31.1.17

LONGA TRAVESSIA - PARTE II


Voltou a poisar o telemóvel no mesmo sítio, olhou a mulher idosa que se encontrava na tela, e por momentos o seu rosto suavizou-se.
Murmurou algo entre dentes. Uma prece ou um reparo? 
Voltou para a sala. Ligou a televisão, e foi mudando de canal. Passados uns minutos, desligou o aparelho. Sentia-se cansado. Que seria que se passava com ele? Nunca tinha sentido aquele peso, aquela sensação de que alguma coisa lhe faltava. Olhou à sua volta. Tudo naquela casa era confortável e bom. Mas de que lhe valia isso. Que lhe valia a fortuna acumulada em tantos anos de lutas e sacrifícios?  Nunca em toda a sua vida pensou em ter uma família. Uma mulher, filhos. Crescera com um único desejo. Ser rico. Por isso lutara tanto. Era ainda um menino quando albergou no seu coração a ambição. E ela cresceu tanto e tão forte, que não deixou nele, lugar para mais nada. 
Amor? Não acreditava no amor. O dinheiro comprava tudo. Até o amor. Ele teve sempre as mulheres que quis, quando lhe apeteceu. Mulheres que davam qualquer coisa, para passarem com ele umas horas ou dias. Talvez tivessem esperanças de algo mais. A ele nunca lhe interessou saber. Do mesmo modo que nunca alguma lhe fez mossa, ou deixou recordação. Bom, para ser sincero, não era bem assim. Houve uma que foi especial.
 Tinha sido há quase dez anos. Ele trabalhava num banco e ela estava na faculdade. Conheceram-se por acaso. Ele saíra do trabalho e dirigia-se para casa. Ela vinha da Universidade e esbarraram um no outro ao dobrar a esquina da rua.  Segurou-a para que não caísse, e ao olharem-se sentiram uma grande atração um pelo outro. Tão grande, que quinze dias depois, ela deixava o quarto que dividia com uma amiga e mudava-se para o seu apartamento. Mais nova do que ele, era uma jovem, séria, estudiosa, e muito bonita. Chamava-se Teresa.
Recordou o seu belo rosto moreno, os doces olhos castanhos, as suas mãos de longos e finos dedos, que se moviam roçando o seu rosto com a suavidade de uma borboleta. A voz doce com que lhe murmurava “Amo-te” ou a loucura com que partilhava os momentos de paixão no leito, ficaram-lhe gravadas na alma. Foi uma época mágica.
Às vezes Mário pensava que nesses dois anos viveu aquilo que mais se aproximaria do amor.
Porém naquela altura estava tão cego pela ambição, que não havia, no seu coração lugar para mais nada.
Limitava-se a juntar tudo o que podia, Trabalhava muitas horas. Não só no banco, como em casa, onde fazia trabalhos de tradução

30.1.17

LONGA TRAVESSIA - PARTE I




O homem abriu a porta, e fechou-a atrás de si com um toque de calcanhar. Carregou no interruptor e o espaço encheu-se de luz. Estava numa pequena sala de entrada, com um único móvel de madeira escura, com tampo de mármore encimado por um quadro a óleo.
Junto à porta um bengaleiro.
 Despiu o casaco e pendurou-o. Depois em passos largos encaminhou-se para a divisão seguinte.
Acendeu a luz, e sem se deter caminhou até um pequeno bar e segurando um copo serviu-se de uma dose de Whisky. De um pequeno frigorifico incrustado e dissimulado no bar, retirou e colocou no copo, duas pedras de gelo.  Com o copo na mão sentou-se num dos brancos sofás que compunham a sala. 
O homem que devia andar perto dos quarenta anos, era alto, e bem constituído. Tinha uns olhos escuros e cabelos pretos, mas nas suas têmporas, apareciam já alguns fios brancos. O rosto, moreno, dir-se-ia ter sido esculpido por um talentoso escultor dada a sua perfeição.
Vestia roupas de corte elegante de bom tecido. Decididamente era um homem rico, e bonito, capaz de ter tudo o que desejava, mas naquele momento, recostado no sofá, de olhos semicerrados e aspeto cansado, não aparentava ser um homem feliz. Pelo contrário, se por ali houvesse um pintor, em busca do tema ideal para retratar a solidão, decerto acharia que tinha encontrado o modelo perfeito.
Apesar do seu porte atlético, parecia demasiado pequeno na grande sala com os dois enormes sofás brancos, a parede atrás de si completamente coberta de livros, o bar do seu lado esquerdo, e o reposteiro que cobria toda a parede da frente possivelmente envidraçada.
Ouviu-se o som de um telemóvel. O homem abriu os olhos e procurou o aparelho. Lembrou que o tinha poisado, no móvel da sala de entrada.
Sem vontade, levantou-se e foi até lá. Atendeu. Era Diogo, o advogado.
-Que se passa? – Perguntou com brusquidão.
- Queria lembrar a hora da reunião amanhã com os donos da “Tudilar”
- Que é às dezassete, já me tinhas dito.- Replicou aborrecido. Espero que tenhas tudo pronto, Quero efetuar a compra amanhã. Estou a pensar viajar de novo em breve.
- Está tudo em ordem. Creio que não vai haver problema. Eles estão com a corda na garganta. É a venda ou a falência.
-.Está bem. Espero-te no meu escritório às quinze para revermos isso.
- Lá estarei, Mário.



Por esmagadora maioria, vocês pediram "Longa Travessia" Espero que gostem e não se percam pelo caminho...



