24.2.17

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXV


Ouviu a campainha. Vestiu o casaco, pegou na mala, abriu a porta e saiu.
-Olá.- Disse ele, ao mesmo tempo que se inclinava e lhe aflorava a testa com um beijo breve.
- Foste pontual. Não me quero demorar.
- Não te preocupes, - disse abrindo-lhe a porta do carro.
- Onde vamos?
-A minha casa.
“Mau. Se ele pensava em levá-la para sua casa no intuito de uma tarde na cama, nunca lhe perdoaria”
- Não te preocupes. Confia em mim.
Era como se ele tivesse adivinhado os seus pensamentos. Chegaram a um luxuoso condomínio. Um segurança, abriu o portão e o carro rolou até se deter em frente de um bonito edifício de dois pisos.
Ajudou-a a descer, e conduziu-a pelo braço até casa. Abriu a porta, e desviou-se para lhe dar passagem. Quase de uma forma inconsciente fechou a porta com o calcanhar. Teresa, não se atrevia a falar. Deixou que lhe despisse o casaco, e a conduzisse à sala.
Pegou num comando e fez correr o reposteiro que cobria a enorme janela, inundando a sala de luz. Ela viu que estava numa divisão de grandes dimensões. Reparou na parede coberta de livros, atrás de um dos sofás. No móvel bar, e na brancura dos enormes sofás. Em frente de um deles, uma mesa de vidro. Sobre ela um par de ténis de criança, e um álbum.
- Senta-te Tê. Trouxe-te aqui para te mostrar algo, que nunca pensei mostrar a ninguém.
Sentou-se e ele sentou-se a seu lado. Pegou no álbum, abriu-o e entregou-lho.
Ela viu vários recortes de jornal. Eram muito antigos. Leu o primeiro.
Relatava um crime. Uma mulher vítima de maus tratos, matara o marido. E tinha uma foto de um homem estendido no chão. Leu outro. Falava do mesmo crime. Sem compreender o que se passava, virou a página. E viu mais recortes. Com ligeiras variantes, mais ou menos sensacionalistas, os recortes traziam todos a mesma notícia.
Numa delas havia uma foto de criança. Dizia-se que era o filho do casal, que devia ser enviado para numa instituição estatal.  Numa outra dizia-se que a mulher aguardava julgamento em prisão preventiva, e que o filho fora acolhido por uns tios.
Sem saber o que pensar olhou para Rui.
- Eram os meus pais. Eu sou essa criança.- Disse com voz rouca.
Sentiu-se zonza. Como se tivesse levado uma pancada na cabeça. Tentou dizer alguma coisa, mas não conseguiu. O que viu nos olhos do homem, era terrível. Estendeu a mão e colocando-a sobre a masculina, apertou-a suavemente. Ele continuou
 - Por mais que me esforce, não me recordo de ter visto algum dia o meu pai sóbrio. Em contrapartida sempre me lembro de ouvir os seus gritos e o choro da minha mãe, quando ele lhe batia.

20 comentários:

Edumanes disse...

Então, é por isso que ele guarda os ténis como triste recordação. Eles que juntem mas é os trapinhos, e sejam felizes, porque é o melhor que se leva desta vida!

Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Ana S. disse...

Os traumas de infancia influenciam o futuro das pessoas. Às vezes julgamos as pessoas sem conhecer o seu passado.
Abraço.

Jaime Portela disse...

A violência doméstica é uma coisa terrível para as crianças (e também para as vítimas, claro).
Mas tudo é ultrapassável.
Mais um magnífico capítulo, estou a gostar da história.
Bom fim de semana, amiga Elvira.
Beijo.

Odete Ferreira disse...

E vai, de certeza, dizer-lhe o que se passou naquela noite...
Continuo a ter a mesma intuição sobre os ténis.
Vamos ver o que a contista nos reserva.
Bjo, Elvira :)

Tais Luso disse...

Olá, Elvira, sei que estou pegando o 'bonde andando', mas esse capítulo está claro, somos hoje o reflexo da nossa infância e adolescência. Senti o drama, o medo da personagem. Ótimo seria se eu tivesse pego a história no primeiro capítulo!!
Beijo, amiga!

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Infelizmente os maus tratos entre casais é "comum" e nada melhor que uma chamada de atenção.
Um abraço e bom fim-de-semana.
Andarilhar || Dedais de Francisco e Idalisa || Livros-Autografados

© Piedade Araújo Sol disse...

muito bem conseguido, acho que já sei a ligação dos ténis, mas vou esperar para ler.
de todos os capítulos, este foi o que mais me emocionou.
traumas de criança, ficam para a vida inteira.
beijinhos

:)

Tintinaine disse...

Chegou a hora de exorcizar os fantasmas do passado. Feito isso fica o caminho livre para um futuro mais risonho.

✿ chica disse...

Nooooooossa, cheguei a arrepiar de pena do Rui...Motivos muitos pra ter agido sempre assim...Vamos aguardando! bjs, chica

Socorro Melo disse...


Penso que Rui tomou a maior e mais acertada decisão de sua vida. Esta confissão lhe renderá a paz e o amor que com certeza o curarão dos seus traumas de infância.
Não há nada que o verdadeiro amor não cure. Estou torcendo por esta família,para que se una e seja feliz. Parabéns, amiga! Linda história.

Beijos

António Querido disse...

Não estava à espera desta, mas sim concordo plenamente que qualquer criança que cresça num ambiente semelhante, fica traumatizada para a vida de casal, precisava da ajuda que agora reencontrou!
Muito interessante esta longa e atribulada "Travessia".

Bom Carnaval

Diana Fonseca disse...

O rapaz não teve uma vida fácil e isso pode ter-se reflectido nas suas atitudes.

Bell disse...

Tudo que vivemos de bom e de ruim na infância reflete no nosso futuro.
Um grande mistério sendo revelado.

bjokas =)

Pedro Luso disse...

Olá Elvira.
Como ocorre com a Taís, também estou pegando o bonde (em Portugal é outro o nome para essa espécie de ônibus sobre trilhos) andando, mas vou acompanhar os próximos capítulos.
Um bom final de semana.
Um abraço.
Pedro.

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanhar a história!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

AvoGi disse...

Vida complicada. Um trauma arrastado pela vida
Kis :=}

rendadebilros disse...

A infância das pessoas, se foi traumatizante, pode deixar marcas duras e as pessoas ficam frias e calculistas. Mas um dia o amor, sempre o amor, talvez faça milagres. Aprende-se muito pela vida fora.
( A foto do lago com o iglô é , na verdade, recorrente. Agora, já se nota , embora, levemente, o verde das folhinhas das árvores.) Beijinhos. Bom fim-de-semana.

Roaquim Rosa disse...

boas
adivinhava-se algo de extraordinário e eu fiquei um pouco como a Teresa ou seja sem palavras .
temos mesmo de esperar até ao fim .
Ate amanhã
JAFR

José Lopes disse...

A vida tem sempre momentos inesperados, e cada pessoa tem os seus segredos, os seus fantasmas...
Cumps

Anete disse...

... Chegou a grande hora dos esclarecimentos e de reverter a história do Rui! Reconhecimento e desejo de mudar são importantes p superar os traumas...
Estou gostando mais e mais...
Um abraço