5.9.13

CELESTE



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Mal o despertador tocou, Celeste saltou da cama. Lavou-se a correr e foi para a cozinha. Com gestos completamente automatizados, pegou no isqueiro e acendeu o fogão. Era noite ainda, mas Celeste trabalhava longe. Começou a fazer o almoço, para ela e para o marido. Uma lágrima soltou-se e veio cair no alguidar onde tinha as batatas para descascar. Estava cansada. Cansada daquela vida de miséria física e moral em que se encontrava. Onde tinham ficado os sonhos de menina? -Interrogou-se enquanto acabava de descascar as batatas. Onde a ilusão de um homem bonito, que se apaixonasse por ela e lhe desse uma vida de amor e felicidade?
Juntou duas postas de bacalhau às batatas e o sal , quase sem dar por isso absorta nas suas recordações.
Celeste era uma mulher bonita, sem ser nenhuma beleza estonteante. Era pequena, de pele trigueira, com aquela cor das pessoas que vivem à beira-mar. Tinha o cabelo preto e uns olhos castanhos, que muitas vezes se enchiam de lágrimas. Era uma menina ainda, com toda a inocência dos seus quinze anos quando conheceu aquele que era o seu marido.
Afonso era um homem bonito. Mais velho e mais vivido, não foi difícil apoderar-se do coraçãozinho de menina que batia no peito da Celeste.
Casaram um ano depois. Celeste já carregava no ventre um filho. Ainda menina, teve que aprender a ser mãe, e a cuidar daquele pequeno ser, que Deus lhe quisera enviar.
Depressa se apercebeu que o marido não era o príncipe com quem sonhara. Um dia, tinha o filho três meses, Afonso saiu depois do jantar, deixando-a em casa com o filho, e só regressou depois da meia-noite completamente bêbado.
Como se fora um autómato, Celeste apagou o fogão, escorreu a água ás batatas e dividiu a comida pelos dois termos. Pegou as duas lancheiras, que estavam em cima do aparador, colocou um termo em cada uma, juntou uma carcaça do dia anterior, uma pêra e um garfo. Encheu uma garrafa de meio litro de tinto e colocou numa das lancheiras. Foi ao quarto e acordou o marido. Na volta pôs um pano de cozinha em cada lancheira e fechou-as.
Tirou as chaves que estavam na porta, pegou na carteira, e na lancheira, e atirou um seco até logo, saindo de seguida. Não foi ao quarto despedir-se do marido. Há muito que não trocavam um beijo carinhoso.
Enquanto se dirigia à paragem do autocarro, na cabeça fervilhavam as recordações, dos olhos soltavam-se as lágrimas.
O filho crescera e saíra de casa. Nunca se sentira lá muito bem, nem tivera uma relação de amor com o pai. E assim que se empregou, arranjou uma casita e foi morar sozinho. A sua vida ficara então mais triste, sem a presença do filho.
Já lhe ocorrera pedir o divórcio. Porém o medo e a vergonha sempre a faziam desistir da ideia.
Recordou a primeira vez que o marido lhe batera. E a desculpa , com que teve que encobrir, perante a família, a vergonha e a dor que sentia tanto ou mais do que os hematomas. E os dias sem lhe falar. Dias em que ela lhe gritava o nome de manhã antes de sair de casa, e não se falavam mais.
Como agora que não se falavam desde que há oito dias ele lhe tinha voltado a bater. E tudo por causa do álcool. Mordeu os lábios para abafar um soluço ao lembrar - se daquela noite. Ela já dormia, quando Afonso chegou. E estava tão cansada que nem deu por ele se deitar. Acordou com o peso do marido em cima dela. E aquele bafo nauseabundo de bêbado. Quis empurra-lo, fugir da cama. Mas não conseguiu. Ele era muito mais forte e puxara-lhe os cabelos com violência. Virou o rosto e isso enfureceu mais " a besta". Porque Celeste não reconhecia mais o marido naquele selvagem. Quando consumados os seus intentos se virou para o lado e adormeceu, ela levantou-se e meteu-se debaixo do chuveiro. Esfregou o corpo com raiva, enquanto as lágrimas se misturavam à água. Voltou para a cama, e acomodou-se tentando não tocar no marido. Não dormiu mais. E agora enquanto esperava pelo autocarro, pensava que rumo dar à sua vida. O amor que sentira um dia por aquele homem, já sofrera muitas alterações. Foi raiva, medo, ódio, desprezo e agora era também nojo.
De repente saído do nada, veio-lhe à memória, o poema.
Anda Luísa,
Luísa sobe...
sobe que sobe,
sobe a calçada...
Sacudiu a cabeça, ao mesmo tempo que pensava, se o poeta saberia da sua existência.
É que aquela Luísa era ela...


