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21.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO- PARTE XXIV



- Deixa-me pelo menos levar-te a casa. Precisas de um chá ou talvez uma bebida mais forte. Toma, enxuga o rosto, - disse estendendo-lhe um lenço. De seguida pôs o carro a trabalhar e conduziu direto à casa dela. Estacionou junto à porta, e apressou-se a dar a volta ao carro para a ajudar a sair.
- Dá-me a chave. Eu abro a porta.
Procurou a chave na mala e deu-lha. Ele abriu a porta e deu-lhe passagem. Ela acendeu a luz enquanto ele fechava a porta.
- Diz-me onde é a cozinha e vai para a sala. Tenta acalmar-te e lembra-te que não tens que dizer mais nada, a não ser que o queiras fazer.
- Eu sei. Mas preciso de o fazer. A cozinha é por trás dessa porta.
Entrou na sala e sentou-se no sofá. Recostou a cabeça e cerrou os olhos. Pouco depois Nuno entrou na sala com um tabuleiro com duas chávenas de chá, que colocou em cima da mesa. Estendeu-lhe uma chávena e pegando na outra sentou-se no cadeirão em frente.
- O homem com quem meu pai me casou, já era viúvo. A primeira mulher de Álvaro suicidou-se. Dizia-se que sofria de uma depressão grave. O que não era de admirar se como acredito, passou pelo mesmo que eu.
Luísa falava devagar em voz baixa, quase como se estivesse esquecida do homem que estava na sua frente, e falasse consigo mesma.
- Foram quatrocentas e vinte e sete noites de terror, contadas uma a uma, como o condenado, que espera o dia da execução. Estava desesperada, só pensava em morrer. Sabes que me tentei matar? Não aguentava mais e atirei-me do carro em movimento. Penso que foi a minha atitude,  que fez com que Álvaro se descontrolasse, e perdesse o controlo do carro. Ele saiu da faixa em que seguia e foi embater num camião que vinha em direção contrária. Todos os dias agradeço a Deus a sua morte. Tive acompanhamento psicológico durante anos, mas continuei com medo dos homens. Isolei-me e dediquei-me unicamente aos meus alunos. Hoje foi a primeira vez que saí, e não sei porquê, não senti medo de ti, nem sequer quando me abraçaste no carro.
- Meu Deus, Luísa! Quanto sofrimento. Comparado com isso, aquilo  por que  passei não foi nada. Penso que não tens medo de mim, porque o amor que nos uniu, ainda está latente dentro de nós. Meu Deus, como eu gostava de te tomar nos meus braços, e apagar todo esse sofrimento. Mas não posso. Porque ainda há algo que precisas saber. Há dois anos, no Zimbabwe, chamaram-me para ir ver uma criança num musseque nos arredores de Harare, que estava muito mal. e verifiquei que ela tinha que ser operada de urgência pois corria o risco de uma peritonite. Tinha que a levar para o hospital. No Zimbabwe como em Angola existem milhares de minas terrestres espalhadas pelos campos. Nunca cheguei ao hospital com aquela criança. Fui vítima de uma mina. Perdi a perna esquerda até à parte de cima do joelho. Estive mal. Não apenas no físico, mas também psicologicamente. Não conseguia aceitar. A minha perna esquerda não existe. É uma prótese. Só os meus pais o sabem, mas nem eles nunca me viram sem roupa. É por isso que não te posso oferecer um futuro. Não sei viver com a compaixão, não suportaria ver pena nos teus olhos, quando me visses nu.





21 comentários:

A Nossa Travessa disse...

Querida Elvirinhamiga

Mais uma PARTE deste enredo fabuloso. Não te cansas. Não já te disse, mas repito o meu empurrão tens de o transformar numa novela ou num livro. Para a frente é que é o caminho!

Qjs do

Henrique, oleãozão

Berço do Mundo disse...

Chego aqui com a história tão avançada, que me falta tempo para ler tudo o que está para trás, apesar da curiosidade que este episódio suscitou. Duas almas amarguradas não serão perfeitas uma para a outra?
Beijinho para a incansável autora
Ruthia d'O Berço do Mundo

✿ chica disse...

Puxa, enfim ele desabafou!!! E essa prótese não é motivo pra estragar esse provável união! bjs, chica

Lucia Silva disse...

Que maravilha a libertação dos dois, ambos presos aos traumas que a vida os acometeu e com as confissões ficam leves, livres e soltos. É preciso agora aceitarem-se como são e serem conforto um para o outro. Ambos se amam e tem que viver esse amor em plenitude.
Beijos carinhosos!

Gil António disse...

Acredito que o amor vai acabar por vencer
.
Hoje escrevi sobre as mãos enrugadas mas que destribuem carinho e amor.
.
Deixo cumprimentos poéticos.
.

© Piedade Araújo Sol disse...

Surpresa para mim, pensei noutra hipótese no acidente, mas, acho que vão entender-se...
e merecem...
boa continuação!
beijinhos
:)

lis disse...

Os dois sofreram no passado e quem sabe vão querer reabilitar o amor que não viveram integralmente?
Esta ótimo Elvira
Você é fera! escreve muito bem, palavras certas , vocabulário maravilhoso.
Parabéns
Volto e leio qtos perder,ok?
nem sempre dá pra pegar em tempo real.
Beijinho

noname disse...

Que reviravolta. É de mestre, Elvira.

Beijocas

Ailime disse...

Boa noite Elvira,
Mais uma vez estive a colocar a leitura em dia.
Grande história e agora já sabemos o que aconteceu verdadeiramente com os dois.
Muito sofrimento...
Beijinhos,
Ailime

Beatriz Pin disse...

Olá Elvira, gosto moito de ler o que escrives porque asim podo aprender portugués e o tipo de letra facilita moito a lectura. Debería ler todas as tuas historias pero son pouco constante. Agradezo a tua visita. Por aquí hai moita falta de auga tamén pero o río Eo, é un río que nace abundante e nunca recordo que secara. Con tudo, leva menos auga do habitual. Abrazo grande.

aluap Al disse...

A vida dos dois não foi fácil.
Abraço.

José Lopes disse...

As vidas passadas...
Cumps

Cantinho da Gaiata disse...

A chama do amor que eles ainda mantêm acesa, vai ultrapassar todas as barreiras.
Estou a amar esta história, adorava ter todas em papel, para ler de seguida.
Beijinho grande e cá vou esperar pelo próximo post.

Odete Ferreira disse...

Apesar de estar bastante ausente da blogosfera, motivada por urgentes afazeres, cá estou a acompanhar a história. Continuo a gostar imenso.
Bjinho

Pedro Coimbra disse...

Abrir o coração de parte a parte.
Tantas vezes o nosso sofrimento se transforma em ódio e nem sequer dá hipótese ao outro de dizer o que pensa, o que sente, aquilo porque passou.
Um abraço

Roaquim Rosa disse...

Bom dia`
Só tenho uma palavra a dizer .
Maravilhoso
JAFR

Edumanes disse...

Casamentos sem amor. Terão como fim o divórcio. O qual será, portanto, um mal menor. O que não foi o caso de Luísa, só a morte do marido dele a separou!

Tenha um bom dia amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Não imaginei nunca que fosse isso.
Quanta dor!
Esperando a solução, beijinhos.

Gaja Maria disse...

Quanto sofrimento o de ambos....

Gaja Maria disse...

Quanto sofrimento o de ambos....

Rosemildo Sales Furtado disse...

O uso da prótese não faz com que o Nuno deixe de ser homem nem o invalida para o amor.

Abraços,

Furtado