2.2.17

LONGA TRAVESSIA - PARTE IV




O rapazinho, encolheu-se mais na cama ao ouvir os gritos do pai.
-Outra vez, não,- gemeu tapando os ouvidos com as mãos.
Era sempre assim, quando o pai vinha bêbado para casa. O pai gritava com a mãe, e batia-lhe. E o pior é que ultimamente o pai vinha todos os dias assim. Nessas alturas, Rui ficava cheio de raiva contra o pai. Queria crescer para poder enfrentá-lo. Às vezes pensava que se pudesse o mataria.
Até ele chegou um baque surdo e ouviu nitidamente o choro da mãe. Ele estava a bater-lhe de novo. Sem poder conter-se saltou da cama e dirigiu-se à cozinha, local donde vinham os gritos.
Sabia que o pai lhe iria bater mal chegasse lá, mas não se importou.
Naquele momento o pai tinha a mão fechada e preparava-se para a deixar cair de novo no rosto da mãe.
O menino arrancou, com o ímpeto dos seus onze anos e arremeteu com toda a força contra o pai. Este cambaleou, desequilibrou-se e caiu para trás, bateu com a nuca na esquina da mesa e finalmente imobilizou-se no chão.
Por momentos mãe e filho ficaram imóveis esperando que ele se levantasse.
Como isso não aconteceu, a mãe com o rosto ferido, e um olho violáceo, resultado dos maus tratos do marido, baixou-se tentando ajudá-lo, mas ao ver os seus olhos, e a poça de sangue que se ia formando à volta da sua cabeça,  teve a certeza de que ele nunca mais lhe faria mal.
Levantou-se e encarou o menino.
-Está morto, filho, -disse quase sem voz
O menino estava a tremer.
-Matei-o? - Perguntou assustado.  
- Não, filho, não. Fui eu quem o empurrou. Estava cansada de apanhar pancada. Mas não queria matá-lo.
- Mas mãe…
-Nem mas, nem meio mas. Ficas proibido de dizer o contrário, - disse erguendo a voz autoritária. - Agora vai bater à porta da vizinha e pede-lhe que chame a polícia. Mas vê lá o que fazes. Aconteça o que acontecer, fui eu quem empurrou o pai. Ouviste?
- Sim mãe. 
A tremer, de frio e de medo, abriu a porta para ir chamar a vizinha.


Ó p'ra vocês a franzirem a testa e a perguntarem: " Donde saiu este episódio? Quem é este Rui? Será que a autora exagerou no alentejano do jantar de ontem?" 
Gente estou a brincar para aliviar um pouco a violência do texto.


27 comentários:

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
verdade mudança radical e a criar o suspense de sempre.
vamos ver o que isto vai dar
JAFR

✿ chica disse...

Fiquei surpresa,rs...Vamos ver e te acompanhando...bjs,chica

Isa Sá disse...

A passar para cá mais uma vez para acompanhar a história!


Isabel Sá
Brilhos da Moda

Os olhares da Gracinha! disse...

O álcool tem disto!!!
Bj

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Continuo a acompanhar com bastante interesse.
Um abraço e boa semana.
Andarilhar || Dedais de Francisco e Idalisa || Livros-Autografados

Tintinaine disse...

Veremos como isto se insere na história. Amanhã volto para ver.

Existe Sempre Um Lugar disse...

Bom dia, infelizmente a historia que relata, cada vez mais, é frequente no momento actual, a violência doméstica, são os valores negativos que os pais passam para os filho, este valor negativo nota-se cada vez mais nos adolescentes que utilizam a violência nos namoricos.
AG

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Hum! O suspense chegou e agora, o que irá acontecer?
Fico imaginando mil coisas.
Estou gostando muito cara amiga Elvira, beijinhos e até amanhã.

António Querido disse...

O problema maior desses episódios, quando reais, são as crianças a crescer nesses tristes ambientes familiares! Voltarei amanhã,
Com o meu abraço.

Jaime Portela disse...

Li os 4 capítulos de seguida e fiquei com a certeza de que a sua escrita está cada vez mais sólida e segura.
Esta cena de violência doméstica, aparentemente, nada tem a ver com o que foi relatado anteriormente. Mas o próximo capítulo, por certo, vai ligar as pontas...
Elvira, continuação de boa semana.
Beijo.

Edumanes disse...

Depois de tanta violência, e do homem morto caído no chão. Diz você amiga Elvira, que foi para aliviar a violência do texto. Violência gera violência. Todavia, a vítima com violência conseguiu por fim à violência, da qual era vitima!
Tenha um bom dia amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Olivia disse...

É triste quando as pessoas têm de passar por situações destas. As mães são tudo!

Socorro Melo disse...


Que situação! A violência doméstica é a pior que existe, pois, acaba matando os sentimentos, os afetos, põe abaixo o respeito, afora a agressão física. E é muito mais comum do que se pensa.

Ficamos na expectativa.

Rui disse...

Ora agora, é que "a porca torce o rabo" ! Quem será este Rui ! (Eu não serei, certamente) !
Está a aguçar-se a curiosidade e a Elvira é uma grande Mestra nisso e na escrita propriamente dita !
Aguardemos ! :)

Bell disse...

Tantas crianças vivem essa realidade sofrida.

bjokas =)

maria disse...

Dramático!

Cantinho da Gaiata disse...

Uma história, mas que em muitas casas é uma realidade.
Vou voltar para ver o próximo episódio.
Bj

O meu pensamento viaja disse...

Embora se trate quase do quotidiano, não suporto o tema principalmente quando envolve crianças. É tão cruel e tão injusto ...
Beijo

Elisa Bernardo disse...

A passar para acompanhar e lhe mandar um grande beijinho.

Prata da casa disse...

É um flash back da vida da personagem, claro. Foi a dureza da infância que o tornou num adulto amargo, embora com bastante sucesso a nível material.
Bjn
Márcia

Gaja Maria disse...

Será a mulher a Teresa? Não pode ser...

Odete Ferreira disse...

Independentemente da importância que este excerto tiver (e sei que vai ter muito) na narrativa, esta vivência é, infelizmente, bastante comum. A narradora tem dado provas de não temer introduzir pedaços da vida real numa ficção.
Na verdade, frequentemente, a realidade é mais dura que a ficção; esta é inócua, a realidade não.
Bjinho

Pedro Coimbra disse...

Depois que ouvi um deputado aqui, em plena Assembleia Legislativa, dizer que bater na mulher e nos filhos era um "acto de amor" (sic) já nada me surpreende.
Um abraço, bfds

Silenciosamente ouvindo... disse...

Continuando a seguir a história amiga.
Bjs.
Irene Alves

Berço do Mundo disse...

Cheira-me que este Rui é filho da Teresa...

aluap Al disse...

Sempre houve homens mal formados que maltratavam as suas mulheres, uns por beberem, outros porque eram maus por natureza.
Este episódio influenciou a pessoa do Rui/Mário.

Bjo/bom fim de semana.

lua singular disse...

Oi Elvira,
No primeiro soco que recebesse do marido ele morreria antes ao amanhecer.
Que moda é essa? Por que ele não enfrenta alguém forte na rua?
Bem feito, deve estar queimando no inferno.
Beijos
lua Singular