31.10.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE VIII





 - Demoraste tanto. Os miúdos estão fartos de perguntar por ti, - disse a mãe mal ela entrou em casa.
- Estava muita gente no registo, acabei por perder o autocarro das onze. Onde estão eles?
- Lá atrás no quintal. O teu pai está com eles. E então, já estavam prontos os documentos?
-Já, -respondeu saindo para o quintal.
-Mãe, mãe, - gritaram os dois catraios correndo para ela.
 Baixou-se e abriu os braços para os receber. Eram dois meninos morenos de cabelo escuro, quase do mesmo tamanho, apesar de Simão ser quase dois anos mais velho que o irmão. Enquanto os apertava ao peito, não deixava de pensar na proposta da amiga.
- Ainda bem que chegaste. Vê tu que o Simão me perguntou se tinhas ido viajar como o pai. Não era melhor dizer-lhes logo a verdade?
- Quando chegar a hora eu conto, pai.
- Vão crescer enganados. No meu tempo não se escondiam essas coisas.
- Está bem pai. Mas agora é diferente.
O pai entrou em casa sem responder.
-Mãe, sabes que os coelhinhos já saíram do ninho? São tão "pequininos". Queres ver? – Perguntou o filho mais novo.
-Mais logo filho. Agora vamos para dentro. Está quase na hora do almoço e vocês estão todos sujos. Vamos para a casa de banho.
Pegou nele ao colo e com o outro pela mão entrou em casa.
Depois de os lavar, deixou-os na sala a ver os desenhos animados e foi para a cozinha ajudar a mãe a acabar a pôr a mesa. Aproveitando que o pai tinha saído de novo para o quintal e as crianças estavam a ver TV, Francisca perguntou à mãe o que ela pensava se voltasse a casar. Ao contrário do que esperava a mãe não se escandalizou.
-Penso que isso era o melhor que podias fazer por ti e pelos miúdos. Eles precisam de um pai e tu estás viúva, quase há um ano. Mas é preciso cuidado. Nem todos os homens aceitam criar os filhos dos outros com carinho. Por outro lado, não podes estar toda a vida dependente de nós. Um dia destes dá-nos uma “macacoa” qualquer e lá vamos nós. Já dizia a tua avó. “Quem de novo não vai, de velho não escapa.” Mas porque me fazes essa pergunta hoje? Tens algum pretendente?
Não se atreveu a contar à mãe a proposta da amiga.
-Não mãe. Foi só uma coisa que me passou pela cabeça
- Então vai desligar a televisão e trás os miúdos para a mesa que eu vou chamar o teu pai.  



30.10.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE VII



- Que queres que diga? É a coisa mais disparatada que já ouvi. Se não te considerasse minha  amiga diria que estás a divertir-te à minha custa.
- É claro que não. Estou a falar muito a sério. Tenho que me ir embora e queria ficar descansada com respeito às minhas sobrinhas. Eu falo com o meu irmão. Tenho a certeza que ele vai aceitar, se eu lhe disser que és minha amiga e que pode confiar em ti como confia em mim. Só preciso que me digas que aceitas.
Francisca escondeu a cara entre as mãos. A proposta da amiga, era a coisa mais estúpida que ouvira na vida. Como podia ela aceitar casar com um homem que nunca vira? Por outro lado supondo que as coisas fossem como a amiga dizia, tinha o futuro dos filhos assegurado. Mas e se tudo desse certo e depois de casados um deles se apaixonasse por outra pessoa? Como iam resolver isso? Não sabia que fazer, nem dizer.
-Então Francisca? Não dizes nada?
- Não sei que dizer. Continuo a achar a proposta descabida e irreal. Mesmo que tudo acontecesse como dizes. Supõe que casamos e depois de casados nos apaixonamos…
-Ó isso é que era, ouro sobre azul, - interrompeu Graça
- Não me interrompas. Eu perguntava se depois de casados, ele ou eu nos apaixonamos por outra pessoa. É possível, ou não?
-É possível mas improvável. Meu irmão era muito apaixonado pela mulher. Não será fácil esquecê-la. Tu pelo que contaste, sofreste demais para que estejas a pensar em novas experiências. O mais provável é que com o tempo, a convivência e o conhecimento mutuo, vocês se apaixonem um pelo outro. Mas para isso será preciso que ambos consigam esquecer a experiência anterior. Acredita, por muito descabida que te pareça hoje esta proposta é a tua tábua de salvação. Olha, tenho que ir. Tens aqui o meu telefone. Pensa bem e depois telefona-me.
Francisca guardou o número que a amiga lhe estendera, enquanto esta pagava a conta. Na rua Graça perguntou:
-Queres que te leve a algum lado?
- Não. Tenho ali a paragem do autocarro.
- Então não te esqueças. Espero a tua resposta esta tarde.
Despediram-se com um beijo. Depois Graça entrou no carro e arrancou. Francisca ficou parada no passeio até vê-lo desaparecer no fundo da rua. Lentamente dirigiu-se à paragem do autocarro.


