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24.12.23

O COMBOIO DE NATAL



O comboio de Natal


Há muitos, muitos anos, numa terra bem distante, um ferroviário, de nome Vassil, vivia com a filha, Malina, numa pequena estação.

Competia a Vassil zelar pela segurança do caminho-de-ferro que atravessava as montanhas, já que súbitas quedas de rochas podiam bloquear a linha e causar acidentes.

Na tarde da véspera do Dia de Natal, Vassil estava, como de costume, a trabalhar na estação. Em casa, Malina ocupava-se da decoração da árvore e não parava de pensar no presente que o pai lhe prometera: o que seria? Estava desejosa de o ver regressar e corria para a janela constantemente, a ver se o avistava.

De repente, ouviu um ruído semelhante a um trovão. A sua cadelinha, Bella, desatou a ladrar e a arranhar a porta com força.

— Deve ter sido uma queda de rochas — exclamou Malina, horrorizada, correndo para fora de casa.

Com efeito, a linha de caminho-de-ferro encontrava-se bloqueada por uma enorme quantidade de rochas. Depois do estrondo, instalara-se na montanha um profundo silêncio. Malina sentiu-se assustada:

— O comboio expresso vai chegar dentro de meia hora! E agora, o que faço? O que faria o meu pai? Já sei! Tenho de avisar o maquinista.

Pensou durante algum tempo. Depois, correu para casa, acompanhada por Bella, aos saltos. Malina lembrou-se do que o pai lhe tinha dito vezes, vezes sem conta:

— Se a linha estiver bloqueada, coloca-te 400 metros à frente do acidente e acende uma fogueira. Depois, acena sem parar com uma lanterna para avisar o maquinista e dar-lhe tempo para travar.

A menina pegou na árvore de Natal e levou-a consigo. Nem deu pelas decorações que iam caindo pelo chão. Correu pela linha abaixo em direcção ao túnel, arrastando a árvore. Faltavam apenas 15 minutos para a chegada do comboio! O túnel estava escuro e silencioso e o brilho da neve ao fundo mal se via. Malina, porém, continuou a arrastar a árvore, sem largar a lanterna acesa. Em breve saiu do túnel e começou a atravessar a ponte; agora, o expresso far-se-ia ouvir a qualquer momento.

Chegou, por fim, ao local que escolhera. Estava sem fôlego devido à corrida e as suas mãos tremeram quando pegou fogo à árvore. As chamas altas que se ergueram no céu nevado mais pareciam velas gigantes. Malina conseguia ouvir o comboio a aproximar-se cada vez mais. De repente, ei-lo a sair do túnel, envolto em grossas nuvens de fumo.

Foi então que o maquinista viu a fogueira e a lanterna. Puxou imediatamente pelo travão de emergência e desligou a locomotiva. Ouviu-se o som estridente do apito. O enorme comboio tremeu, estremeceu e, lentamente, acabou por se imobilizar. Lá dentro, andava tudo aos tropeções. Os passageiros tombaram dos assentos e as bagagens caíram no chão. O caos instalou-se no vagão-restaurante: empregados, pratos, bolos e peixe viram-se, de repente, atirados ao ar.

Lá fora, rodeada pela neve, Malina permanecia imóvel, a segurar a lanterna acesa e a olhar para o enorme comboio arquejante. O maquinista e o revisor saltaram do comboio e foram ter com a menina.

— Olha, é a Malina! — exclamou o maquinista.

— Há uma enorme queda de rochas em frente do túnel grande e eu tinha de vos avisar — disse Malina.

Os dois homens entreolharam-se com admiração. Em breve, todos no comboio sabiam da queda de rochas e de como a menina os tinha salvado. Alguém disse:

— A pobrezinha deve estar cheia de frio, ali no meio da neve.

E logo Malina foi conduzida ao vagão-restaurante, que estava bem quentinho e cheio de rostos que a fitavam. Percebeu que as pessoas falavam entre si e, de repente, viu-se rodeada de presentes! À entrada da carruagem, o pai observava-a. Vassil segurava nas mãos um cordeirinho branco como neve, com manchinhas negras atrás das orelhas. “Que magnífico presente de Natal!” pensou Malina, correndo para o pai.

— Anda, pai, vamos para casa — pediu. — A Bella deve estar a pensar no que nos terá acontecido.

