13.8.17

DIVIDA DE JOGO - PARTE III




Acordou alguns minutos mais tarde, deitada no sofá da sala de recepção, com a empregada aspergindo-lhe o rosto, e os dois homens de pé, junto do sofá.
- Sente-se melhor? – Perguntou a empregada, para acrescentar de seguida, estendendo-lhe um copo. – Beba um pouco. É água com açúcar, vai fazer-lhe bem.
Aos poucos a cor voltou ao rosto da jovem.
-Sente-se capaz de continuar? – Perguntou então o advogado.
- Sim. Peço desculpa, não costumo perder os sentidos, mas a surpresa, o calor, não sei.
Levantou-se. Ainda sentia um tremor nas pernas, mas tal como Cristo no Calvário, ela também não podia afastar de si aquele cálice. Logo, era urgente que o bebesse até ao fim. Depois que o advogado acabou de ler o documento, Eva perguntou:
- Esse testamento é legal? Quero dizer, não me refiro ao património que o meu marido deixou ao cavalheiro aqui ao lado. Afinal era herança dele, estava no seu direito. Refiro-me à exigência de que terei que viver seis meses com uma pessoa que não conheço de lado nenhum, que não sei se é boa pessoa, ou um bandido da pior espécie. Perdoe-me o senhor, - disse sem se voltar para o homem que estava sentado a seu lado, - a minha intenção não é ofendê-lo, apenas estou a constatar um facto. É legal uma pessoa dispor em testamento da vida de outra, como se fora um objeto?
- É legal, quando uma pessoa é menor, ou sendo maior é incapaz de sobreviver sozinha, o que como é óbvio não é o seu caso. Mas também o é em algumas ocasiões especiais. Por exemplo numa aposta de jogo, as dívidas de jogo só podem ser revogadas pelo tribunal, o que pelo que julgo saber, é o presente caso. E assim sendo terá que contestar o testamento e preparar-se para uma longa batalha judicial.
- Divida de jogo? Quer dizer que o meu marido, jogou e perdeu a casa e a própria esposa ao jogo? – Perguntou verdadeiramente horrorizada.
- Por favor, doutor, se a nossa presença já não é necessária, eu gostaria de esclarecer os factos com esta senhora em particular. – Pela primeira vez, a voz grave e bem modelada do homem a seu lado, fizera-se ouvir.
-Preciso que me assinem estes documentos para fazer os registos. Até porque suponho o senhor Alfredo Magalhães, deve ter deixado tudo explicado na carta que entreguei à dona Eva, no início desta reunião.
Assinaram os documentos, e depois de cumprimentarem o advogado, saíram do escritório. Já no elevador, ele disse:
- Não sei se tem carro ou veio de transporte público. Gostaria que me permitisse acompanhá-la a casa. Não me parece que esteja em condições de andar sozinha na rua, muito menos de conduzir um veículo.
- Que eu lhe permitisse acompanhar-me? – Perguntou com ironia. – Não estará a inverter os papéis? Afinal a casa é sua, não é verdade?

12 comentários:

Isa Sá disse...

A passar para acompanhar a história e desejar um bom domingo!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Cantinho da Gaiata disse...

Uii, estou a amar.
Acho que vai haver uma paixão.
BJ e bom domingo.

Roaquim Rosa disse...

bom dia
gostei muito particularmente da expressão .
Não podia afastar de si aquele cálice. acho que vai ter muito a ver com esta história .
continuação de um bom domingo.
JAFR

✿ chica disse...

Puxa, estarrecida junto com a pobre mulher .... Gostando muito! bjs, chica

Odete Ferreira disse...

Mas que interessante história a narradora nos apresenta!
Seguindo...
Bjinho

Edumanes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Edumanes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Edumanes disse...

Às fezes há males quem vêm por bem. Pode ser que esse tenha sido um deles? Alfredo viciado no jogo, perdeu a casa e a mulher. Sem sorte, a morte lhe bateu à porta e para o outro mundo o levou!

Tenha um bom dia de domingo, e continuação de boas férias amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Tintinaine disse...

Venha o próximo que este já está comido e digerido!

Ana S. disse...

É uma situação estranha mas pode sair dai alguma coisa boa.
Boa semana!

Pedro Coimbra disse...

Para quem vive em Macau, terra de Jogo, não é assim tão surpreendente.
Boa semana

Andre Mansim disse...

Hahahahahaha grande idéia essa desse conto Elvirinha!