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11.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XI





Entrou em casa, acendeu a luz e fechou a porta atrás de si. Despiu o casaco e jogou-o com displicência para um cadeirão na sala. Foi até ao bar e serviu-se de uma bebida. Sentou-se no sofá e cerrou as pálpebras. Mentalmente reviu a figura de Luísa. Já não era a jovenzinha que ele tanto amara, e que lhe destroçara o coração. Era uma mulher muito bela. O amadurecimento tinha-lhe dado um outro encanto. E apesar da raiva que o consumira durante aqueles dezasseis anos, a sua presença mexeu tanto com ele que teve de fazer um enorme esforço para aparentar uma naturalidade, tão falsa como ela própria. Namoravam há dez meses e ele tinha a certeza do seu amor. Recordou o dia em que a pediu em casamento. Os planos, para um futuro próximo. As juras de amor que ela lhe fizera. Parecia tão sincera, tão apaixonada. Ele estava tão feliz, que deixara de lado o sonho de ir para África. 
Uma semana foi o tempo que durou a sua felicidade. Uma semana e as juras de amor foram quebradas, com a desculpa de que era muito jovem. 
Devastado, com a atitude da mulher que amava, a tal ponto que estava disposto a renunciar aos seus sonhos, com a alma em farrapos, Nuno partiu para o Zimbabwe, onde esteve durante três anos. Foi lá que recebeu a carta do pai que lhe anunciava o casamento de Luísa, com um homem que quase podia ser seu pai. Não tinham passado nem seis meses depois da sua partida. Amaldiçoou-se pela dor que sentia, por não conseguir esquecê-la. E fez uma jura a si próprio, de que mulher alguma no mundo ia voltar a ter poder sobre ele. Nunca mais ia deixar que o seu coração se prendesse.
Integrado numa equipa de Médicos Sem Fronteiras, Nuno tinha chegado a Chitungwiza, nos subúrbios de Harare, a capital do Zimbabwe. Da mesma equipa, fazia parte a doutora, Helena Santos, que desde o início mostrou sentir grande atração por Nuno, apesar de ele nunca ter demonstrado qualquer outro sentimento que não o saudável companheirismo de dois colegas de profissão. Apesar disso Helena mantinha esperança. De tal modo que quando a missão do grupo acabou, e Nuno decidiu ficar, ela fez o mesmo, talvez pensando que acabaria por o conquistar.
Nuno continuou dedicado de corpo e alma às suas crianças, até que farta de esperar, Helena decidiu tomar a iniciativa e declarar-se ao colega. Sentindo-se incapaz de corresponder ao sentimento dela, Nuno despediu-se dos seus pacientes, e rumou ao Bangladesh, onde permaneceu durante dois anos.
Findo esse tempo voltou a África, tendo passado pela República Centro Africana, Eritreia, Burundi,  e Angola, para acabar por voltar ao Zimbabwe,  onde permaneceu até ao maldito acidente.
 Depois foi uma longa batalha consigo mesmo, até vencer as suas limitações e voltar a ser o médico, conhecido e estimado.
O acidente porém causara grande preocupação aos seus pais, que sentindo-se na reta final da existência , temiam não volta a ver o filho.
Daí, que quando se recuperou, se candidatou a um lugar no hospital em Lisboa, e se mudou, para um apartamento não longe da casa dos pais. E quando pensava que tinha enfim encontrado a paz de espírito eis que encontrava Luísa e com ela regressava todo o passado. A dor e o ódio, que o acompanharam ao longo de dezasseis anos.


19 comentários:

✿ chica disse...

Ele terá que vencer as más lembranças... Sigo lendo, torcendo! bjs, chica

António Querido disse...

Amores aos trambolhões, a vida é assim mesmo, feita de altos e baixos!
BOM FIM DE SEMANA.

Tintinaine disse...

Do amor ao ódio só vai um passo. Mas do ódio ao amor também, só depende das circunstâncias.

Fá menor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Olá cara Elvira, que triste relato, a vida tem escadas e curvas e subimos e nos retorcemos é assim que a vida vai! Admiro sua exímia retórica.
Bom fds!
Abraço.

Fá menor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Roaquim Rosa disse...

ainda é muito cedo para adivinhar mas como os dois adoram crianças e dão a vida por elas vão com certeza ter um final feliz com muitas crianças !!!

Fá menor disse...

Porque é que a vida pode, tantas vezes, ser tão tortuosa e madrasta?
Continue. Gabo-lhe muito a inspiração e o talento, não os desperdice.
Bom fim-de-semana!
Beijos.

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Continuo a acompanhar com muito interesse.
Um bom fim-de-semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
Livros-Autografados

A Nossa Travessa disse...

Querida Elvirinhamiga

Na tua "espicialhesta" :-))) és as pihas Duracel: E dura, e dura, e dura, e dura
Qjs do

Henrique, o Leãozão

Porque é o dia de São Martinho vai à NOSSA TRAVESSA: não faltam castanhas...

Os olhares da Gracinha! disse...

A vida nem sempre é fácil!!!
bj

Lucia Silva disse...

Vim me encantar com mais um capítulo dessa linda história e te agradecer pelo carinho nos meus espaços!
Beijos carinhosos!

Zilani Célia disse...

Oi Elvira!
Li o capítulo e me apaixonei
tens o dom, és uma escritora
e tanto.
Abrçs amiga.

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Os dois tem que superar a dor e quem sabe tirar estas lembranças do coração e da memória.
Curiosa! Beijinhos.

Janita disse...

Afinal, Luísa sempre foi obrigada pelo pai a dizer adeus ao amor da sua vida. Foi pena ter obedecido...Não sei como conseguiu coragem de o olhar nos olhos e mentir, mas...

E eis, que chegámos ao ponto em que temos os dois, infelizes, mas com forte possibilidade de recuperar o tempo perdido...basta alguém querer; e querer é poder! :)

Um abraço e bom Domingo

Cantinho da Gaiata disse...

Vai ter que ultrapassar essa dor.
Estou a adorar.
Bjs

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanhar a história!


Isabel Sá
Brilhos da Moda

Rosemildo Sales Furtado disse...

Acredito que quando ele souber a verdade sobre a atitude dela, o ódio desaparecerá dando lugar ao amor que sempre existiu.

Abraços,

Furtado

Andre Mansim disse...

Ele vai ter que recomeçar também, e tentar viver uma vida longe do passado que o assombra.
Estou gostando.