6.7.10

MATILDE ROSA ARAÚJO


O Berlinde

Era uma vez uma pomba
Sem um ninho, sem um pombal,
Era branca como a Lua
E os seus olhos de cristal.

Era uma vez uma pomba
Que não sabia chorar:
O seu choro trrru… trrru…
Era um modo de cantar.

Era uma vez uma pomba
Que noite e dia voava:
Fosse noite, fosse dia,
Nunca a pomba descansava.

Era uma vez uma pomba
Que nos céus, longe, voava,
Seu coração um berlinde
Grande segredo guardava.

Era uma pomba tão estranha
Que voava noite e dia:
Quanto mais alto voava
Mais da terra ela se via.

Era uma vez uma pomba
Com penas de seda real:
Era uma pomba do Mundo
Com seus olhos de cristal.

Seu coração um berlinde
De vidros de sete cores,
Que do sol tinha o brilhar,
Um espelhinho de mil flores.

Um dia longe nos céus,
Viu um menino a chorar
Sentadinho sobre um monte,
Numa noite de nevar.

Não era branco nem negro
Assim na neve o menino,
Seu chorar era triste,
Tornava-o mais pequenino.

E a pomba logo o viu
Com seus olhos de cristal:
Logo desceu para o monte
– Era aquele o seu pombal.

Poisou nas mãos do menino
Com seu corpo, seu calor:
Mãos por debaixo da neve,
Ninguém lhes sabia a cor.


Dorme, dorme, meu menino…
Branco ou negro tanto faz:
Meu coração é um berlinde,
Tem o segredo da Paz.

E o menino já ria,
Podia dormir sem medo,
Sonhava com o berlinde,
Coração feito brinquedo.

Há quem diga que uma estrela
Fugiu do céu a correr,
Atravessou todo o mundo
Para o segredo dizer.

Escutaram-na os meninos,
Têm um berlinde na mão:
Seja noite de Natal,
Seja noite de S.João.

Matilde Rosa Araújo

Biografia
Nasceu em Lisboa a 20 de Junho de1921, na quinta dos avós, em Benfica. Em 1945, licencia-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa e em 1946 apresenta a tese inovadora por considerar a reportagem como um género literário: "A Reportagem Como Género: Génese do Jornalismo Através do Constante Histórico-Literário". Leccionou durante 42 anos, 36 dos quais no ensino secundário técnico-profissional em diversas localidades do país; 3 anos no Magistério e outros 3 anos no Jardim Escola João de Deus. Em 1956 publica Poemas Infantis e no ano seguinte O Livro da Tila. Vocacionada para as questões pedagógicas, mesmo depois de estar aposentada do ensino continua a manter contacto com as crianças em visitas e colóquios em escolas e bibliotecas.Fez parte dos corpos directivos da Sociedade Portuguesa de Escritores, foi sócia fundadora do comité português para a Unicef. Tem obras traduzidas no Brasil, na Roménia e na Moldávia.


Eis algumas das suas obras:
1943 - A Garrana
1945 - Estrada Sem Nome
1956 - Poemas Infantis nº 3 da Graal
1957 - O Livro da Tila
1962 - O Palhaço Verde
1962 - Praia Nova
1963 - História de Um Rapazinho
1967 - O Cantar da Tila
1971 - O Sol e o Menino dos Pés Frios
1974 - O Reino das Sete Pontas
1975 - Gil Vicente
1977 - A Balada das Vinte Meninas
1977 - As Botas do Meu Pai
1978 - A Velha do Bosque
1978 - Camões Poeta Mancebo e Pobre
1978 - Os Quatro Irmãos
1979 - O Cavaleiro Sem Espada
1980 - A Escola do Rio Verde
1986 - Voz Nua
1988 - Estrada Fascinante
1990 - O Passarinho de Maio
1993 - Rosalinda Foi à Feira
1994 - As Fadas Verdes
1997 - As Cançõezinhas da Tila
2000 - Segredos e Brinquedos
2003 - Sons Para a Guitarra da Boneca

Matilde Rosa Araújo deixou-nos hoje para empreender essa viagem que todos faremos um dia.
E o panorama cultural português ficou bem mais pobre.

12 comentários:

Isa disse...

Fiquei muito triste com a morte desta
nossa escritora.
Convivi com ela,anos atrás,guardando no coração recordações desses momentos.
Beijo.
isa.

AFRICA EM POESIA disse...

Elvira
saudades de te ler.

Linda Homenagem a uma grande Mulher
Matilde Rosa Araújo..


um beijo para ti

CORAÇÃO


Dentro do meu peito, pequenino
Não há só veias, artérias ou sangue.
Dentro do meu peito, abrigado
Existe um coração que vai batendo...


Batendo, contra tudo e contra todos
Batendo e amando tudo, ao redor
Mas batendo e sofrendo a toda a hora
Pois ama e suspira por amor...


E será que vale a pena ele suspirar?
Será que vale tanta pena e tanta dor...
Porque haverá o coração de ser sempre
A peça que dentro de nós mais sente a dor?


Porque haverá o Amor que é tão belo...
De ser o que de pior no mundo existe?
Porque será que com tanta dor
Eternos amantes serão sempre o coração e o amor...


LILI LARANJO

gaivota disse...

estamos mais pobres, ainda
a poeta das crianças...
a tal viagem que todos teremos que percorrer quando chegar o dia!
linda homenagem, elvira
beijinhos

Pitanga Doce disse...

Tão delicada a poesia que te traz de volta, Elvira!


Recebi mail e vou responder, minha amiga. Tenho andando numa roda viva.

beijos em JULHO.

Agulheta disse...

Elvira.Depois de alguma ausência por aqui,falas numa grande escritora que ainda a pouco tempo li e gostei muito.A cultura tem ficado mais pobre,em pouco tempo foram dois,Saramago e Matilde.
Abraço e bfs

BRANCAMAR disse...

Querida Elvira,

Foi bom vir hoje aqui ler este poema lindíssimo de Matilde Rosa Araújo, com uma história tão moralizadora e generosa.

Deixo beijinhos de saudades
Branca

FGV disse...

Lindo poema, bonita homenagem a uma escritora e pedagoga de grande dimensão.
Espero que a Elvira se encontre bem e possa ir contribuindo para o conhecimento e a cultura com as suas intervenções.

Vieira Calado disse...

Bela homenagem

acompanhada pela voz irrepetível do António Variações!


Beijocas

Zé Povinho disse...

Uma homenagem singela a uma escritora que permanecerá pela obra que deixou.
Abraço do Zé

Patri disse...

Vaya, no conocía a esta autora y es una lástima, porque me ha encantado el poema. Voy a buscar algo sobre ella.

Besotesssssssssssss

tulipa disse...

2 posts seguidos com "partidas" para o outro Mundo, aquele que nós desconhecemos por completo.

Lindas as suas homenagens.
Obrigada pela partilha.

Se puder venha refrescar-se com as minhas imagens do rio Sado, nos Momentos Perfeitos.
Veja o hospital onde estive internada, em plena serra da Arrábida (aqui para os nossos lados).

Um abraço.

gaivota disse...

venho para saber de si e de toda a família...
a netinha está grande e linda, verdade?
e a mãe, como vai ela?
beijinhos