O maquinista esperava-os lá fora com uma bela árvore de Natal, que tinha ido à floresta cortar para eles. Agora, Malina e o pai já podiam celebrar o Natal como queriam.

Sabem porque conheço esta história?

É que, há muitos anos, quando era criança, passei um Natal nessa mesma estação de comboio, com a minha tia Malina e o meu avô Vassil…

Ivan Gantschev
The Christmas Train
Harmondsworth, Viking Kestrel, 1987
(tradução e adaptação)


FELIZ NATAL

23.12.23

UM PRESENTE DE NATAL QUE NUNCA ESQUECEREI





A vida de uma criança é como um pedaço de papel onde todos aqueles que passam deixam uma marca.

Provérbio chinês

Ele entrou na minha vida há vinte anos, encostado à ombreira da porta da sala 202, onde eu dava aulas ao quinto ano. Usava sapatos de borracha três vezes maiores do que os pés, calças aos quadrados rasgadas nos joelhos.

Daniel fez esta entrada banal na escola de uma aldeia bizarra, ao lado de um lago, conhecida pelo dinheiro antigo, pelas casas coloniais brancas e pelas caixas de correio de latão. Disse-nos que a última escola que frequentara ficava situada num condado vizinho.

— Colhíamos fruta — disse ele, sem rodeios.

Suspeitava de que este rapaz sorridente, amistoso e mal vestido, vindo de uma família de imigrantes, fora atirado para uma jaula de leões do quinto ano, que nunca tinham visto calças rasgadas. Se ele reparou nos risinhos, nada revelou. Não foi rude nem agressivo.

As vinte e cinco crianças do quinto ano olharam para Daniel com desconfiança até ao jogo de bola dessa tarde. Ele deu então a primeira tacada na bola. Isso mereceu-lhe um pouco de respeito dos críticos do vestiário da sala 202.

A seguir foi a vez de Charles. Charles era a criança menos atlética, a mais pesada de todo o quinto ano. Depois do segundo golpe do batedor, no meio de olhos revirados e dos gemidos da turma, Daniel aproximou-se e falou calmamente para as costas arqueadas de Charles.

— Esquece, pá. Tu és capaz.

Charles animou-se, sorriu, endireitou-se e atacou sem demora. Mas, nesse preciso momento, desafiando a ordem social daquela selva onde entrara, Daniel começou a mudar as coisas — e a mudar-nos.

No fim do Outono, todos tínhamos gravitado na sua direcção. Dava-nos todo o tipo de lições. Como atrair um peru selvagem. Como saber se a fruta está madura antes da primeira dentada. Como tratar os outros, mesmo Charles. Principalmente Charles. Nunca usava os nossos nomes, chamava-me «Menina» e aos alunos «rapazes».

No dia anterior às férias do Natal, os alunos traziam sempre presentes à professora. Era um ritual — abrir todas as caixas, observar o perfume caro ou o lenço ou a carteira de cabedal, e agradecer à criança.

Nessa tarde, Daniel aproximou-se da minha secretária e segredou-me ao ouvido:

— As caixas para a mudança chegaram ontem à noite — disse ele, sem emoção. — Partimos amanhã.

Quando percebi a notícia, os meus olhos encheram-se de lágrimas. Ele quebrou o silêncio constrangedor, falando-me da mudança. Então, quando me recompus, tirou uma pedra cinzenta do bolso. Deliberadamente e com gestos decididos, colocou-a suavemente na secretária.

Pressenti que aquilo era algo de extraordinário, mas a minha prática com perfumes e sedas deixara-me lamentavelmente desprevenida para responder.

— É para si — disse ele, fixando os olhos nos meus. — Puxei-lhe o lustro.

Nunca me esqueci dessa manhã.

Passaram anos. Todos os Natais, a minha filha pede que lhe conte esta história. Começa sempre depois de ela pegar na pequena pedra polida que está na minha secretária. Em seguida, aninha-se no meu colo e eu começo. As primeiras palavras da história nunca variam.

— A última vez que vi o Daniel, ele deu-me esta pedra como presente e falou-me das caixas. Isso foi há muito tempo, antes de tu nasceres.

— Agora já é um homem — termino. Juntas, imaginamos onde estará e o que andará a fazer.

— Aposto que é boa pessoa — diz a minha filha.

Depois acrescenta:

— Conta-me o fim da história.