29.10.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE VI





Francisca estava a precisar desabafar, e Graça fora noutros tempos sua confidente. E apesar da vida que as separara nos últimos anos, mostrava que continuava a ser sua amiga. Assim abriu o coração e contou tudo desde que abandonara a escola, como se vira envolvida num casamento que não a entusiasmava, como de repente deixara tudo para seguir o marido para a cidade, falou dele, do nascimento dos filhos que adorava, da falência e suicídio de Jorge, e finalmente de como teve que voltar para a casa dos pais, com dois filhos e sem quaisquer meios de sobrevivência, por causa das dívidas da firma.
- E assim está a minha vida, amiga. Preciso urgentemente de arranjar um emprego, mas não é fácil com duas crianças pequenas.
- O que tu precisas é de um novo marido. És muito jovem para ficares a remoer a viuvez, e ajudava-te a criar os filhos.
Francisca olhou para a amiga espantada. Que se passava com ela? Estava doida? Donde tirara uma ideia tão estapafúrdica?
Como se não tivesse dito nada de mais Graça perguntou:
- Não chegaste a conhecer o meu irmão Afonso, pois não? Não. Claro que não. É mais velho que nós, já estava na Universidade, quando nos conhecemos. E depois que se formou, ficou a viver sozinho em Lisboa. É advogado. Começou a trabalhar num escritório de advogados, até que montou o seu próprio escritório. Um dia conheceu uma jovem do interior, apaixonaram-se e casaram. Como ela não gostava de Lisboa, compraram uma casa na terra e mudaram-se para lá. Tem duas filhas, a mais pequena com apenas um ano. Quando a bebé tinha dois meses, a mulher teve um acidente de carro e morreu. Ele amava-a, foi-se muito abaixo e eu deixei a minha casa para vir acompanhá-lo e cuidar das meninas, pois embora ele tenha uma empregada duas crianças de tenra idade dão muito que fazer. Decididamente precisa de uma mulher que lhe ajude a criar as filhas, porque eu não posso anular a minha vida por causa dele, e o meu marido já me está a pressionar para eu regressar. Era uma boa solução para ti e para ele se vocês casassem.
Francisca estava cada vez mais espantada com a amiga. Como era possível pensar que ela se iria casar com um homem que nunca tinha visto? Estava doida. Só podia.
- Não faças essa cara, não estou doida. Nos últimos meses, tenho massacrado o meu irmão com esta ideia. Ele precisa de uma mulher em casa. Uma empregada mais jovem, pode dar azo a falatórios que não lhe convém, até porque os ex-sogros lhe querem tirar a guarda das meninas. Casando resolve o assunto. É claro que tem de ser uma pessoa de confiança, que trate as crianças com carinho. E isso, tu és. Lembro-me bem como tratavas a irmã da Luísa. Melhor do que ela que era irmã. E depois era uma solução para os teus filhos. Conheço o meu irmão. Tenho a certeza que os trataria da mesma maneira que trata as filhas. E então, não dizes nada?




À margem.

Regressei hoje no comboio da tarde. Como alguns sabem, meu cunhado adoeceu repentinamente. Descobriu-se um tumor no cérebro e em quarenta dias partiu. A todos os que me acompanharam nesta fase, um grande obrigado.


28.10.16

ESTRANHO CONTRATO- PARTE V


Francisca estava grávida de sete meses quando o marido se suicidou. Os negócios iam de mal a pior. Estava cheio de dívidas, e na eminência de abrir falência. Não aguentou a pressão e uma noite telefonou à mulher dizendo que ficava a fazer serão, para encerrar umas contas, fechou a loja e deu um tiro na cabeça.
Foi o empregado quem o encontrou no dia seguinte. Francisca recordava o grande choque que sofrera, não só com a morte do marido, mas também ao descobrir a situação económica em que se encontrava, pois o marido sempre lhe escondera o rumo desastroso que o negócio tomara, e as dívidas que a firma tinha.  De um momento para o outro, viu-se obrigada a vender a casa, para as liquidar, e a buscar protecção junto dos pais. Foi na casa paterna que se refugiou com o   filho pequeno, e lá nascera o segundo filho. Desde então tinham passado três anos. Precisava encontrar um emprego, que lhe desse meio de subsistência para ela e para os filhos, mas não podia deixar duas crianças tão pequenas com a mãe, e também não podia pagar uma creche. Encontrava-se num beco sem saída. 
Uns meses mais tarde, saía do registo civil onde fora renovar os seus documentos,  quando encontrou a Graça.
- Francisca! Que alegria. Não esperava encontrar-te aqui. Nunca mais te vi. Há tanto tempo!
Graça fora sua colega de estudos. Mais do que isso, fora uma boa amiga. Mas depois entrou na Universidade e ela ficou para trás. Nunca mais se tinham visto.
Com o à-vontade que a caracterizava, Graça pegou-lhe num braço, quase  arrastando-a atrás de si.
- Vem, vamos tomar um café. Aqui perto há uma pastelaria sossegada. Quero saber de ti.
Entraram no estabelecimento, e sentarem numa mesa perto da janela.
- Eles têm aqui uns pastéis de nata divinais. São a minha perdição. Vou pedir para as duas. Vais ver que não é exagero meu. Mas que se passa? Estás tão calada. Até parece que não gostaste de me ver.
- Claro que estou muito feliz por te ter encontrado. Ainda estou surpreendida.
O empregado aproximara-se, e Graça fez o pedido. Logo que ele se afastou perguntou:
- Casaste? E vives na cidade?
- Estou viúva. Tenho dois filhos e vivo na aldeia, em casa  dos meus pais.
Sem conseguir controlar-se, as lágrimas rolaram pela face bonita.
O empregado voltou com os cafés e dois pastéis de nata que colocou sobre a mesa. Quando ele se afastou, Graça chegou a cadeira para mais perto da amiga e pediu, apertando-lhe a mão:
-Conta-me tudo.


27.10.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE IV




Enquanto a água lhe acariciava o corpo perfeito, Francisca pensava na loucura que acabara de cometer, recordando a vida e as situações que a levaram até ali.
Ela fora uma criança feliz. Nascera numa família não muito abastada, mas os pais sempre se preocuparam em que não lhe faltasse nada. Quando terminou o Secundário, Francisca quis ir para a Universidade, mas o seu pai não deixou. Alegou que estava velho, podia faltar a qualquer momento, e o que ela precisava era de um marido que lhe desse apoio quando isso acontecesse. E mais, Jorge o  filho do seu amigo Manuel estava interessado nela, e até já tinham falado sobre o futuro casamento. Incrédula e revoltada, Francisca negou-se a receber o rapaz, e pensou até em fugir de casa. Porem a mãe disse que a sua fuga seria a morte dela, e chorou tanto que Francisca cedeu. E conheceu Jorge.
Ele era um rapaz educado, atencioso, e muito bonito. Mimava-a tanto que aos poucos venceu a relutância da jovem em relação ao casamento.
Casaram no dia em que Francisca completou vinte e dois anos.
Um ano depois o pai de Jorge morreu. O filho vendeu a casa e umas terras que o pai lhe deixara, e mudaram-se para Coimbra, onde abriu uma loja de artigos de desporto.
Francisca nunca conhecera a sogra, pois ela morrera quando Jorge era ainda uma criança.
No ano seguinte ficou grávida, e o marido tornou-se ainda mais carinhoso com ela. Mas apesar de tudo, Francisca sentia-se insatisfeita. Seria amor o que sentia pelo marido? Sempre imaginara o amor como um sentimento muito forte, algo avassalador, que a pusesse trémula de desejo e a fizesse perder o juízo nos braços amados. E não era nada disso que ela sentia nos momentos de intimidade com o marido.
Sentia-se segura, protegida e amada por ele. O resto… tinha que pensar não passavam de sonhos idiotas de uma menina romântica.
Simão nasceu, e Francisca deixou o emprego para cuidar do filho. Mais tarde, passou a ajudar o marido na loja, e a convivência a toda a hora com o marido trouxe alguns atritos pela diferença na maneira de pensar.
Algum tempo depois ficou grávida de novo. Mas a notícia não agradou ao marido que ultimamente parecia andar sempre aborrecido.





