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19.12.23

A ÚLTIMA PRENDA DO MENINO JESUS




A última prenda do Menino Jesus

 

"O Menino Jesus, já cansadinho

De tanto andar por cima dos telhados,

Descalçou os sapatos apertados

- Eram novos - e pô-los no caminho.

 

Nisto, sentiu ruído ali pertinho...

Trepou à chaminé com mil cuidados,

E que viu? - Dois tamancos esburacados

E, ao pé deles, rezando, um petizinho.

 

O Menino Jesus que faz então?

Sem ter nenhum brinquedo ali à mão,

Desses que tanto agradam aos garotos,

 

Troca os sapatos pelos do petiz.

- E depois vai ao Céu mostrar, feliz,

À Virgem Mãe os sapatinhos rotos..."



Adolfo Simões Muller


 À margem: Informo, que o marido esteve em mais uma consulta em Santa Marta, a médica informou que ele está bem, e que agora é só desejar que o bypass continue a funcionar normalmente e disse-nos quais os sinais a que devíamos estar alerta, e no caso (que se espera não acontecer, mas de sentir algum deles recorrer imediatamente à urgência do hospital. E eu tenho hoje uma consulta de cirurgia, no hospital do Barreiro, por causa da hérnia do hiato que cresceu demais no último ano e me está a provocar crises repetitivas de refluxo. Vamos ver.


 

18.12.23

O PRESÉPIO VIVO



 Em Itália, na aldeia de Grecchio, há séculos que os habitantes vêm contando de pais para filhos esta linda história:

«Francisco de Assis e os seus amigos tinham escolhido uma gruta próxima da aldeia para viverem uma vida de pobreza. Assim fora decidido entre eles. Afastados dos demais, os quatro jovens companheiros aproveitavam o isolamento para rezar.

Uma bela manhã, ao aproximar-se o Natal, Francisco resolveu que não iriam passar a festa sozinhos.

— Gostava que celebrássemos aqui o Natal — anunciou ele aos outros irmãos.

— Na gruta? — perguntou, admirado, o Irmão Rufino.

— Então Jesus não nasceu na pobreza? — respondeu Francisco. — O presépio de Belém não é semelhante à nossa gruta?

— Que óptima ideia! — aplaudiu o Irmão Leão .

— Então, mãos à obra! — exclamou Francisco, dirigindo-se de imediato para a aldeia.

Horas depois, ouvem-se mugidos na serra. Era o Irmão Leão que tentava trazer um boi para a gruta. Não era tarefa fácil! Atrás, vinham o Irmão Ângelo e o Irmão Rufino com um burro carregado com uma manjedoura que um morador emprestara. Durante todo aquele tempo, Francisco encarregara-se de encontrar figurantes para o presépio: uma rapariga para fazer de Maria e um rapaz, de José, um ou dois pastores e, claro, um recém-nascido!

Ao cair da noite, tudo estava pronto.

A jovem Maria foi a primeira a chegar. Estava muito comovida. Vieram depois os pastores, cada um com um borrego às costas. Mas José nunca mais chegava! De facto era tão tímido que receava não estar à altura do papel. Por fim, uma mulher pousou uma criança na manjedoura. Tinha-a agasalhado muito bem, com os bracinhos bem apertados ao longo do corpo para não apanhar frio ! A missa podia começar!»

Conta-se que este primeiro presépio vivo tocou profundamente os aldeãos que assistiram a esta missa tão admirável. Um acontecimento em particular marcou os espíritos: quando os sinos da aldeia bateram, ao longe, as doze badaladas da meia-noite, o recém-nascido acordou, abriu os olhos e sorriu!

E, não se sabe como, dos agasalhos bem enfaixados tirou os bracinhos para os estender na direção dos habitantes da aldeia… Um autêntico milagre de Natal!



