Hoje não vou escrever um poema. Hoje vou falar de coisas sérias. Não que nos poemas não se escrevam coisas sérias entenda-se.Mas vou falar de uma coisa diferente. Por exemplo, da minha avó materna que nasceu em 1897, nunca ouviu falar de métodos anticoncepcionais, e teve onze (11) filhos. Vendia sardinhas nas aldeias vizinhas, perto de S. Pedro do Sul, enquanto o meu avô gastava calçado na estrada, procurando ganhar alguns tostões a vender ferro-velho.
Escuso de falar da fome que atormentou a minha mãe e os seus dez irmãos. Também não é preciso dizer que nenhum foi á escola. O saber ler não enchia a barriga a ninguém. A sua escola foi o monte, para onde iam guardar os rebanhos dos "senhores lavradores".
Era duro, muito duro, principalmente no Inverno, mas era a única maneira de poderem comer. Tanta coisa que eu podia contar, mas que vocês imaginam com facilidade. Pois bem, cinquenta anos mais tarde, a minha mãe desconhecia inteiramente a pílula, e nem tinha ouvido falar de planeamento familiar. Em menos de três anos teve três filhos. Depois, uma grave doença seguida de intervenção cirúrgica, impediu-a de voltar a ser mãe. Porém, dado o mísero salário do meu pai, e a frágil saúde de minha mãe, éramos ainda assim filhos a mais. Tanto assim que na idade em que devia ainda andar na escola, trabalhava já numa fábrica de cortiça. Era a mais velha, tinha que ajudar no orçamento da casa.
Enfim, isto passou, e nem valeria a pena recordá-lo, não fora o facto gravíssimo de que hoje,mais de um século passado, depois do nascimento da minha avó, quando o homem (dizem) conquistou a lua, e até já faz viagens de férias em naves no espaço celeste, milhões de mulheres, em aldeias esquecidas pelos cinco continentes, continuam sem saber nada dos métodos anticoncepcionais, nem de planeamento familiar. Mulheres, que reduzidas á sua condição de fêmeas, cumprem a sua missão de procriação, parindo filhos sem um mínimo de condições de poderem criá-los e educá-los. E isto sim revolta-me. Que em pleno século XXI, as crianças continuem a nascer, não porque os seus pais as desejem, mas porque não souberam como evitá-las. Que não possam ir á escola, porque o seu salário faz falta em casa. Isto quando existe casa. Pergunto-me porque aumenta a delinquência juvenil, porque os jovens se intoxicam de drogas, porque se prostituem? Dizem os psiquiatras, que nenhum homem nasce mau, e que a falta de amor nos primeiros anos pode ser a causa, o motivo, para a droga, a prostituição , o crime. E eu pergunto-me:
Como pode um pai acompanhar o desenvolvimento físico e mental de seu filho, como pode dar-lhe o beijo necessário na hora precisa, a palavra amiga no momento exacto, se eles pais, vivem a pensar no aumento que não chega, no emprego que não têem, nas cheias ou secas que tornam inuteis as pequenas hortas.
É urgente, que se dê a todos os recém-nascidos, iguais oportunidades de educação, saúde e futuro. E é igualmente urgente que os filhos deixem de ser resultado obrigatório das relações sexuais, mas sejam um fruto de amor, entre dois seres responsáveis, que conhecem a vida, e o desejam, porque sabem que há para ele, um lugar no futuro.