Hoje eu vou falar de uma amizade, dos desencontros e reencontros da vida. e a estória conta-se assim.
Nos anos 70 eu gostava como hoje de escrever. E andava embriagada com a possibilidade de escrever o que me ia na alma, sem o perigo de vir a ser presa, pela polícia política. E então desatei a escrever textos a que pretenciosamente naquela altura eu chamava poemas. Textos que enviava para jornais e revistas. Devo dizer que alguns foram publicados. Ora como eu havia outros jovens a escrever para essas mesmas publicações. Entre outros havia uma jovem que escrevia muito bem e com quem desenvolvi uma relação de amizade. Chamava-se, e chama-se São Banza. Nome de guerra claro.
Nos inícios dos anos 80 dois factos completamente antagónicos mudaram a minha vida. Primeiro o meu filho, que nasceu em 1980, e foi uma grande alegria e uma felicidade, de á muito sonhada. Pouco tempo depois minha mãe sofreu o primeiro de três AVCs que a deixaram paraplégica até hoje. A minha vida deu uma volta de 360º. Deixei de escrever, deixei de ler, passei a viver em função destas duas pessoas. A mãe e o filho. Até o marido ficou um pouco descurado. Após 3 anos, eu estava completamente de rastos, e resolvemos contratar uma pessoa para cuidar da minha mãe a tempo inteiro. Meus irmãos estiveram de acordo, e durante alguns anos ficou assim. Eu não fui mais a mesma, em relação á vida anterior. Mais tarde a minha mãe ganhou um pouco de autonomia, passou a comer por mão dela, a dar uns passinhos arrastando a perna esquerda, e como a vida estava difícil, ficámos com empregada só duas manhãs por semana para as limpezas maiores, e voltei a tratar dos meus pais, mantendo-se este programa até hoje.
De vez em quando tinha saudades da São. Não sabia se era viva ou morta, se tinha continuado a escrever ou se como eu tinha deixado de o fazer.
Há uns dias andava a limpar o móvel da sala, e eis que me cai no chão um poema da São. E pensei: E se eu fizesse uma pesquisa na net? será que a encontraria?
Fiz a pesquisa. E encontrei a minha amiga, que precisamente nesse dia tinha iniciado um blog.
Através dele entrei em contacto com ela. Soube que continua a escrever, e que até já publicou um livro que se chama "Ouro Velho"
Estou muito feliz, porque reencontrei uma amiga.
E vou deixá-los com um pequeno poema dela para que possam conhecê-la melhor.
NÃO PENDURES O CORAÇÃO
Não pendures
O coração
No interior
Dos espelhos:
Trás para a rua
O rio que te magoa
Acima dos animais
--Ainda que o sabor
A sal sepulte
A música
Nos cabelos
Dos desterrados
São Banza