28.1.17

UMA NOITE DE INVERNO - FINAL



Luís sente-se muito cansado.
Não tem irmãos, os seus pais já morreram, não tem filhos. A mulher que foi tudo para ele na vida, companheira, mulher, amiga, amante, está presa algures, numa qualquer masmorra do seu cérebro doente. Sem esperança de se conseguir libertar.  E ele interroga-se: -" E se de súbito me acontece alguma coisa? Afinal estou com setenta e quatro anos. O que vai ser de Alzira? Quem cuidará dela?"
 Ultimamente, passava-lhe muita vez pela cabeça, a ideia de acabar com todo aquele sofrimento. Cada vez mais insistente, mais insidiosa. Afinal, quando a dor se torna insuportável, a ideia da morte afigura-se-nos uma alternativa agradável. E se todos temos que morrer, mais cedo ou mais tarde, porque não abreviar a data?
O programa televisivo chegou ao fim. Alzira estava cheia de sono. Os olhos cerravam-se-lhe, a cabeça pendia-lhe. Mas era incapaz de se levantar. Ou sequer de expressar a vontade de dormir, que a invadia. Na verdade ela era incapaz de fazer qualquer coisa, de expressar qualquer sentimento. Ela nem sequer dá sinal, de saber quem é o marido.
Decidido, levantou-se e  foi à cozinha. Aqueceu um copo de leite e trouxe-o à esposa com o habitual comprimido. Depois levou-a à casa de banho, cuidou dos preparativos de todas as noites antes de a levar para o quarto. 
Aí despiu-a, vestiu-lhe a cueca fralda, enfiou-lhe o pijama e ajudou-a a deitar-se. Ajeitou-lhe a almofada e dirigiu-se à casa de banho. Pôs a roupa da esposa na tulha para lavar, lavou os dentes  passou a esponja no lavatório para tirar algum resquício de pasta de dentes, seguindo o ritual de todas as noites. Vagarosamente, como se tivesse à sua frente toda uma eternidade. Então foi à sala, desligou a televisão, mas em vez de apagar a braseira, como fazia todas as noites antes de encerrar as janelas de vidro, pôs na braseira mais brasas, e levou-a para a entrada do quarto. A noite estava fria, ninguém ia estranhar, quando dessem por falta deles e os encontrassem. Sorriu com tristeza, mas aparentando grande serenidade. Despiu-se, dobrou meticulosamente as calças pelo vinco, e colocou-as na cadeira que estava aos pés da cama. Vestiu as calças do pijama, e desapertou os botões da camisa, tirando-a. Tinha no rosto uma expressão serena, e um novo brilho no olhar. Despia-se devagar, como se sentisse um certo prazer em cada movimento. Vestiu o casaco do pijama. 
Depois, cerrou as janelas de vidro e finalmente deitou-se.
 Puxou para si o corpo da mulher adormecida, e abraçou-a com carinho. Depositou um beijo nos seus cabelos, murmurou um “amo-te” seguido de um “perdoa-me”, dirigiu uma breve oração ao Altíssimo e  fechou os olhos, sentindo-se finalmente em paz.


FIM



Elvira Carvalho

E cá está o episódio final. Como sempre gostaria da vossa opinião sobre o conto.
Amanhã não haverá nova história. Tenho duas novas na calha. 
Vou deixar ao vosso critério, a escolha de qual vou começar na segunda-feira
1 Longa travessia
2 Casamento por procuração. 
Qual será a que querem ler primeiro?


UMA NOITE DE INVERNO - PARTE VI






No início do tratamento, Alzira passou mal. Tinha tonturas, náuseas e até vómitos. Mas o médico tinha avisado que seriam efeitos passageiros e assim foi, já que duraram apenas dez dias.
 O pior é que as melhoras não apareciam e a maldita doença parecia continuar a agravar-se. Ela, já não era a mesma mulher de antes. Os seus olhos tinham perdido o brilho, o corpo ganhou peso, a conversa cessou quase por completo, os movimentos perdiam coordenação. A compaixão que Luís sentia pela esposa, ia substituindo cada vez mais o amor de outrora.
Voltaram ao neurologista, que resolveu combinar com o inibidor de colinesterase a Memantina.
Explicou que a memantina tem como alvo o glutamato, que é um neurotransmissor. Os neurotransmissores ajudam a transmitir as mensagens de uma célula cerebral para a célula seguinte. Cada célula nervosa tem um conjunto específico de receptores, que são responsáveis por receberem o glutamato proveniente da célula vizinha. O glutamato está presente em concentrações mais elevadas nas pessoas que têm Doença de Alzheimer. Quando o glutamato está presente em concentrações elevadas liga-se aos receptores permitindo a entrada excessiva de cálcio nas células cerebrais, o que vai provocar danos nestas. A memantina liga-se aos mesmos receptores, bloqueando o glutamato, o que vai impedir a entrada em demasia de cálcio nas células cerebrais"
Mas também este medicamento era um paliativo, pois não havia qualquer certeza de que pudesse melhorar a situação de Alzira. E a verdade é que não melhorou. Ainda assim na consulta seguinte, o médico disse-lhe que tinha que continuar a fazer o tratamento. Não havia mais nada a fazer, para melhorar, mas o tratamento poderia evitar um sofrimento maior.
E tinham-se passado sete anos desde os primeiros sintomas. Agora ela está totalmente perdida num mundo onde o marido não consegue chegar. Não faz nada sozinha, desde a higiene à alimentação, é ele quem tudo lhe faz. 


Nota:
 Eu sei que esta história é dura. Que mexe convosco. Porque alguns conhecem alguém que é portador da doença, e outros tememos vir a tê-la.  Acredito que seja atualmente a doença mais temida pela humanidade. Esta história é totalmente fictícia. Foi inspirada numa notícia que ouvi onde se dava conta de que a doença aumentava em todo o mundo.
Peço-vos que não deixeis de ler o final. Talvez se surpreendam e descubram que as histórias de amor não deixam de o ser, mesmo quando a vida nos é madrasta.





27.1.17

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE V




Mas Luís sentiu um aperto no coração. Não conhecia ninguém que tivesse aquela doença, mas um amigo tinha-lhe contado que a cunhada dele sofria dela e o que lhe disse era suficiente para aterrorizar qualquer um. Fez perguntas ao médico, quis saber com que podia contar e se podiam fazer alguma coisa para impedir a doença de progredir.
E o neurologista explicou-lhe

"A Doença de Alzheimer é um tipo de demência que provoca uma deterioração global, progressiva e irreversível de diversas funções cognitivas, (memória, atenção, concentração, linguagem, pensamento, entre outras).
Esta deterioração tem como consequências alterações no comportamento, na personalidade e na capacidade funcional da pessoa, dificultando a realização das suas atividades de vida diária.
À medida que as células cerebrais vão sofrendo uma redução, de tamanho e número, formam-se tranças neurofibrilhares no seu interior e placas senis no espaço exterior existente entre elas. Esta situação impossibilita a comunicação dentro do cérebro e danifica as conexões existentes entre as células cerebrais. Estas acabam por morrer e isto traduz-se numa incapacidade de recordar a informação. Deste modo, conforme a Doença de Alzheimer vai afetando as várias áreas cerebrais vão-se perdendo certas funções ou capacidades."