26.10.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE III






-Tudo o que está estipulado no contrato que fizemos antes do casamento mantém-se. Porém há mais umas coisas que não estão no contrato e gostaria de te dizer. Como deves saber o trabalho de um advogado não é fácil. Às vezes aparecem casos complicados que exigem muito estudo e concentração. Por vezes trago casos para estudar em casa. Este é o meu espaço. Quando aqui estou não gosto de ser interrompido por ninguém e agradeço que mantenhas as crianças longe daqui.
-A minha irmã, vai-se embora no fim-de-semana, também tem a casa dela, da qual já está afastada há bastante tempo por minha causa. O meu cunhado tem sido muito compreensivo, há quase um ano que só tem a mulher aos fins-de-semana, mas agora quando for já não volta. Até sexta ela ajuda-te a apanhar a rotina da casa. 
Pensei melhor relativamente ao que tínhamos combinado de quartos separados.
A mulher estremeceu e ele notou-o.
-Não te preocupes. O casamento mantém-se como está no contrato. Sem intimidade que nem tu nem eu desejamos. Troquei a cama de casal por duas de solteiro. Pensei que era mais natural, as crianças vão crescer e podiam achar estranho, dormirmos em quartos separados. De resto mantenho o que está escrito. Adoptarei os teus filhos, e como meus filhos os tratarei, e confio em que farás o mesmo com as minhas filhas.
Calou-se. Como a mulher mantinha os olhos fixos no chão, ele pegou-lhe delicadamente no queixo, forçando-a a olhar para ele.
Reparou que tinha os olhos rasos de água e inquiriu:
- Que se passa? Estás arrependida?
Ela abanou vigorosamente a cabeça, as palavras sufocadas na garganta.
A voz dele suavizou-se.
- Bem sei que isto não é o casamento com que as mulheres sonham. Mas ambos sabemos que ele não passa de um contrato. Tu não podes criar e educar os teus filhos, sozinha. Eles precisam de um pai. Eu não posso, nem sei cuidar das minhas filhas sem ajuda. Elas precisam de uma mãe. É troca por troca. Parece-me um contrato justo. Vou mostrar-te o quarto. Disse à Olga para levar para lá as tuas coisas. Podes tomar um duche e mudar de roupa. Mais tarde, iremos ver os quartos das crianças. Tu me dirás  se queres fazer alguma alteração. Pensa que a partir de hoje, esta é a tua casa.


24.10.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE II






O carro rodou pela rua principal, voltou à esquerda e deteve-se uns metros mais à frente, junto de um portão verde que dava acesso a uma casa senhorial, quase se poderia dizer um palacete, rodeado de um pequeno jardim, cercado por um muro pintado de branco. O homem accionou o comando, o portão abriu-se e o automóvel percorreu a meia centena de metros até à entrada da casa.. Os ocupantes saíram, com as crianças fazendo algazarra, pois pretendiam ficar no jardim, onde dois baloiços e um escorrega solitário, eram um apelo irresistível à brincadeira. Porém o homem não deixou, dizendo que primeiro tinham que despir aquelas roupas e vestir algo mais confortável para as brincadeiras que se propunham. Então sim poderiam brincar até à hora do almoço. Pouco convencidas, as crianças lá seguiram com os adultos para casa, onde os esperava uma serviçal de meia-idade. 
Lá dentro, a noiva tentou acompanhar as duas mulheres ao quarto dos miúdos,  mas o marido segurando-lhe a mão, reteve-a.
- Vem comigo. A Graça e a empregada cuidam deles.
Entraram num aposento espaçoso, misto de sala e escritório, com uma ampla janela, em frente da qual havia uma secretária. As paredes estavam repletas de livros. Num dos cantos havia um sofá, uma mesa de apoio e um vaso com uma bela planta verde. Formava uma espécie de recanto íntimo, como se alguém gostasse de estar ali, e a mulher pensou, se seria hábito da falecida, estar ali enquanto o homem trabalhava.
- Senta-te. Precisamos conversar, ainda há alguns pontos que não esclarecemos.
Sentou-se. Formavam um casal curioso. Ele alto, moreno, cabelos escuros, já com alguns fios brancos aparecendo indiscretos. Os olhos também escuros encerravam uma grande tristeza. A sua figura tinha uma elegância natural. Estava quase a fazer quarenta anos. Ela de estatura média, morena, cabelos e olhos amendoados. Tinha trinta anos embora parecesse mais jovem, e também não demonstrava a alegria natural de quem tinha acabado de casar. Parecia nervosa, pelo constante retorcer das mãos. Mantinha o olhar fixo nos seus sapatos, como se eles fossem a oitava maravilha do mundo, ou não tivesse coragem de encarar o homem. 