Este conto já foi postado em Janeiro de 2010. Mas como ultimamente a violência doméstica não para de aumentar, ainda ontem li que um homem de 80 anos matou a mulher,  que já vinha sofrendo de violência doméstica desde o inicio do casamento há 44 anos. Por outro lado são poucos os que me acompanham dessa época, e os resistêntes  se quiserem podem relê-lo.
Uma boa semana para todos

36 comentários:

Maria disse...

Quantas Celestes e Luísas vemos nós nas ruas que escondem a violência de que são vítimas por detrás de um sorriso forçado...
E quando a violência é apenas verbal como se o homem fosse dono de tudo e todos, incluindo filhos?

Um abraço, Elvira

Pena disse...

Estimada e Perfeita Amiga:
Um Post de se lhe tirar o chapéu.
Literáriamente, PERFEITO!
Uma mensagem significativa, apurada, feita pelo seu génio fabuloso e admirável.
Extraordinário. De uma sensibilidade comovente.
É muito linda, sabia?
(Desculpe!)
Ainda estou sem palavras, pela ternura que é sua, justa, franca e sincera.
Quantas mulheres viverão assim?
Excelente!
Beijinhos mil.
Sempre no maior respeito, estima e consideração ENORMES.
Sempre a admirá-la e ao seu talento ímpar de pessoa doce e de bem.
Ainda estou mal recomposto pelo fascínio de si.
Maravilhado por tanto encanto e beleza suas...

pena

Espero que tenha tido um bom Natal.
Maravilhoso 2010!

Dulce disse...

A vida está povoada de Celestes que, amedrontadas, continuam em sua sina de muita humilhação, muito sofrimento... É preciso sempre de muita coragem para recomeçar, mas o que as Celestes não sabem é o quanto vale a pena um recomeço, o quanto vale a pena o ser-se dona da propria vida, o ser-se respeitada, o estar-se em paz consigo mesma...
Beijos

Tite disse...

Celeste ou Luisa, o que desejaríamos mesmo é que ninguém tivesse necessidades económicas para se sujeitarem a viverem torturadas desta maneira.

Agulheta disse...

Amiga Elvira.Quantas Celestes existem em cada canto e com tanto sofrimento.Não tenho andado muito pelo blogues,tenho feito o essencial,tive o filho doente,e agora ando um pouco mal da coluna,não posso estar muito por aqui.
Abraço e tudo de bom Lisa

AFRICA EM POESIA disse...

Elvira
Saudades


RUGIDO

Rugido
Rugido forte
Rugido de Leão...
Leão verde, castanho ou amarelo
Animal...Rei...
Rei da selva...
Rei do Mundo...
Fazes inveja...
Fazes sofrer...
Mas és o nosso símbolo...
Símbolo nobre e corajoso...
E por isso...
Nós sofremos contigo...
Gostamos de ti...
Quando ganhamos...
E quando perdemos...
E no perder...
Ainda te queremos mais...
Pois aí sentimos o carinho...
De te confortar...
De te pagar devagarinho...
E dizer-te baixinho...
Amanhã, vamos ganhar!...

LILI LARANJO

Graça Pereira disse...