Disse ainda que “ As células nervosas do cérebro comunicam umas com as outras através da libertação de substâncias químicas; que são denominadas por neurotransmissores. A acetilcolina é um neurotransmissor importante para a memória. As pessoas com Doença de Alzheimer têm níveis baixos de acetilcolina no cérebro. As enzimas designadas colinesterases destroem a acetilcolina no cérebro. Se a sua ação for inibida, mais acetilcolina estará disponível para a comunicação entre os neurónios.”
Então para tentar controlar o avanço da doença, ele receitou um inibidor de colinesterase, o  Rivastigmina, informando que o efeito deste medicamento variava muito de pessoa para pessoa, dado que havia pessoas que estabilizavam no ponto atual da doença, outras a progressão tornava-se muito mais lenta, e outras ainda, a doença continuava a sua evolução de destruição como se não tomasse medicação.
E dado que Alzira já tinha problemas de estômago em vez de cápsulas, receitou o medicamento em adesivos transdérmicos, de 5 e 10mg, com a recomendação de que poria todos os dias, um de 5 mg no primeiro mês e ao fim desse tempo passaria para os 10 mg.




26.1.17

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE IV





Depois ele montou uma pequena oficina nas traseiras, e ela, voltou à costura. Como não tinham filhos, todos os anos faziam uma grande viagem. Passeavam sempre que podiam e lhes apetecia e os anos foram passando, mas se a idade, fez com que as labaredas da paixão, se fossem aos poucos transformando num fogo mais brando, eles estavam cada dia mais unidos, mais companheiros, mais cúmplices.
Mas tudo mudara há uns sete anos. Os primeiros sinais foram tão imperceptíveis que quase nem se apercebeu. Uns momentos de ausência que ele até tomou por qualquer preocupação que a mulher tivesse com algum dos seus sobrinhos.
A sua avó dizia que “a quem Deus não dá filhos, o diabo dá sobrinhos” e os da mulher não eram lá grande coisa. Só apareciam a ver a tia, para pedirem dinheiro.
Depois, pequenas perdas de memória, primeiro raras, depois mais frequentes. A princípio nem o médico de família lhe ligou importância. Eram sintomas normais de envelhecimento. Afinal com a idade, toda a gente vai tendo essas pequenas perdas de memória, disse ele. E aconselhou-a, a passar a fazer uma lista das coisas para não se esquecer.
A determinada altura Alzira, tornou-se agressiva. Ele pensou que ela devia ter consciência de que algo de grave lhe estava a acontecer e estava revoltada. 
Perdeu a sua característica doçura, tornou-se agressiva. E chorava com frequência, que ele bem via os seus olhos vermelhos. Uma fase que durou quase três anos. O médico receitou calmantes, ela não os queria tomar, porque a deixavam meio a dormir o dia todo.
Depois, a agressividade foi trocada pela apatia.  Parecia que nada despertava o seu interesse. Progressivamente era como se aos poucos se fosse desligando do mundo que a rodeava.
E só nessa altura, o médico lhes passou uma credencial para um neurologista. Esperou algum tempo pela consulta no hospital, enquanto os sintomas se iam agravando.
Quando finalmente foi à consulta o diagnóstico não podia ter sido mais terrível para Luís, embora ele tivesse a noção de que Alzira já não tinha discernimento para saber o que era ter Alzheimer.



25.1.17

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE III


Foi difícil. Alzira corava quando o marido lhe lançava um olhar mais atrevido, tinha vergonha de se despir na frente dele, quanto mais abandonar a posição de missionário por uma nova experiência, ou ficar de luz acesa na intimidade. Foi preciso muita paciência, muito amor, até que a esposa, percebesse que não há nada proibido, nem vergonhoso entre dois seres que se amam, e entendesse que contrariamente ao que a mãe lhe dizia, o caminho para o coração de um homem pode não ser exatamente o do estômago.
Três anos depois, Luís começava a ficar preocupado, pois apesar de não usarem métodos contraceptivos, e terem uma vida sexual intensa, Alzira não engravidava. Depois de conversarem sobre o assunto, resolveram procurar ajuda médica. Luís pensava que talvez a esposa fosse estéril, e ela temia isso mesmo. Emagreceu, estava triste. Temia perder o marido. Adorava-o. Para ela, era Deus no Céu e o marido na terra. Ele percebeu. E apesar de ansiar por um filho, jurou-lhe que nada mudaria se ela não os pudesse ter. Amava-a de qualquer jeito. Porém depois de todos os exames feitos descobriu que afinal o problema era dele. Sofria de Azoospermia.
Ele não sabia o que isso era, e então o médico explicou-lhe que o seu sémen  não continha espermatozoides. Era como se o seu sémen fosse um ovo sem gema. Impossível ser pai, a não ser que recorresse à adoção. Ficou triste, enraivecido, doente. Sentia-se diminuído.
Foi nessa altura que se apercebeu do verdadeiro amor da esposa e de como ela tinha mudado. Convenceu-o que para ela, era muito mais importante o seu amor, do que o desejo de ter filhos.
Ainda que não fosse mãe, era mulher, e uma mulher que ele fazia muito feliz.  Mas a maior prova de amor, recebeu-a, quando interrogada pelos pais, sobre quando lhes daria um netinho, ela assumiu perante toda a família que era estéril.
Anos mais tarde, pensando que aprendera o suficiente para tentar dar outro rumo à vida, Luís decidiu emigrar. Alzira deixou tudo e foi com ele. Estiveram quinze anos na Suíça. Trabalharam muito, fizeram alguns sacrifícios e regressaram com o dinheiro suficiente para comprarem um terreno e construírem uma bonita casa.
Não era nenhuma mansão, muito menos um palacete, mas era uma bonita casa térrea, com um pequeno terreno à volta que a mulher logo encheu de flores.



