27.3.17

CRISTINA

baseado numa estória real.


Ia a década de sessenta a meio, quando Cristina nasceu. Era a primeira filha, e viria a ser a única de um casal que já não era muito jovem para a época. Hoje os tempos são diferentes, as mulheres são mães mais tarde, mas naquele tempo, raramente uma mulher, era mãe do primeiro filho depois dos vinte e cinco anos. Pouco tempo depois do seu nascimento, o pai perdeu o emprego, e passaram por um tempo de crise, já que o pai com trinta e cinco anos, já era na altura velho demais para a maioria dos empregos.
Enfim conseguiu um emprego e a situação estabilizou, mas o medo do futuro roubou a Cristina a felicidade de ter um irmão.
A menina cresceu assim, com todos os zelos, mimos e confortos que sempre têm os filhos únicos, mas que não compensam a alegria do abraço de um irmão ou irmã, com quem nos podemos zangar, até brigar, mas com quem sempre acabamos por dar um abraço, partilhar uma brincadeira, contar um segredo.
Muito inteligente, foi crescendo, sempre com boas notas, mas com pouca vontade de estudar. Quando completou o Secundário, deu os estudos por terminados e entrou no mercado de trabalho. Era uma jovem muito bonita, alta, morena, grandes olhos escuros e farta cabeleira levemente ondulada, (com o que sempre embirrou pois gostava dos cabelos lisos). Pretendentes não lhe faltavam, mas nunca se entusiasmou com nenhum, vá-se lá saber porquê.
Aos vinte anos Cristina tinha tudo para ser uma mulher feliz. Era bonita, tinha um bom emprego e acabara de comprar um carro. Casamento, filhos, tudo isso estava muito distante, ela tinha uma vida inteira pela frente, tudo viria a seu tempo. Pouco depois de completar vinte e um anos, Cristina adoeceu. Fraqueza muscular, infeção urinária, visão dupla. Recorreu ao médico, fez análises, tomou antibióticos, a infeção cedeu e pouco depois estava bem. Retomou a vida normal, transformou um amigo em namorado, não gostou da transformação, mandou o namorado passear, e foi vivendo o melhor que podia e sabia, dentro dos cânones normais para uma jovem da sua idade, naquela época, com uns pais conservadores.
Dois dias antes dos vinte e três anos, Cristina voltou a adoecer. Novamente a fraqueza muscular, também tremores de movimentos, diminuição da acuidade visual unilateral. Mais uma vez recorre ao médico que depois de repetidas muitas análises lhe diz que não encontra nada, que provavelmente são nervos e lhe receita uns “calmantes fraquinhos”
Duas semanas depois estava bem, e tudo parecia ter voltado ao normal, embora ela notasse que tinha menos força nas pernas. Os anos foram passando, Cristina ia tendo crises cada vez mais frequentes e cada vez mais intensas. Andava de médico para médico, ninguém descobria o que se passava, até que as crises, que inicialmente eram muito espaçadas, começaram a surgir de dois em dois meses, e só passavam com tratamento hospitalar.
Quando naquele dia de Março de mil novecentos e noventa e três, Cristina foi a uma consulta de oftalmologia, estava de novo com visão dupla. Tinha vinte e oito anos e há muito tempo, deixara de ter uma vida normal. O médico depois de a observar, disse-lhe que ela não tinha nada que ele pudesse tratar, mas que ia mandá-la a um neurologista amigo dele, a quem escreveu uma carta que fechou e lhe entregou.
Cristina assim fez. O neurologista depois de ler a carta, fez-lhe imensas perguntas e por fim mandou-lhe fazer uma tomografia, e uma ressonância ao cérebro.
Por essa altura, Cristina namorava já, há uns dois anos, e o namorado acompanhou-a a fazer os exames.
Pouco tempo depois, os resultados ficaram prontos e Cristina foi de novo ao neurologista. Este examinou-os atentamente e depois deu o veredito. Cristina sofria de uma doença auto-imune, a Esclerose Múltipla. 
Ela, nada sabia da doença mas imaginou que não seria nada bom. Pediu esclarecimentos ao médico que lhe disse tudo o que ele próprio sabia. Se hoje não se sabe muito sobre esta e outras doenças autoimunes, imagine-se naquela época.
Cristina chegou a casa, fechou-se no quarto e chorou. Chorou como nunca tinha chorado na vida. Chorou pelos sonhos, que morreram nesse dia, pela incerteza do seu futuro, pela tristeza de seus pais.
No dia seguinte, decidida acabou o namoro. Disse que nunca seria capaz de aceitar o amor de uma pessoa, sabendo que mais cedo ou mais tarde, ia fazer essa pessoa sofrer. Que não queria correr o risco de pôr no mundo um filho, que não sabia se poderia criar. E não houve quem a demovesse.
Durante alguns anos, Cristina manteve o emprego. Depois a empresa faliu e claro que ela não conseguiu novo emprego. Foi reformada por deficiência com trinta e oito anos.
Hoje Cristina, continua a viver com os seus velhos pais. Sofreu muito, cada vez que surgia um novo surto. Há uns anos que com a mudança de medicação, deixou de ter surtos, mas a doença continua a evoluir, embora de forma mais lenta. Apesar disso é ainda uma mulher muito bonita. Vive um dia de cada vez, como costuma dizer. Sorri com facilidade apesar de todas as provações que a vida lhe deu. De todos os sonhos que não realizou, de todas as alegrias que não viveu.


