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Curado da perna, Manuel volta ao trabalho, mais ou menos na altura em que o namorado da filha foi mobilizado para Angola. Partiu em Julho a bordo do Vera Cruz. Com a partida do rapaz, a filha voltou a viver com os tios em Lisboa, pois lhe facilitava a vida em descanso e em economia. A outra filha continuava a trabalhar em Lisboa, tinha um afilhado de guerra, mas não queria saber de namoros , e o Manuel achava que ela é que tinha juízo, pois era ainda muito nova para arranjar preocupações. O filho continuava a trabalhar na serração, e o sobrinho alistara-se como voluntário na Marinha. António, o cunhado casou nesse Verão, e foi viver para a Baixa da Banheira, uma localidade próxima.
A mulher, está bem, e a vida melhorou substancialmente, mas o Manuel não pára. Continua a cavar, semear, sachar e regar a horta, (ele chamava-lhe quintal). Cai na cama morto de cansaço.
Em Outubro regressam os navios e a vida volta a fervilhar na Seca.
No último fim de semana de Novembro, uma noite de mau tempo, o Manuel ouve na rádio que chove torrencialmente em Lisboa. Inicialmente não se preocupou, caminhava-se para o Inverno era tempo de chuvas. Porém uma hora depois já as notícias eram preocupantes. Noticiavam-se grandes cheias.
Manuel tinha a filha em casa da cunhada, cujo marido era guarda florestal em Monsanto, e viviam ali perto do estádio do Casa Pia, numa casa ao lado da fábrica de gelados Rajá.
Ali a zona não é baixa, em relação à Buraca e Benfica, mas a água que vinha de Montes Claros podia fazer estragos na casa dos cunhados. Ainda assim quando desligou o rádio e adormeceu não lhe passava pela cabeça a tragédia que se abateu sobre Lisboa e arredores, durante a noite e madrugada.
No dia seguinte a rádio e os jornais noticiavam já dezenas de mortos, numero que se foi elevando ao longo do dia até chegar às duas centenas.
Felizmente a cunhada telefonou logo de manhã para o escritório da Seca, assegurando que estavam todos bem.