24.1.17

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE II





Regressou de Angola decidido a deixar o mar. A procurar outro rumo de vida, um novo futuro. Mas não era fácil. Mal terminara a primária, começou a ir ao mar. O seu pai era pescador, o seu avô fora pescador, e antes do seu avô, todos os homens da família tinham sido pescadores. Alguns tinham ficado por lá, desaparecidos em naufrágios. O mar mandara outros para terra, feitos cadáveres. Ele não queria aquela vida. Não escapara do inferno da guerra para acabar no fundo do mar. Mas que sabia ele fazer mais? Nunca aprendera outra profissão. Porém, acreditava que nunca era tarde para dar uma volta no seu destino.  Arranjou trabalho numa oficina de automóveis. Começou por lavar carros. Quando não tinha que fazer, ia ajudar os mecânicos. Comprou livros para aprender a teoria, a prática ia aprendendo no dia-a-dia. 
Alzira, a mulher era modista. Tinha uma boa clientela, não lhe faltava trabalho. Era uma boa mulher. Asseada, poupada, e trabalhadora. Mas, embora isso não fosse pouca coisa, para ele não chegava. Não que estivesse a pensar separar-se, ou tivesse deixado de amar a mulher. Mas que estava desiludido com a vida matrimonial isso era um facto.
Num tempo, em que a sociedade dizia, que a honra da mulher estava no meio das suas pernas, elas não aprendiam a ser mulheres. Eram educadas para serem boas esposas, e mães. Aprendiam de meninas, a cozinhar, arrumar uma casa, costurar, cuidar dos filhos. As mães diziam às filhas que era sua obrigação “servir” o marido quando lhe dava  a vontade, para que ele não procurasse na rua, o que a mulher não lhe dava em casa. Muitas falavam do sexo como algo sujo, que a mulher só devia consentir, porque era preciso perpetuar a espécie. Alzira fora criada nesses preceitos. A igreja também punha o carimbo de pecado, em tudo que não fosse estritamente necessário para a procriação. Ninguém ensinava à mulher, que o sexo era um complemento do amor, e que o seu corpo tinha os mesmos direitos a desfrutar da intimidade que o dos homens.
Com o homem era diferente. A eles tudo era permitido. Eles estudavam, viajavam, frequentavam bordéis. Aprendiam a tirar todo o prazer que o corpo lhes podia dar. 
Com a mesma tenacidade com que lutava para melhorar a  sua vida profissional, Luís propôs-se ensinar à esposa, tudo o que desejava para tornar a vida intima do casal mais empolgante.



23.1.17

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE I


A noite estava muito fria. Era inverno. Lá fora a temperatura devia rondar os zero graus. A um canto junto à janela, a braseira aquecia a sala. As janelas de vidro, estavam abertas, contrariamente às persianas corridas que apenas deixavam passar uma nesga de ar gelado. Contudo necessário por causa da braseira. Na sala um casal via televisão. A mulher de cabelos grisalhos, e olhar parado, brincava com os dedos como se neles tivesse um qualquer objeto, que mexia e remexia.  Devia ter uns setenta anos,   era de baixa estatura, e figura roliça. O rosto ostentava ainda restos do que teria sido um rosto senão belo, pelo menos muito gracioso. Os olhos que teriam sido brilhantes e vivos, eram verdes, como dois lagos de águas paradas.
Junto dela, o homem ligeiramente mais velho, alto e magro, calvo, de olhos escuros e barba grisalha. A televisão transmitia um programa de variedades, mas o casal parecia nem dar por isso. O homem olhava a mulher com um misto de amor e piedade. Parecia estar pendente dela, enquanto ela se mostrava totalmente ausente.
Tinha-a conhecido nos bancos da escola. Foi a sua primeira namorada, e a última. Porque fora a única mulher que ele amara na vida, além da sua mãe. Casaram-se muito jovens. Ele estava na tropa em Leiria, quando soube que tinha sido destacado para a guerra nas colonias. Foi um choque, e resolveram casar à pressa, porque ele tinha medo de morrer, sem viver o amor que sentia por ela. Tinha vinte e um anos, ela ainda nem fizera dezoito.
Dois dias depois de casados, ele voltou ao quartel donde só saiu na hora do embarque com destino a Angola.
Chegou a Luanda num longínquo dia de Março de mil novecentos e sessenta e sete. Depois de dois dias na cidade, que mal deram para umas cervejas no Rialto e um passeio pela ilha, lá foi com o destacamento para as margens do Lungué-Bungo, no leste de Angola, e por lá ficou vinte e seis meses.  Perdão vinte e cinco, já que teve direito a um mês de férias.
Como ele gostaria de vir à metrópole nesse mês, rever a terra, os amigos, e principalmente a sua amada Alzira. Infelizmente o dinheiro não abundava e teve que se contentar com uma ida até ao Luso, (a cidade mais próxima, do acampamento,  embora ficasse a 200 Kms ), duas ou três idas ao cinemas e uns copos com outros camaradas também de férias.
Às vezes sentia a tentação de se deitar com alguma das belas mulatas que viviam perto do acampamento.
Afogar nuns momentos de prazer as saudades de casa, os medos das emboscadas, a dor da perda de algum companheiro menos afortunado.
Porém, lembrava-se da esposa, e embora não tivesse pretensões de santidade, pensava que umas horas de prazer com uma desconhecida, não substituiriam o amor, nem mitigariam a saudade que tinha da mulher que amava.
E o desejo não era mais forte do que ele, que moldara a sua força na anterior vida de pescador, em bravas lutas com mares encapelados.