Fim


elvira carvalho


Nota: 
Em Portugal surgem 300 novos casos de EM por ano.
Na esclerose múltipla, o sistema imunológico do paciente provoca danos ou a destruição da mielina, uma substância que envolve e protege as fibras nervosas do cérebro, da medula espinal e do nervo ótico. Quando isso acontece, são formadas áreas de cicatrização (ou escleroses) e aparecem diferentes sintomas sensitivos, motores e psicológicos, que vão desde dormência nos membros até paralisia ou perda da visão.


31 comentários:

Isa Sá disse...

A vida não é nada fácil...e muitas vezes prega-nos partidas difíceis de ultrapassar..

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Tintinaine disse...

Pobre Cristina!
É aí que as pessoas costumam perguntar:
- Se há Deus porque lhe reservou um destino desses?

AFlores disse...

Um dia de cada vez e mantendo a esperança de um dia melhor que ontem.
Tudo de bom.
Boa semana.

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
infelizmente não somos nós que podemos controlar as doenças que vão aparecendo na vida dos nossos queridos, pois se assim fosse talvez eu não estivesse aqui a fazer este comentário, que me custou muito a fazer pois a historia mexeu muito comigo.
JAFR

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

É uma doença terrível muito bem relatada nesta bela historia.
Um abraço e boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
Livros-Autografados

✿ chica disse...

Um conto real, triste, mas muito bem escrito e doenças são Pulgas na nossa camisola...bjs, chica

António Querido disse...

DOENÇAS! As coisas piores que o destino nos reserva à nascença, fazendo doer e sofrer mais, quando começa na juventude.

Abraço

Odete Ferreira disse...

Nunca estamos preparados para a doença e há sempre aquela fase do porquê eu...
Bj

AvoGi disse...

Conheço uma jovem, mãe de dois filhos e que já passa os dias na cadeira. Não consegue levar a comida a boca e muito menos a sua higiene pessoal.
O marido modificou o quarto para colocar uma cama de hospital
É triste garantia para ela assim as se deformar cada dia e ainda nao tem quarenta anos
Kis :=}

Janita disse...

Uma história triste, infelizmente igual a tantas outras.
De lamentar a opção feita pela jovem de se auto-privar de ter conhecido as delícias da maternidade e o seu direito ao amor.

Um abraço
Boa semana

Anete disse...

Gostei de ler a jornada da Cristina.
Uma realidade forte traz aqui.
Desejo uma boa semana. Bjs

Prata da casa disse...