Sei o que ela quer ouvir: a lição de amor e carinho aprendida por uma professora com um rapaz sem nada — e com tudo — para dar. Um rapaz que vivia no meio de caixas. Toco na pedra, recordando.

— Olá, rapaz — digo, suavemente. — Esta é a «Menina». Espero que já não precises das caixas. E feliz Natal, onde quer que estejas.

Linda DeMers Hummel

Jack Canfield; Mark Victor Hansen
Canja de galinha para a alma – O tesouro do Natal
Mem Martins, Lyon Edições, 200

22.12.23

21.12.23

O NATAL DAS BONECAS




O NATAL DAS BONECAS

 A rua tinha luzes de muitas cores que, encavalitadas nos postes, faziam desenhos de Natal. E dançavam ao som duma música cheia de sonoridades leves como algodão. De vez em quando passava um automóvel apressado. Apesar disto, ali da montra onde se encontravam, tudo era frio e distante. Eram duas bonecas que ninguém quis comprar.

— Este é o nosso primeiro Natal…

— E, decerto, o último. Se ninguém nos comprou, vamos ser retiradas da montra e arrumadas, ou entregues à caridade, ou destruídas.

— Assim será, com certeza. A nossa vida depende das leis do mercado.

E foram conversando para passar o tempo, ora filosofando sobre a sua efémera existência, a sua matéria breve, ora imaginando como seria o Natal das pessoas, que só conheciam de ver passar na rua, ou da loja, quando entravam para comprar bonecas.

— Esta é belíssima, elegante, tem um belo vestido e uma cintura fina.

— Esta tem uma expressão de felicidade, um olhar doce.

— Aquela, de cabelos louros, tem no rosto o sol abrasador do verão.

Mesmo para uma boneca, era triste ficar ali na noite de Natal a olhar a solidão da rua. Sobretudo quando imaginavam a alegria das outras bonecas que tinham sido vendidas: a emoção de sair de dentro dos embrulhos, de sentir todas as atenções, de receber um nome, de entrar na família fantástica das crianças.

Todas as pessoas deviam ter uma casa, porque ninguém passava na rua. Todos os meninos deviam ter brinquedos na noite de Natal, porque os brinquedos mais bonitos tinham sido vendidos. Em todo o mundo devia haver alegria e surpresa e magia naquela noite, porque era dessa forma que a imaginavam.

Dentro das casas, o ar estaria povoado de seres fantásticos, que se moviam como se não tivessem peso. Esvoaçavam como se fossem pequenos pássaros transparentes. E isto criava uma grande excitação entre as crianças. Elas próprias se sentiam tão leves que os seus movimentos eram como os movimentos dos astronautas: dançavam, elevavam-se, sorriam, tocavam-se, cantavam melodias afinadíssimas e finas como um fio de cristal.

As bonecas entravam também nesta dança fantástica como se fossem pessoas de verdade. A árvore de Natal transformara-se numa enorme tília de grandes ramos. Havia baloiços pendurados nos ramos. Havia pequeninas casas suspensas nos ramos. As estrelas desciam e poisavam nos ramos. E todos aqueles seres – crianças, anjos, pássaros, estrelas e bonecas – percorriam os ramos, como se fossem caminhos, entravam nas casinhas, dançavam nos baloiços, agarravam-se à cauda das estrelas. Entre os ramos mais distantes construíam passadiços e imaginavam rios por onde às vezes desciam: bebericavam, tomavam um banho, atiravam salpicos de água uns aos outros.

Estavam assim imaginando, quando se aproximou da montra uma figura muitíssimo estranha: tinha umas roupas sujas e gastas, os cabelos sujos e desalinhados, a barba suja e por fazer e nos seus olhos havia fome, desolação e desprezo. Falava sozinho palavras imperceptíveis.

— Esta figura não deve ser de cá…

— Talvez tenha descido de outro planeta, um planeta onde não há Natal, nem casas, nem anjos, nem estrelas, nem amigos…

A rua continuava deserta e o homem continuava ali fitando a montra e falando desordenadamente. De nenhum lado surgia uma sombra, uma voz, um movimento, um pássaro branco, um anjo de tule, um caule de luz. Até a música de algodão pendurada nos postes se tinha já calado.

— Como deve ser triste a vida na terra, na cidade ou no planeta donde veio…

Nada no seu rosto fazia lembrar a alegria: nenhuma expressão, nenhum traço, nenhuma palavra.