21.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XXI


O casal estava sentado na sala, conversando sobre as últimas gracinhas da neta, que passara com eles aquele dia.
Ouviu-se um sinal de mensagem, e Francisca pegou no telemóvel e leu.
“Olá Mãe.
Estou em Paris. Tinhas razão. Às vezes é preciso arriscar.
A fogueira foi ateada. E arde igual dos dois lados. Conta ao pai. Cuida de que não lhe dê algum ataque cardíaco.
Amamos-te. Beijos”
Sorriu feliz enquanto pousava o telemóvel.
Afonso, olhava-a curioso. Não era hábito, a mulher receber mensagens, aquela hora. Teve vontade de perguntar de quem era, mas não o fez.
Francisca, levantou-se. Olhou para ele, como quem vai dizer algo, mas nada disse. Voltou a sentar-se. Brincou com as mãos, num gesto característico de que estava nervosa.
 O marido inquietou-se. A coisa parecia séria. Perguntou suavemente:
-De quem era?
- Da Ana. Está em Paris.
- Em Paris? Mas não disse que ia para Barcelona?
- Mudou de ideias
- Aquela rapariga mata-me. O que é que fez agora, para te deixar tão nervosa?
- Foi em busca da felicidade.
Começava a ficar impaciente.
- Em Paris? Ela arrependeu-se? Não sabia que o Paulo  estava em Paris.
- Não, querido, não é o Paulo. É o Simão
- O Simão? Que Simão? Não conheço... Interrompeu-se abruptamente. O nosso Simão?
- Sim
- Não pode ser. São irmãos!
- Não são. E tu sabe-lo melhor que ninguém.
- Sim, tens razão, mas é que é tudo tão estranho. Eu pensava que eles se amavam como irmãos.
De súbito lembrou-se da conversa que tinha tido com Simão no jardim, aquando da festa de aniversário. Percebeu então, a razão que o tinha afastado de casa e da família durante aqueles anos. Pensou que ele amava Ana, desde sempre. Apesar da estranheza, gostava da ideia. Fá-la-ia feliz, tinha a certeza.  Mas será que Ana, não ia desistir de novo?  
 - Achas que desta vez, vai ser diferente? Que ela não vai desistir de novo? Sabes como tem sido inconstante.
- Tenho a certeza. Desta vez ela não vai desistir.
- O que te dá tanta certeza?
- O coração, - respondeu sorrindo. Depois pegou no telemóvel e escreveu:
“O pai já sabe. O Carmo não caiu. Estamos muito felizes.
Beijos.”

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Casaram dois meses depois, numa manhã de sol, na mesma igreja onde seus pais o tinham feito, há vinte e cinco anos atrás. Diz quem viu, que a noiva estava radiante de felicidade, o noivo muito emocionado, e a restante família muito contente. E que foi uma cerimonia muito bonita.

 Fim

Elvira Carvalho


Esta história chegou ao fim. Gostaria que aqueles que me leram assiduamente, ( e penso que terão sido muito mais do que os que comentaram, a acreditar nas visualizações deste conto, que contava desde o primeiro episódio até ontem com 3215.) me dessem a vossa opinião sobre ele no seu todo.
Uma noite de inverno, será a nova história que vos vou contar de segunda até ao fim do mês. Mais pequena, e muito diferente das duas últimas, mas que espero vos agrade.

BOM FIM DE SEMANA

20.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XX


Durante um longo minuto, o silêncio caiu sobre eles. Por fim Ana falou.
- Eu queria sentir esse amor. Queria que me ensinasses a ser feliz, e a fazer-te feliz. Mas tenho medo Simão. Um medo irracional, que me sufoca.
- E de que tens medo, querida?
- De não ser capaz de corresponder às tuas expectativas. De não conseguir fazer amor contigo, porque de repente me lembro, que somos irmãos.
- Tu sabes que não é verdade, Ana.
 – Por favor, não me interrompas. Deixa que te exponha todos os meus receios. Supõe que não dá certo. Vou perder-te para sempre, magoar os nossos pais, e isso aterroriza-me.
Com imensa ternura, contornou os olhos brilhantes, numa carícia suave.
- Já chega. Não te atormentes. Eu não tenho medo. Acredito em nós, e na força do amor. Vieste ter comigo. Sabes o que sinto e o que desejo. Só tens que decidir se vieste para ficar, e viver este amor que tenho para te oferecer, ou se te vais embora agora, e dás outro rumo à tua vida. 
Era o momento derradeiro, a última hipótese de virar costas e procurar um caminho que lhe parecesse mais seguro, ou fechar os olhos e saltar o abismo em que o medo se transformara. Lembrou-se da mãe. “Às vezes é preciso correr riscos”
Prendeu-lhe o rosto entre as mãos, e  disse baixinho:
- Fico.
Ele engoliu em seco. A emoção era um garrote que lhe sufocava a garganta. Apertou o corpo tremente nos braços, e começou a beijá-la. Lentamente, como quem saboreia um doce, foi-lhe beijando os olhos, e o rosto, até aflorar os lábios femininos. As suas mãos pareciam ter vida própria. Percorriam-lhe os braços, as costas, infiltravam-se sob a blusa, em suaves caricias que a enlouqueciam.
O beijo, tornou-se mais intenso, atrevido e urgente. Simão concentrava toda a sua energia, todo o seu amor,  toda  a sua experiência e conhecimento do corpo feminino, na tarefa única, de a levar pelos secretos labirintos da paixão, até à mágica saída, na apoteose final.
As roupas desapareceram, como por magia, e os corpos livres, uniam-se, na mais famosa dança de todos os tempos, num reconhecimento que vinha desde os primórdios da humanidade.
Mais tarde, apaziguada a loucura que os envolvera, num gesto cheio de ternura, ela tocou com a ponta dos dedos, o rosto masculino. Ele segurou-lhe a mão e beijou-os.  Simão, era um homem experiente, sabia reconhecer quando a mulher que tinha nos braços, estava com ele na entrega sublime do amor. Ana tinha estado. Tinha-se entregado de corpo  e alma. Ele sentiu-o. Mas precisava ouvi-lo da sua boca. Saber até que ponto ela tomara consciência disso, saber se conseguira matar todos os seus fantasmas. 
- E, então, querida?- Perguntou num sussurro 
- Amo-te.
- Sem medos, nem fantasmas?
- Sim
-Tens a certeza?
- Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida. É… incrível. Sei que é um lugar-comum, mas não me ocorre outra maneira de to dizer. Sinto-me a mulher mais feliz do mundo.


