30.3.17

AS APARÊNCIAS ILUDEM...



Aconteceu numa tarde de Julho. O calor apertava, e toda a gente procurava o parque na margem do Vouga, pejado de seculares e frondosas árvores, sob cuja sombra, o ar era muito mais ameno.
Os bancos de madeira, pintados de vermelho vivo, lembravam manchas sangrentas, no meio de tanto verde. Porém naquele dia, de feira de artesanato, não havia onde sentar para ler, ou simplesmente, me refrescar da canícula que me amolecia o corpo.
Procurando um banco livre, cheguei a um pequeno terraço que se erguia sobre as águas, e sob a ponte de aço que atravessa o rio. É um terraço que lembra uma pequena sala, com três bancos dispostos em forma de U.
O banco central de frente para o rio, mesmo por baixo da ponte, era ocupado por um homem e uma mulher. Os dois na lateral estavam vazios. Ocupei o da direita e quase em simultâneo um casal de meia-idade ocupou o da esquerda. Conhecia-os e por isso cumprimentei-os. E voltei a minha atenção para o casal   desconhecido.
O meu lado detetivesco pôs-se a examiná-los e a fazer cogitações.
. Pareceu-me ver um ar de contrariedade no rosto masculino.
A mulher fazia renda, e parecia completamente absorvida pelo movimento da agulha.
Teria perto de quarenta anos, morena, de cabelo escuro, e vestia uma saia justa castanha, que só não lhe mostrava os joelhos, porque em cima destes repousava a renda que fazia. Uma tira larga, decerto para colcha ou toalha. Completava o traje, um camiseiro branco, que parecia saído do anúncio de um qualquer detergente.
O homem, parecia mais velho. Devia beirar os cinquenta, também moreno, cabelo castanho, tinha um ar simpático, vestia calça cinza, e camisa creme. Lançou-me um breve olhar, e voltou a interessar-se, pelos três filhotes de andorinha, que no ninho por baixo da ponte, piavam desalmadamente.
A mulher continuava a olhar o movimento das agulhas como se estivesse hipnotizada.
Estariam amuados?
Comecei a imaginar, uma briga, talvez por ciúmes, o homem além de bem-parecido, tinha um ar simpático e malandro. Imaginei o homem mirando alguma jovem bonita, quem sabe até a jovem da farmácia que tinha os mais lindos olhos azuis que algum dia presenciei, e a mulher sentindo-se humilhada, escondia na renda o seu desencanto.
Pouco depois, a andorinha mãe, passou veloz, num voo rasante junto à cabeça do homem, sentado no outro banco lateral. Assustado disse um palavrão, enquanto a mulher soltava uma sonora gargalhada. E logo disse:
-Está apressada. Os filhotes estão com fome...
-E já falta um. Ontem eram quatro, hoje são só três. Um deve ter caído ao rio - disse o homem do banco da frente.
A mulher nem levantou os olhos, continuando a sua luta com a agulha de renda.
Então o homem levantou-se e foi-se embora.
A mulher levantou os olhos da renda, suspirou e sorriu para nós.
Aí percebi. Afinal todas as minhas conjeturas, não passavam mesmo de imaginação. Provavelmente o homem, não passaria de um conquistador barato, que estaria a incomodar a mulher.
Pouco tempo depois, um outro homem aproximou-se, e dando as boas tardes, beijou a mulher, que sorriu feliz.  Percebi a anterior aflição da mulher. Deduzi pela  indumentária, do homem, demasiado quente para o calor que estava, que ele vinha do tratamento nas Termas, e que a mulher estava ali à espera que ele terminasse o tratamento, quando o outro homem a descobrira. A nossa presença, fez com que se sentisse frustrado e fosse embora, evitando assim um encontro desagradável.
Confesso que fiquei feliz. Afinal o meu passeio pela margem do  rio, tinha sido providencial.





17 comentários:

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
quem nunca se enganou em pensamentos !!!
JAFR

Tintinaine disse...

Conquistador barato! Foi à caça e voltou para casa de mãos a abanar!

✿ chica disse...

Muito bom mais esse conto,Elvira! Gostei ! bjs, chica

Tais Luso disse...

Gostei dos inúmeros detalhes detalhes, você é bem minuciosa nos contos, um até poético 'a mulher sentindo-se humilhada escondia na renda o seu desencanto'.
Muito bom conto.
Beijo, Elvira!

lis disse...

Interessante como somos criativos na imaginação.
E,para os poetas/escritores é bem peculiar criar situações que nem sempre são reais.
E deduzir é hilário Elvira.E deduzistes bem, um conquistador frustrado que se livrou de ser flagrado em ação! rs
Um prazer ler seus contos!
abraço

Rui disse...

:) ... Um relato interessante, muito bem escrito e descrito ! :)
Uma coincidência que, neste caso, foi providencial, pelo menos evitando uma situação que poderia ser mais delicada e embaraçosa ! :)

Abraço, Elvira.

AvoGi disse...

Eu tbm faço essas conjunturas quando estou a matar o tempo..
Kis :=}

Anete disse...

É, realmente, muitas vezes os pensamentos iludem e nos levam à conclusões irreais.
Gostei do texto, Elvira!
Uma boa 5a feira...

António Querido disse...

São atitudes dum bom malandro, que faz disso um passatempo, O que há mais é disso por aí à solta, rafeiros!
O meu abraço.

XicoAlmeida disse...

Bonito, Elvira.
Afinal uma andorinha não faz a primavera...
Beijos.

Edumanes disse...

Você pensava que era marido e mulher! Afinal enganou. À beira do rio seria um pescador à procura de engodo para colocar no anzol e pescar uma pardelha solitária!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

© Piedade Araújo Sol disse...

por vezes imaginamos coisas e afinal não são o que pensamos.
gostei da maneira detalhada e dos pormenores deste texto.
mas nisso a Elvira é mestre
beijinhos
:)

Prata da casa disse...

Ainda bem que lá estava, amiga.No fim, tudo se compôs.
Bjn
Márcia

maria disse...

Pois é, tal como diz o povo"As aparências iludem" ... também já me aconteceu algo semelhante, mas ao contrário, eram mesmo um casal... depois conto-lhe a história :D Boa Noite!

Elisa Bernardo disse...

Gostei muito do seu texto Elvira.
E aproveito para desejar um bom fim de semana (já que amanhã eu não trabalho eheh) Beijinho

Pedro Coimbra disse...

Essa imaginação pode ser muito perigosa :)))
Um abraço, bfds

Odete Ferreira disse...

Também gosto de criar cenários para as pessoas que observo.
Gostei imenso, Elvira. Bjinho :)