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28.3.14

MARIA - VIII - A SEGUNDA GRAVIDEZ




A segunda gravidez


Os dois anos seguintes foram sem dúvida os mais felizes da vida de Maria. Era jovem  amava intensamente o marido e sentia-se igualmente amada. Compraram casa, com recurso ao crédito é certo, mas não é assim que quase todos fazemos? Compraram carro, em segunda mão que o dinheiro que a madrinha do marido lhes dera pelo casamento não chegou para um carro novo. Maria tinha enfim a sua casa  não vivia com a mãe, sempre aturando as reprimendas  nem tão pouco com a sogra como acontecera com o primeiro casamento.
Sentia-se tão feliz, que nem "os carinhos" que a mãe dispensava ao genro sempre que eles a visitavam lhe faziam mossa.
Elisa nunca fora uma mulher de demonstrar carinho,   de um afago. Mas com a doença e a idade o seu feitio seco acentuara-se. E a pouco e pouco Maria ia espaçando as visitas à mãe.
Dois anos após o casamento, a cunhada de Maria ficou grávida, e simultaneamente a sua colega de trabalho também. A alegria das duas, o entusiasmo e o carinho com que preparavam o enxoval dos bebés, foi-se a pouco e pouco entranhando-lhe no corpo e no espírito, e a sua vontade de ser mãe reapareceu com tanta força que Maria não soube ou não quis resistir-lhe. O marido feliz apoiou  mas aconselhou irem primeiro ao médico dado os antecedentes. Assim fizeram e Maria submeteu-se a todos os exames que o seu médico de família e o ginecologista exigiram. A opinião dos médicos era de que estava tudo bem e nada impedia Maria de vir a ser mãe.
Quando seis meses mais tarde Maria contou à mãe que estava grávida a reação de Elisa foi muito pior do que ela imaginava.
Disse que a filha era uma irresponsável, que bem sabia que não podia ter filhos e que "o retornado lhe dera a volta à cabeça. "Só ele será responsável pelo que acontecer  vai tornar-se num assassino."
Maria não se conteve. Gritou que a mãe estava doida e que nunca mais queria vê-la e saiu disposta a não voltar a casa da mãe.
Os meses passaram  a gravidez decorria normalmente, a primeira ecografia mostrou uma menina  e o casal estava muito feliz.
Pouco antes dos sete meses, Maria sentiu-se mal e foi para o Hospital. Feitos os exames, descobriram que o bebé tinha desenvolvido uma hidrocefalia, não aguentou a pressão craniana e estava a morrer.
Foi feita uma cesariana de urgência, mas nada puderam fazer pelo bebé.
Primeiro Maria ficou em choque. Todos os seus sonhos, a esperança de vir a ser mãe, o desejo de dar ao marido o filho que ele nunca lhe pediu, mas que ela lhe queria dar como complemento do seu amor, foram por água abaixo. E depois do choque inicial veio a depressão.
Na cabecinha doente de Maria  uma ideia tornou-se obsessão. A sua mãe fora a culpada do que aconteceu. Fora praga da mãe que nunca quisera que ela tivesse um filho. A relação amor ódio que sempre tivera pela mãe transformou-se num ódio feroz. Convenceu o marido a vender a casa e a ir morar para longe da mãe. E jurou que nunca mais ia ver a mãe.
Um dia a empregada doméstica da Elisa chegou às 8 da manhã como costume e estranhou ouvir a Televisão da sala. Dirigiu-se lá e encontrou Elisa sentada no sofá a dormir. Pelo menos era o que parecia. Dirigiu-se à cozinha preparou o pequeno-almoço e só quando foi dizer-lhe que estava pronto é que se apercebeu de que Elisa estava morta.
Foi a sepultar num chuvoso dia de Dezembro. Sem a presença da filha que ninguém sabia onde encontrar.


continua



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