Uma menina muito corajosa esta nossa heroína! Apesar de triste, adorei ler esta estória baseada em factos reais.
Bjn
Márcia

Os olhares da Gracinha! disse...

Uma doença com muito por descobrir!!!bj

Edumanes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Edumanes disse...

A vida nem sempre é como a gente quer. É como o destino quer que ela seja. Por isso é que devemos vivê-la da melhor maneira possível. Com a ajuda de Deus, sem que o Diabo nos impeça de sermos felizes!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Olinda Melo disse...


Olá, Elvira

Esta é uma situação que se verifica com mais frequência do que imaginamos.
A sua história retrata a vida de muita gente que, infelizmente,na flor da idade se vê privada de tudo o que constituía a sua vida.

Beijinhos.

Olinda

Ana S. disse...

Doenças como essas são cada vez mais comuns infelizmente. É uma verdadeira prova de resistência ter de passar por isso com um sorriso nos lábios porque tem dias que é difícil.
Abraço

maria disse...

Independentemente do grau de conhecimentos de que se disponha, o diagnóstico de doenças do foro neurológico é sempre assustador e Cristina fez as escolhas que lhe pareceram as mais correctas, desejo muito, que a ciência progrida rapidamente para que a Cristina possa continuar a sorrir e voltar a Sonhar!

Gaja Maria disse...

Uma doença limitadora e muito difícil de enfrentar...

Luiza Maciel Nogueira disse...

Uma história que poderia ser real. Existirão muitas Cristinas pelo mundo. Gosto daquele filme onde o escritor vai escrevendo uma história real sem saber que a história se torna realidade. E a pessoa que lê acha que é dela. Às vezes é como me sinto lendo alguns livros e escrevendo algumas estórias rsrs. Beijinho!

Cantinho da Gaiata disse...

Muito triste mesmo Elvira, á medida que os lendo vi logo do que se tratava, é horrível.
Tenho um caso familiar , é assustador mas temos que ir vivendo um dia de cada vez.
Beijinho

Elisa Bernardo disse...

Infelizmente tenho uma pessoa próxima que sofre dessa doença...:(
Um beijinho querida Elvira

Vera Lúcia disse...


Muito triste! Trata-se de uma doença implacável.
Pena que Cristina não teve oportunidade de se realizar antes de ser acometida pela doença. Ela foi forte ao romper o namoro, pensando no bem do namorado. Ele poderia tê-la apoiado e lhe propiciado bons momentos, se a amasse profundamente. Também mostrou-se conformada, como se depreende do seu sorriso fácil, conforme narrado.
Infelizmente, a medicina ainda não está pronta para tratar ou, pelo menos, paralisar os efeitos da doença.

Feliz semana, Elvira!

Beijo.

Pedro Coimbra disse...

Uma doença terrível.
Porque vai matando aos poucos e com a pessoa perfeitamente consciente.
Um horror!
Abraço

Roselia Bezerra disse...

Bom dia, querida Elvira!
A vida nos surpreende até nas enfermidades que nos sobressaltam...
Bjm muito fraternal

Ailime disse...

Boa tarde Elvira,
Um conto baseado num facto real dominado por essa doença tão triste.
Como sempre muito bem escrito.
Um beijinho,
Ailime

aluap Al disse...

Ainda é mais triste porque a personagem foi inspirada num caso real.

Um abraço amigo.

Duarte disse...

Para mim tudo aquilo que escreves é real. Pois está narrada com tanta emoção que só o vivido se pode expressar assim. Se não vivido, visto, ou contado. És uma mestra boa arte de escrever.
As doenças e as suas sequelas atormentam-nos.
Abraços de vida.

LopesCa Blog disse...

Vidas complicadas :(

Graça Sampaio disse...

Uma doença absolutamente traiçoeira! Conheço casos próximos, muito, muito difíceis.

Não há direito!!

© Piedade Araújo Sol disse...

todas as doenças são triste.
esta é terrível.
:(