21.2.17

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXII



Noite de Sábado. Teresa acabara de deitar o filho, quando o telefone tocou. Estranhou. Não conhecia o número.
- Olá - a voz rouca surpreendeu-a. Tardou em responder.
-Ficaste sem voz?
- Não. Não, estava à espera que telefonasses.
- Tenho saudades tuas. Olha, ainda não são dez horas. Vamos sair?
- Não. Não quero sair.
- Está bem. Mas continuo com saudades. E se não te apetece sair, vou a caminho da tua casa.
- Não – quase gritou.
Ele já não ouviu. Desligara a chamada. E antes que ela tivesse tido tempo de pensar em qualquer coisa a campainha da porta tocou. Ficou a pensar que  já devia estar à porta do prédio quando telefonou.
Abriu a porta mas não lhe deu passagem.
-Estás doido? Com que direito é que me vens incomodar na minha própria casa?
- Com o direito de ser o teu futuro marido.
- És muito engraçado.
De súbito, reparou que o rosto masculino, ficava extremamente pálido, enquanto olhava um ponto atrás de si. 
Voltou-se e ficou sem ação ao ver Martim em pijama de pé no corredor.
- Quem é mamã?
- Um amigo. – Caminhou até ele – Vai para a cama filho. A mãe já lá vai dar-te um beijo de boas-noites. Agora tenho que falar com este senhor.
O homem permanecia à porta, sem se mexer. Parecia petrificado.
- Entras, ou sais? – Perguntou sarcástica
Entrou. Agarrou-lhe num braço.
 - Porque não me contaste? – Perguntou  com a voz embargada pela emoção
- Não tinhas que saber. Não é teu filho.
- Não digas disparates. Vê-lo ali assustado no corredor, foi como recuar  trinta anos, e ver-me a mim mesmo. Não tinhas o direito de mo esconder.
- Direito? Mas que direito? - Interrogou agastada. -  Lembras-te que te pedi para irmos passar o Natal à terra, com a minha família? Disseste que não podias, que eu fosse sozinha. Foi lá que descobri que estava grávida. Regressei ansiosa, para te contar imaginando que ias ficar feliz. E adivinha o que aconteceu? Encontrei a casa vazia, sem um bilhete de despedida, que me desse sequer a ilusão, de que tinha significado alguma coisa na tua vida.
- Contra isso nada posso fazer. Reconheço que  me portei como um canalha. Sei que o meu arrependimento, não te retira o sofrimento que passaste. Se te serve de consolação, devo dizer-te que nunca o teria feito, se passasse pela minha cabeça, a ideia de que podias estar grávida. Mas tinhas-me dito que tomavas a pilula.
- E tomava. Mas lembras-te que estive doente, um tempo antes e que tomei alguns medicamentos? O médico disse-me depois, que um deles pode anular o efeito da pilula, devíamos ter tomado outras precauções. Mas na altura eu não sabia.
- Ouve, quero que amanhã digas ao menino que eu sou seu pai. Quero vê-lo crescer, passear com ele, acompanhá-lo à escola. Quero fazer parte da sua vida.
- Quero, quero, quero. É só isso que sabes dizer. Como se nós fossemos mais uma empresa, uma máquina ou um carro, que te dispões a comprar.  Somos gente e sentimos como tal. Não estamos à venda.  E se eu não lho disser? E se eu não quiser que ele te veja?- Estava cada vez mais exaltada.
- Vais fazê-lo, Tê. Tenho esse direito e juro-te que o vou conseguir, nem que seja através dos tribunais. 
Apertava-lhe o braço zangado, o rosto pálido. Ela nunca o tinha visto assim.
Curiosamente a fúria dele, acalmou-a.
-Vai. Amanhã falamos. Estamos os dois nervosos, precisamos pensar com calma.
E empurrou-o para a porta.




24 comentários:

Pedro Coimbra disse...

Quando aparece uma criança no enredo tudo se complica.
Um abraço

© Piedade Araújo Sol disse...

muito bem...estou a gostar.
isto prende o leitor.
beijinhos
:)

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
Não sei quantos mais episódios vão haver, mas penso que vai acabar bem pois no fim o amor vai superar todas as dificuldades.
até amanhã
JAFR

Isa Sá disse...

