31.3.17

A CORAGEM DE DIZER , BASTA!




A mulher que caminhava pela praia naquele entardecer, era muito bonita, mas trazia nos olhos uma tristeza, que parecia impossível de esconder. Ali perto, duas crianças brincavam na areia, enquanto a mãe sacudia a toalha e a metia no saco, dando por findo aquele dia de praia.
Ela porém, nem se apercebia do que se passava à sua volta. Parecia perdida num outro mar, que não aquele que suavemente lhe beijava os pés. Um mar  de recordações.
Foi num fim de tarde como este que conhecera Eduardo. Ela caminhava pelo parque da cidade, olhando embevecida as crianças que brincavam no escorrega, fazendo grande algazarra. As flores, impregnavam o ar com um intenso, mas agradável aroma. Rita, ia tão absorta, que não viu aquela raiz, na qual foi tropeçar, saindo projetada para...os braços de Eduardo. Sim porque fora ele. que por ali passava e a segurara, quando se apercebeu que ela ia cair. Rita sentiu o olhar intenso e trocista de Eduardo, e sentiu-se envergonhada, mas coisa esquisita, sentiu uma estranha sensação de felicidade. Agradeceu sentindo-se corar sob o olhar dele. Eduardo pelo contrário parecia divertido com a sua atrapalhação. E depois de algumas palavras que ela quase não escutou, combinaram encontrar-se no dia seguinte. Naquela noite, o sono tardou para Rita. Ela não conseguia esquecer o desconhecido do parque. E só nessa altura se deu conta que tinha esquecido de perguntar o seu nome. Que faria ele no parque? Passaria ali por um acaso, e a vida teria caprichado naquele tropeço, para que se conhecessem? E se assim era qual iria ser o seu papel na vida dela? Era bonito, pensava ela. E dava voltas na cama, ansiando pelo nascimento do dia. Pobre Rita. Se ela soubesse o quanto ia sofrer por aquele homem, teria sufocado a sua lembrança, e nunca teria voltado ao parque, para o encontro. No início Eduardo parecia ser o homem dos seus sonhos. E o que começou com uma amizade, não tardou em transformar-se numa intensa paixão. Ela vivia cada beijo, cada instante, sentindo-se a mulher mais feliz e mais amada da terra.
Casaram num dia de sol em pleno mês de Maio. Eduardo não quis casar na igreja, e isso foi uma pequena nuvem a ensombrar a felicidade de Rita, cuja fé lhe pedia a bênção no altar.
Três dias, durou a felicidade dela. Três dias como o Carnaval. Carnaval! Estranha associação. Mas a verdade é que ao fim de três dias, a ternura deu lugar à prepotência, os beijos, às palavras duras, e sarcásticas. Menos de um mês depois, começaram as ameaças. Começou a pensar, que o homem com quem se casara, era um desconhecido, que usara uma máscara, pela qual ela se apaixonara. Como fora possível iludir-se assim?
 Nunca mais saíram juntos. Ele saía depois do jantar e voltava tarde da noite, algumas vezes dormia fora, e chegava a casa a cheirar a perfume barato.  Rita era uma mulher de coragem, e substituído o amor pela desilusão, decidiu pôr um ponto final no casamento.  
Daí que naquela  tarde, passeasse junto ao mar, a sua falsa liberdade de mulher, divorciada do homem, mas ainda presa às recordações.



18 comentários:

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
por vezes as historias sem um fim feliz têm muito para todos nós refletirmos um pouco sobre o que a vida nos pode surpreender .
JAFR

Tintinaine disse...

Também a minha mãe se chamava Rita, mas com uma grande diferença, ela nunca disse basta. Não posso garantir que algumas vezes não tenha pensado nisso, mas aguentou firme até o marido morrer.

✿ chica disse...

Que triste história da Rita e pior é que as recordações ainda a acompanhavam... Lindo conto! bjs, chica

luisa disse...

Mas libertou-se e isso é o essencial.

Bell disse...

Muita gente anda de máscaras 365 dias no ano, mas ainda bem que uma hora ela cai.
Ninguém sustenta algo que não é por muito tempo.
O divórcio é algo doloroso e marcante para quem passa.

bjokas =)

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanhar mais uma história.

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Rui disse...

Felizmente que, hoje em dia, se tornou mais fácil dizer "Basta", o que não acontecia nunca há umas ainda poucas décadas, em que se vivia uma vida de costas voltadas, fazendo-se de conta que nada se passava de anormal!
Estranho que precisamente após um casamento, para o qual, ambos se deram a conhecer mutuamente, estas situações se tornem mais correntes !?...

Muito bem contado, Elvira !
Abraço

António Querido disse...

O malandro do Eduardo, nunca me contou essa história! Será que só segredou os seus poemas na praia a essa jovem?
Portou-se mal? Quando estiver com ele já leva um puxão de orelhas!

O meu abraço.

Prata da casa disse...

Gostei muito: pelo menos teve a coragem de dizer "basta".
Bjn
Márcia

Janita disse...

Esta história é o retrato fiel do que acontece na realidade e, infelizmente, nem todas as mulheres têm possibilidade de dizer BASTA...por vezes, até um dia o dizerem. Há ainda o outro lado da história, é quando se vêem sozinhos dizem-se arrependidos e choram baba e ranho. Que nunca se volte atrás de uma decisão tomada, pode custar toda uma vida, porque o que o ´berço dá só a cova tira'.

Um abraço, Elvira.

Majo Dutra disse...

Foi bom tomar essa decisão antes de chegarem crianças.
Factos sempre muito traumatizantes...
Abraço, Elvira.
~~~~~~~~~~

Silenciosamente ouvindo... disse...


As máscaras que muitas pessoas usam
enganam bem...É horrível!!!
Vou seguindo.

Bom fim de semana.
Bjs.
Irene Alves

AvoGi disse...

Nem todas têm a coragem de dizer: basta. A minha nha mãe teve. Tenho um orgulho nela e em todas as que dão por acabada uma relação que parecia ter tudo para vingar.
Kis :=}

Odete Ferreira disse...

Ainda bem que conseguiu tomar a atitude adequada.
Gostei bastante, Elvira. Bjinho :)

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
MUITAS MULHERES SE DEIXAM ILUDIR ASSIM.
UM BELO TEXTO AMIGA.
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Gaja Maria disse...

Nem todas têm essa coragem infelizmente...

Anete disse...

Os passos da Rita trazem reflexões e conclusões...
Sempre é tempo de mudar de direção depois de um BASTA...
Relacionamento é coisa séria e é preciso pensar antes de iniciá-lo...
Um abraço

Socorro Melo disse...


Ah, essa é uma triste realidade. Existem muitas, que como Rita, se deixaram levar por paixões que se revelaram desastrosas. E a constatação do engano gera um grande sofrimento mesmo. Felizes daquelas que souberam ou sabem dizer, basta!


Abraço fraterno