31.1.17

LONGA TRAVESSIA - PARTE II


Voltou a poisar o telemóvel no mesmo sítio, olhou a mulher idosa que se encontrava na tela, e por momentos o seu rosto suavizou-se.
Murmurou algo entre dentes. Uma prece ou um reparo? 
Voltou para a sala. Ligou a televisão, e foi mudando de canal. Passados uns minutos, desligou o aparelho. Sentia-se cansado. Que seria que se passava com ele? Nunca tinha sentido aquele peso, aquela sensação de que alguma coisa lhe faltava. Olhou à sua volta. Tudo naquela casa era confortável e bom. Mas de que lhe valia isso. Que lhe valia a fortuna acumulada em tantos anos de lutas e sacrifícios?  Nunca em toda a sua vida pensou em ter uma família. Uma mulher, filhos. Crescera com um único desejo. Ser rico. Por isso lutara tanto. Era ainda um menino quando albergou no seu coração a ambição. E ela cresceu tanto e tão forte, que não deixou nele, lugar para mais nada. 
Amor? Não acreditava no amor. O dinheiro comprava tudo. Até o amor. Ele teve sempre as mulheres que quis, quando lhe apeteceu. Mulheres que davam qualquer coisa, para passarem com ele umas horas ou dias. Talvez tivessem esperanças de algo mais. A ele nunca lhe interessou saber. Do mesmo modo que nunca alguma lhe fez mossa, ou deixou recordação. Bom, para ser sincero, não era bem assim. Houve uma que foi especial.
 Tinha sido há quase dez anos. Ele trabalhava num banco e ela estava na faculdade. Conheceram-se por acaso. Ele saíra do trabalho e dirigia-se para casa. Ela vinha da Universidade e esbarraram um no outro ao dobrar a esquina da rua.  Segurou-a para que não caísse, e ao olharem-se sentiram uma grande atração um pelo outro. Tão grande, que quinze dias depois, ela deixava o quarto que dividia com uma amiga e mudava-se para o seu apartamento. Mais nova do que ele, era uma jovem, séria, estudiosa, e muito bonita. Chamava-se Teresa.
Recordou o seu belo rosto moreno, os doces olhos castanhos, as suas mãos de longos e finos dedos, que se moviam roçando o seu rosto com a suavidade de uma borboleta. A voz doce com que lhe murmurava “Amo-te” ou a loucura com que partilhava os momentos de paixão no leito, ficaram-lhe gravadas na alma. Foi uma época mágica.
Às vezes Mário pensava que nesses dois anos viveu aquilo que mais se aproximaria do amor.
Porém naquela altura estava tão cego pela ambição, que não havia, no seu coração lugar para mais nada.
Limitava-se a juntar tudo o que podia, Trabalhava muitas horas. Não só no banco, como em casa, onde fazia trabalhos de tradução

24 comentários:

Isa Sá disse...

Passando para acompanhar a história.

Isabel Sá
Brilhos da Moda

✿ chica disse...

Triste fechar-se ao amor...Tá lindo de ler! bjs, chica

António Querido disse...

Esse personagem, se só tem lugar para o dinheiro, vai acabar com o coração enferrujado de tantas moedas! O amor é lindo, é mágico, impossível de descrever! Mas seguimos em frente, estou a gostar da caminhada.
Com o meu abraço.

Anete disse...

Comecei a ler o novo conto e estou gostando...
Sem tempo p o AMOR? Hum, escolha erradíssima... Como ser feliz assim?...
Bjs

Edumanes disse...

Se ser rico sempre foi o seu pensamento. Toda a sua vida, só terá amor ao dinheiro, porque o ama, mais do que tudo na vida. "Egoísta". O dinheiro tudo compra? Isso não é verdade. Não compra a saúde para quem a não tem, não compra a felicidade e não livre ninguém da morte. Mais vale ser feliz e ter saúde, do que muito dinheiro...

Tenha um bom dia amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Socorro Melo disse...


Hum! Ambição desmedida não é boa coisa. Corre-se o risco de enveredar por caminhos sem volta, e de perder coisas preciosas da vida.

Taty disse...

Mas uma boa história para eu acompanhar!
Quero mais....
Bjus
Taty
Na Casa dos Abrantes
Canal

Janita disse...

De facto, há uma longa travessia a percorrer, até que Mário descubra o verdadeiro valor da Vida...
Cá fico a aguardar mais pormenores. Parece que a história promete...

Um abraço.

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Não tem como ser feliz sem amor!
Um abraço querida Elvira.

rendadebilros disse...

Às vezes, nem será bem a ambição que faz abandonar ou descurar os amores. São as circunstâncias do momento, a dedicação ao trabalho. a necessidade de juntar dinheiro para que, um dia, nada falte... Quando uma pessoa se dá conta, o tempo passou e o dinheiro deixa de ter a mesma importância. Há alturas em que se reflecte sobre isso, por exemplo, quando alguém muito jovem ou próximo de nós, parte para sempre, mas são reflexões breves. O ritmo das vidas toma conta de nós. E, depois, ainda há pessoas que optam por ficar sozinhas. São maneiras de viver. Interessante saber como se vai desenrolar esta história, esta vida e este coração. Beijinhos. E bem haja mais uma vez pelas visitas e amabilíssimas palavras.

Os olhares da Gracinha! disse...

Ambição e amor por vezes chocam!
Bj

Silenciosamente ouvindo... disse...

Ambição desmedida não gosto.
Mas há quem seja assim, sem dúvida.
Vou seguir.
Bjs.
Irene Alves

Olivia disse...

Cara Elvira, na minha família há uma pessoa assim. Deu tanto valor ao dinheiro que acabou por se desligar de nós. É tão triste.

maria disse...

Será que ainda está a tempo?

Rogerio G. V. Pereira disse...

Vamos acompanhando...

esteban lob disse...

Historia muy bien tejida, Elvira.
Hay suspenso para la continuación.

Abrazo austral.

Odete Ferreira disse...

Mas há de conhecer o amor, não é amiga?
Vamos ver que travo lhe ficará!
Bjinho :)

Vieira Calado disse...

Olá Elvira, como tem passado?
Passei para ler e deixar-lhe cumprimentos!

Prata da casa disse...

A ambição a vedar a voz do coração.
Bjn
Márcia

Nequéren Reis disse...

A historia a cada dia melhor estou amando, Obrigado pela visita.
Blog: https://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br
Canal: https://www.youtube.com/watch?v=DmO8csZDARM

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira
Vai ficar só. E o amor?
Beijos
minicontista2

Gaja Maria disse...

A ambição é muitas vezes uma inimiga

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
A ambição é uma desgraça que acaba com a nossa vida.Ao acordarmos, já é tarde, envelhecemos e no lugar só da para ficar as lembranças.
Beijos
Minicontista2

Aleatoriamente disse...

Muito interessante...
Mas continuo torcendo pelo o amor.