23.10.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE I





A terra era pequena mas agradável. Rodeadas de extensos pinhais, algumas casas térreas, dispostas em quadrado, formavam uma praça, quase totalmente ocupada por um cuidado jardim. No meio deste, um pequeno lago, com uma bela planta aquática, bancos pintados de vermelho, estrategicamente colocados sob a protectora sombra das árvores, e um coreto, onde aos domingos se exibia a banda dos bombeiros, ou o senhor Alberto com o seu acordeão. Na parte de cima do jardim, para quem entra na vila, uma pequena igreja dedicada à Imaculada Conceição.
 Do outro lado da igreja, a estrada que avança para o centro da localidade, a parte nova da terra, onde pontificam os prédios altos, as ruas mais largas, a escola, as lojas e centros de diversão.
Na igreja, habitualmente deserta àquela hora, da manhã realizava-se naquele dia um casamento.
Junto ao altar, um homem alto, impecavelmente vestido de escuro, e uma mulher de mediana estatura, envergando um saia-casaco azul celeste, trocavam as alianças.
Assistiam ao acto além dos padrinhos, uma mulher aparentando mais de trinta anos, que tinha a seu lado três crianças, e um bebé ao colo, e ainda três mulheres de meia-idade, que costumavam ajudar o padre a manter a igreja impecável, procedendo à limpeza do local, ou trocando as flores envelhecidas.
No altar, o homem curvou-se e depositou um leve beijo na testa da mulher. Por fim o padre procedeu à bênção final, e os noivos dirigiram-se com os padrinhos à sacristia, para a assinatura do registo do casamento. As crianças que até aí se tinham mantido mais ou menos sossegadas, saltaram do banco e correram para a sacristia, sem fazer caso da mulher que os chamava de volta. Uma pequenita loirinha, que não teria ainda completado os três anos, correu a agarrar-se às pernas do homem, que terminando a sua assinatura lhe pegou ao colo, e deixou que ela lhe envolvesse o pescoço num amoroso abraço 
Terminada a cerimónia de assinatura, saíram para o adro sob o olhar curioso das três mulheres. Aí despediram-se dos padrinhos e entraram no carro juntamente com a mulher que transportava o bebé adormecido e as restantes  crianças.

20.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXIII







 


EPÍLOGO


Por volta das três e meia dirigiu-se ao hotel
Ao chegar ao átrio do hotel verificou que o empregado já não era o mesmo da manhã. 
- Boa tarde. Sou Pedro Medeiros. Já aqui estive de manhã para saber se a menina Rita tinha deixado alguma mensagem para mim, e o seu colega disse-me para passar à tarde.
- Boa tarde. Sim a menina Rita deixou-me um envelope para lhe entregar se o senhor viesse procurá-la.  - E abrindo uma gaveta retirou um envelope que lhe estendeu. - Aqui está.
Com mão trémula recebeu o envelope, agradeceu ao empregado e dirigiu-se a passos largos para o automóvel.
Aí chegado hesitou. Abria ou não o envelope imediatamente? Seria uma despedida? Um contacto? Só havia uma maneira de o descobrir. Abriu o envelope e retirou de dentro dele uma folha de papel perfumado. Cada vez mais ansioso percorreu-a com o olhar. Tinha pouca coisa escrita. Apenas uma morada em Castelo Branco e a assinatura da jovem. Mas para ele aquilo foi como a mais bela declaração de amor. 


  Ainda hesitou pensando que devia telefonar à mãe, mas de pronto decidiu. Retomar a viagem para Castelo Branco. Mais tarde ligaria à mãe. O sol aquecia a natureza, e a felicidade inundava o seu coração.Tinha a certeza de que Rita ia perceber as suas razões, e não só lhe ia perdoar, como  ia aceitar ser a rainha da sua vida.

Fim


Elvira Carvalho


                                          
Amigos peço desculpa pela ausência. O cunhado já partiu. Vou continuar por aqui até ao fim do mês. A partir de amanhã, vou tentar visitar-vos com regularidade embora esteja muito limitada, pois há coisas que não consigo fazer com o smartphone. Muito obrigada a todos pelo apoio.

18.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXII





- Olha só quem voltou. Vai buscar um pedaço de broa e um naco de presunto  que o Pedro deve vir cheio de fome. E o almoço ainda demora muito?
E voltando-se de novo para o sobrinho. 
- Mas afinal porque voltaste? E porque é que a tua mãe não me avisou que vinhas? -voltou a perguntar andando nervosa à sua volta.
Pedro colocou o braço à volta dos ombros da tia e disse:
- Acalme-se tia. Vamos entrar que já lhe conto tudo.
Entraram e depois que a empregada se dirigiu à cozinha,  o jovem começou a contar tudo o que se passara consigo, o que se passara nos últimos três meses, à tia que o escutava com o maior interesse. Quando terminou a senhora disse:
-Como deves ter sofrido. Graças a Deus não contaste nada à tua mãe. Nem sei se ela resistiria à ideia de que ia ficar sem ti. Lembro-me bem como ela  ficou quando morreu o meu irmão. Muitas vezes pensei que se não fosses tu, ela teria ido atrás dele. Mas e agora? Como vais encontrar a rapariga? Devias ter sido sincero com ela.
- Ainda tenho a esperança de que o outro empregado tenha algum recado. Afinal era ele que estava na portaria quando a Rita partiu. Mas ele só entra às quatro. Agora se não se importa vou ligar à mãe. Já deve estar já em cuidado.
Quando terminou o telefonema, a empregada anunciava que o almoço estava pronto e dirigiram-se para a mesa.
Depois do almoço o jovem informou que ia dar uma volta pelas margens do rio, depois ia ao hotel e seguiria nesse mesmo dia, pelo que se despedia já das duas. A tia insistiu para passar por lá antes da partida, a empregada ia arranjar-lhe um farnel para a viagem, porém o jovem recusou e  agradecendo a gentileza despediu-se das duas, prometendo dar notícias à tia quando tivesse novidades.
- E convida-me para o casório, se tudo correr bem,  - disse-lhe a tia quando ele já ultrapassava o portão.
- Claro - respondeu acenando num último adeus.
Pouco depois embrenhava-se no parque junto ao rio, recordando cada dia, cada gesto,  cada palavra trocada com Rita nos passeios que por ali fizeram.

16.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXI



Ela sentia-se feliz. Era bom ver de novo a alegria do filho. E foi com um sorriso que agitou a mão numa despedida uma hora mais tarde, quando o carro desapareceu na curva da estrada.
Pedro não era homem de velocidades. Por isso não acelerou mais do que o costume. Mas fez a viagem de seguida, não parando uma única vez, nem quando passou pela casa da tia Palmira. Tinha pressa de ver Rita. Queria contar-lhe o porquê do seu comportamento, dizer-lhe quanto a amava, e pedir-lhe que aceitasse compartilhar o seu futuro, porque ele já não o imaginava sem ela. Estacionou no parque do hotel, e dirigiu-se à recepção:
- Queria falar com a menina Rita Sequeira. Por favor, podia avisá-la?
 – Lamento. A menina Rita e a família já não estão neste hotel.
- Como assim? - Perguntou empalidecendo. -Disseram-me que estariam cá até Domingo...
 – Parece que anteciparam a partida. Ontem à tarde veio o pai, e esta manhã partiram os quatro.
Pedro   sentiu que o mundo ruía à sua volta. Sentiu-se tão mal, que o empregado perguntou:
- Quer um copo de água?
 – Não obrigada. Chamo-me Paulo Medeiros. A menina Rita não deixou nenhum recado para mim?
 – Comigo não. Só se com o meu colega. Mas ele agora não está.
-Obrigado. Eu volto mais tarde.
Arrependido de não ter tido uma conversa franca com Rita, mas recusando deitar fora a esperança de que ainda pudesse haver uma mensagem, Pedro dirigiu-se a casa da tia Palmira que arregalou os olhos de espanto quando o viu.
- Então rapaz o que aconteceu? Porquê esta volta tão repentina? Estavas tão aflito com o emprego. Despediram-te? E porque é que a tua mãe não me avisou que vinhas?

