26.2.17

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXVII






-Muitos anos mais tarde, vi estes numa sapataria, e comprei-os. São semelhantes embora de muito melhor qualidade. Acompanharam-me desde aí como um estímulo, para cumprir a jura que fizera a minha mãe naquele fatídico dia. Mas deixa que te conte tudo.
Os anos foram passando, eu ia crescendo e o ódio que sentia pelo meu pai ia crescendo comigo. Por volta dos dez anos, comecei a tentar enfrentá-lo sempre que ele batia na minha mãe. Consequência direta, foi que passamos a apanhar os dois. 
 Uma noite, tinha feito onze anos há poucos dias,  acordei com os seus gritos, e o choro da mãe. Saltei da cama e dirigi-me à cozinha. A mãe tentava proteger o rosto já ferido, de nova pancada. Tentando evitar que continuasse a bater-lhe arremeti contra ele. Como estava bêbado, desequilibrou-se, caiu para trás e bateu com a cabeça na esquina da mesa. Teve morte imediata. A minha mãe assumiu a culpa. Disse a toda a gente que foi ela e proibiu-me de dizer o contrário.
Foi presa, e eu só não fui parar a uma instituição estatal porque os meus tios me foram buscar.
Calou-se, a voz embargada pela emoção, o rosto pálido, todo o corpo terrivelmente tenso. Teresa sentia a dor dele, no seu próprio coração. 
 -Tivéssemos nós dinheiro para um bom advogado, e a mãe não teria sido presa. Teria aguardado julgamento em liberdade.  Afinal como o tribunal provou mais tarde, tratou-se de um acidente e em legítima defesa. Mas nós não tínhamos dinheiro para pagar um advogado e assim a mãe esteve em prisão preventiva até ao julgamento. 
Os meus tios coitados fizeram o melhor que podiam enquanto lá estive, mas tinham três filhos, que viam em mim,  uma boca mais a roubar o pouco que tinham. Percebes agora a minha ambição desmedida?
Com catorze anos comecei a trabalhar. E a estudar à noite. Foi uma época muito difícil, a mãe já estava doente. Nunca mais foi a mesma, depois que foi presa. Quase a terminar o secundário, tive que contratar uma pessoa para cuidar dela, e o dinheiro que ganhava não dava para tudo. Durante um ano, tive que interromper os estudos. Depois ela morreu, e voltei a estudar.
Quando nos conhecemos, já eu estava com a vida organizada. Compreendes porque nunca te falei de mim, nem deles?  Queria esquecer o passado e cumprir a jura que lhe fizera em menino, de ser um homem muito rico. Tinha já umas boas economias, além do trabalho no banco, fazia traduções para uma editora, e tinha feito algumas aplicações que me renderam um bom dinheiro, mas na minha louca corrida para a fortuna, o que tinha não me bastava. Queria mais, muito mais.
Quando me convidaste para ir conhecer os teus pais, e passar com eles o Natal, comecei a pensar que me estava a afastar do meu objetivo, e que se fosse contigo estava a assumir um compromisso que me impediria de cumprir o que me propunha. Queria libertar-me, mas não tinha coragem de te deixar. Então disse-te que fosses tu, e aproveitei a tua partida para te abandonar.  Hoje sei que foi uma cobardia, um ato digno do filho do meu pai.
Mas na altura estava cego de ambição. E decidi partir para a Inglaterra.

21 comentários:

Majo Dutra disse...

Grande surpresa, Elvira!
Agora é impossível não lhe perdoar...
Bom Domingo.
Abraço.
~~~

Elisa Bernardo disse...

Querida elvira, um excelente fim de semana para si.
Um grande beijinho

Cantinho da Gaiata disse...

Coração de mulher, diz que a Teresa vai-lhe perdoar.
Beijinho e um excelente domingo.

Isa Sá disse...

A passar para acompanhar a história e desejar um bom domingo!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

✿ chica disse...

Ele abriu realmente o coração e comoveu, certamente Teresa! Estou gostando desse desenrolar! bjs, chica

António Querido disse...

Agora depois de ler este capítulo, as coisas quase mudam de figura em relação a este homem, digo quase porque poderiam lutar juntos e apoiavam-se mutuamente!
Preparar para o Carnaval, siga a marcha.

Os olhares da Gracinha! disse...

Será que vai haver ...PERDÃO!?
Bj e gosto da foto do perfil!!!bom Carnaval!!!

© Piedade Araújo Sol disse...

Elvira

um conto muito bem engendrado, e estes dois capítulos, deixaram-me em lágrimas...

obrigada pela escrita fluente e alucinante que prende o leitor

beijo

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
são estas coisas que nos levam a pensar que não devemos julgar alguém sem sabermos muitas vezes o porquê dos atos das pessoas.
um bom domingo gordo para todos com aquele abraço.
JAFR

Edumanes disse...

Na morte do pai de Rui, só há uma culpada. Não foi a mãe nem o filho, terá sido uma grande cadela pelo próprio apanhada!

Tenha um bom fim de semana, amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Bom dia querida Elvira!
Quanta dor, quanto trauma,uma revolta natural.
Esqueceu-se de si e só pensou de ceta forma vingar a morte da mãe que ele tanto amava.
Estou a gostar muito cara amiga.
Até amanha e feliz semana.

AvoGi disse...

Há que haver perdão...Mas que vida...E que grande mãe.
Kis :=}

AC disse...

A Elvira é uma autêntica mestre do enredo, consegue sempre surpreender-me.

Uma boa semana :)

Rui disse...

Resumindo, ...nunca devemos pretender tirar conclusões precipitadas acerca dos comportamentos de A ou de B.
Sam-se lá as razões de determinados comportamentos ? ...

Está fantástico, Elvira !

Abraço e Parabéns !

Majo Dutra disse...

Comovente!
Ótima semana, Elvira.
Abraço.
~~~

Gaja Maria disse...

Triste mesmo. Ela vai perdoar e amá-lo como nunca.

Tintinaine disse...

Aproxima-se o fim a passos largos. Fico à espera do encontro entre pai e filho que espero emocionante.

Maria do Mundo disse...

Beijinhos. Boa semana!

Odete Ferreira disse...

Ainda li ontem mas não deixei comentário.
(Enganei-me redondamente sobre os ténis)
BJinho

Ailime disse...

Boa noite Elvira,
Uma narrativa impressionante!
Gostei muito.
Beijinhos,
Ailime

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
Que tristeza acometeu sua família...
Adorei, apesar de triste
Beijos
Minicontista2