22.2.17

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXIII



Rui saiu dali tão trémulo, como se estivesse embriagado. Sentimentos contraditórios, misturavam-se-lhe no peito, apertavam-lhe o coração. Era pai.
E à alegria que enchia o seu coração, sobrepunha-se o remorso pelo abandono a que condenara mãe e filho, pela sua ambição.
Percebia agora que agira muito mal. Que Teresa devia ter sofrido muito, com a sua ausência. Afinal era quase uma menina, ainda estudava, e tinha-se visto sozinha com um filho nos braços. Mesmo que tivesse tido a ajuda da família, ( e não era certo que a tivesse tido,) enfrentar uma gravidez e assumir um filho sozinha, teria representado além do sofrimento uma enorme carga emocional e material.
Ela tinha razão. Ele aproveitara-se do seu amor, mas não dera nada de si em troca.
Ah! Se ele pudesse resgatar o passado. Se ele pudesse voltar no tempo.
Passou a mão pela testa.  
Tinham que casar. Ele queria dar ao filho tudo, a que ele tinha direito. O seu apelido, amor, compreensão, dinheiro. Mas se o filho era muito importante, reconhecia agora que Teresa, não o era menos. Ele sabia bem, quantas vezes sonhou com ela naqueles oito anos. Quantas vezes, desejou tê-la a seu lado.  Quantas vezes a buscou nos encontros fortuitos com outras mulheres,que sempre lhe deixavam um travo amargo na boca e uma sensação de vazio na alma. Hoje, tinha a noção da grandeza do seu amor por ela.
Porém conhecia-a bem. Teresa até era capaz de aceitar que ele desse o nome ao filho. Que a ajudasse, pelo bem do menino. Mas isso não significava que lhe perdoasse, muito menos que quisesse casar com ele. E ele tinha consciência de que a vida sem ela, não teria qualquer sentido.
E o filho? Iria entender, porque não tinha tido o pai junto de si, durante aqueles anos?
Como fora estúpido. Trocara  a emoção e alegria do nascimento do filho, o assistir às suas gracinhas, aos seus primeiros passos, às primeiras palavras, às suas risadas e ao choro, pela ambição. 
Deambulou pelas ruas, amargurado. Tinha na sua frente o maior desafio da sua vida. E para grandes males, grandes remédios, era o que sempre lhe dizia a mãe. Por fim regressou a casa.
Uma vez em casa, dirigiu-se ao móvel e tirou o saco preto onde guardava os ténis. Retirou também um álbum antigo com capa castanha com folhas gravadas. 
Levou as duas coisas para cima da mesa e sentou-se no sofá. 
Abriu o álbum e foi virando as folhas absorto. Como se estivesse olhando muito para além delas, um qualquer ponto, preso no seu passado, mas de forma inconsciente, sempre presente, e  pronto a desabar sobre ele a  qualquer momento.
Que imagens terríveis, ocupavam a sua mente? 
Por fim fechou-o e colocou-o de novo em cima da mesa. Era urgente  fazer a travessia, rumo ao coração de Teresa. Mas para isso, precisava encontrar a saída  do labirinto em que se metera.  Recostou-se no sofá. Lentamente a sua expressão de sofrimento foi-se suavizando.
Encontrara o caminho. A decisão estava tomada. 
 E ele sabia que era a mais importante de toda a sua vida.


25 comentários:

AvoGi disse...

A vida é feita de decisões. Se boas se más só o futuro dirá. Espero que ele tenha tomado a decisão certa.
Kis :=}

Pedro Coimbra disse...

Agora é ir à reconquista.
Que muitas vezes se revela bem mais complicada que a conquista.
Um abraço

Roaquim Rosa disse...

bom dia
novamente os ténis. que decisão irá tomar ele.
vamos aguardar para ver .
JAFR

✿ chica disse...

Arrependimentos pelo não feito ( ou feito)no passado, que o levaram a tomar uma decisão. Veremos!! Muito bom! bjs, chica

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanhar a história...


Isabel Sá
Brilhos da Moda

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Nunca é tarde para reconhecer e reparar as asneiras que se vai fazendo nesta vida.
Um abraço e boa semana.
Andarilhar || Dedais de Francisco e Idalisa || Livros-Autografados

Tintinaine disse...

Isto faz-me lembrar pecados velhos!
Vamos em frente!

António Querido disse...

Siga pelos caminhos da reconciliação, um grande amor falará sempre mais alto!

Vou acompanhando até receber o convite para o casamento.

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Que bom que achou o caminho, como dizem, "meio caminho andado".
Está cada vez mais interessante, querida Elvira.
Até amanhã, beijinhos.

Diana Fonseca disse...

Mais vale tarde do que nunca.
Ele tem de lutar por isso.
O que terá o álbum? Curiosa!!!

Ana S. disse...

Nunca é tarde para começar ou recomeçar. Haja empenho e vontade!

Bell disse...

Tem decisões que são pra já.
Criar um filho só é tão difícil e complicado.

bjokas =)

Taty disse...

Vamos que vamos...
Acompanhando sempre...
Bjus
Taty
Na Casa dos Abrantes
Canal

Emília Pinto disse...

E cá estou eu para continuar a acompanhar esta bela história. Estive a ler os capitulos anteriores e parece-me que as coisas se vão resolver; ela vai querer dar um pai ao filho e perdoará a canalhice dele. Vamos ver o que tu nos reservas. De novo os tenis!!!! Beijinhos, Elvira
Emilia

SILO LÍRICO - Poemas, Contos, Crônicas e Outras disse...

Cá, temos vários ditados populares para esse tipo de borrasca amorosas. Um é: cristal trincado não tem concerto. Outro é: O amor que vai e volta, a volta sempre é melhor. O entendimento humano é simples e complexo ao mesmo tempo. E que o personagem decida bem ou mal, mas que para a união. Grande abraço. LAERTE.

O meu pensamento viaja disse...

Engraçado como num momento - que implica uma decisão - se determina o futuro. A ver ...

As Mulheres 4estacoes disse...

Acompanhando o desenrolar dos acontecimentos e torcendo para ele descobrir sobre o filho.

© Piedade Araújo Sol disse...

agora fiquei mesmo curiosa...

muito bom o conto!

beijinhos

:)

Edumanes disse...

Mais vale tarde de que nunca. Rui já percebeu de que é urgente fazer a Travessia. A ver vamos se o barco consegue sem naufragar de pressa chegar à outra margem?

Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Cantinho da Gaiata disse...

Outra vez os tênis, o que será que guardam de tão especial.
Espero que a decisão seja certa.
Beijinho Elvira, estou adorar!😉

Majo Dutra disse...

Está deveras emocionante, Elvira...
Espero que tenha tomado uma decisão assisada.
Abraço
~~~

Socorro Melo disse...


Olá, Elvira!

Por aqui, acompanhando a história. E na torcida pra ver essa família linda unida.

Gaja Maria disse...

Felicidade desperdiçada por causa da ambição... Quantos exemplos destes nós conhecemos. Nesta história talvez as coisas se componham mas nem sempre assim é. Abraço Elvira

Berço do Mundo disse...

Regressei para saber tudo o que se passou na minha ausência.
Beijinho Elvira

lua singular disse...

É fácil,
Oi querida, voltei porque soube que tem um filho, etc.
Eu nem abriria a porta pra ele.
E se ela já estiver casada.Hi...Hi...
Beijos