E sem lhe dar tempo a responder voltou-se para a fiel empregada e disse:



15.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XX


Um sorriso rompeu no rosto materno, tão luminoso como raio de sol em dia de chuva. Ela ergueu a mão, e acariciou-lhe os cabelos, com a mesma ternura com que o fazia em criança, quando o filho procurava a sua cumplicidade, nalguma travessura.
- Vai descansar, filho. Já é tarde e tens que levantar cedo. A viagem é longa. 
Obedecendo, o jovem levantou-se, e dando um beijo na face enrugada, murmurou:
- Boa noite, mãe. Durma bem.
- Deus te abençoe meu filho. Que os anjos velem o teu sono.
Ao regressar à cozinha, Maria deu-se conta de que não tinham jantado. A mesa continuava posta, esperando a hora que já passara há muito. Encolheu os ombros, guardou a janta no frigorífico, apagou a luz e foi-se deitar.


Acordou na manhã seguinte com o delicioso aroma do café invadindo-lhe o quarto. Enquanto se dirigia para o duche, os acontecimentos da noite anterior, desfilaram na sua mente, como fita em tela de cinema. Adormecera tarde e tinha a sensação de pouco ter dormido.

Deixou que a água resvalasse pelo seu corpo, como se fosse uma carícia revigorante. Depois, com o corpo envolto na toalha, iniciou o escanhoamento do rosto. Enquanto o fazia a imagem de Rita pareceu sair dos seus pensamentos, e apareceu reflectida ao lado da sua, no espelho. Fechou os olhos e imediatamente soltou um queixume. Acabara de se cortar...

Na cozinha, Maria acabara de barrar as torradas. O filho deveria estar a entrar para o pequeno-almoço. Se bem o conhecia, não devia ter dormido grande coisa. Nunca em toda a sua vida,  vira o filho apaixonado. Namoricos, quando andava na escola, sim. Tivera muitos. Era um cata-vento, muito mais interessado nos rabos de saias, do que nos estudos. Depois subitamente acalmou, e nunca mais o viu interessado em ninguém. Até à noite anterior. Aí, percebera, mais pelo seu tom de voz do que pelas palavras pronunciadas que o seu menino deixara de o ser, e era agora um homem profundamente apaixonado. Tentou imaginar como seria aquela Rita. Seria uma boa pessoa? Seria capaz de fazer o filho feliz? Não parecia dar muito crédito aos elogios do filho. Tinha idade e experiência suficiente para saber que um homem apaixonado fica cego para tudo, menos para aquilo que ele próprio idealiza.

- Bom dia, mãe. Hum que cheirinho delicioso – disse curvando-se para a beijar.

- Meu ou do pequeno-almoço? - Questionou ela rindo.

- Os dois, mãe, os dois – respondeu rindo também.

14.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XIX

Apertou fortemente a mão que o médico lhe estendia, e dirigiu-se à porta. Subitamente, a imagem de um jovem alto, magro, de uma palidez extrema, surgiu na sua memória. Voltou-se de novo:
- Diga-me Doutor, o doente era um jovem alto, magro, de grandes olheiras, e mãos trementes?
- Como o sabe? - Interrogou o médico por sua vez.
Não respondeu. Fez um gesto indefinido com a mão, voltou-se e saiu. Na rua, dirigiu-se para casa, e enquanto uma ligeira brisa lhe acariciava o rosto, deixou que as lágrimas aflorassem os olhos, sem qualquer espécie de preconceito.

Depois de algumas voltas pela rua, para se acalmar, Pedro entrou em casa. A figura franzina da mãe, saiu da cozinha, e veio ao seu encontro.
- Até que enfim, filho. O jantar está pronto há mais de uma hora
Agarrou na mão do filho e perguntou alarmada:
- Que se passa? Estás a tremer.
Levando-a pela mão, conduziu-a ao sofá.
 – Deixe lá o jantar, minha mãe. Preciso contar-lhe tudo o que me atormentou nos últimos meses. Mas antes quero que me prometa, que não vai ficar aflita. Com a Graça de Deus, já tudo passou.
- Filho...
Havia um tal temor na voz da mãe, que ele acrescentou:
- Não fique assim. Ou então não lhe conto nada. Não há nada a temer, agora tudo está bem.

E então o jovem falou. Contou tudo, desde o primeiro momento, falou da sua dor, da raiva e da revolta contra o seu destino, do medo de a deixar sozinha, de se ter despedido do emprego, da viagem para casa da tia, de como conhecera Rita, de quanto a amava, da maneira como fugira da casa da tia, para que ela não soubesse o que se passava, da sua ida ao médico naquela mesma tarde, das análises trocadas, de tudo enfim que o atormentara nos últimos três meses. A mãe ouvia-o, e as lágrimas corriam silenciosas pelas suas faces enrugadas, enquanto os pensamentos se lhe atropelavam no cérebro. Pobre filho, quanto sofrimento, e ela, que raio de mãe era ela, que não fora capaz de descobrir nada de grave na sua súbita decisão de mudar de ares? Por fim a voz do filho silenciou. Ela abraçou-o com força, e o soluço que estivera preso no seu peito irrompeu, sonoro como trovão em tempestade de Verão.
- Então, mãe acalme-se. Compreende agora que eu viaje amanhã cedinho para as termas? A Rita vai-se embora no Domingo. E eu amo-a mãe. Não quero perdê-la.
E depositando um beijo na testa da mãe, acrescentou:
-Tenho a sensação D. Maria, que a senhora vai ter a nora que há tanto tempo pede.




