17.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE VI


Calou-se. Eva estava confusa. O coração dizia-lhe que podia confiar nele, a cabeça lembrava-lhe que o coração já a enganara com o marido. E enquanto ela se debatia com estas contradições, ele virou-lhe as costas e começou a caminhar para a porta.
-Espera – disse ela pondo-se de pé. Vem conhecer a casa. Se quiseres podes mudar-te hoje. Enquanto vais buscar as coisas eu arranjo-te o quarto. A casa não é muito grande. Além desta sala, temos aqui uma sala de refeições, e aqui o quarto principal. É o único com casa de banho integrada, - disse enquanto ia abrindo as portas, para lhe mostrar os respetivos aposentos. Esta parte da casa foi mobilada por nós, antes do casamento. Aqui, é uma salinha de leitura, e aqui o quarto de hóspedes. Estas duas divisões, estão como podes ver mobiladas com um estilo diferente. Clássico, móveis mais antigos, já cá estavam, quando o Alfredo herdou a casa. Aqui em frente temos uma casa de banho e aqui é a cozinha. Podes ficar com o quarto principal, eu mudo as minhas coisas para o outro quarto.
-De modo nenhum. Eu fico no segundo quarto. De certeza que posso vir hoje? Não queres mais um dia ou dois para te habituares à ideia?
- Não. Hoje, amanhã, daqui a um mês, a dor não diminui. Além do mais vai ser uma festa para a vizinhança, a tua presença aqui. Parece que estou a ouvir. Há três dias enterrou o marido e já meteu outro lá em casa. Se calhar foi por causa dela que ele se matou.
- Se te preocupas com isso, podes dizer que sou da família.
- De modo algum. Estou de consciência tranquila.
- Bom, como já te disse, não quero prejudicar-te.  Peço-te que me desculpes se te pareci rude.Penso que estavas à beira de um ataque nervoso e pensei que devia tranquilizar-te.  Agrada-me a casa. Os hotéis são muito impessoais. Devo dizer-te que saio todas as noites e regresso tarde. A minha profissão é noturna. Procurarei não fazer barulho, quando entrar.
- Farei o mesmo de manhã, para que possas descansar. Agora vai.
Logo que André saiu, ela foi até ao quarto de hóspedes, e trocou a roupa da cama. Depois levou toalhas limpas para a casa de banho, verificou se estava tudo em ordem, e só depois pegou na carta do marido. Deu-lhe várias voltas, antes de ter coragem de a abrir.
Por fim decidiu-se. E leu.
“Querida Eva:
Deves estar muito zangada comigo. Sei que fui um canalha, traí a tua confiança, destruí os teus sonhos, pus-te em perigo, e não consigo viver com o remorso do que fiz. Não te peço perdão, porque eu próprio não me perdoo. Tenta esquecer que eu existi. Só assim podes ainda ser feliz. Adeus.”
Escondeu o rosto entre as mãos e chorou amargamente.


11 comentários:

Tintinaine disse...

Não correu nada mal o primeiro encontro. A partilha da casa pode levá-los a partilhar o próprio futuro.
Se ele for bom rapaz, talvez isso seja a melhor herança que o defunto lhe deixou.

✿ chica disse...

Espero que ela tenha a sorte ao seu lado agora, já que o marido foi um crápula. Gostando muito e esperando mais e mais...bjs, chica

Roaquim Rosa disse...

boa tarde
perante uma carta tão abstrata de um marido que parece não ter sido o melhor dos maridos e perante esta situação muito ingrata , talvez o futuro lhe reserve uma vida mais promissória !!!
JAFR

esteban lob disse...

Paso simplemente a saludar, Elvira, junto con seguir admirando tu vena de escritora.

Rui disse...

Bom ! ... O tom da "relação" parece ter acalmado,... e a carta não adianta muito !
Aguardemos.

Pedro Coimbra disse...

O vício do jogo dá origem a dramas que é difícil imaginar.
Bfds

Cantinho da Gaiata disse...

Parece que para primeiro encontro em casa não correu nada mal, acho que a partilha do espaço vai levar a mais uma linda história de amor.
Assim o espero amiga Elvira.
Beijinho grande.

Odete Ferreira disse...

Estava à espera de ler uma carta que desse algumas explicações mais plausíveis. Mas, assim, também não condiciona a liberdade narrativa da autora.
Bjinho

Andre Mansim disse...

Mas esse maridão era um safado hein!!!!

redonda disse...

Parece-me que ela deveria era ir embora dali para fora e pronto...

Smareis disse...

Jogos só traz infelicidade e destruição.
Beijos!