25.2.17

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXVI

Aos leitores mais sensíveis, aviso que este e o próximo capítulo são violentos.   
Era ela quem sustentava a casa. Fazia limpezas. Trabalhava de manhã à noite. E aos fins-de-semana ainda lavava roupas para fora. Ele só sabia beber. E quando queria dinheiro e ela não lho dava, batia-lhe. Lembro-me de ser bem pequeno, e meter a cabeça debaixo dos cobertores para não ouvir os seus gritos, nem o choro da minha mãe.
 Um dia, tinha os meus sete anos, estava no primeiro ano, pelo Natal a escola ia fazer uma recita. Fui escolhido para entrar. Na altura estavam na moda uns ténis que se tornavam luminosos com o andar. Todos os meninos da minha sala os tinham, menos eu. Então a professora disse que seria bonito que todos os levassem calçados no dia da recita. Faria um efeito muito bonito no palco.
Fiquei muito triste. Cheguei a casa a chorar. A minha mãe quis saber o que se passava, e eu contei-lhe. Prometeu que me comprava os ténis. Naquela semana trabalhou mais horas do que nunca
Na sexta-feira à saída da escola levou-me à sapataria e compramos os ténis. Não cabia em mim de contente. Escondi-os  debaixo da cama, e fiquei a sonhar com o dia da festa. Todos os dias quando chegava da escola,ia buscar a caixa, e sentava-me na cama, a olhar para eles. Eram tão bonitos. Não via a hora de os poder calçar. Porém no  dia da festa, a caixa não estava no sítio. Procurei por todo o quarto, e não a encontrando fui perguntar por ela, à mãe. Disse-me a chorar que ele os tinha descoberto, e os tinha entregado na loja em troca do dinheiro. Só não me disse que era para se embebedar, mas não era preciso. Eu sabia. Jurei à minha mãe que havia de ser um homem muito rico. Depois, enlouquecido pela raiva, ou pela vida que levávamos, adoeci de tal modo que fiquei de cama. Levei três dias com febre, e vómitos.
Falava baixo e devagar. Notava-se quão penosas eram aquelas recordações. Teresa tinha os olhos rasos de água. Não conseguia imaginar, uma criança com um sofrimento tão grande. Levantou a mão e acariciou ternamente a face masculina. Não era a carícia de uma mulher apaixonada. Era a carícia de uma mãe, solidária com o sofrimento do filho.
Rui agarrou os ténis, e pressionou-os na mesa, fazendo com que uma corrente luminosa, percorresse a face visível da base.


21 comentários:

✿ chica disse...

Puxa, que tristeza! E pensar que tantas crianças vivem esses dramas nãos mãos dos seus pais...Pena tive! beijos,chica

aluap Al disse...

Bem, enganei-me redondamente quanto aos ténis e acho que vão passar o Natal em família.

Bom fim de semana.

Edumanes disse...

Jurou a sua mãe que havia de ser um homem muito rico. Pelo que viu o seu pai fazer à sua mãe. Podia ter tido também. Hei-de ser sempre um rico homem. Para não fazer ninguém sofrer, como o pai faz sofrer a mãe!

Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Odete Ferreira disse...

Violenta é a realidade, os atos. Na ficção, pelo menos, só doem as palavras.
Quanto aos ténis, vamos aguardar.
Bj, amiga

Socorro Melo disse...


um momento forte. Emocionante.


Grande abraço

O meu pensamento viaja disse...

Bom Carnavsl!bj

Isa Sá disse...

A passar para acompanha a história e desejar um bom fim de semana!


Isabel Sá
Brilhos da Moda

António Querido disse...

Acontece na vida real, uns perdem-se pelo caminho, outros fazem fortunas porque sabem dar o valor à vida e lembram-se o que sofreram em criança!

Vamos ao Carnaval cheio de sol e estrelas a brilhar.

Tintinaine disse...

E está desvendada a intrigante história dos sapatos de ténis do Capitão América. Eu já estava à espera de qualquer coisa do género, mas nem por sombras me passaria pela cabeça que o pai do Rui fosse capaz de os vender para apanhar mais uma bebedeira.
Adivinho que o próximo capítulo é a prisão da mãe. Ou não será ela a acusada? Mistério!

Ana S. disse...

A necessidade leva a que as pessoas mudem drasticamente o comportamento em adultos tornando-os às vezes mais duros, frios e materialistas. Tudo depende do sofrimento passado.
Bom fim de semana.
Abraço

Beatriz Pin disse...

Ao ler esta historia non puiden reter as bagoas. Qué tristeza para unha crianza, ver esa conduta no fogar. E imaxinei que habería tantos asím polo mundo adiante!!!! A mente infantil pode voar outo e lonje pero ahí no fondo, sempre ficará algo que traumatizou ainda que ningúen se percatara. Agradezo sua pronta visita no meu blog. Boa fin de semana! Abrazo.

rendadebilros disse...

Às vezes, as pessoas carregam pela vida fora histórias dolorosas que ninguém chega a conhecer. Ao recordar momentos destes, deve sempre chegar um grande aperto ao coração. Beijinhos e Bom Carnaval.

Rui disse...

Perfeito ! ...
Absolutamente compreensível a personalidade do Mário (durante e depois de Rui) !
Quem poderá ficar impassível perante estes factos ?... e Teresa não será excepção !
Muito bem "engendrado", Elvira ! ... Parabéns !
O conto ficou assim perfeitamente lógico e compreensível !
Perante isto, só vejo um desfecho ! ... :))

Abraço

São disse...

Violência existe mesmo na vida...

Bom fim de semana e abraço

AvoGi disse...

UI, Elvira, esta cena doeu. A vida é maadrasta. A vida da minha mãe passou por isso. Até um dia em que pôs um fim no casamento. nove depois nasci eua minha história começou assim.
Filha de pais separados,e em 1955 era uma novidades. Mas a minha mãe era um general.
Kis :=}

Anete disse...

Realmente, recordações fortes sendo passadas a limpo! Marcas profundas que o fizeram ter uma personalidade de "super-herói"! Sim, de lutador c bravura... Afinal, todos somos reflexos do nosso ontem/passado...

Criatividade muito boa a sua, Elvira... Parabéns! Gosto de histórias assim, psicológicas e comportamentais...
Bjs

maria disse...

Aguardemos então!!!

Os olhares da Gracinha! disse...

Que desilusão ... ao não encontrar seu tesouro!!!bj

Gaja Maria disse...

Oh! Que maldade a daquele pai...

Berço do Mundo disse...

Estou aqui lavada em lágrimas. As suas palavras têm o condão de nos emocionar

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira
Ainda bem que casei com dois maridos legais, pena que um morreu. Mas, minha mãe sempre dizia: apanhou uma vez apanha sempre. Se seu marido for violento e vier por cima de você pega o tijolo e arrebenta a cabeça dele. Não foi preciso.kkk
Beijos
Minicontista2