13.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVIII

Santo Deus que loucura! Pedro caminhava pela rua completamente aturdido. Acabara de sair do médico e o que se passara tinha sido tão absurdo que se interrogava, se acontecera mesmo, ou se era fruto da sua imaginação delirante. Tinha saído de casa decidido a falar com o médico. Chegou ao consultório e pediu à assistente uma consulta. Não era possível, disse ela. O médico tinha muitos doentes e não tinha ordem para marcar mais ninguém.
- Por favor menina, peça ao médico. É muito importante. Diga-lhe que é Pedro Medeiros. Olhe diga-lhe que me quero despedir...
A assistente hesitou. Depois virou costas, e dirigindo-se ao gabinete do médico, bateu, e entrou. Saiu logo de seguida.
- Por favor, siga-me. O Dr. vai recebê-lo já.
Ele seguira a assistente que lhe abriu a porta e se retirou. Avançou para a secretária e o médico pôs-se de pé.
- Boa-tarde, Doutor.
 – Boa tarde Pedro. Como desejava vê-lo. Há quase três meses que o procuro.
- Para quê Doutor? Para ver se o seu diagnóstico estava certo? - Perguntou com ironia.
- Não amigo. A minha preocupação era outra. Acontece que pouco tempo depois daquela tarde em que vi as suas análises, eu tive que mandar repetir as análises de outro doente. Apesar das primeiras que fez me dizerem que estava tudo bem, o doente definhava a olhos vistos. Repetidas as análises, descobri que ele sofria de uma leucemia em fase terminal. Pouco ou nada podia fazer por ele.
- Como eu...
- Não. Como o senhor, não. Depois de estudar as análises dele e as suas, que você não quis levar, e comparando valores com as segundas que ele fez, cheguei à conclusão de que as vossas análises tinham sido trocadas. Então procurei-o na morada que tinha na ficha, mas infelizmente não havia ninguém lá, e não sabia onde encontrá-lo.
Em silêncio, Pedro escutava a voz grave do médico, relutante em aceitar o que ele dizia. Por fim balbuciou receoso:
- Então eu...
 – Sim meu amigo – interrompeu ele – tinha apenas uma ligeira depressão nervosa, de que já deve estar curado a julgar pelo seu óptimo aspecto.
 – Doutor não seria melhor  eu fazer outros exames?
 – Se com isso fica mais descansado. Por mim não é necessário. O verdadeiro dono das outras análises faleceu na terça-feira à noite no hospital.
- Meu Deus.
Pedro ergueu-se. Mil pensamentos passavam velozes pela sua cabeça. A imagem de Rita, o seu olhar cândido, o som mavioso da sua voz, o toque sedoso dos seus cabelos, a casa da tia, a margem do rio, a preocupação de sua mãe, o pequeno Pedro, D. Célia, os passeios à beira-rio, tudo o que vivera nos últimos três meses, voltaram à sua memória numa sucessão vertiginosa, como cavalos selvagens em louca corrida.
- Obrigado Doutor. Muito obrigado.

12.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVII

No dia seguinte acordou cedo. Tinha dormido vestido sobre a cama. Despiu-se e tomou um duche retemperador. Depois olhou-se ao espelho demoradamente. Não por vaidade, mas tentando descobrir algum sinal da doença que o minava. Mas não. Tinha um ar saudável de fazer inveja. Fez a barba, e escolheu uma roupa simples e desportiva. Olhou o calendário. Era Sexta-feira. O médico daria consulta às Sextas? Tinha que ir lá rapidamente. Pegou uma maçã e saiu para a rua. A mãe dissera que vinha logo de manhã, de táxi. De Santarém ao Barreiro, não demorava muito. Logo, logo estaria aí, pensava enquanto comprava o jornal. E não se enganou, pois ao voltar encontrou a mãe no momento da chegada. Não se conteve e depois de a abraçar pegou-lhe ao colo e rodopiou com ela como não fazia há muito. Finalmente em casa, a mãe queria saber de tudo. Como estava a tia, se tinha gostado da terra, se tinha encontrado alguma cachopa bonita, um nunca mais acabar de perguntas. E andava à sua volta mirando-o, como se de um monumento se tratasse.
E ele falou. Contou como gostara da terra, e da tia. Falou da D. Célia, do pequeno Pedro e da Rita. E desta, falou com tal entusiasmo que a mãe adivinhou logo a paixão no seu peito. Quando ele se calou a mãe ficou em silêncio olhando-o. Depois levantou-se e dirigiu-se à cozinha, tentando ocultar uma lágrima, que teimosa queria escapar dos seus olhos. Pedro percebeu porque a mãe não queria fazer comentários. Ela julgava que ele se declarara e não era correspondido. O almoço decorreu em silêncio.A mãe entristecida com o suposto desgosto do filho, e este só pensando na visita ao médico. 



10.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVI


– Não tia. Graças a Deus não. Foi do emprego. Dizem que se não estiver lá amanhã, escuso de ir mais. Já estou ausente há muito tempo, as férias acabaram, não tenho baixa nem atestado médico.
Era uma mentira piedosa. Mas não podia dizer a verdade à tia.
- Bom, se é isso tudo bem. Mas podias ter dito quando entraste. Fiquei assustada. E sair assim de corrida, vais chegar de noite...
 – Talvez não, tia. Os dias são grandes e escurece tarde, não se preocupe.
- Então vamos mulher, vamos preparar um farnel para a viagem.
E dizendo isto empurrava a empregada na sua frente.
- Não se preocupe tia, eu como alguma coisa pelo caminho.
- Era o que mais faltava! - Zangou-se ela – Da minha casa, nunca ninguém saiu sem farnel.
Quando Pedro saiu com as malas para o carro, já as duas mulheres tinham preparado uma cesta, onde não faltava a broa, o presunto, um belo salpicão, várias frutas, e uma garrafa de água.
Na verdade a tia tinha-se cansado durante todo o tempo que ele estivera em sua casa, para que bebesse vinho, mas Pedro sempre fora abstémio.
Abraçou as duas mulheres e saiu. Tinha pressa de viajar. Não queria correr o risco de encontrar Rita, não queria que ela o visse partir.

