12.1.15

BRUNO


                     Reprodução de parte de um afresco de Pisanello




Três horas da madrugada. No quarto às escuras um homem, está sentado na cama, com a cabeça entre as mãos. De vez em quando um ronco surdo quebra o silêncio em que a casa está mergulhada. Bruno sabe que é o pai no quarto ao lado. Desde menino habituou-se a ouvir aquele ronco. É-lhe tão familiar que há muito deixou de o ouvir. Ou pelo menos, não chega para lhe perturbar os pensamentos. Que diga-se em abono da verdade, são bem perturbadores. Bruno é um homem jovem. Completou à pouco vinte e sete anos. Baixo, faltam-lhe alguns centímetros para o metro e sessenta, e isso, sempre foi um pesadelo para ele. Porque apesar do rosto perfeito, ele sempre estivera abaixo da média em altura. Desde a escola, onde os outros meninos, lhe chamavam, anão, ou meia-leca. Ou mesmo quando rejeitavam a sua presença nos jogos do recreio. As crianças podem ser extremamente cruéis sem se darem conta, nem deixarem cair o sorriso.
Bruno foi crescendo sentindo-se rejeitado por uma sociedade que avalia os homens em centímetros e não pelo carácter. Aos 16 anos apaixonou-se por uma colega de escola. Levou todo um período a ensaiar as palavras para se declarar. E ela riu-se dele. Desde esse dia a revolta instalou-se-lhe no peito, e como erva daninha foi devorando tudo de bom que havia nele.
Aos 19 anos abandonou os estudos. Era bom aluno mas perdera todo o interesse pelos estudos. Foi considerado inapto para a tropa.
Por essa altura o irmão mais velho casou-se e foi viver para os arredores. Pouco depois o pai emigrou para a França. Era um bom carpinteiro, arranjara um contrato muito atractivo, e seria a hipótese de conseguir ganhar um bom dinheiro e construir a casinha com que sonhava, já que o terreno lhe deixara um tio em testamento.
Sem o pai e o irmão mais velho, Bruno sentiu-se amputado de parte de si mesmo. Como se precisasse de bengalas para caminhar, e de repente lhas roubassem.
Ia de casa para o trabalho e do trabalho para casa.. Não falava com ninguém, a não ser no trabalho nos assuntos que precisava tratar com os colegas. Não gostava de ler. Os livros retratavam personagens completamente opostos ao que ele era. Os filmes a mesma coisa. Odiava futebol, porque lhe recordava a exclusão que sofrera por parte dos colegas em criança.
Dia após dia, Bruno caía no poço sem fundo da depressão.
A mãe, era boa pessoa, mas não entendia o que se passava com ele. Às vezes dizia-lhe para sair, se divertir, que parecia um velho. Bruno encolhia os ombros e não respondia.
Uns meses atrás o pai terminara o contrato de trabalho em França e regressara cheio de planos para a tal casinha.
Estranhara ver o filho tão macambúzio, mas pensara. ”É muito jovem, tem a vida pela frente, aquilo passa-lhe.” Ainda assim disse-lhe:
-Ó rapaz vê lá se arranjas uma namorada. Olha que na tua idade eu já era vosso pai.
Um mês depois o irmão fora pai, e os pais, viviam “babados” nas gracinhas do neto.
Bruno sente um enorme apelo para a suicídio.Há meses que pensa nisso. A ideia de suicídio, chegou de mansinho,e  quase sem ele dar por isso foi-se insinuando a toda a hora. Pensa que seria o remédio certo para todos os seus medos, as suas angústias.Um ponto final, numa vida sem história. Como se fosse um sinal, no quintal o galo canta. Bruno põe-se de pé e de mansinho, abre a porta da cozinha e sai. No céu estrelado uma redonda e esplendorosa lua derrama para o quintal, uma luz intensa.  Ao fundo a casa das ferramentas. No meio do quintal um pilar de ferro, donde parte um arame que passa pelo terraço por cima da casa de ferramentas. O estendal da roupa. Como um autómato, vai à casa das ferramentas e sai com uma corda e um pequeno banco. Faz um laço numa das pontas, passa-a pelo pescoço, sobe para o banco, amarra bem a outra ponta no pilar de ferro, e depois de tudo pronto, sem hesitação, derruba o banco.
Nesse momento uma nuvem encobre a lua, e a escuridão cai sobre a madrugada. 



Elvira Carvalho


Continuo doente. Amanhã vou de novo ao médico. 

22 comentários:

Edumanes disse...

Não te deixes rebaixar!
porque pode ser cruel
não sendo capaz de enfrentar
pôs fim vida com um cordel.

Ninguém deveria tentar,
contra a própria natureza
como ela a determinar
assim será com certeza!

Mais um belo conto,
da amiga Elvira, com certeza
para comentar estou pronto
que a vida não seja incerteza!

Que assim fosse bom era!
mas ao contrário acontece
quando chegar a primavera
mais o sol quente nos aquece!

Amiga Elvira, que amanhã,
de esperança seja mais um dia
com saúde, felicidade, vida sã
volte do médicos com sorrisos de alegria.

Um abraço.
Eduardo.

vendedor de ilusão disse...

Gostei do Conto, cara amiga, mas deu-me pena o pobre do rapaz - o Bruno. O que faz um amor mal-correspondido?
Bem, quero aproveitar para lhe transmitir otimismo: vá ao médico e no retorno verás que não foi nada, além da normalidade das coisas que a vida nos prepara e que não podemos fugir, em outras palavras, não sofras por antecedência,; tudo há de
se ajeitar...

