Lisboa, dê uma olhada AQUI por favor
Então tenham um bom dia, e boas leituras



22.4.15

10º BOOK-CROSSING BLOGUEIRO


Este foi o livro que na minha participação do 10º book-Crossing blogueiro,  libertei esta manhã no parque Catarina Eufémia, no Barreiro quando ia para uma aula na Universidade Sénior. Depois sentei-me uns bancos mais à frente pensando fotografar quando alguém o recolhesse. Durante 10 minutos passaram por ali várias pessoas de faixas etárias diferentes, já que é caminho de passagem para quem se dirige aos CTT, os jovens que vão para a Escola Alfredo da Silva, e quem vai para a sede do Barreirense. Alguns olhavam e seguiam em frente, outros, tive a sensação que nem o viram. Como entretanto se fazia tarde para a minha aula, não cheguei a ver quem o recolheu.
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