19.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XIX


Acabara de fazer a mala. Pegou no telemóvel e fez uma chamada.
- Mãe vou a caminho do aeroporto. Parto dentro de duas horas, com destino a Barcelona. Sabes que há muito tempo desejava visitar esta cidade.
Escutou por momentos:
-A Paris? Para já não. Ainda não me sinto preparada. Quando o fizer digo-te. Vou dando notícias. Dá um beijo a todos por mim.
Desligou, e chamou um táxi.
No dia seguinte, estava em Barcelona, mas deu-se conta que não conseguia elaborar um programa cultural de visitas, pois não conseguia deixar de pensar em Simão.
É como dizia Horácio. "A negra preocupação monta sempre à garupa do cavaleiro".
Percebeu que não lhe adiantava fugir. Precisava descobrir o que se passava com ela. Que sentimentos albergava no seu peito.
 A visita a Barcelona seria de novo adiada. E nessa mesma tarde viajou para Paris. Mas contrariamente ao que tinha dito à mãe, não a avisou.
Tinha a morada de Simão, há dois anos. Tinha-lha dado o seu irmão João, numa altura em que pensava ir a Paris. Depois acabara por desistir da viagem. Não sabia se ainda morava no mesmo sítio, mas não tinha ouvido qualquer comentário sobre mudança. De qualquer modo, havia de encontrá-lo. Em último caso iria à galeria de arte, onde costumava expor as suas obras, e pediria a morada. Decidida, apanhou um táxi no aeroporto, para a morada que tinha.
A porta do prédio, estava aberta, e subiu as escadas até às águas furtadas. Uma tarefa complicada com os saltos altos e a mala de viagem. Sentia-se muito cansada, não sabia se pela longa escadaria, se pelo seu sistema nervoso. O coração batia-lhe tão forte que parecia querer saltar-lhe do peito. Por fim tocou a campainha. Pouco depois a porta abriu-se. Surpresa, alegria, emoção. O rosto dele, era um poema feito de emoções.
Descalço, envergando umas calças de ganga, o tronco nu, Simão passou a mão pelo cabelo murmurando:
- Vieste!
E ela tremente, sem deixar de o olhar:
-Vim.
Então ele baixou-se para apanhar a mala e disse:
- Entra. Desculpa receber-te assim. Não sabia que vinhas, estava a embalar as últimas telas para a exposição. Vêm buscá-las logo de manhã.
Pousou a mala junto à porta, pegou o polo abandonado sobre o sofá e vestiu-o. Depois calçou os ténis.
Reparou que continuava de pé.
- Senta-te. Deves estar cansada.
Pegou-lhe na mão e esse contacto fez com que tremesse da cabeça aos pés. Sentaram-se no sofá. Perguntou suavemente:
- Porque vieste, Ana?
- Porque não conseguia esquecer o teu beijo.
Assim, simples e direta, fizera a confissão. Abraçou-a emocionado. Sem deixar de a fitar disse:
- Sabes que te amo. Amo-te tanto que me dói o peito. O maior sonho da minha vida, é viver a teu lado. Deitar-me contigo, e acordar a teu lado todos os dias da minha vida, é a minha noção de felicidade.
Falava devagar, calmamente como quem fala com uma criança. Não queria assustá-la.


18.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XVIII


Encontrou a mãe na sala, tricotando uma camisola para a neta. Recebeu o beijo que a filha lhe dava e disse.
- Senta-te. Esperava-te de manhã
Não se admirou. A mãe sempre sabia quando algo a atormentava. E também sabia que recorreria a ela com a mesma fé com que o naufrago se agarra à tábua de salvação que lhe estendem.
-Sabes o que se passa?
 Assentiu com a cabeça.
- Sabia-lo há muito tempo?
Voltou a acenar com a cabeça.
- Desde quando mãe?
- Pois não tenho a certeza, quando começou. Eu descobri-o nos seus olhos há cinco anos, na cerimonia de casamento dos teus irmãos.
- Era assim tão evidente?
- Para o coração de uma mãe, sim.
-Sabes que ele não regressa por minha causa?
- Sei.
- E não me odeias?
- Que ideia é essa, Ana? Sabes que sempre te amei como uma filha, muito embora não o sejas. Se tivesse que odiar alguém talvez tivesse de o fazer comigo. Pensas que não me sinto culpada? Se não tivesse fomentado entre vós esse arreigado sentimento de fraternidade, talvez agora estivéssemos todos mais felizes. Simão diz que não o consegues ver, senão como irmão.
- Desde ontem que o tento mãe. Contou-te que me beijou?
Negou com um movimento de cabeça.
 - Pois fê-lo. E esse beijo mexeu comigo como nada nem ninguém o tinha feito até hoje.
Abraçou a mãe e escondeu a cabeça no seu regaço, exatamente como quando era menina, e alguma coisa a preocupava. Francisca estendeu a mão e acariciou a cabeça da filha.
- Tenho medo, mãe.
- Medo de quê, Ana?
-Medo de me deixar embarcar numa ilusão que nos traga muito sofrimento. Ou que afunde a família.
- Pensas que não o amas, ou que podes vir a amá-lo?
-Não sei. O meu coração está desnorteado, a minha cabeça confusa. O Simão foi por mim o mais amado dos irmãos. Por isso estava tão zangada, por achar que já não gostava de mim. Mas nunca até ontem o vi como homem, nem nunca passou pela minha cabeça pensar nele como tal. Muito menos como o homem da minha vida. Mas desde que me beijou, tudo mudou. Imagino-o de mil maneiras, menos como irmão. Se isso é amor, não sei. Sinto-me desorientada.
É natural, Ana. Espera um pouco. O tempo ajuda a clarificar sentimentos.
- Sabes que não quero só alguém que me ame e me proponha casamento. Se fosse só isso, há anos que me tinha casado. Eu quero alguém que partilhe tudo comigo. A sua vida, os seus sonhos,  o seu amor. Que me enlouqueça.  Imagina que isso não acontece com o Simão. Perdi o irmão e não ganhei o amante. Entendes?
Acenou afirmativamente.
- É disso que tenho medo. De me expor, e de expor toda a família ao sofrimento. No fundo, o que eu queria, era viver um amor como o teu com o pai. Nunca conheci ninguém tão feliz como vocês.
- Nem sempre foi assim, Ana.
- Não? – Perguntou admirada.
-Vou contar-te como conheci o teu pai. É um segredo que nunca contei a nenhum dos teus irmãos, e que espero fique entre nós.  
E Francisca, falou do estranho contrato, celebrado com o marido, que estivera por base do seu casamento. 
Ana estava verdadeiramente espantada. Custava-lhe a aceitar a história que a mãe lhe contava.
- Foi muito arriscado. E se nunca se tivessem apaixonado?
 Viveriam uma vida sem amor, só por nossa causa?
- Era uma boa causa. Mas eu amei o teu pai desde o primeiro dia. E tinha a esperança de que um dia me correspondesse. E às vezes, para chegar ao cume da montanha,não basta ter um bom equipamento.   É preciso correr riscos.
Ana olhou a mãe tentando entender a mensagem.



