24.7.17

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XIV


Fernando entrou no quarto, abriu o armário, e encontrou um pijama, um robe e uns chinelos. Despiu-se, vestiu o pijama e o robe, calçou os chinelos que lhe deixavam parte do calcanhar de fora, e foi à casa de banho que a dona da casa lhe tinha indicado para utilizar. Lá encontrou, um copo, uma pasta de dentes, uma escova, espuma para a barba, loção e lâminas de barbear. Via-se que a sua anfitriã, tinha cuidado de todos os pormenores para lhe proporcionar uma estadia condigna. Como se fora o seu anjo da guarda. E de certo modo era, pois se ali estava vivo, devia-o a ela. Quem sabe quantos carros teriam passado antes dela, sem parar? Podia ser uma emboscada. E ela fizera-o, pondo em risco a sua segurança e a do próprio filho. E continuava a fazê-lo trazendo-o para o remanso do seu lar. Era uma mulher extraordinária. Uma mulher que ele gostaria de ter nos braços, de beijar e de levar pelos caminhos do amor. Mas ele não podia permitir-se qualquer veleidade. A última coisa que Helena precisava era de uma aventura. Era mãe. O que precisava era de um homem que assumisse o seu filho e a ajudasse a criá-lo. Coisa que ele não poderia fazer. Como poderia pensar nisso se ele nem sequer sabia o próprio nome? Não. Decididamente tinha que afastar aquelas ideias da cabeça. E deixar de pensar em cenas eróticas com a doutora. Terminou de lavar os dentes e olhou a sua imagem no espelho com uma certa apreensão. O que haveria para além daquela aparência de homem jovem e bonito? Era quase meia-noite, quando se deitou. Mas ainda não tinha sono. Pegou no livro que trouxera da sala e leu duas páginas. Voltou a fechá-lo, preso de um grande desassossego. Apagou a luz, e fechou os olhos, tentando conciliar o sono.
Fernando entrou no átrio do monumental teatro, em cima da hora, e dirigiu-se apressado para a sala, onde ia decorrer o concerto. Não sabia exatamente onde estava, mas a enorme sala estava completamente cheia. No palco vazio estava um piano. De súbito as luzes apagaram-se sem ele ter encontrado ainda o seu lugar. Ficou de pé encostado à parede. Procuraria o seu lugar no intervalo. Um homem alto entrou no palco, e dirigiu-se para o piano. E de súbito uma música elevou-se no espaço. Levou apenas alguns segundos a identificá-la. Tratava-se da Sinfonia nº 40 de Mozart. Apesar de estar de pé, o que era um tanto incómodo, escutou com muita atenção. A interpretação era muito boa. A música foi-se apoderando dele, e sentiu-se transportado para um mundo totalmente diferente, cheio de música e cor. Quando a música terminou, a plateia aplaudiu de pé durante largos minutos. Então o pianista pôs-se de pé e virou-se para o público para agradecer, fazendo com que a assistência silenciasse de espanto.
O pianista não tinha rosto.


17 comentários:

Tintinaine disse...

Que foi isso, Elvira?
Um sonho?
Vai ser a música a devolver-lhe a memória?
O melhor é esperar para ver.
Continuação de boas férias algarvias!

António Querido disse...

Está muito interessante, o homem vai bater novamente com a cabeça e vai-se lembrar de todo o seu passado e aí vai ser bom, ou mau para a médica.
O meu abraço

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Está a ficar interessante.
Um abraço e boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
O prazer dos livros

✿ chica disse...

Acompanhando com atenção cada detalhe da trama e está muito boa! bjs,chica

Edumanes disse...

Fernando, a sonhar ou acordado,
já estará recuperando a memória
e porque eu continuo interessado
em saber como termina essa história!

Seja qual for o resultado,
não sei, continuo a pensar
pela doutora sendo bem amado
para do seu passado se lembrar

Continuação de boas férias amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Bell disse...

Que mistério!!!

bjokas =)

lourdes disse...

Mistério...
Cada vez mais intrigante.
Será que ele é um pianista famoso?
Fico à espera de saber mais.
Bjs.

Os olhares da Gracinha! disse...

Elvira...a pouco e pouco vou retomando a leitura dos seus contos!!!
Já vi que há mistério!
Bj

esteban lob disse...

Me habria imaginado cualquier cosa Elvira, menos la falta de rostro de ese protagonista de la historia.

Saludos australes.

Zé Povinho disse...

Onde a fantasia nos leva e os misteriosos caminhos do destino...
Abraço do Zé

Anete disse...

Grande mistério neste capítulo... Não faço ideia do que vem pela frente...
Estranho a doutora colocá-lo dentro de casa... Parece que gosta de riscos e aventuras... Rsss!

Boas férias, Elvira! Beijinho

Cantinho da Gaiata disse...

Mistério, agora ficou confuso, um sonho? Pianista sem rosto? Será que se vai recordar de alguma coisa?
Esperando para ver.
Bjs

Sandra disse...

O que virá a seguir? Vou esperar para ver o desenrolar da história...cumprimentos e feliz semana.

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
esta historia é sem duvida uma das mais ansiosas das que por aqui tem passado.
JAFR

redonda disse...

Será que ele é pianista?

Rosemildo Sales Furtado disse...

Teatro, piano, concerto, sinfonia nº 40 de Mozart, quem sabe, a mente começou a reagir? Gostando e aguardando os acontecimentos.

Abraços,

Furtado

aluap Al disse...

Terei acertado? Ele é o pianista.