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, votos que as suas melhoras sejam rápidas.
O conto é certamente uma historia verdadeira, acredito que existe muitos Bruno (s) com depressão a pensar no suicídio.
AG

Isamar disse...

Um conto triste! Os homens não se medem aos palmos e o rapaz não terá tido por perto quem lhe soubesse incutir a auto-estima necessária para ultrapassar o seu complexo. As crianças são cruéis mas as pessoas, embora adultas, não têm muitas vezes sensibilidade nem inteligência para dar ajuda a quem sofre à sua beira. E assim se perdeu uma vida. Boas melhoras, amiga! Beijinhos

Laura Santos disse...

Muito bem escrito!
A demonstração de como o caminho para o suicídio não é feito de repente, mas é um longo trajecto de rejeições, incompreensões, incapacidades de adequação. Nunca é apenas uma coisa.
Pobre, Bruno.
As melhoras, Elvira.
xx

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Que coisa triste para inicio do ano.
Não faço comentários.
São situações que só os próprios alimentam

Rogerio G. V. Pereira disse...

Num mundo mais justo
o Bruno
teria futuro

Vanuza Pantaleão disse...

Querida Elvira, seu conto tão conciso e forte nos coloca de frente com o grave problema da depressão. Quantos Brunos precisam ser sacrificados para que a sociedade se convença de que deve tratar e aceitar as pessoas com deficiências mentais e psicológicas?
Parabéns, amiga!
Um 2015 de paz e muita saúde!!!

Bell disse...

A depressão tem acabado com a vida de muita gente, merece toda atenção e tratamento.
Cada vez mais pessoas frustradas tem se isolado e isso é fácil da gente perceber.

bjokas =)

Arthur Claro disse...

Muito bom esse texto, meus parabéns pela criatividade. Melhoras e cuide bem dessa saúde.

Arthur Claro
http://www.arthur-claro.blogspot.com

Majo disse...

.
~ Como podem os professores estarem atentos a casos destes com
as turmas enormes e sobrecarregados de trabalho burocrático?!
~ Tanto ele como os colegas deveriam ter sido ensinados a brincar
com as suas limitações.

~ Um conto bem organizado e interessante porque trata um caso
que poderia ser verídico, pelo que, tem o mérito de nos alertar.

~ Parabéns pela criatividade e partilha e já é tempo de melhorar!

~ Muito repouso, muito mel ...

~ Muito chá de limão, equinácea, anis estrelado, flores de malva
e sabugueiro, tomilho, eucalipto ... ...

~ Xarope de mel e alho ou de açucar escuro, nabo, cebola e
casquinhas de laranja ... ... ...

~ ~ Beijnhos com votos de rápido restabelecimento. ~ ~

http://www.infoescola.com/plantas/nabo/

Luis Eme disse...

As melhoras, Elvira.

Abraço

Pedro Coimbra disse...

Que não lhe falta a criatividade.
As melhoras

Mariangela disse...

Muito triste Elvira. Infelizmente esse é o mal do século, penso que num coração vazio de Deus...
Beijos e uma ótima semana!
Mariangela

São disse...

Bem escrito, como é hábito.

Um abraço com desejo de rápida recuperação !

Fátima Pereira Stocker disse...

Cara Elvira

Às vezes não sei se é falta de amor ou se é a incapacidade de alguns perceberem que são amados. O que julgo saber é que será a falta de laços que leva pessoas a porem termo à vida.

Gostei muito da concisão e desta viagem pelo interior de uma só personagem.

Espero que melhore depressa.

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Um retrato muito bem pintado duma realidade com a qual é difícil conviver: de como a vida pode ser cruel - e como o é muitas vezes...

Um abraço e as melhoras.
Vitor

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!
Que triste conto... Já lhe disse que gosto de finais felizes? (rs*)
Infelizmente para muitos o suicídio é o caminho mais curto quando a depressão se instala.
Estimo melhoras! Cude-se!!
Beijus,

Lilá(s) disse...

Bem! este final assim violento deixou-me com imensa pena do rapaz!
As melhoras
Bjs

Mariazita disse...

Boa tarde, Elvira
O que me apressou a vir foi o facto de ter lido ontem, num blog qualquer que visitei, que se encontrava doente.
Vim logo que pude para saber da sua saúde.
Já que aqui estava aproveitei para ler este conto (imagino e espero que tenha continuação... pois gostei muito).
No final do post leio que ainda se encontra doente.
Lamento, e gostaria de lhe dizer que, se nalguma coisa eu puder ser útil, disponha.
É certo qua estamos um pouco longe... mas, quando é preciso, do longe se faz perto.
O meu abraço com votos de rápidas MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHASmelhoras.

Zé Povinho disse...

Triste este conto.
Desejo as melhoras.
Abraço do Zé

Marina Fligueira disse...

¡Hola Elvira!!!

Bueno, primero deseo que estés bien! que no sea nada tu dolencia. Por cierto yo estuve con una gripe que me tiró en cama unos cuantos días y aún estoy convaleciente.

Acabo de leer tu texto y, de vedad me siento a penada, porque realmente los niños aunque son niños, pueden ser muy muy crueles. Aquí no muy lejos de donde vivo, de dan bastantes casos de suicidio por acoso escolar de otros menores. Vivimos en un mundo cruel empezando ya por la niñez, aunque no me parece que tengan toda la culpa los más pequeños, sino que debe tener mucho que ver la responsabilidad educativa de los padres.
Me ha encantado leerte.
Te dejo mi felicitación y mi estima.
Un beso y feliz año.