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OBRIGADA





17.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XVII


Ana nem soube bem como chegou a casa. Sentia o corpo tremente como se estivesse cheia de febre. Como era possível que a sua vida se tivesse desmoronado assim em tão pouco tempo. Três meses antes ainda ela era uma rapariga alegre que saía quase todas as noites com um belo homem, que dançava, ria e sonhava com um futuro risonho, mais ou menos próximo. Depois, foi a desilusão, o perceber que Paulo nunca seria o homem da sua vida. Uma nova desilusão a juntar às duas anteriores. E agora, a sua vida tinha-se transformado num caos, um doloroso emaranhado de sentimentos que ela não sabia destrinçar.
Amara o irmão, como não tinha amado mais ninguém na vida. Ele era o seu ídolo, o seu anjo da guarda. Agora o irmão tinha morrido. Sim porque depois do amor que vira nos seus olhos, e sobretudo depois daquele beijo carregado de paixão, era uma imoralidade continuar a pensar nele como irmão.
Mas podia ela matar o irmão por uma ilusão de amor, que não sabia se não passaria disso mesmo?  A verdade é que o beijo, despertara-lhe sensações até aí desconhecidas. Mas isso seria amor? O que ia ser da sua vida daí para a frente? Saber que Simão se mantinha longe do país e da família por culpa dela, fazia-a sentir-se culpada, mas ao mesmo tempo, dava-lhe uma sensação de plenitude, saber que alguém a amava até aquele ponto.
Mas se depois de morto, o irmão, ela não fosse capaz de amar Simão como uma mulher ama o homem da sua vida?
Como poderiam conviver em família? Fosse como fosse sentia-se como um algoz, capaz de acabar com a felicidade de todos.
A meio da tarde do dia seguinte, ainda não tinha saído. Tinha os olhos vermelhos de chorar, estava mal-encarada, não tinha dormido nem comido nada desde o dia anterior.
Mas tinha tomado uma decisão. Tomou banho, carregou um pouco a maquilhagem, para disfarçar as olheiras, e bebeu um copo de leite frio. Pegou nas chaves do carro, na mala e saiu. Ia procurar refúgio junto da mãe. Francisca sempre a compreendera.


                                            

16.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XVI



Simão permaneceu algum tempo no escritório, tentando acalmar-se.
Quando saiu procurou a mãe na sala. Francisca fechou o livro e perguntou:
- Contaste-lhe?
Olhou a mãe, surpreendido. Pensava que tinha conseguido esconder de todos os seu segredo.
- Como sabes?
- Uma mãe, sabe sempre o que vai no coração dum filho. Há muito que sei que é esse amor que te mantem longe de nós. A Ana saiu sem se despedir. Nunca o faz. Devia estar muito transtornada. Disseste-lhe?
- Não foi preciso. Ela leu-o nos meus olhos.
- E…
- Ficou indignada. Disse que é uma infâmia. Que somos irmãos.
- Não é verdade! Ela sabe-o, tal como tu.
- Não é verdade, no sangue. Mas é-o nos sentimentos. Ela sente-o assim no coração. Foi assim que sempre me amou. E contra os sentimentos é impossível lutar, - disse amargurado
-Apesar dos seus vinte e sete anos, Ana é uma menina, que sonha com o amor, mas que ainda não o encontrou. Conheço-a melhor que a qualquer de vós. Não quero que sofra. Sei que seria muito feliz contigo, mas como ela mesmo me disse, “o amor é uma fogueira, que não arde só de um lado” Oxalá consigas esquecê-la. Gostaria de te saber feliz.
Acariciou-lhe o cabelo como fazia quando ele era menino.
- Obrigado mãe. Perdoa-me se te faço sofrer.
- Não te atormentes. A vida às vezes leva-nos por estradas sinuosas. Vai cuidar das tuas coisas. Faltam poucas horas para o teu avião.
Não pode deixar de abraçar a mãe. Admirava-a tanto. Sempre tão serena, tão doce, tão compreensiva.
- Cuida dela mãe. Vou sentir-me melhor se souber que o fazes.
- E não o fiz toda a vida, filho? Vai descansado. E que Deus te ajude.
Ficou a ver o filho afastar-se com uma secreta sensação de culpa. Se eles não tivessem fomentado tanto aquele parentesco. Se os tivessem criado normalmente, sem enfatizarem um laço que não existia na realidade, quem sabe agora não estavam a sofrer daquela maneira.