Christine Pedotti
24 histoires de Noël pour attendre Jésus
Paris, Mame, 2007
(Tradução e adaptação)

17.12.23

A ESTRELA DE PRATA

 


A estrela de prata

Numa árvore que eu cá sei – que nós sabemos – estão uma estrela de prata e uma bola de cristal.
— O que fazemos aqui? — perguntou a estrela.
— Estamos a enfeitar — respondeu a bola.
— O que é enfeitar? — perguntou a estrela.
— É fazer vista, ornamentar, alindar… — respondeu a bola de cristal.
Passou-se um tempo e a estrela perguntou de novo:
— Porque estamos a enfeitar?
— Porque esta árvore não é como as outras. Os frutos dela são raros. Aparecem um dia, luzem o seu quê, conforme sabem ou podem, e depois são colhidos e guardados, até para o ano.
A bola de cristal tinha muita experiência de outros Natais, ao passo que a estrela era nova, de prata fresca, e não sabia quase nada. Mas tinha ouvido falar que havia estrelas cadentes, estrelas que caem do céu e no céu desaparecem, num sopro de luz.
— Não serei uma dessas? — perguntou à bola.
— Talvez sejas, talvez não sejas… Mas não experimentes.
Passou-se um tempo mais, e a estrela guardou para si aquela ideia, uma ideia pequenina. “Não experimentes”, dissera-lhe a bola. E se experimentasse? Foi o que fez.
Caiu, num susto, mas como era leve, inocente e frágil, uma corrente de ar, vinda de uma porta aberta, algures, levou-a consigo.
Levou-a consigo e fê-la poisar, sem estrago, no fofo musgo.
— Olha, é a estrela da gruta — disse alguém que estava a armar o presépio.
E estrela do presépio ficou.
Donde estava, onde a puseram, via o presépio, os pastores, os reis magos, as lavadeiras com a trouxa à cabeça, as leiteiras com a bilha à cinta, os vagabundos, o moleiro, o azeiteiro e todo o povo do presépio e mais as pessoas de carne e osso, que vinham admirar aquela lindeza, sorrir para o Menino Jesus e olhar para a estrela, suspensa do alto da gruta.
Estrela de oito pontas que era, a apontar em todas as direcções, nem ela sabia para onde, brilhou imenso.
Brilhou o mais que pôde.
Para o ano, a estrela de prata já tem muito que contar à bola de cristal.

António Torrado

http://www.historiadodia.pt
Adaptação

16.12.23

EU QUERIA SER PAI NATAL







Eu queria ser Pai Natal


 Eu queria ser Pai Natal

e ter um carro com renas

para pousar nos telhados

mesmo ao pé das antenas.

 

Descia com o meu saco

ao longo da chaminé,

carregado de brinquedos

e roupas, pé ante pé.

 

Em cada casa trocava

um sonho por um presente.

Que profissão mais bonita

Fazer a gente contente.

Luísa Ducla Soares

15.12.23

A LENDA DE HANNUKAH, FESTA DA LUZ

                                                                    foto da Wikipédia


A lenda de Hanukkah, festa da luz


No Templo Sagrado de Jerusalém, havia uma lâmpada de azeite perfeita, feita do ouro mais puro. Noite e dia, a lâmpada ardia, e nunca a sua chama se apagava.
Depois, infelizmente, os Gregos invadiram Jerusalém. Expulsaram os Judeus e colocaram um ídolo no Templo Sagrado. Mal a lâmpada viu a estátua, extinguiu-se, pensando: “Nunca darei a minha luz pura a este ídolo.”
O Rei dos Gregos zangou-se e gritou:
— Acendam a lâmpada! É uma ordem!
Acenderam-na, mas o óleo não ardia. Trouxeram mais azeite, que o rei deitou na lâmpada. Em vão.
Então, o Rei pensou para consigo: “Talvez este azeite não preste.”
Deu então ordens para que trouxessem o melhor e mais puro dos azeites.
Os Gregos foram procurá-lo e regressaram com o melhor e mais precioso que encontraram. O Rei deitou-o na lâmpada e acendeu-a. Mas não se via chama alguma. O Rei ficou pasmado.
— Deve haver, de certeza, um tipo de azeite especial para esta lâmpada.
Realmente, havia azeite de qualidade excelente no Templo. Os Gregos encontraram imensos potes de barro cheios de azeite de oliveira, utilizado para acender a lâmpada. Quando ouviram as palavras do rei, os potes ficaram extremamente assustados. Mas os Gregos levaram-nos até ao Rei. Este ficou tão contente que exclamou:
— É agora que a lâmpada vai acender-se, para glória dos nossos deuses.

