23.6.11

EM NOITE DE S. JOÃO




Foto de Catarina Osório.



Junho é o mês dos Santos Populares. Um pouco por todo o país festejam-se em animados arraiais, ao som da música e acompanhado de sardinhas assadas regadas a vinho tinto ou cerveja consoante os gostos. As festas começas a 13, na verdade a 12 de Junho com o Santo António, padroeiro de Lisboa. Continua a 23 com o S. João, Padroeiro do Porto e termina a 28 com S. Pedro, que na verdade é o dia de S. Pedro e S. Paulo o que é desconhecido da maioria das pessoas. E que se festeja desde Amora a S. Pedro do Sul, das Lages do Píco á Ribeira Grande.




Em Lisboa pelo Santo António, feriado municipal, são tradição os casamentos e as marchas. No Porto pelo S. João, também dia de feriado municipal, são tradição os martelinhos, que substituíram o alho-porro de antigamente, e sobretudo o fogo de artifício lançado da ponte D. Luís, que é sempre espectacular.

1.6.11

A PROPÓSITO DE...







Comemorou-se hoje mais um dia da Criança.  E enquanto passeava no parque com a Mariana, e olhava as centenas de crianças espalhadas por ele absorvidas por jogos brincadeiras e espectáculos de marionetas, recuei no tempo mais de 50 anos e vi-me do tamanho delas. Naquele tempo não havia dia da Criança. Melhor, segundo a Wikipédia, o dia um de Junho de 1950 foi comemorado em todo o mundo como o dia da criança. Não sei se Portugal estava ou não no lote de "todo o mundo". Ainda que estivesse,  quem ia saber disso no velho barracão onde não havia sequer um rádio? No barracão à beira rio plantado, digo plantado porque ele estava apoiado em vários pilares de cimento  com cerca de metro e meio de altura. Havia uma escada de madeira que ligava a porta ao chão. Penso que era assim, porque quando havia temporal, ou nas marés vivas de Agosto, a água sempre chegava ao barracão, e nós sentávamos na escada e mergulhávamos os pés na água. Eu era a mais velha e tinha dois irmãos. Quando minha mãe ia para o trabalho, deixava-nos fechados no quarto. O quarto não tinha janela para a rua. Apenas um pequeno postigo na porta que dava para o salão que servia de cozinha e sala de refeições. Não tínhamos bonecos. Eu tive uma boneca de papelão, que era para mim e para a minha irmã. Durou pouco tempo a minha boneca. Era uma preta de cabelos encaracolados e boca vermelha. Eu nunca tinha visto ninguém com aquela cor, daí pensei que a boneca estava suja. A  minha mãe costumava fazer uma barrela para a roupa branca . Ora um dia ela mergulhou a roupa na barrela e foi fazer o almoço. Eu fui à celha da barrela, levantei uma ponta de roupa e escondi  a boneca por baixo para a minha mãe não ver. Pensava que a boneca ia ficar branca e só consegui transformá-la num monte de papelão desfeito que ainda por cima manchou a roupa à minha mãe e me valeu umas valentes palmadas. Mas dizia eu que a mãe ia trabalhar e nos fechava no quarto. A porta do quarto era feita de madeira fina.  Depois que ela saía, eu e a minha irmã puxávamos a porta para dentro, e o meu irmão que era o mais pequenito e magrinho passava pelo buraco, punha um banco junto à porta e corria o fecho abrindo-nos a porta. Claro que brincávamos à vontade por toda a casa. Quando eram horas de meus pais virem almoçar, íamos para dentro do quarto e fazíamos a operação inversa. Durante muito tempo foi um quebra cabeças para os meus pais, que nos encontravam sempre fechados no quarto, mas a casa numa balbúrdia. Um dia  esquecemos da hora e quando eles entraram eu e a minha irmã assustadas largamos a porta e deixámos o mano entalado. Na verdade até irmos para a escola passávamos meses que não víamos outras crianças. Quando a safra acabava e minha mãe deixava de trabalhar, brincávamos na areia, junto à casa, e andávamos no baloiço que meu pai fez entre dois pinheiros junto ao barracão.  E nós éramos tão felizes. A  verdade  é que só sentimos falta daquilo que conhecemos.  E nós não conhecíamos quase nada.