19.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXIX


-Senta-te. Vou contar-te uma estória. Outrora dois jovens, enamoraram-se e casaram. Ela era professora, ele publicitário. Ele era jovem e estava muito apaixonado. Ela tinha dois amores. Estava tão apaixonada por ele, como pela sua carreira. E a vida de professora não é fácil no nosso país. Durante anos foi colocada em escolas longe de casa, passava a semana toda fora, só vinha a casa aos fins-de-semana, ou de quinze em quinze dias. Ele sentia a solidão, desiludia-se, não era aquela a vida com que tinha sonhado. O amor arrefecia e começava a questionar-se. Não estava preparado para viver uma vida inteira assim. Então decidiu que era tempo de discutir a relação e decidir o futuro. Conversaram, ele não queria continuar a viver daquela maneira, impôs condições, e ela compreendeu as suas razões. Deixou o ensino oficial, e aceitou ser professora no ensino particular num colégio perto de casa. Pouco tempo depois ficou grávida. Teve uma menina. Durante quase dois anos esteve sem trabalhar, mas não era a mesma. Definhava dia a dia. Ela não sabia viver longe das aulas e do ensino. Penso que se tivesse de escolher entre a profissão e o casamento, optaria pela profissão. Procurou um infantário para deixar a filha e retornou à escola. Naquele fatídico dia de Dezembro, ela vinha de uma reunião por causa das notas, do primeiro período quando foi abalroada por um carro em alta velocidade, e contramão. Teve morte imediata. O marido ficou doido de dor e raiva. Procurou saber quem tinha provocado o acidente, jurou vingança. Soube que o condutor do outro carro morrera igualmente no local. Mas ele não ia sozinho. Ia uma mulher com ele. Cheio de ódio, o homem procurou essa mulher. Só pensava em vingança. Foi ao hospital, fez-se passar por irmão dela, conseguiu informações. Disseram-lhe que chegara em perigo de vida com uma hemorragia interna, que tinha perdido o bebé, que  fora submetida a uma cirurgia de urgência, estava em coma e com prognóstico reservado. Atendendo ao facto de ter dito que era irmão dela, deixaram-no vê-la por breves minutos. A visão do sofrimento daquela mulher, de rosto lívido, o cabelo espalhado na almofada, os cateteres, a sonda, a máquina de suporte de vida, toda aquela parafernália de tubos que a envolviam, aplacou a raiva do homem. Saiu dali desorientado, sentindo-se um monstro. O que tinha pensado era uma insanidade. Aquela mulher perdera, além do marido, um filho, e podia até morrer. Pensou, que tamanho teria o seu sofrimento se perdesse a sua filha e a raiva que o consumira, transformou-se em compaixão. Decidiu esquecer a mulher, dedicar-se à filha, tocar a vida para a frente.  Porém nos dias que se seguiram, não conseguia apagar da memória a visão dela abandonada e exangue no leito do hospital. Por isso uns dias depois voltou lá.
 Calou-se por momentos. Ela olhava-o espantada. Não conseguia articular palavra.


19 comentários:

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Está a ficar interessante.
Um abraço e boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
Livros-Autografados

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
acho que ninguém esperava por este final , mas vamos fazer uma boa reflexão sobre esta grande historia pois pode até ter sido realidade !
JAFR

✿ chica disse...

Bah! Ele além de saber de tudo, até tinha ido vê-la no hospital! Que legal o rumo que está tomando e espero um bom final! bjs, chica

São disse...

A vingança não leva a nada e nada resolve.

Beijinho, amiga, bom final de semana

Os olhares da Gracinha! disse...

É que não é uma história fácil de escutar!!!bj

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...


Está ficando cada vez melhor, curiosa, muito curiosa para saber mais.
Tenha um bom dia cara amiga Elvira e feliz final de semana, beijinhos.

Odete Ferreira disse...

Ena, que história, Elvira!
Grande contista!
Bjinho :)

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanhar a história!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Edumanes disse...

Falou falou, mas a quem é que César se refere? A Beatriz ou a outra mulher? Fiquei com algumas duvidas, Não muito bem esclarecidas neste episódio. Ou então fui eu é que o não interpretei correctamente!...

Tenhas uma boa tarde amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

António Querido disse...

Bom fim de semana!

Rui disse...

Como o ódio e a raiva podem transformar-se em amor !!!
Contava que ele já soubesse quem ela era, mas não desta maneira ! :)
... E afinal, o amor pela ex-mulher já não seria tão forte como teria sido anteriormente !

Creio que haverá entendimento e compreensão e tudo acabe em bem ! :)

Abraço :)

O meu pensamento viaja disse...

Sempre criativa!
Bom fim de semana.
Beijinhos

Silenciosamente ouvindo... disse...

Aponta para um final feliz entre ambos?
Tenho que ter paciência e esperar.
Bom fim de semana.
Bjs.
Irene Alves

Majo Dutra disse...

Ao contrário da Margarida Rebelo Pinto, eu acredito em factos coincidentes, mas este conto está um espanto!
Mais uma vez, parabéns pela criatividade e habilidade narrativa.
Um fim de semana muito agradável.
Grande abraço, Elvira.
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Ailime disse...

Boa noite Elvira,
Uma história linda, intensa.
Muito criativa.
Beijinhos e bom fim de semana.
Ailime

Cantinho da Gaiata disse...

Sim senhor, gostei!😉
Amiga Elvira sabe mesmo surpreender.
Bj e bom fim de semana.

Gaja Maria disse...

Ui!

Pedro Luso disse...

Uma história que me prendeu a atenção. O marido perdeu a professora, sua mulher, num acidente de carro, num choque com outro carro em que estava um casal, a mulher grávida, que perdeu o filho e o marido. No final o viúvo da professora foi visitá-la no hospital. Agora é ver o que acontecerá no capítulo seguinte. Muito bom.
Um abraço, Elvira.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Diante do novo rumo que está tomando, a estória vai ficando mais interessante.

Abraços,

Furtado