Abriu um dos potes e ficou admirado por encontrar dentro dele o azeite mais puro e mais transparente que alguma vez vira. E mais admirado ficou quando o cheirou, porque o azeite cheirava melhor do que o melhor dos perfumes. Verteu o azeite na lâmpada e acendeu-a, mas não havia vestígios de chama. Tentou um segundo pote e um terceiro, sempre sem sucesso. O rei ficou furioso e atirou a lâmpada ao chão. Deu pontapés nos potes e saiu do Templo a correr, batendo a porta atrás de si com estrondo.
Os potes caíram todos, partiram-se e o azeite foi derramado. Apenas restou um pequenino, que estava encostado a um canto, e passava despercebido.
No Templo reinava agora um grande silêncio. O ídolo estava mudo e quedo. Apenas a lâmpada chorava baixinho, e o azeite derramado espumava furioso:
— Aqueles Gregos malvados, porque me derramaram no chão?
O pote pequenino tremia no seu canto e dizia:
— Talvez os Gregos voltem…
Passaram-se os dias e passaram-se as noites.
Um dia, ouviram-se cânticos fora do Templo e o som de passos que se aproximavam. A lâmpada tremeu de receio:
— Lá vêm eles de novo…
E o pequeno pote murmurou, aterrorizado:
— Vêm aí os Gregos. De certeza que me vão esmagar.
Mas não havia razões para temer. Não eram os Gregos que se aproximavam do Templo, mas os Judeus que Judas Macabeu tinha reunido para atacar e expulsar os Gregos.
Marchavam juntos, cantando canções de vitória e empunhando os seus estandartes.
Mal entraram no Templo, deitaram fora o ídolo. Em seguida, colocaram a lâmpada no lugar que lhe era devido. Limparam-na e poliram-na até brilhar. Depois, Judas Macabeu quis acender a lâmpada, mas não encontrou azeite, porque todos os potes de barro tinham sido derrubados e todo o azeite derramado.

Ficou deveras preocupado e clamou:

— Mas onde poderemos encontrar azeite para acender a lâmpada?
Nesse mesmo momento, o pequeno pote começou a mexer-se e rolou até junto de Judas. Este levantou-o e viu que continha azeite puro e perfumado em quantidade suficiente. Deitou algum na lâmpada e acendeu-a.
E no Templo voltou a haver luz.
Mas Judas ainda estava apoquentado.
— O pote é tão pequenino que só temos azeite para um dia e uma noite. Levaremos oito dias a arranjar mais azeite. O que faremos depois de amanhã?
Foi então que se produziu um grande milagre. O azeite do pote não diminuía, porque era azeite consagrado. Sempre que tiravam azeite do pote, este voltava a encher-se. Durante oito dias e oito noites, o pote forneceu a quantidade de azeite suficiente para manter a lâmpada acesa.
E, enquanto duraram esses oito dias, os Judeus celebraram, cheios de alegria, o Hannukah, ou seja, o festival da lâmpada que nunca se apagou.

Levin Kipnis
Gan-Gani Let us play in Israel
Tel-Aviv, N. Tversky Publishing House, 1966
Tradução e adaptação

14.12.23

NATAL NAS ASAS DO ARCO-ÍRIS

                                                                              Foto minha

Natal nas Asas do Arco-íris

 Era uma vez uma cidade cinzenta. As casas, as ruas, as árvores e o rio, eram cinzentos… Todo o céu que envolvia a cidade era cinzento…

As pessoas vestiam-se com roupas em tons de cinzento e os seus rostos eram tristes e carrancudos. Andavam sempre agitadas, demasiado ocupadas e sem tempo para conversar, rir ou passear.

