15.2.17

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVI





Abriu a porta, entrou e como era seu hábito, cerrou-a com um toque de calcanhar. Tirou o telemóvel do bolso do casaco, despiu-o e pendurou-o no bengaleiro. Então reparou num papel em cima da mesa de entrada. Aproximou-se, e verificou que se tratava da fatura de uma compra de produtos de limpeza, que a mulher-a-dias lhe tinha deixado.
Há anos que tinha aquela empregada, era pessoa em quem tinha confiança total. Tinha cuidado da sua mãe, e anos mais tarde, quando comprara aquela casa, contratara-a com a certeza de que podia estar descansado que a casa estaria sempre impecável.
Raramente a via, ela chegava sempre depois dele ter saído. Levantava a chave no condomínio e voltava a deixá-la lá, quando se ia embora. No final de cada mês, ele deixava o dinheiro ali, e o recibo que ela assinava e deixava no mesmo sitio. E quando era necessário fazer alguma compra, fazia-a e deixava-lhe ali a fatura. No dia seguinte encontrava o dinheiro. 
Foi até à sala, e deixou-se cair no sofá. Não parecia o homem forte e dominador que geria com mão de ferro, os seus negócios. Dirigiu-se à estante mas não pegou em nenhum livro. Ficou parado durante uns segundos, e depois, abriu o armário que ficava na parte inferior da estante, e retirou um saco de pano preto com uns desenhos circulares em cinzento.
Voltou para o sofá. Abriu o saco e retirou uns ténis infantis, azuis-escuros com estrelas nas laterais.
Durante uns momentos, deu-lhes várias voltas nas mãos. Estava pálido, e o seu rosto estava tão tenso que  dir-se-ia  ser de pedra.
Depois pressionou-os contra a palma da mão, e os ténis faiscaram como se tivessem uma corrente luminosa à volta da sola.
Decorreram largos minutos, com o homem fixando as luzinhas como se estivesse hipnotizado. Finalmente abrandou a pressão, e ao apagarem-se as luzes, como que voltou à terra. Respirou fundo e voltou a guardar os ténis no saco de pano.
Se alguém tivesse presenciado aquela cena, decerto ficaria perplexo. Como é que um homem, que todos conheciam como um implacável homem de negócios, ficava assim emocionado à vista de um simples par de ténis?  Que fetiche era aquele?
 Recostou a cabeça no enorme sofá branco, fechou os olhos, e durante um bom tempo, permaneceu assim, relembrando os dois anos que vivera com Teresa. Agora, à distância, dava-se conta de que aquela época da sua vida  fora a única realmente feliz que vivera. Agora que cumprira as juras de criança, que a ambição de riqueza já estava aplacada, chegava à triste conclusão que toda a fortuna amealhada, não servia para comprar um único dia de felicidade.  E afinal para quê? Se a única pessoa a quem gostaria de dar uma vida de luxo, não tivera forças para viver até esse dia.

23 comentários:

Pedro Coimbra disse...

Andou perdido, está a caminho de se encontrar.
Um abraço

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
mais um enigma nesta historia para nos pôr a cabeça á roda !!!
até amanhã se Deus quiser .
JAFR

✿ chica disse...

Instigante esse apego ao tênia...Tá lindo de acompanhar! bjs, chica

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanhar a história.


Isabel Sá
Brilhos da Moda

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Estou de acordo com o comentário do Pedro.
Um abraço e boa semana.
Andarilhar || Dedais de Francisco e Idalisa || Livros-Autografados

António Querido disse...

Ao visualizar a imagem, pensei que o homem se tinha feito sócio de Trump, mas não, está sim a começar a sofrer na pele os erros do passado.
Passado mas bom, foi para mim o dia de ontem, dando mais atenção à minha namorada, hoje já estou novamente de volta à Blogosfera, que também nos ajuda a passar o tempo.

Deixando o meu abraço.

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Bom dia querida Elvira!
Hum!
Que fatos estão escondidos por detrás do tênis?
Adoro este suspense, rsrsr,
Até a amanhã, beijinhos.

Prata da casa disse...

Qual será o segredo por detrás daqueles ténis? O mistério continua.
Bjn
Márcia

Os olhares da Gracinha! disse...

Quanto suspense!!! Bj

rendadebilros disse...

Sempre os pormenores: até vemos como tudo se desenrola, a chegada a casa, o contrato com a empregada, a abertura da caixa, o mirar e remirar e apertar os ténis. A vida dá muitas voltas. E quem sabe o que se pode seguir? (Elvira, pois teria trocado o passeio pelo Amadeo de Souza Cardoso!!! Mas é assim...) Beijos.

Tintinaine disse...

Os ténis do Capitão América!
Que puto é que não sonhava ser o Capitão América?
Bem me lembro desse tempo!

Anete disse...

O mundo dá muitas voltas e é cheio de novas oportunidades... Coisas boas vêm por aí... Um tênis que traz emoções e reconhecimentos, hum!...

Um abraço...

O meu pensamento viaja disse...

Oh! Que pena! Que história tão triste!

Edumanes disse...

Não se compra a felicidade,
ela se elude pelo dinheiro
por onde anda em liberdade
em viagem pelo mundo inteiro!

Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Vieira Calado disse...

Boa noite, Elvira!
O Joaquin de Silva (creio que que é a si que ele se refere quando diz que irá a Lisboa, daqui uns tempos, para vê-la e a mais alguém), está pelos Algarves. Vamos encontrar-nos no próximo Sábado.
Quanto ao concurso de contos... é reservado apenas a algarvios. Pena!

Beijinhos!
.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Olá Elvira! Passando para agradecer a tua visita e amável comentário deixado no nosso Arte & Emoções.

A reação dele diante do tênis me deixou um tanto curioso, mas como cheguei só agora e não li os capítulos anteriores, matarei a minha curiosidade depois.

Abraços,

Furtado

Luiza Maciel Nogueira disse...

Por um lado é uma grande tristeza ver partir quem tanto queremos ao nosso lado por outro é uma alegria ter tido uma presença tão bonita nas nossas vidas, uma benção amar.

Beijinho

Cantinho da Gaiata disse...

Os recalcamentos do passado.
Estou a adorar.
Beijinho

Cantinho da Gaiata disse...

Os recalcamentos do passado.
Estou a adorar.
Beijinho

Emília Pinto disse...

Os tenis, Elvira, não sei, mas não será prova de nostalgia, lembrando-se de tempos onde ,criança , vivia feliz, sem tantos compromissos e remorsos? Pode ser, mas só tu o saberás, ou será que deixou outro filho em algum lugar?. Vamos lá ver o que nos reservas. Beijinhos, amiga e boa noite,
Emilia

aluap Al disse...

Acho que os ténis são da Teresa.
Quando falamos em ténis a nossa mente está mais para pensar no mundo masculino, mas podem ser uns ténis femininos. Quando juntos ela ainda era estudante, não devia usar sapatos de salto alto!

Beijinhos.

Gaja Maria disse...

A vida dá tantas voltase a ambição trata de estragar tantas delas :)

lua singular disse...

Oi Elvira
que ele vá buscar a mulher
Mistério o tênis
Beijos
Lua Singular