Uma história dramática bem contada, num estilo que tu já puseste a tua autenticidade... Infelizmente, será actual ainda por muito tempo...embora a Luisa já suba a calçada com outra dignidade!
Beijo amigo
Graça

Vicktor disse...

Querida Elvira

Um belísimo conto que volta a colocar um grave problema da nossa sociedade e que como muito bem referes mostra tendência para se agravar.

E se é de recriminar fortemente essa situação em que a força bruta se pretende impôr à razão, será também de recriminar a forma como a nossa sociedade fortemente mercantilista nos empurra para um verdadeiro caos social, que virá agravar, ainda mais, a nefasta violência doméstica...

Grato por esta excelente partilha.

Beijinhos.

fj disse...

um tema sempre actualizado...mas a violencia fisica está cada vez mais a ser substituida por outrós métodos bem piores...tanto para a mulher como para o homem.
Um abraço

Votos q consiga continuar no comando...o meu barco já se afundou. Força Amiga Elvira.

Georgia disse...

Acho que o mundo anda cheio de Celestes e lUISAS.

Tudo bem contigo? Como está o frio ai em Portugal?

Bjao

Pitanga Doce disse...

Lágrimas escondidas que andam por aí e nem percebemos. Ainda hoje é assim e sempre o será. Acompanhada à dor há a vergonha, como se a culpa fosse delas. Luisas, Celeste, Margaridas...


Olha, tens mail e vais ficar feliz!

beijos

Celia disse...

Infelizmente o mundo ta cheio de Calestes. É uma pena.
Bom fim de semana. Bj

gaivota disse...

tantas 'luísas' com marcas escondidas... porque a vergonha e a dependência acabam por tomar conta do coração onde outrora habitava o amor... e seguem indiferentes pelas ruas, quem sabe a imaginar o dia em que se libertarão!
bom fim de semana, elvira e as melhoras da Mãe
beijinhos

Mariazita disse...

Um retrato vivo de tantas mulheres que, por vergonha da sociedade (família incluída), se sujeitam aos maus tratos dos maridos e levam uma vida miserável até...até aguentarem, ou até que um dos dois morra.

Como conto está muito bom.

Fim de semana feliz.

Abraço
Mariazita

Brancamar disse...

Bom ter postado de novo este conto Elvira, infelizmente sempre actual.
E com que sensibilidade descreve tão bem o sofrimento humano. É preciso amar muito os outros para os apreender assim em todas as suas vertentes.
Beijinho grande para si.
Espero que os seus dias em volta da mãe estejam melhores e que possa breve ter de novo mais disponibilidade.
Vamos esperar sempre aqui por si.
Beijinhos
Branca

Rosario disse...

Tantas que há por aí...beijinho amoiga e bom domingo...

Rosario disse...

Queria dizer - amiga - e sim agora saiu com o meu nome e não amigona...

amigona avó e a neta princesa disse...

Agora já está certo! Beijos...

Fernanda disse...

Amiga Elvira,

Quantas Luísas há por esse mundo!!!
Não tinha lido ainda este seu magnífico trabalho que realmente alerta para a violência doméstica e o desamor entre muitos casais.

Obrigada por tê-lo feito.

Beijinhos

Filoxera disse...

è sempre boa ideia lembrar que a violência doméstica exist. Sob diversas formas.
um beijo.

Zé Povinho disse...

Um dos resistentes aproveitou para reler
Abraço do Zé

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Gostei muito da tua história, história sempre real na sociedade. Sempre conheci casos de violência doméstica e continuo a conhecer; creio que nunca acabará; para isso era preciso que o ser humano começasse a viver com o coração pleno de humanidade, mas não vejo jeito, amiga. Espero que estejas bem e obrigada por teres trazido este tema; afinal é um problema de todos nós. Um beijinho e até sempre
Emília

Kim disse...

Infelizmente é uma "estória" muito actual.
Pode ser que um dia essa espécie humane se fine.
Abraço Elvira

Kim disse...

