O tesouro de Ortigana
Iselda era o nome da bela moura que dominava os campos e as gentes que viviam em Ortigana, no tempo em que, na Península Ibérica os árabes estavam a ser expulsos.
Ainda se vivia em sossego naquelas bandas, nada fazendo prever o despontar da horda cristã que em breve atacaria o ameno sítio de Ortigana, quando a velha Taibuz, segurando com a mão esquelética uma sumarenta laranja, diz a Iselda:
— Vês? Vou abri-la e se for vermelha por dentro... é o presságio maldito.
Taibuz abre a laranja e logo a polpa surge sangrenta, salpicada de inúmeros pontos vermelhos. Então, a velha dá um salto e em grande aflição exclama:
— É a profecia! É o castigo de nunca teres ido a Meca, viagem que todo o crente tem de fazer uma vez na vida, como diz o Profeta.
Não importa! Agora urge verter sangue e, como nos teus campos tens prisioneiros cristãos, manda-os esquartejar e talvez haja alguma salvação.
Horrorizada, Iselda diz:
— Cala-te, velha bruxa! Que mal nos fizeram esses homens para os punir com tal horror?
Entre pragas e esconjuros, a velha Taibuz regressa à sua cabana.
Iselda, preocupada e com trágicos pensamentos, observa do seu terraço o esplendor do poente, que tinge de fogo o céu, e preocupada com a profecia de Taibuz, não dorme nessa noite, presa duma angústia sem fim e dum medo desconhecido que lhe crava no coração uma garra fria e dolorosa.
Então, ao romper da aurora, Iselda ordena que escondam as alfaias de ouro, as joias e os diamantes num grande cofre de ferro e o escondam por debaixo do enorme penedo do Outeiro da Mina.
Quando os últimos servos de Iselda se retiram do local, ouve-se o ressoar da trompa cristã, presságio de chacina e crueldade. E, duas horas depois, está consumada a matança dos indefesos mouros de Iselda, a bela moura de Ortigana.
A matança termina e o bispo dos templários reza missa, exatamente no local onde se encontra enterrado o tesouro de Iselda.
Hoje, na Ortiga, ninguém suspeitará daquilo que sucedeu tão dramaticamente no tempo da doce Iselda e da velha Taibuz, e ninguém saberá dizer onde se encontra o seu tesouro que continua enterrado algures, tal como acusa uma velha lista mourisca de tesouros escondidos, encontrada em Granada.
FONTE:
ORTIGA CONCELHO DE MAÇÃO NO TEMPO E NO ESPAÇO, Leonel Raimundo Mourato, pag. 184
Não sei se aconteceu convosco, mas ontem o blogger não me deixou comentar quase ninguém. Vamos ver se tenho melhor sorte hoje.