  Chegou a casa ao anoitecer. Abriu a porta e sentiu o peso da solidão. A primeira coisa a fazer, era telefonar à mãe e pedir para ela regressar no dia seguinte. Teria que dar uma desculpa convincente, para aquele regresso inesperado pois nessa mesma manhã, quando lhe telefonara, não dissera que tencionava regressar e ele conhecia bem a mãe. Se desconfiasse que alguma coisa não estava bem era capaz de abalar de noite a caminho de casa.
Mais tarde ligaria à tia, para que as duas mulheres dormissem descansadas. Depois das chamadas, estendeu-se em cima da cama e deixou-se dormir.


8.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XV




Depois daquela tarde era frequente encontrar os dois jovens juntos. Primeiro como dois amigos, depois como namorados, passeavam-se pela beira do rio, olhos nos olhos, dedos entrelaçados, sempre na companhia do pequeno Pedro.
Naquela tarde recebeu um telegrama da mãe, dizendo que como a sua irmã tivera de regressar a casa, ela resolvera ir também, e estava agora na casa da tia Rosa em Santarém.
  Pedro sentia-se perfeitamente. Nunca mais se sentira cansado, tinha perdido a palidez com que chegara, dormia bem e até engordara um pouco. Recordando a sua doença, e o que o médico lhe dissera, ele não se atrevia a fazer promessas a Rita. Às vezes lembrava-se de ter ouvido a mãe falar nas "melhoras da morte". Melhoras que muitos doentes terminais experimentam pouco antes de morrer. E angustiado, perguntava-se se era isso que lhe estava a acontecer. Os dias sucediam-se, e nada de novo acontecia. Uma tarde Rita disse-lhe:
- Estamos a acabar as férias. A mãe acabou a segunda série de tratamentos. Só pode fazer mais para o ano.
Naquele momento, Pedro decidiu que tinha de regressar. Precisava ir ao médico. Talvez fazer outros exames. Tinham-se passado quase três meses, e a verdade é que se sentia melhor que nunca, mas não se atrevia a contar a Rita o que se passava, nem se permitia fazer projectos para o futuro. Ela estranhou o seu silêncio. E quando nessa tarde compareceu no jardim não encontrou a jovem. Apenas a D. Célia e o pequeno. A senhora olhou-o com reprovação, quando a cumprimentou, e o pequeno soltou a língua.
- Zangaste-te com a minha irmã?
 – Não. Porquê?
 – Porque ela não quis almoçar e foi para o quarto chorar...
Sentiu-se um canalha, por ter feito chorar a jovem. Mas consolava-o o facto de que se ela soubesse a verdade ia sofrer muito mais. Despediu-se da senhora, fez uma festa na cabeça do pequeno e regressou a casa da tia. Aí chegado, foi directo ao quarto, abriu o guarda-fatos e colocando a mala em cima da cama, começou a meter nela as roupas de qualquer maneira.
Logo de seguida batiam à porta do quarto.
- Entre.
A figura da tia perfilou-se no umbral, seguida da fiel empregada.
- Vais-te embora filho? Aconteceu alguma coisa grave com a tua mãe?

6.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XIV




Saiu, deu a volta ao monumento e deparou com uma feira de camponeses onde vendiam de tudo ao ar livre. Desde a broa de milho às flores, passando por coelhos, galinhas e pintos, mel, bolos secos, nabos, cenouras e batatas, a par de toalhas bordadas e das mais variadas peças de renda. Antes de regressar às Termas e a casa da tia, parou numa banca e comprou um frasco de mel de rosmaninho. A tia ia ralhar com ele de certeza, e dizer que não faltava mel lá em casa, mas ele achou que lhe devia levar um miminho. 
Depois do almoço, pegou o jornal diário que ainda não lera nesse dia, e dirigiu-se à margem do rio. E eis que vê a jovem sentada a ler, precisamente no banco que ele adoptara desde que chegara como o seu preferido. Porém a  jovem estava acompanhada por uma senhora de meia-idade, que fazia renda, enquanto o garoto brincava na frente das duas. Pedro hesitou. E agora? Iria cumprimentá-la? E se a senhora não gostasse. Olhou em volta, procurando onde sentar-se, quando o garoto o descobriu e veio a correr ter com ele. Pegou-lhe na mão e conduziu-o até junto das senhoras dizendo:

- Olha mãe, o amigo que encontrei ontem. Vês, eu não dizia que ele era simpático?

A senhora levantou os olhos da renda e olhou-o com um ar inquisitivo, durante um longo minuto.

Depois sorriu e disse:

- Este meu filho! É sempre a mesma coisa, está sempre a importunar os outros...

- Por quem é minha senhora. O seu filho é uma criança encantadora.

- Não quer sentar-se? Podemos conversar um pouco.

O convite era tudo o que desejava ouvir, mas antes de aceitar, Pedro olhou de relance para Rita. Esta parecia dizer-lhe com o olhar para ficar, e ele sentiu-se no céu. Foi uma conversa muito agradável que se prolongou durante algumas horas. Pedro ficou a saber que eram de Castelo Branco e que estavam ali, porque a D. Célia, a mãe dos jovens, estava a fazer tratamentos termais. Ficou a saber que a jovem tinha acabado os seus estudos, que gostaria de ser professora, e que embora parecesse muito jovem, tinha vinte e dois anos. O pai não pudera acompanhá-las, porque tinha muito trabalho. Era engenheiro numa multinacional. Estavam hospedadas no hotel Vouga, ali mesmo na margem oposta do rio.

Pedro falou de si, do seu emprego, da mãe, e da tia Palmira, em casa de quem estava a passar férias.



4.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XIII

AVISO
Amigos, vou ausentar-me de novo.. A situação do meu cunhado é muito grave. Como o maridão tem consulta a 19 em Lisboa, regressaremos a 18. Até lá continuará a ser publicada esta história, em dias alternados. Como lá não tenho internet, a não ser no telemóvel e todos sabem como é difícil seguir as vossas publicações por ele, peço-vos desculpa pela ausência. Os posts ficarão agendados.




