que havia em mim um invencível verão.
Albert Camus
Foi-me diagnosticado um cancro em Outubro de 2004, o que implicava que os tratamentos iriam prolongar-se durante
o mês de Dezembro.
Quimioterapia no Natal era algo de que eu não estava à espera. E assim
rezava todos os dias para que o Natal não fosse arruinado nem pela minha doença
nem pelos tratamentos.
Com duas crianças pequenas, e uma enorme necessidade de esperança, eu
queria desesperadamente manter viva a magia natalícia. Mas o tratamento foi
muito agressivo porque eu tinha apenas trinta e quatro anos de idade e o cancro
estava numa fase inicial. A quimioterapia não me fez cair o cabelo, mas fiquei
muito magra e a radioterapia retirou-me toda a energia. A perda de peso e a
exaustão deixaram-‑me muito fraca e mal
conseguia andar pela casa. Nos outros anos, nesta altura, já teria levado a árvore
de Natal para casa mas agora mal conseguia carregar os ornamentos, e tive que
encarregar a minha mãe e os meus filhos da decoração.
As luzes de Natal exteriores iam até aos meus vizinhos e o meu marido
perguntou-me se queria sair e vê-las.” Não, a não ser que as consiga ver
todas!” — respondi. Desejava tanto sair com a minha família para os tradicionais
passeios natalícios noturnos, mas como iria conseguir se nem sequer era capaz
de ir buscar o correio? Gostaria de dar umas voltas de carro na vizinhança, mas
como poderia conduzir se isso me provocava enjoos? Só a simples ideia de me
sentar em frente da casa, a observar os fios de luzes a piscarem ao longo da
rua, me deixava deveras deprimida!
“Eu sei como poderás vê-las todas”, disse o meu marido Jeff, e correu para
o telefone para falar aos pais. ”Mãe, Pai…ainda têm a cadeira de rodas do avô?”
Noite após noite, Jeff carregava-me na cadeira de rodas, cobria-me com
grossos cobertores e levava-me para fora de casa pela porta da frente. A nossa
filha de dois anos, embrulhada na sua pequena casaca cor-de-rosa,
aconchegava-se debaixo dos cobertores comigo, e o seu calor acalmava os meus
ossos que tremiam. O nosso filho, de quatro anos e muito maior do que a irmã,
caminhava ao nosso lado e dava-me a mão, ou ajudava o pai a empurrar a cadeira.
E assim, embrulhada no amor do meu marido e dos dois filhos, eu passeava pelas
redondezas…
As luzes de Natal eram as mais bonitas de sempre! Coloridas, brancas,
cintilantes e brilhantes, tremeluziam de promessas e alegria…. esperança e
cura. O meu espírito elevava-se bem mais alto do que eu imaginava ser alguma
vez possível! Por causa das luzes e por causa do amor que me permitia vê-las a
todas.
A quimio curou o meu cancro, e não acabou com o meu Natal.
Kat Heckenbach