De vez em quando estendia o braço, apontando não se sabia o quê, apontando por apontar; e o vento gelado da noite alinhava os seus cabelos na direcção do braço. E nada lá ao longe fazia lembrar a liberdade. Outras vezes ficava estático e imóvel, fitando o infinito. Parecia uma estátua feita do mais cruel abandono; parecia um tronco velho de uma árvore; parecia a coluna de um palácio abandonado. E nada na sua pose fazia lembrar a paz. Outras vezes ajoelhava-se fitando o chão, como se o chão fosse um enigma por decifrar, como se na pedra do chão estivesse gravado um vestígio de Deus; como se Deus se tivesse esquecido, por acaso, de uma marca, um indício, um grão de poeira, um cabelo que fosse.

— Há tempos ouvi falar aqui na loja de um país ou planeta onde as pessoas são desprezadas, onde lhes negam o pão e as obrigam a matar-se umas às outras. Os que as governam são maus e obrigam-nas a viver na rua como animais vadios.

O homem não tirava os olhos da montra como se estivesse a falar com as bonecas, mas utilizando uma linguagem que elas não entendiam. Poisou no chão umas sacas que trazia consigo e começou a esbracejar. Mas nenhum dos seus gestos fazia lembrar a justiça. Ora estava de pé, ora de cócoras, ora se sentava no passeio. Mas sempre desenhando a mesma veemência, a mesma impaciência.

— Talvez queira dizer-nos alguma coisa. Talvez pense que somos pessoas. Talvez procure em nós uma resposta para as suas perguntas.

— Talvez tenha pena de nós e ficasse ali a distrair a nossa solidão.

Passado muito tempo, adormeceu encostado à montra. Um cão que passava remexeu-lhe nas sacas e fugiu abocanhando alguma coisa que não puderam ver o que era. Depois veio outro cão e deitou-se ao calor dos seus pés. Assim ficaram ali pela noite dentro. Era quase de madrugada quando apareceu, não se sabe de onde, uma mulher igualmente desgrenhada, cambaleante e com os olhos cheios de amargura e abandono. Trazia nos braços algo que poderia ser uma criança. Deitou-se também, puxou um dos sacos para a cabeça a fazer de travesseiro e adormeceu.

— São estranhas estas figuras… Como é que no país ou no planeta lá onde moram não há Natal?

— Como devem ser infelizes as pessoas… Um planeta sem Natal devia ser extinto, devia explodir nos ares, ficar desfeito em poeira fina e disperso pela imensidão dos céus.

— Provavelmente foram expulsas e tiveram de caminhar dias e noites até encontrar este recanto.

— Tiveram sorte de não serem assaltadas pelo caminho, nem de morrerem de frio, de sede ou de fome.

— Talvez tenham uma resistência e uma energia maior do que a das pessoas que conhecemos.

— Talvez o seu corpo não sinta frio nem calor. Talvez não precisem de alimento, de carinho, de amizade.

— Pelo menos numa coisa são diferentes de nós, bonecas: precisam de dormir…

— Devem ser alimentados e encorajados durante o sono por um anjo ou outro ser invisível.

Por um tempo deixaram-se destas conjeturas e voltaram a pensar como seria o Natal dentro das casas. Agora todos estariam já a dormir, sonhando com os anjos, os pássaros transparentes, as estrelas; sonhando com um tal Jesus, que não sabiam muito bem quem era, mas devia ser tão maravilhoso que até lhe chamavam Salvador.

Estavam assim imaginando, quando surgiu um carro da polícia. Parou em frente à montra. De dentro saiu um homem com uma farda e deu um pontapé no cão, que ganiu e fugiu a coxear. Depois fez o mesmo ao homem e à mulher e obrigou-os a entrar no carro, o que fizeram ensonados e sem oferecer resistência.

— Sempre não devem ser de cá…

— Talvez as autoridades os tenham levado para analisar e estudar como é a vida no país ou planeta de onde vieram.

— Ah! Já sei porque vieram buscá-los. Não te lembras de ouvir falar do Presépio? Era um homem, uma mulher, uma criança e um animal. Decerto andavam à procura de um presépio raro, e encontraram este e levaram-no para um museu.

— O que é um museu?

— É uma casa muito grande cheia de coisas antigas, raras e valiosas onde também há pessoas com olhos, boca, ouvidos e mãos; mas não vêem, não falam, não ouvem, não cumprimentam ninguém. Chamam-se estátuas.