Infelizmente é uma "estória" muito actual.
Pode ser que um dia essa espécie humane se fine.
Abraço Elvira

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!
Fez bem em republicar!
Fico pensando no que sente ou leva uma mulher a se deixar maltratar por tanto tempo. Deve ser a vergonha a que se referiu no conto. Quem provoca esse tipo de assédio, faz a sua vítima sentir-se culpada, como se ela própria fosse a provocadora!
Beijus,

Lilá(s) disse...

Os anos passam e infelizmente o conto continua bem actual!
Bjs

Duarte disse...

Por momentos fiquei algo atónito, tinha retrocedido no tempo e encontrava-me no ano 2010. Dá para pensar!
Vamos a esta grande obra que aqui me apresentas e que tão bem narrada a vejo.
Como muitas vezes comento com o nosso amigo Luis, isto dá para livro. Tem qualidade. Até nos mínimos detalhes. Nos giros literários "das pessoas que vivem à beira-mar" entre outros.
Um grande abraço

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Está aqui muito bem relatado, até ao pequeno detalhe, aquilo que será a vida de tanta mulher.Presas do casamento, do medo, e tantas vezes da falta de meios para de novo arriscar.
Por vezes, não basta querer mudar.Sem independência económica, difícil se torna, tantas vezes... transformar o sonho em realidade.

Belo texto!

Abraço amigo, e bom fim de semana.
Vitor

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Vidas duras.
As pessoas não mudam porque não crescem nem querem ser educados.
A violência é uma constante e com estas politicas parece que tendem a piorar.
Que Deus tenha piedade de nós...

Andre Mansim disse...

Olá Elvirinha minha amiga!
Uma bela narrativa pra um problema que infelizmente ainda vai existir por muito tempo.

Menina, não sei porque mas o seu blog não atualizou nos meus favoritos, por isso que eu sumi. Achei que vc não tinha postado nada.
Que coisa engraçada.
Eu tirei ele dos favoritos e coloquei de novo, e mesmo assim não atualizou.

Celina disse...

OI ELVIRA COMO UM MAL CASAMENTO PODE DESTRUIR UMA VIDA, INFELIZMENTE ISTO E GERAL , ONDE MORO É PIOR SE A MULHER SE SEPARA E QUANDO ELE A QUER DE VOLTA, E ELA SOFRIDA RESSABIADA NÃO O ACEITA VOLTAR, É MORTA POR ELE,O SEU CONTO É MUITO BEM ESCRITO, PARABÉNS, UM ABRAÇO CELINA.

Luis Eme disse...

agradeço e retribuo as palavras da Elvira.

que passe um dia feliz com os que mais ama.

abraço

http://odeclinardosonhos.blogspot.com disse...

Minha amiga parabéns por voltares a publicá-lo!
Primeiro porque eu não o tinha lido ainda e em segundo lugar por ser um assunto tão mas tão importante e sério...
Eu própria também já fiz uma postagem sobre este tema...
É com tristeza que assistimos sem nada poder fazer a todos estes casos, dos quais temos conhecimento através dos meios de comunicação social...
Então o nosso pequeno contributo fica aqui nestas pequenas "histórias"...
beijo grande amiga para ti e para todas as Luísas que nos estejam a ler...
anacosta

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

o seu artigo é de uma actualidade chocante. A brutalidade do comportamento humano teima em perseguir-nos. É forçoso denunciá-lo e combatê-lo, como fez a Elvira com o seu modo especial.

Beijos

AC disse...

Elvira,
Quantas Luísas há por aí...!
Fez bem em reeditar, este conto é sempre actual.

Beijo :)

Luciana Leal disse...

Oi, li alguns posts do seu blog e achei muito interessante,com certeza você tem potencial, vi que você é uma pessoa esforçada que só quer falar e ser ouvida na blogosfera, assim como eu. Posso dizer que gostei muito do que li, sei que será um grande blog pois é de fácil entendimento e o conteúdo é gostoso de ler. Sou Luciana Shirley do blog http://coisasecoisasdalu.blogspot.com.br/ se desejar me visite e siga, mas só se gostar, eu vou retribuir seguindo também o seu.