- Obrigada. Mas agora temos que ir. Já é tarde e a mamã pode ficar preocupada. Até outro dia.
E afastou-se levando o irmão pela mão. Tão frágil e tão linda que parecia uma boneca. Sacudiu a cabeça, e sentando-se tentou retomar a leitura, mas a imagem da jovem não lhe saía do pensamento. Seria da aldeia? Não, não lhe parecia. Devia ser uma forasteira como ele. A figura feminina não lhe saía da cabeça e deu consigo, depois de almoço, passeando pela praça e pelo jardim na esperança de a encontrar de novo. 
Para sua desilusão, não voltou a vê-la nessa tarde nem na manhã seguinte.
Pedro bem que andou pela margem do rio, e pela praça central. Decidido a esquecer a jovem dirigiu-se à vila, e por lá passou a manhã. No largo central andou pelo jardim, observou o edifício do tribunal, passou pela Câmara Municipal e vendo aberta a Igreja do Convento de S. José, resolveu entrar. Quando era menino a mãe levava-o sempre à missa. Frequentou a catequese e até fez a comunhão solene. Depois aos poucos foi arranjando desculpas até deixar de frequentar a paróquia. A Igreja estava deserta e ele sentou-se num dos bancos, admirando o altar de talha dourada Joanina, decorado por dois pares de colunas torsas. O retábulo enquadra uma escultura representando Nossa Senhora da Conceição. Num dos nichos do intercolúnio do mesmo retábulo figura uma outra escultura representando Santo António. Ali naquele silêncio, sentiu uma enorme vontade de dirigir uma súplica ao Criador. Não pediu a cura, nem fez promessas. Pediu desculpas pelo seu afastamento e rogou ajuda divina para a sua mãe quando ele se fosse.

3.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XII





Pouco tempo depois, uma bola embateu violentamente nas suas pernas e ficou a rodar um pouco à sua frente. Resmungando, pousou o livro a seu lado e apanhou a bola. Ao olhar em volta, viu um rapazinho de olhos claros que o olhava a medo.
- Anda cá pequeno! Toma a tua bola.
- Como sabe que é minha?
 – Deduzi.
- Do...quê? - Perguntou admirado, lutando contra o desejo de se aproximar, e o receio de o fazer.
Pedro sorriu, e enquanto lhe estendia a bola acrescentou:
- Sabes que me bateste com força?
 – Não fui eu que a joguei – desculpou-se. Foi a minha irmã. Ela quer mostrar que como é maior que eu tem mais força, por isso joga sempre a bola para longe...
 – Ah! Ela é maior que tu! Mas olha, diz-lhe que os homens não se medem aos palmos.
- Olha, diz-lhe tu. Vais ver como fica zangada.
- Ora, ora, e a tua irmã é perigosa quando se zanga? - Perguntou divertido
 – Se é. Até assopra como os gatos.
Pela primeira vez, desde há muito, Pedro soltou uma sonora gargalhada. E perguntou:
- Como te chamas?
 –Pedro. E tu?
 – Engraçado. Também me chamo Pedro. Acreditas?
 – Se tu o dizes.
O garoto tinha perdido qualquer espécie de receio, e estava agora à vontade, como se o conhecesse desde sempre.
- Ora este rapazinho! Aposto que tem estado a maçá-lo.
A voz que soara atrás de Pedro era tão doce, tão maviosa, que o levou a interrogar-se mentalmente, enquanto se voltava, se os anjos teriam voz.
Na sua frente estava a mais bela figura feminina que Pedro algum dia vira. E ele já tinha visto várias. Não era nem de longe, nem de perto o santo que a mãe dizia que era. Verdade, porém, que as belas mulheres com que se relacionara não seriam nunca daquelas que ele apresentaria à sua velha mãe. Porém aquela era diferente. Tinha tal candura no sorriso, tal pureza no olhar, que mentalmente voltou a associá-la aos anjos. Olhou-a de alto a baixo, maravilhado. Trazia uma blusa vermelha e umas calças pretas que modelavam o seu corpo. Calçava sandálias sem salto e tinha os cabelos apanhados num gracioso rabo-de-cavalo. Apercebendo-se do olhar analítico do homem, a jovem corou. "Santo Deus, era só o que me faltava ver", pensou ele.
- Não maçou nada, é um rapazinho encantador.
- Ora, se lhe dá confiança, nunca mais o deixa em paz...
 – Mana, este senhor também se chama Pedro, e sabes uma coisa? Ias-lhe partindo a perna, com a bola – a voz do miúdo, veio quebrar o encanto e devolver normalidade ao encontro.
- Oh! Desculpe. Não queria atingir ninguém. - Estendeu-lhe a mão, e acrescentou:
- Chamo-me Rita. Estou perdoada?
 – Perdoadíssima – disse ele sorrindo e retendo a mão feminina na sua.


1.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XI



A capacidade que as mulheres da família tinham de  adivinhar-lhe os pensamentos era coisa que continuava a intrigá-lo.
E já se tinham passado três dias. Três dias em que  se tinha embrenhado pelas redondezas, procurando nas margens do rio, na sua extrema beleza esquecer o que o atormentava. Apenas uma vez fora até ao largo da aldeia, demasiado concorrido, com todos aqueles turistas que procuravam a saúde na virtude das águas do local, e nos tratamentos termais oferecidos pelo enorme balneário. Suspirou fundo, sentou-se no banco que parecia chamá-lo, abriu o livro que trouxera consigo e  embrenhou-se na leitura. Enquanto se sentava num banco, junto à margem do rio, Pedro continuava a recordar a descoberta da casa da tia, três dias atrás quando chegara. O resto da casa não era muito diferente. Por todo o lado móveis escuros e pesados, molduras antigas, panos de renda manual. Na sala havia uma carpete esquisita, que a tia lhe dissera ser feita de retalhos de pano, e tecida em tear manual na aldeia. Carpete de trapos, mantas de trapos. Uma casa de banho junto aos quartos, com um enorme lavatório incrustado num móvel escuro, encimado por um grande espelho também emoldurado de escuro, num contraste berrante com as loiças e azulejos, completamente brancos. Para seu uso, dissera a tia. Ela usava sempre a outra. A outra era muito semelhante, mas em vez de banheira tinha um chuveiro, envolto num pesado cortinado, e um ralo no chão para esgotar a água. Tanto a tia como a empregada "que é mais família do que empregada, pois sempre aqui viveu, desde o tempo em que a mãe, era empregada dos meus avós" -dissera a tia, utilizavam esta casa de banho. E continuara "As banheiras são perigosas, quando a idade carrega e faltam as forças".
Na hora do jantar vieram as reclamações, porque, cansado da viagem, e tendo comido alguma coisa numa paragem no caminho, não lhe apetecia comer.