27.2.17

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXVIII



 Em Londres, para cortar todos os vínculos com o passado, pus de parte o Rui, e adotei o meu segundo nome como principal. Com formação em economia, inglês e alemão,  pouco tempo depois, estava empregado numa multinacional, e muito bem remunerado. Continuei a estudar os movimentos das empresas e a investir na bolsa. Ganhei muito dinheiro. Em menos de dois anos mais que tripliquei o meu pecúlio. Era já uma fortuna considerável. Então comprei a primeira empresa. Uma pequena firma de indústria transformadora, em vias de falência. Recuperei-a e fiz dela uma empresa de sucesso. Depois dessa vieram outras. Todas prosperaram e são hoje uma fonte de riqueza. Penso que se fiz alguma coisa de jeito na vida, foram essas reestruturações e revitalizações de empresas. Estavam para fechar, iam despedir todo o pessoal. E graças a mim salvaram-se. 
Fez uma pausa. Era visível que aquelas recordações lhe provocavam grande sofrimento. 
- Dizem que dinheiro atrai dinheiro, e talvez por isso eu fui capitalizando cada dia mais. Pena que a minha mãe, não tenha vivido o suficiente para usufruir dele. No fundo ela foi a grande vítima. Primeiro do meu pai, e depois do seu amor por mim. Um amor que a levou a assumir uma culpa que não era sua, e lhe deu cabo da saúde e da vida. Por minha culpa.
A voz extinguiu-se-lhe num soluço.
-Não foi culpa tua, Rui, não foi - sussurrou Teresa apertando-lhe a mão.
Após um curto silêncio, ele continuou:
- É tudo Tê. Falta só dizer-te que é bem verdade que o dinheiro não dá felicidade.Sinto-me vazio. A solidão nunca foi uma companheira amorosa. Amarga os meus dias, e aterroriza as minhas noites, quase tanto, quanto o meu pai o fazia outrora. Os dois anos mais felizes da minha vida, foram os que partilhamos. Nunca, nem antes nem depois de ti, uma mulher me fez sentir, tão completo como tu. E ontem, o meu coração quase explodiu de felicidade, quando descobri que me deste um filho. Mas não podia apresentar-me a ele, sem primeiro despir a alma, das negras recordações que carrego. Queria e precisava, ir para ele de espírito limpo. Consegues entender-me? – Perguntou fitando-a com ansiedade.
Ela continuava sem palavras.  Esmagada pelo sofrimento que via nos olhos dele. E ao mesmo tempo maravilhada, pela sinceridade masculina. Limitou-se a um aceno de cabeça.
- Casa comigo, Tê! E se esta ânsia de estar contigo, o resto da minha vida, se este desejo de vos proteger, e fazer felizes não é amor, ensina-me a amar-vos.
Ela tinha-lhe dito que tinha de ganhar a sua confiança.  Mas o que ele acabara de fazer, era a maior de todas as provas de amor. Finalmente, o homem deixara de ser o desconhecido, a quem tudo dera, sem nada receber em troca. Abrira-lhe as portas da sua alma. Mostrara-lhe quão vulnerável e sofrido era. E com isso matara todo o ressentimento, que ela experimentara.  Sentiu que o destino lhes estava a dar uma segunda oportunidade de serem felizes. 
Com os olhos rasos de água, e o coração exultante de alegria, fitou o rosto ansioso dele, e sem deixar de o olhar, segurou-lhe o rosto entre as mãos e beijou-o.
Maravilhado, ele retribuiu ao mesmo tempo que a abraçava.
Com a emoção à flor da pele, beijaram-se intensa e apaixonadamente. Era o reencontro de duas almas, livres de todos os obstáculos que outrora as mantiveram separadas, querendo apagar todo um passado de sofrimento. Mas quando a boca masculina roçou o pescoço feminino, a a mão dele acariciou o tecido sobre o seu seio, o corpo ansiando por algo mais, ela afastou-o suavemente dizendo:
-Hoje não, Rui. Vem. Vamos buscar o nosso filho.


19 comentários:

AvoGi disse...

Ohhhhhh, eu já a salivar....A imaginar a descrição gráfica de uma noite de luxúria.
Kis :={

Majo Dutra disse...

Gostei muito, Elvira,
Tem muito talento para expressar-se pelo conto.
Uma ótima semana.
Abraço
~~~

Odete Ferreira disse...

Só já falta uma pontinha para unir as pontas todas!
Muito bem, Elvira!
Bjinho :)

São disse...

Ora muito bem: gosto de finais felizes !


Beijinho e boa semana

Pedro Coimbra disse...

Eu não disse que já estava a ver o anel??
Boa semana

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
falta saber a forma como o filho vai aceitar a ausência do pai durante todos aqueles anos, o que penso também vai terminar bem conforme esta linda historia.
JAFR

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanha a história!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

✿ chica disse...

AH, que coisa boa esse capítulo! Valeu! Adorei! bjs, chica

António Querido disse...

E não é que tenho as lágrimas nos olhos! Não escondo porque o homem que tem sentimentos também chora e esta história é real.
Com o meu abraço.

Anete disse...

Um capítulo cheio de fortes emoções...
Que bom que tudo está sendo resolvido e o amor vencendo lindamente...

Um abraço...

Fá menor disse...

Estou a gostar muito de seguir a história.

Parabéns pelo talento!

Beijos

Rui disse...

Aprecio o seu talento e forma de escrita, Elvira ! ... Conto maravilhoso ! ...
Já só falta o final com o Martim ! :)

Abraço !

Edumanes disse...

O dinheiro não dá felicidade, mas sempre ajuda qualquer coisinha. Juntou-se a fome com a vontade de comer. Portanto, agora e sé comer enquanto têm apetite!

Véspera de Carnaval, tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Emília Pinto disse...

A parte mais dificil para o Rui já passou. Falta agora conquistar o amor do seu filho e acho que ele vai conseguir. Sabia que as sapatilhas tinham a ver com o passado dele, mas nunca imaginei que lembravam o facto tão terrivel. Um bom carnaval, Elvira e cá fico à espera do desenrolar da história. Beijinhos, amiga,
Emilia

Vera Lúcia disse...

Olá Elvira,
Vim me atualizar com o conto. Rolou bastante emoção entre o casal nestes últimos capítulos. Martim ficará feliz em ter uma família completa.
Parabéns pelas ótimas e envolventes narrativas.
Aguardemos o desenrolar do final do conto.
Beijo.

aluap Al disse...

As coisas mudam, as pessoas nem tanto, embora o modo de agir seja diferente, antes, o Rui lutava para ser rico, hoje, luta pelo amor.

Beijinhos.

Cantinho da Gaiata disse...

Estou deliciada, vou passar para o capítulo seguinte.
Será que vai correr tudo que nem conto de fadas? Espero que si.
Beijinho amigo Elvira.

Ailime disse...

Uma história muito emotiva e numa fase muito interessante.
Bjs
Ailime

lua singular disse...

Oi Elvira
O tempo urge , a hora não espera
Quem é de ferro, eu cedia.
Beijos
Lua Singular