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8.10.14

ROSA PARTE II





Durante anos, Rosa não teve outra vida que sair todos os dias para o monte com o rebanho. Nele cresceu e nele nasceram os primeiros sonhos de mulher. E fizera-se uma linda mulher. Tinha um corpo esbelto que as roupas grosseiras não conseguiam esconder, um rosto moreno no qual os enormes olhos negros brilhavam como faróis em noite sem lua. Os cabelos escuros, primorosamente entrançados, chegavam quase à cintura.
As longas horas de solidão passavam rápidas, entretida entre sonhos e desejos. Um dia, um príncipe, encantado ou não, de alguma cidade distante havia de chegar… e nesse dia a sua vida ia mudar.
Naquela tarde, quando recolheu o rebanho, a Ti‟Zefa, convidou-a para vir à noite à desfolhada. Todos os anos era convidada mas, devido ao facto de se levantar antes de o sol nascer para apascentar o rebanho ela nunca lá fora. Naquele dia, sabe-se lá porque tentação do demo, aceitou ir.
A desfolhada era na eira do Sr. António, não muito longe do alpendre da casa. O Sr. António era o patrão da maioria dos habitantes na aldeia. Tinha feito fortuna no Brasil, mas isso fora muitos anos antes de ela nascer. 
Foi uma noite inesquecível. Rapazes e raparigas, alguns de aldeias vizinhas, sentavam-se numa grande roda à volta da eira. No meio desta, uma pequena montanha de espigas que iam descascando com perícia, pondo atrás de si o folhelho, e a seu lado em grandes cestos de vime a maçaroca loira. Mais tarde o folhelho seco seria usado para encher os colchões e as espigas seriam malhadas pelos homens, ali mesmo na eira. De vez em quando, soltavam-se as gargantas em afinadas quadras ao desafio, quase sempre entre um rapaz e uma rapariga, que faziam rir quem os ouvia, ora apoiando um, ora apoiando outro.
Para descansar a garganta, ou quem sabe para germinar nova leva de cantorias, preenchia-se o intervalo com histórias que, de tão antigas, já haviam virado lendas, conhecidas de todos. Mas, como quem conta um conto sempre lhe acrescenta um ponto, as histórias eram sempre diferentes dependendo do narrador.
As histórias masculinas eram quase sempre de bruxas e almas do outro mundo, onde não faltava nunca o próprio demo disfarçado de bela dama com pés de cabra. As mulheres, regra geral, talvez por medo, contavam histórias  mais reais. Gracinhas dos filhos, ou dos sobrinhos, eram sempre bem recebidas, mas às vezes também vinha à baila uma ou outra história de “lobisomens”.
Por vezes, alguém gritava: - milho-rei! E levantava-se exibindo no ar uma espiga de milho quase cor de vinho como se fora um troféu. Os rapazes eram mais exuberantes. As moças, especialmente as solteiras, tentavam esconder o seu entusiasmo que o brilho do olhar denunciava.
Então, como diz a cantiga, cumpria-se a lei e rapaz ou rapariga a quem ela saísse, tinha que percorrer a roda abraçando todos os participantes da desfolhada, novos ou velhos, casados ou solteiros. Era a oportunidade para os namorados trocarem um carinho na frente dos pais, coisa que de outro modo era absolutamente proibida naqueles tempos.


continua na próxima Sexta.