NATAL É SEMPRE QUE UM HOMEM QUISER...
Quando ela entra em casa, fica petrificada.
-Que se passa?! Natal Antecipado?! É a droga, andaste a beber novamente, ou as duas coisas?!
No canto da sala, uma árvore de natal exibe tudo quanto uma árvore de natal anseia exibir: luzes piscando em várias cores, bolinhas de cristal que as refletem e, no cimo, uma enorme estrela cadente da qual parte uma faixa azul, de um azul muito forte, que a atravessa em diagonal de alto abaixo, com duas palavras bordadas a ouro e que brilham como se fossem feitas de estrelas: "HOMEM NOVO".
Por baixo e como que cumprindo também os desejos de qualquer árvore de natal, um chorrilho de caixinhas decoradas sugerindo prendas.
No centro da mesa de jantar, uma enorme vela dourada acesa rodeada de ramos de mirtilo misturados com azevinho e ladeada por outras duas, estas vermelhas e também acesas, encaixadas nos castiçais de casquinha há muito guardados e agora bem limpos e brilhantes.
Tudo plantado sobre uma toalha branca salpicada de doces, frutos secos e raminhos de mirtilo e azevinho, no meio dos quais sobressai um colorido bolo-rei.
Os pratos com falhas e rachas e os talheres pejados de pontos de ferrugem e outras mazelas, são os banais do dia a dia, contrastando com tudo o resto.
A luz trémula das velas acentua a cor ruiva do vinho já servido em dois copos de cristal, novos, que se elevam acima da mesa em perfeito equilíbrio sobre os seus ultrafinos e altos pés.
Ao lado, um enorme ramo de flores destoa dos enfeites de natal.
- Subam... vão para o vosso quarto - diz para os dois filhos que ainda não conseguiram fechar as bocas nem sequer pestanejar com o espanto da visão que têm pela frente.
E, mesmo percebendo que ficam de tocaia no cimo da escada, não aguenta mais.
-Dia de ordenado... droga... bebedeira... dinheiro deitado fora... o que significa isto?! Se vais fazer novamente zaragata, sai ou espera pelo menos que os nossos filhos durmam.
Ele continua quedo, mudo, impávido e sereno, sentado à mesa em frente ao ramo de flores, com um enorme sorriso estampado no rosto, olhos brilhantes que não despegam dos dela e uma lágrima teimosa que persiste em querer fugir ao controlo e deslizar-lhe pela face.
Estranha esta postura, traduzida agora num silêncio que se prolonga até finalmente o quebrar com voz suave e segura, sem perder o sorriso nem o brilho dos olhos.
- Sei que hoje não é Natal... mas é o meu natal...o meu nascimento como homem novo... deixei a droga e a bebida há meses...desde o último Natal... não te apercebeste... não reparaste que nunca mais discutimos...tratei-me e estou curado... hoje marca o dia da minha mudança e a partir daqui tudo vai ser diferente...- enquanto a lágrima se liberta finalmente, escorre face abaixo e lhe salga o canto da boca - chama os miúdos... vamos comemorar o meu natal... porque hoje sim... é natal...
Carlos Alves in Natal em Palavras, Chiado Editora