Jerónimo vivia na cidade cinzenta e, tal como as outras crianças, sentia-se muito triste.

O Natal estava a chegar e sempre que ele pedia aos pais para o ajudarem a escrever a carta ao Pai Natal, a resposta era:

“Não tenho tempo. Há coisas mais importantes em que pensar.”

Jerónimo não compreendia… O que poderia ser mais importante do que o Natal?

Sentado no peitoril da janela e o nariz encostado ao vidro, Jerónimo olhava o céu e observava as nuvens que passeavam lentamente sobre a cidade.

— São tão lindas! — comentava o menino, apontando para uma nuvem bem lá no alto. — Aquela parece mesmo um leão a fazer o pino! E aquela parece… um coelho a jogar à bola! Será que há alguma que pareça um elefante a andar de patins? — questionava com ar pensativo.

De repente, um enorme elefante apareceu esculpido nas nuvens!

Jerónimo olhava fascinado. Seria possível? As nuvens estariam a convidá-lo para brincar?

Decidiu aceitar o desafio e embarcar naquele jogo maravilhoso… desconhecendo que eram as artes mágicas de Ariela que modelavam as nuvens ao sabor dos seus pedidos.

Ariela era uma pequena fada muito bonita, de asas transparentes, que voava graciosamente entre o céu e a terra.

Era muito alegre e amava a natureza com toda a sua beleza e cor. Por essa razão, ficou muito curiosa quando soube da existência daquela cidade cinzenta. Porque teria perdido a cor? Como seriam os seus habitantes? As crianças seriam felizes?

Ariela voava sobre a cidade, tentando encontrar uma explicação para aquele estranho lugar, quando ouviu as palavras de Jerónimo. Para o alegrar, resolveu brincar com ele, modelando as nuvens fofas que embelezavam o céu.

A pequena fada olhava, com ternura, para o rosto do pequeno Jerónimo e pensava no que poderia fazer para tornar especial o Natal das crianças daquela cidade cinzenta.

Então Ariela começou a assobiar. De imediato, ouviram-se vários assobios em uníssono que se confundiram com o sopro do vento.

Milhares de pequenas fadas, transformadas em pontos de luz, espalharam-se por todas as casas da cidade.

Os adultos, sempre ocupados, nada viram.

De repente, ao ritmo do assobio do vento, os mesmos pontos de luz desapareceram no céu.

Ariela sorriu. As fadas conheciam os desejos de todos os meninos da cidade cinzenta e iriam transmiti-los ao Pai Natal. As crianças não ficariam sem presentes!

E os adultos? Como poderia ajudá-los? Eles tinham-se esquecido da cor… da sua essência, da sua beleza, da sua alegria, da sua magia.

Sem cor a vida é triste e vazia.

Ariela pensou, pensou… e sorriu. Depois, bateu as suas delicadas asas transparentes e voou, ligeira, até ao céu.

Era véspera de Natal. Jerónimo acordou, abriu a janela do seu quarto e ficou maravilhado. Estava a nevar. Mas não era uma neve qualquer! Flocos de todas as cores desciam lentamente do céu azul, transformando toda a cidade cinzenta numa paleta colorida.

Jerónimo viu o verde nas árvores, o prateado na água do rio, o amarelo nas flores, as cores do arco-íris nas casas, o dourado nos enfeites de Natal…

Aos poucos, as ruas foram-se enchendo de pessoas de todas as idades que vestiam roupas de todas as cores e que conversavam, corriam, saltavam, brincavam e riam. E a neve ia caindo em flocos leves e coloridos…

Lá no alto, sentadas nas nuvens, Ariela e as outras pequenas fadas moldavam os flocos de neve, pincelando-os delicadamente com as tintas do poder da fantasia e lançando-os no ar com um sopro suave.

De vez em quando, atiravam pequenos flocos umas às outras numa brincadeira alegre e divertida.