A passar para acompanhar a história!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Berço do Mundo disse...

Ai agora. Acho que o argumento do tribunal foi muito mal escolhido da parte dele, se a quer conquistar. Provavelmente estava muito abalado com a descoberta. Ansiosa por saber o que se passará a seguir.
Beijinho, boa semana
Ruthia d'O Berço do Mundo

Tintinaine disse...

Um acidente de percurso que vai ajudar a pôr o romance no trilho certo. Isto sou eu a tentar antecipar-me à contista, mas pode bem acontecer.

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Estou de acordo com o amigo Pedro.
Um abraço e boa semana.
Andarilhar || Dedais de Francisco e Idalisa || Livros-Autografados

António Querido disse...

Como pai vai acalmar, mas o poder do dinheiro naquela cabeça vai continuar a falar mais alto, esperamos para ver mas a longa travessia está bastante interessante!
O meu abraço.

Anete disse...

Passos decisivos p um recomeço esperançoso...
O amor e suas peripécias emocionantes... O casal ainda será muito feliz...

Um abraço

Luiza Maciel Nogueira disse...

Um filho é sempre uma luz para ocorrer a reconciliação e o aprendizado da convivência cabe aos pais aprenderem (embora nem todos aprendam).

Grande beijo! E adorei a história por favor continue!

AvoGi disse...

Adensa-se...Estou a adorar. homens que aparecem e exigem direitos.. quando ela precisou onde estava ele?
Kis :=}

São disse...

Pobres crianças.....


Beijinho

Edumanes disse...

Desculpas para ali, desculpas para acolá,
mas, nem Teresa, nem Mário, nenhum razão
do que está acontecendo entre eles terá
estão agindo contra a vontade do coração!

Tenha uma boa tarde, e cara alegre, amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Os olhares da Gracinha! disse...

E é bom que a criança saiba a verdade ...bj

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Não perco um dia, a leitura está cada vez melhor, se não comentei alguns é por que do celular não dá, querida Elvira.
estou muito curiosa com o desenrolar da linda estória de amor.
Beijinhos no coração querida amiga.

Taty disse...

Quero saber mais...
Bjus
Taty
Na Casa dos Abrantes
Canal

Odete Ferreira disse...

Bem disse que até ao Natal muita coisa se passaria...
Bjinho :)

Prata da casa disse...

Agora lembrou-se de que tem direitos? Mau!
Bjn
Márcia

Rui disse...

Creio que foi "ultrapassada" a última barreira !
O conhecimento de facto, da existência do filho, o amor renovado que sente pela Teresa, a sua "cedência" e "entrega" (embora falsamente não admitida) ao beijo entre os dois, são factores decisivos para o desenrolar positivo dos acontecimentos futuros !
Certo que não tardarão as cedências totais ! :)
Há um filho de ambos, há amor entre ambos, embora muita mágoa (na Tê), é certo, mas não impeditiva !

(Nota: só não compreendi, ou me passou em episódios anteriores, o nome Sofia. ???)

Abraço ! :)

Majo Dutra disse...

Surgiu um degrau que pode conduzir um desfecho feliz...

Esta foto é a do seu menino...
Dias muito felizes.
Abraço afetuoso.
~~~~~~~~

✿ chica disse...

Acho que tudo se encaminha pra mais perto de um bom final pra todos...bjs, chica

Ana S. disse...

Olá Elvira.
Quando há filhos no meio, tudo fica mais complicado. A criança merece conhecer o pai desde que ele seja digno desse "papel".
Abraço

Olinda Melo disse...


Boa noite, Elvira

Com uma criança pelo meio o melhor é eles se entenderem.

Bj

Olinda

lua singular disse...

Eu não ia criar um filho sozinho se ele tinha dinheiro e mãe nenhuma pode mandar nos sentimentos que poderia ter seu filho.
A partilha tem que ser feita
Beijos
Lua Singular