23.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXVI


Acordou encharcado em suor, com uma tremenda dor na perna esquerda. Cerrou os punhos, grunhindo uma maldição. Sabia que estava a ser vítima da DMF, a dor do membro fantasma. Tinha-a sentido várias vezes ao longo daqueles quase dois anos, primeiro com frequência, depois mais espaçadamente. Como médico sabia que na maioria dos casos a DMF desaparece por volta dos dois anos e ele estava quase a fazer dois anos que tinha sido amputado, daí que pensava já ter passado essa fase.
As picadas eram horríveis, sentia como se lhe estivessem a coser a perna a sangue frio.
Abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira e retirou um comprimido que engoliu mesmo sem água. Depois mergulhou a cabeça na almofada para abafar os gemidos. Maldita dor.
Meia hora depois, a dor cessou. Nuno sentou-se na cama. Dormira nu, as noites estavam quentes, e ele sempre gostara de dormir assim. Pegou nas canadianas e dirigiu-se à casa de banho. Tomou um duche enxugou o corpo, e colocou a prótese que todas as noites tirava, desinfetava e deixava na casa de banho, pronta para usar após o duche matinal 
Habitualmente fazia uma hora de ginásio antes do duche. Para isso tinha montado aparelhos especiais numa das divisões do apartamento, de modo a cumprir um plano de fortalecimento muscular adaptado ao seu caso.
Porém naquele dia, por causa da DMF, não foi ao ginásio. Vestiu-se e saiu. Era sexta-feira, dia de consultas externas, não tinha cirurgias marcadas, só precisaria ir ao bloco se aparecesse alguma urgência. Tomaria o pequeno-almoço, na pastelaria perto do hospital, pois também era à sexta-feira, que a sua mãe chegava logo de manhã para receber o pessoal da empresa de limpezas, que lhe tratava da casa e das roupas, e ele evitava sempre encontrar-se em casa a essa hora.
No dia seguinte fazia quinze dias que literalmente tinha fugido da casa de Luísa, e ainda não tinha tomado uma decisão embora estivesse cheio de saudades dela. 
Pensava que o ser humano é muito complexo. Durante anos ele vivera, amaldiçoando  a jovem e sem qualquer desejo de a reencontrar.
Mas bastou encontrá-la, saber que ela não terminara com ele por ser uma leviana como ele julgara, nem por vontade própria, que o que acontecera tinha sido uma armadilha do destino, na qual os dois acabaram presos, para esquecer todo o rancor acumulado, todo o sofrimento, que o fizera expor-se ao perigo com absoluto desprezo pela vida, e apenas desejar estar junto dela, amá-la e protegê-la.
Mas e ele? Quem o protegeria, da compaixão ou até quem sabe se de sentimento pior, da parte dela, quando visse o seu coto em vez da perna? Não aguentava aquela tensão. Até ao fim do dia, ia tomar uma decisão. A vida não espera, nem se pode adiar.


18 comentários:

noname disse...

A vida não espera, não senhora :-)

Bom sono, Elvira

Pedro Coimbra disse...

Quando se espera e adia ela passa e já não volta.
Um abraço

Lucia Silva disse...

Que seja uma decisão para os dois se acertarem independente do físico, mas vendo e vivenciando o amor.
Abraços!

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
a decisão não vai ser fácil pois foram muitos anos de amargura e agora com o complexo da prótese ainda tornam as coisas mais difíceis , mas talvez seja mesmo ela a dar-lhe a ajuda que ele tanto precisa .
JAFR

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanhar a história!


Isabel Sá
Brilhos da Moda

✿ chica disse...

Que vença o amor nessa decisão! Vamos esperar! bjs, chica

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Já ouvi algumas pessoas se queixarem das dores "DMF" que aqui está muito bem descrita.
Continuação de uma boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
O prazer dos livros

Larissa Santos disse...

Bom dia. O Amor se for verdadeiro vai superar tudo. A via não espera e mais curta que o que se pensa. Estou a gostar.

Hoje o título:-[ Janela aberta, esperança que chega...]

Bjos
Feliz Quinta-Feira

Emília Pinto disse...

Os dois sofreram muito, mas agora vão começar uma vida nova e depressa, pois a vida corre e temos de a acompanhar. Até ao próximo capitulo, Elvira e muita saúde e serenidade. Um beijinho
Emilia

Anete disse...

O amor vencerá, com certeza! Foi importante o tempo que deram p pensar e tomar decisões. Eles são pessoas maduras e devem usar bem o tempo... Sem pressa, mas c urgência... Rsss!

Bjs e boa 5a feira...

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

O amor sempre vence e com certeza o amor vencerá entre os dois.
Bela história amiga Elvira, beijinhos.

Roselia Bezerra disse...

Olá, querida amiga Elvira!
A história está tomando um curso muito bom pois é um problema sério para Nuno mas ele precisa vencer-se...
Estou gostando muito do rumo que você deu ao conto muito interressante...
Seja muito feliz e abençoada!
Bjm de paz e bem
https://espiritual-marazul.blogspot.com.br/

Marina Fligueira disse...

¡Hola Elvira!!!

Nos dejas un capítulo precoso y reflexivo sobre esta interesante historia que tu mente sigue creando tan maravillosamente con una pluma finísima, eres autentica, querida amiga. Pienso que el amor lo puede todo, creo no va a ser problema lo de la pierna, él es quien se hace el problema.
Siento pena de no poder seguirte, ya voy con mucha calma no doy para más, me van quedando atrás muchos blogs amigos que yo aprecio mucho.
Pero así es la vida, los años no perdonan y si le añadimos una salud delicada, menos todavía, reina. Gracias Elvira, por tu buen hacer, es siempre un placer pasar a leerte.

Te dejo mi inmensa gratitud y estima.
Un abrazo y se muy -muy feliz.

Cantinho da Gaiata disse...

Acho que ele vai superar esse complexo, está ao lado da pessoa certa.
Vou bater palmas com o final que já espero ansiosa.
Beijinho

Os olhares da Gracinha! disse...

Conheço alguém com o mesmo problema e não é fácil!!!bj

Ontem é só Memória disse...

Agora fiquei aqui a morrer de curiosidade para saber qual foi a decisão!

Bjxxx
Ontem é só Memória | Facebook | Instagram

Edumanes disse...

Pois então, do que é que ainda estás espera Nuno. Se a vida não espera, apressa-te não percas mais tempo. Porque tempo é dinheiro e o dinheiro custa a ganhar!

Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Rosemildo Sales Furtado disse...

O que se pode fazer hoje, não se deve deixar para amanhã. Faço votos que ambos viajem ao paraíso. Rsrs.

Abraços,

Furtado

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