15.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XV


Em menos tempo do que se leva a escrevê-lo, Simão estava atrás dela, abraçando-a com firmeza. Intensificou-se o choro feminino, o frágil corpo sacudido pelos soluços.
Não chores Ana. Não suporto ver-te chorar, - murmurou atormentado.
Ela voltou-se. Continuava presa nos firmes braços dele. Ergueu o seu rosto choroso, e fitou-o. Ele não desviou o olhar. Durante alguns segundos, que aos dois pareceu uma eternidade, permaneceram assim, olho no olho, deixando que a alma aflorasse ao olhar e desvendasse  todos os seus segredos.
Com suavidade ela afastou-se. Voltou-lhe as costas murmurando.
-Não pode ser. É uma loucura.
- Eu sei, - respondeu ele, a voz rouca pela emoção. Percebes agora porque fui viver para Paris? Porque evito aproximar-me de ti?
Voltou-se. Olhou-o tentando mostrar uma serenidade que não sentia.
- Nunca me passaria pela cabeça. Não pode ser. Estás a confundir tudo e a deixar-me confusa. Somos irmãos. Os melhores irmãos do mundo, lembras-te? Tens que esquecer isso que pensas sentir. Temos que esquecer. Temos que esquecer,- repetiu
- Se repeti-lo vezes sem conta, servisse de alguma coisa, já o tinha esquecido há muito tempo, - disse ele com amargura.
Sentia-se indigno dela, dos pais, dos irmãos. Traíra a confiança de todos albergando aquele sentimento. Não lhe servia de consolo, saber que não estava a cometer um pecado, aquele sentimento não era incestuoso, eles não eram irmãos. Porque na verdade, não importava que o não fossem, se era assim que ela e toda a família o sentiam.
- Dadas as circunstâncias, peço-te que me perdoes a minha insistência. Desejo, que consigas esquecer, e perdoar-me. Não irei logo ao aeroporto. Despeço-me aqui.
Aproximou-se dele como fazia antigamente. Com a mesma confiança, de outrora, ofereceu-lhe o rosto para um breve beijo de despedida.
Como podia fazê-lo, com um homem que estava doido de amor por ela? Como podia ser tão ingénua para não pensar que ele seria incapaz de resistir, a provar as delícias da sua boca, agora que ela tinha descoberto o seu segredo?
Subitamente envolveu-a nos braços, e a sua boca aprisionou a  dela, num beijo intenso, onde deixava bem expresso o amor que lhe atormentava a alma.
Inicialmente recebeu-o surpresa, depois indignou-se.
Empurrou-o com força.
- Como pudeste fazer isto? É infame. Nunca te perdoarei.
E saiu a correr, fechando a porta atrás de si.



14.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR -- PARTE XIV


Aproximou-se perigosamente dele.  
-Que se passa contigo, Simão? O que foi que eu te fiz? Porque me odeias? Desde menina, sempre foste o meu irmão preferido. Aquele em quem confiava de olhos fechados. Depois já adolescente, eras o meu ídolo. Ficava tão feliz quando nos ias buscar à escola e nos trazias para casa. Imaginas o que choramos, eu e Matilde quando foste para Paris? O quanto nos sentimos desamparadas sem ti?
A Marta não. A Marta era muito extrovertida, tinha muitos amigos, uma legião de admiradores, primeiro na escola, depois na Universidade. Ela não deve ter sentido a tua falta. Eu e a Matilde eramos diferentes. Mais tímidas. Tínhamos um certo receio de nos juntarmos aos outros. Tu eras a nossa tábua de salvação. E deixaste-nos à deriva.
As últimas palavras foram como um lamento. Simão amaldiçoou-se em silêncio. Queria consolá-la e não o podia fazer. Se lhe tocasse, não ia resistir. 
Ela revoltou-se. Porque não dizia nada? Sentiu vontade de lhe bater:
- Porquê, Simão? Porque o fizeste? E porque o fazias hoje? Fala pelo amor de Deus. Desde quando começaste a odiar-me?
- Eu não te odeio.- A sua voz soou rouca. Pelo esforço em se conter, ou pela emoção? Ele não sabia. Do que tinha a certeza é que estava utilizando todas as suas forças para resistir à tentação de a apertar nos braços e a beijar até à exaustão.
- Não? Então o que é? Desprezas-me? É isso? Porquê?
“Meu Deus fá-la calar. Não aguento mais” – implorou ele mentalmente
- Não sei de onde tiraste essas ideias absurdas, Ana. Porque não vives a tua vida e me deixas em paz?
- Vês? O Simão de antigamente, nunca me falaria assim.
Ia começar a chorar. E ele não ia conseguir conter-se.
- Por Deus Ana. Deixa de remoer o passado. O tempo não passa incólume por ninguém. Todos mudamos.
Semicerrou os olhos. Não queria que ela surpreendesse aquilo que ele teimava em esconder.
De súbito ela voltou-se para a janela. Estava cansada. E muito triste. A sua vida era um desastre. Precisava de se ausentar rapidamente. Ver outras terras, conhecer outras gentes. Para não sentir aquele terrível vazio no peito.
Deixou escapar um soluço.


13.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XIII







Chegou uns minutos depois.
- Desculpem. Atrasei-me um pouco. Vou só lavar as mãos, volto já.
O almoço decorreu animado. Matilde, queria saber tudo, fazia muitas perguntas.
Simão respondia brincando com a irmã. Os pais sorriam felizes, e Ana comia calada. Sentia-se marginalizada. Porque é que o irmão, não tinha sido assim simpático com ela, como o estava sendo com Matilde?
Acabado o almoço, o pai voltou ao escritório. A irmã, que tinha combinado ir ver uma casa com o noivo, despediu-se dizendo que iria à noite ao aeroporto.
Simão, também se aprestava para sair, quando ela disse:
-Espera. Quero falar contigo.
A empregada, levantava a mesa, e a mãe que se dirigia para a sala, disse.
- Porque não vão para o escritório do pai? Lá podem conversar à vontade.
Nenhum dos dois respondeu, mas Ana encaminhou-se para o escritório, e ele seguiu-a.
Ela entrou e aproximou-se da janela. Ele fechou a porta e apoiou nela as costas.
Semicerrou os olhos. Como era linda. Assim, vista na contraluz da janela, era como uma aparição.
Decorreram uns momentos de espera até que ela se voltou. Estava zangada. Ele sabia. Conhecia-a, como se conhecia a si mesmo. Escondeu as mãos nos bolsos, para que não se desse conta dos punhos cerrados, quando ela se aproximou.
- Vais ficar aí especado sem dizer nada? A porta não cai.
- Eu? – Procurou parecer indiferente. - Estou à espera. Afinal foste tu que quiseste falar comigo.
- Vais-te embora hoje e não me dizias nada. Soube pelo pai. -  queixou-se ela.
- Não tinha que te dizer, Ana. Sabias que ia estar poucos dias, tenho uma exposição na próxima semana. Tens a tua vida, a tua casa, que nem sei onde fica, não ia ao escritório para to comunicar. Além disso, supus que o pai o fizesse.
- Não é desculpa, Simão. Os telefones também servem para as pessoas se comunicarem. E não me venhas dizer que não sabias o número. Qualquer pessoa desta casa, to daria.
Era verdade. Ele sabia que lho devia ter comunicado. Porém preferia partir sem se despedir dela. Era menos doloroso. E ele sabia o quanto lhe doía.  




E hoje é Sexta- Feira ...  13