— E dentro dos museus também há Natal?…


Natal de 1997

Nuno Higino
A mais alta estrela – Sete histórias de Natal
CENATECA, Associação Teatro e Cultura, Marco de Canaveses, 2000

20.12.23

E MANUEL SORRIU



 A noite aproximava-se quando o comboio chegou à cidade alemã de Colónia. Desceram muitos passageiros, entre eles um homem e uma mulher que ficaram parados na plataforma como que perdidos. Fazia frio e eles eram uns desconhecidos na grande cidade.

— Vamos procurar um quarto para passar a noite — disse o homem.

— Está bem — respondeu a mulher — Já não vai demorar muito.

O homem fez com a cabeça um sinal afirmativo.

Procuraram incessantemente por um quarto, mas não encontraram nenhum. O Natal estava próximo e já todos estavam ocupados. A dada altura pareceu-lhes que talvez tivessem encontrado qualquer coisa, mas eram pobres e as pessoas viam que a mulher estava grávida e não os aceitavam. A criança não tardaria a nascer. Por fim, um indivíduo, com uma garrafa de cerveja na mão, indicou-lhes um edifício, dizendo:

— Ali, ao virar a esquina, há um abrigo noturno. Quem não tem casa, pode lá dormir.

Chegados, o gerente olhou pela janela.

— Esta é uma casa só para homens — disse. — Não posso aceitar mulheres.

A jovem assustou-se e amparou o ventre com as duas mãos.

— O que foi? — quis saber o marido.

— As dores do parto começaram. Não posso continuar.

Então o gerente teve pena dela.

— Pronto, entre, então. Ali ao fundo da casa tenho mais um quarto.

Conduziu-os através do dormitório dos homens até um quartinho minúsculo. A criança nasceu ao fim de umas horas. Mais tarde, a mulher mostrou o bebé aos homens do albergue.

— Como é que vai chamar-se? — perguntou um.

— Vai chamar-se Manuel — respondeu a mãe.

Os homens admiraram-se com o nome, mas lembraram-se que a jovem viera de longe.

De repente, todos tinham qualquer coisa que queriam oferecer. Um, depois de vasculhar na mochila, tirou quatro flores de papel que ofereceu à mãe, outro foi buscar uma pele de ovelha quase nova e disse:

— Para o Manuel estar sempre quentinho.

— Espera aí — disse um outro. — Devo ter aqui algures uma manta de lã.

Procurou no seu saco de plástico e encontrou a manta. Era uma peça realmente bonita, felpuda e de um vermelho vivo.

— Para o Manuel — disse.

A esposa do gerente entrou para ver a criança.

— Do que vocês se lembram! — disse ela. — Manta, pele de ovelha e flores de papel! Do que a criança precisa é de fraldas, uns casacos de bebé e calcinhas.

— Clara, as coisas da nossa Elisabete não estão ainda na gaveta? — questionou o marido.

— É verdade, Francisco! — exclamou a mulher. — Como é que eu não me lembrei!

Correu a casa e regressou com fraldas, casaquinhos, calcinhas e com um maravilhoso gorro de bebé.

— Toma, para o teu bebé — disse à mãe.

— Olha! — disse um homem muito velho. — Acho que o Manuel sorriu.

Todos viram.

Um dos homens pegou então no realejo.

— Já não toco há muito tempo — disse. — Espero ainda conseguir.

Ouviram-se uns sons muito delicados e os homens começaram a cantar baixinho. E como o Natal estava próximo, cantaram “Noite Feliz!”.

— Agora chega — disse a mulher do gerente. — A mãe e a criança precisam de sossego.

O gerente murmurou:

— Esquisito! Os fulanos nunca estiveram tão calmos aqui no albergue como hoje!

E em seguida acrescentou:

— Não falta muito e ainda vão arranjar o boi e o burro!

Pouco depois, apagou a luz.

Mas alguns dos homens ainda ficaram acordados muito tempo e voltou-lhes à lembrança o tempo em que tinham sido crianças.

Um disse, já meio a dormir:

— É estranho que tudo isto tenha acontecido aqui. Pouca gente vai acreditar, quando contarmos.

Willi Fährmann
Folget dem Stern
München, OMNIBUS, 2004
(Tradução e adaptação)