Ariela viu o pequeno Jerónimo e os seus pais fazerem um enorme boneco de neve azul com olhos verdes, boca vermelha, chapéu preto, nariz cor-de-laranja… Davam abraços e soltavam gargalhadas!

A fada viu, ainda, as pessoas a entoarem cânticos natalícios… e a desejarem umas às outras um “Feliz Natal”!

A cor voltou aos corações! — pensou Ariela.

De repente, olhou o horizonte e sorriu. O seu ouvido apurado ouviu, lá ao longe, o tilintar dos sininhos do trenó do Pai Natal!

Alice Cardoso
Natal nas Asas do Arco-Íris
Edições Nova Gaia,

13.12.23

UMA COLCHA COM HISTÓRIA


Uma colcha com história


 Quando a minha bisavó Anna veio para a América, trazia o mesmo espesso casacão e as botas altas que usava no trabalho rural. Mas a família deixou de trabalhar a terra. Em Nova Iorque, o pai passou a carregar coisas para uma camioneta, e o resto da família fazia flores artificiais o dia todo.

Todos tinham pressa, e havia sempre tanta gente na cidade! Não se comparava com a Rússia. Mas agora, esta era a sua casa, e a maioria dos vizinhos era exatamente como eles.
Quando Anna foi para a escola, o inglês que ouvia assemelhava-se a pedras a caírem em águas pouco profundas. Shhh… Shhhhh… Shhh… Mas seis meses bastaram para falar a nova língua. Já os pais nunca chegariam a aprender. Por isso, era ela que falava por eles.
As únicas coisas que tinha guardado da Rússia eram o seu vestido e a babushka (boneca de madeira) que ela gostava de atirar ao ar quando dançava. Mas o vestido estava a ficar-lhe muito pequeno. Quando a mãe lhe costurou um novo, Anna pegou no vestido velho e na babushka. Depois, de um cesto de roupas velhas, retirou a camisa do Tio Vladimir, a camisa de noite da Tia Havalah, e um avental da Tia Natasha.
“Vamos fazer uma colcha para nos ajudar a recordar sempre a nossa terra,” disse a mãe de Anna. “Será como ter a família lá na Rússia a dançar toda a noite à nossa volta.”
E assim foi. A mãe de Anna convidou todas as senhoras da vizinhança. Com os retalhos dos tecidos recortaram animais e flores. Anna mantinha as agulhas sempre com a linha enfiada e passava-as às senhoras à medida que precisavam delas. O remate da colcha foi feito com o tecido da babushka de Anna.
Às sextas à noite, a mãe de Anna dizia as orações que davam início ao Sabbath (nome dado ao dia de descanso semanal no judaísmo, simbolizando o sétimo dia no Génesis, após os seis dias da Criação.). A família comia o challah (pão trançado consumido no Sabbath) e canja de galinha. E a colcha servia de toalha de mesa.
Anna cresceu e apaixonou-se pelo meu bisavô Sasha. Para lhe demonstrar que queria ser seu marido, ele deu a Anna uma moeda de ouro, uma flor seca e um pouco de sal, tudo atado num lenço de linho. O ouro era para assegurar prosperidade, a flor para o amor, e o sal para que as suas vidas tivessem tempero.
Ela aceitou o lenço e ficaram noivos.
Sob o huppa (pano bordado sob o qual se colocam os noivos e que simboliza a união do casal), Anna e Sasha prometeram um ao outro amor e compreensão. Depois do casamento, homens e mulheres festejaram separadamente.
Quando a minha avó Carle nasceu, Anna embrulhou a sua filha na colcha para lhe dar umas calorosas boas-vindas ao mundo. A Carle deram uma prendinha em ouro, uma flor, sal e pão. Ouro para que nunca conhecesse a pobreza, uma flor para que sempre fosse rodeada de amor, sal para que a sua vida tivesse sempre tempero, e pão para que nunca conhecesse a fome.
Carle aprendeu a cumprir o Sabbath, a cozinhar, a limpar e a lavar.
“Qualquer dia estás casada,” disse Anna a Carle, e… de novo a colcha transformou-se em huppa para um casamento. Desta vez no casamento de Carle com o avô George. Os homens e as mulheres festejaram juntos, mas ainda não dançaram uns com os outros. No ramo de noiva de Carle havia uma moeda de ouro, pão e sal.
Carle e George mudaram-se para uma quinta no Michigan e a minha bisavó Anna foi viver com eles. E a colcha uma vez mais embrulhou uma menininha, Mary Ellen. Mary Ellen chamava a Anna Dona Avó. Esta tinha envelhecido bastante e estava frequentemente doente. A colcha mantinha-lhe as pernas quentinhas. No nonagésimo-oitavo aniversário de Anna, o bolo era um kulich, um bolo enriquecido com passas e frutas cristalizadas. Quando a bisavó Anna morreu, rezaram-se orações para elevar a sua alma ao céu. A minha mãe, Mary Ellen, era já crescida.
Mais tarde Mary Ellen saiu de casa e levou a colcha com ela. Quando ficou noiva, a colcha foi o seu huppa. Pela primeira vez, vieram ao casamento alguns amigos que não eram judeus. A minha mãe usou um conjunto de saia e casaco, mas no seu ramo havia ouro, pão e sal. A colcha deu-me as boas-vindas a mim, Patrícia, a este mundo… e foi a toalha de mesa na festa do meu primeiro aniversário.
À noite, antes de adormecer, eu passava os meus dedos pelas bordas de cada animal da colcha. E contava à minha mãe histórias acerca dos animais. Por sua vez, ela contava-me a quem pertencera a manga de que era feito o cavalo, de quem era o avental de que era feita a galinha, a quem pertencera o vestido que tinha dado lugar às flores, e de quem era a babushka que debruava a bainha da colcha. A colcha era uma capa a fingir sempre que eu estava na arena, por vezes uma tenda na húmida floresta amazónica.
No meu casamento com Enzo-Mario, homens e mulheres dançaram juntos. No ramo havia ouro, pão e sal — e um salpico de vinho, para que eu conhecesse sempre a alegria. Muitos anos depois segurei Traci Denise pela primeira vez naquela colcha. Três anos mais tarde a minha mãe segurou Steven John na colcha pela primeira vez. Estávamos todos muito orgulhosos do novo irmãozinho da Traci. E tal como a mãe, a avó e a bisavó antes deles, também eles usaram a colcha para celebrar aniversários e fazer capas de super-heróis.

