1.2.17

LONGA TRAVESSIA - PARTE III






Teresa sempre lhe dizia que trabalhava demais. Numas férias, pelo Natal, há oito anos atrás, quis que ele a acompanhasse à terra a fim de conhecer a sua família. Aquilo cheirou-lhe a compromisso e isso era algo que estava fora das suas ambições. Ela foi sozinha, e ele aproveitou para se despedir do banco, entregar na editora, o trabalho que tinha em mãos e partir. A Inglaterra pareceu-lhe o melhor sítio para levar a cabo o seu plano de enriquecimento e foi para lá que seguiu. Nunca mais soube da jovem Teresa.
  Que seria feito dela? Teria regressado à terra quando acabou o curso, ou teria ficado na cidade? Devia ter… trinta e um anos. E se era linda quando a conheceu, agora devia ser uma mulher muito bela. Talvez tivesse casado, quem sabe tinha filhos. Passou a mão pela testa, como se quisesse afastar aqueles pensamentos.
Devia concentrar-se no negócio do dia seguinte. Estava prestes a comprar mais uma empresa, para juntar ao lote das que já tinha. Naqueles oito anos, construíra quase um império. E tudo começou com a compra de uma pequena fábrica de loiça, em vias de falência. Quando conseguiu erguê-la e já lhe dava lucro comprou outra.
Tinha-se rodeado de pessoal eficiente e de confiança. Tornara-se num negociador implacável. Por vezes, sentia – se como um abutre humano sempre seguindo aqueles que estavam na pré falência.
Os seus negócios eram tão diversificados que iam desde a fruta até aos medicamentos.
Agora estava na eminência de adquirir uma empresa de produtos para o lar, no seu país. Já tinha apresentado uma boa proposta, e no dia seguinte se veria se o negócio se concretizava.
Pensou que talvez fosse a sua última aquisição. Sentia-se cada dia mais cansado. Quase não viveu com a ânsia de enriquecer, e agora que sentido tinha a sua vida? Com quem partilhar aquela esplêndida casa?
Se ao menos a mãe fosse viva. Mas coitada, partira antes de ver o filho concretizar os seus sonhos de grandeza.
Estava a ficar velho. Decididamente. Só assim se justificavam os sentimentos que ultimamente o vinham assaltando.
Se ao menos tivesse um irmão, um sobrinho, alguém de família. Mas apenas lhe restavam uns primos, com quem nunca teve afinidade e que segundo informações recentes tinham emigrado para a Austrália.
 Estava sozinho. Olhou o relógio. Quase duas horas. Eram horas de dormir. Levou o copo, para a cozinha
Depois dirigiu-se à casa de banho.
Tomou um duche, vestiu apenas uns calções de pijama, escovou os dentes e dirigiu-se ao quarto.
Puxou a colcha para trás, e antes de se deitar, lançou um breve olhar para a cama. Demasiado grande para a sua solidão.



Nestes três capítulos iniciais, apresentei-vos a personagem central desta história.  Um homem rico e bonito. Um lobo solitário. Simpatizam com ele? Claro que não.Vamos ver o que vem por aí amanhã?

21 comentários:

Tintinaine disse...

Eu fico à espera da Teresa!
Acho que vai sair uma mulher para me encher as medidas!

✿ chica disse...

Uma vida assim fica faltando algo...Vais saber preencher com tua inspiração! bjs, chica

Roaquim Rosa disse...

bom dia
a riqueza não é tudo na vida mas aliada ao amor traz mais alegria, vamos ver se isso vai acontecer !!!
JAFR

Isa Sá disse...

A passar para acompanhar a história..

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Mais uma história bem interessante minha amiga.
Um abraço e bom Fevereiro.
Andarilhar || Dedais de Francisco e Idalisa || Livros-Autografados

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Um homem vazio, que pensou apenas na matéria, mas agora parece sucumbir diante da solidão que ele mesmo construiu.
Vamos ver que rumo tomará sua vida quando encontrar a Teresa.
Estou gostando cara amiga, Elvira, beijinhos.

António Querido disse...

Um homem cheio de dinheiro e jeito para o negócio, mas acho que deixou fugir o melhor da vida e se algum dia chegar a ver a Teresa, já nem lentes de máxima graduação o salvam!
O meu OBRIGADO, por ser a primeira a entrar no aniversário do "Figueira Minha", o Champanhe como vem de França só chega depois de jantar! Abraço.

Socorro Melo disse...


O tempo é senhor de tantas coisas... Bastou o tempo para que o nosso ambicioso amigo percebesse que tudo na vida tem limites. A solidão ensina muito, e o vazio também. É inteligente e vai perceber que falta algumas peças para completar o seu quebra-cabeça. Torço por ele.

Prata da casa disse...

Uma vida rica materialmente, mas vazia de sentido.
Bjn
Márcia

Taty disse...

Curiosa....
Bjus
Taty
Na Casa dos Abrantes
Canal

aluap Al disse...

Até simpatizo. O tempo passou e decerto vai querer viver agora uma nova situação. Mais vale tarde que nunca!
Um abraço amigo.

Janita disse...

Lá simpatizar, simpatizo, lamento é que tenha levado a sua ambição ao extremo.
Aguardemos...
Assim pudesse a vida ser resolvida!!

Abraço

Edumanes disse...

Por vezes, sentia-se como um abutre humano sempre seguindo aqueles que estavam na pré falência. Vá lá que ele reconhece que tem arranjado fortuna à conta do mal de outros, que lhe têm vendido fábricas por uma tuta-e- meia. Ele terá pensando, primeiro arranja fortuna, depois arranja uma mulher para cuidar de mim, e assim posso ter uma velhice com qualidade e bem estar na vida!
Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Pedro Coimbra disse...

Os espanhóis não gostam de ver bons inícios aos filhos.
Vamos ver se há por aqui dedo espanhol...

Rui disse...

Ora bem. Até aqui verdadeiramente a primeira parte da "Longa travessia" ! O conhecimento do Mário, o principal elemento da história ! :)
Até aqui tudo bem, ou, ... nem tanto assim ! (?). Alguma coisa se passa ! (?)

maria disse...

Será que Teresa vai mesmo entrar na vida dele?

Gaja Maria disse...

Um solitário...

Odete Ferreira disse...

Gosto de personagens densas, isto é, com perfis que nos exigem ir para lá do que se escreve. Vamos ver o que reservaste para este homem )
Bjinho

lua singular disse...

Oi Elvira,
Vamos lendo....
Beijos
Lua Singular

Berço do Mundo disse...

Não é antipatizar, é mais um achar que está sem norte. E ter esperança que algo aconteça para que se reencontre. A Teresa vai aparecer por aí, certo?
Ruthia

Aleatoriamente disse...

Infelizmente, ou felizmente, os nossos próprios desejos, é que nos configuram a vida. Ou seja semeando colhemos.

Muito interessante...