À medida que os anos passavam e Traci e Steven iam crescendo, a avó adquiriu o gosto de contar a história da colcha em todos os encontros familiares. Todos sabíamos a quem pertenciam as roupas de que eram feitos cada flor, cada animal. A minha mãe teve até a sorte de mostrar a maravilhosa colcha aos netos do meu irmão, bisnetos dela. Quando morreu, foram rezadas orações para elevar a sua alma ao céu. Traci e Steven eram agora crescidos e estavam a preparar-se para começar as próprias vidas.
E agora … agora só espero o dia em que vou ser avó … e em que irei também eu contar a história da Colcha aos meus netos.

Patricia Polacco
The keeping quilt
New York, Simon and Schuster, 2010
(Tradução e adaptação)


Fonte A

12.12.23

NATAL NO EQUADOR




 Juanito, é assim que todos o tratam. Vive na periferia de Quito, a capital do Equador. Embora só tenha dez anos, trabalha como engraxador de sapatos e, com o dinheiro que ganha, ajuda a família.

Estamos na véspera de Natal. Pela manhã, Juanito vai de autocarro para o centro da cidade, a caixa de madeira com o material para limpar os sapatos bem presa debaixo do braço. Espera que o negócio lhe corra bem, pois precisa de comprar uns doces de açúcar para hoje à noite.

Juanito vagueia devagar pelas ruas, olha para os sapatos das pessoas e fala-lhes amavelmente. Entretanto, vai oferecendo também os seus serviços nos cafés. O dia está a correr de feição. Juanito limpa muitos sapatos e recebe boas gorjetas. Antes de subir para o autocarro, escolhe cuidadosamente uns doces para aquela noite e segue depois, feliz, para o mercado onde a mãe e a irmã Dolores vendem produtos. Hoje terminaram mais cedo e levam para casa as coisas que ficaram por vender. Enquanto a mãe embala algumas trouxas, Dolores trata da irmã mais nova, prendendo-a com o pano às suas costas.

Mal acabaram de arrumar tudo, ouvem buzinar na rua. É a carrinha que vai levá-los até junto do pai. Na caixa aberta já estão mais pessoas que também não têm outra forma de viajar. O carro sai da cidade em direção ao campo. Pelo caminho, encontram uma pequena manada de lamas enfeitadas com mantas às cores para a festa de Natal. Ao pescoço têm uns sininhos engraçados que tocam alegremente. De vez em quando, o carro para e alguns passageiros saem.

Uma mulher pergunta à mãe para onde vai.

— O meu marido agora tem um emprego — conta a mãe, com orgulho. — É empregado numa loja, perto do monumento onde fica a linha do equador. De certeza que amanhã, como é feriado, vão receber muitas pessoas e nós vamos passar o Natal com ele.

Escurece quase de repente, sem transição. Percorreram quase vinte quilómetros quando o carro para. O pai vem ao encontro deles com uma lanterna e conduz a família para uma loja pequena. É ali que irão dormir. Em seguida, leva os filhos mais velhos à rua, aponta para uma linha traçada no chão e explica:

— Esta é a linha do equador que divide a terra na metade a norte e na metade a sul — E ilumina o monumento. — E esta pedra está aqui para lembrar-nos que o nome do nosso país, Equador, vem da Linha do Equador.

Juanito coloca-se em cima da linha com uma perna na metade norte e a outra na metade sul. O pai ri-se e diz-lhe:

— É exatamente assim que os turistas tiram aqui as fotografias.

Quando regressam à loja, a mãe já tratou do bebé e distribuiu pelo chão as esteiras para dormirem. Está a conversar com uma mulher e dois homens que também lá vão passar a noite sozinhos. Todos juntos irão festejar a ceia da noite de Natal.

Enquanto a mãe tira da trouxa as salsichas, o arroz e o milho, Juanito dá uma vista de olhos pela loja. Há escaparates com postais, pequenas lembranças em pedra e madeira, artigos de couro, lindas mantas tecidas, ponchos e muito mais. Só quando o cheiro da comida lhe chega ao nariz é que repara que está cheio de fome. E junta-se aos outros.

A sala ao lado está iluminada com velas e tem um pequeno presépio. É ao lado dele que Juanito coloca os doces que comprou. Sorri com orgulho ao oferecê-los a todos com largos gestos. Tem agora tempo de observar melhor o presépio. A servir de pano de fundo está uma pintura de Belém. À frente, o Menino Jesus deitado numa caminha de areia. Em volta, espetados na areia, uns raminhos fazem de árvores e um pedaço de espelho, ao lado, faz de lago. As figurinhas são crianças com os trajes nacionais, um burro, pastores, Maria, José e o Menino Jesus. São todos feitos com massa salgada cozida e pintados com cores.

Depois de comer, os homens tocam canções de Natal nas flautas e as mulheres e as crianças acompanham-nos, cantando. Juanito também tenta tocar na flauta do pai. Que bem que toca!

O homem mais velho sai e regressa com uma segunda flauta que entrega a Juanito, dizendo-lhe:

— Toma, ofereço-ta.

Juanito agradece, alegre com a surpresa, e começa imediatamente a procurar os sons. A noite tornou-se fria. Antes de se deitarem nas esteiras, as crianças embrulham-se bem nos seus ponchos. No escuro, Juanito procura a flauta com as mãos e diz em voz baixa:

— Foi uma bela noite de Natal!



Rena Sack

Weihnachten in aller Welt: Mit 24 Geschichten durch den Advent.

Lahr: Kaufmann Verlag 2008

(Tradução e adaptação)