30.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXX



Estamos em 1978. Dez anos antes, os donos da Seca, herdeiros do Sr Vasco Bensaúde, ofereceram o  lugre bacalhoeiro Hortense, um belo barco de 3 mastros, para um museu da pesca, nesse ano já não foi à campanha.  O local escolhido para ancoradouro do navio museu, foi no porto de Lisboa, junto à Escola Profissional de Pesca. O museu acabou por não ser criado e em Maio de 1971, num violento temporal, o lugre foi atirado para um baixio em frente às instalações Companhia União fabril. Ali encalhado, e sem que o estado, actual detentor do navio fizesse algo para o recuperar, o navio passou a ser abrigo de pescadores ocasionais, que ali cozinhavam as suas refeições. Em Dezembro desse mesmo ano, talvez por um descuido de algum pescador, deflagrou um incêndio incontrolável a bordo que destruiu o belo navio.
Em 1969 depois da safra, o Gazela não se preparou para a campanha. O belo lugre, talvez o mais belo barco que participou nas campanhas, estava obsoleto para continuar na pesca à linha. Assim é vendido ao  Museu Marítimo de Filadélfia, que, entretanto, procurava um veleiro histórico. Partirá em 1971 para o referido museu onde será parte integrante do museu durante muitos anos, até que dificuldades financeiras do mesmo o vendem à  associação Ship Preservation Guild, que tudo tem feito para o preservar e manter em excelentes condições apesar dos seus  quase  180 anos.  Com uma tripulação voluntária, efectua, no Verão, pequenos cruzeiros e visitas a vários portos, figurando nas mais diversas festividades.Depois no Inverno arreiam-se os mastros, o navio é coberto com uma tenda plástica, e procede-se às reparações necessárias para que volte a estar impecável no ano seguinte.
A seca ficou então, desde 69 com apenas 3 navios. O Creoula, o mítico Argus, e o Neptuno. No ano seguinte, foi a última campanha do Argus.  E em 1974 com a proibição da pesca à linha, ficou só o Neptuno, um navio motor de aço, construído nos Estaleiros Navais de S. Jacinto, em 1957, tendo feito a primeira campanha em 1958,   por ter sido em 1972 transformado para a pesca com redes de emalhar com 6 lanchas, e assim poder continuar a ir à pesca. 
Como a família Bensaúde, proprietária da Seca, nunca se interessou por navios arrastões adivinhava-se que o trabalho na Seca, nunca mais seria o mesmo.
Ora se anteriormente eram 5 navios e o trabalho todo manual, agora com máquinas de lavar peixe, abolidos os carrinhos de mão, e substituídos pelos grandes grandes, puxados por tractor, e apenas com um navio, a safra se fazia em pouquíssimo tempo, e com poucos trabalhadores.
Agora, o Neptuno vai ser de novo transformado. Desta vez para navio congelador.  Vai ser um ano sem pesca, a seca vai receber bacalhau de outros armadores. 



                                               O Gazela em Filadélfia.Imagem do Google

28.5.16

E PORQUE HOJE É SÁBADO...

DEIXA




Deixa que a vida
não seja desespero
mas só vida.

Deixa que o mar
não seja túmulo
mas só mar.

Deixa que o sonho
não seja pesadelo
mas só sonho.

Exige
JUSTIÇA
PAZ
AMOR.

E vive...

Deixa
que a vida
seja vida,
e o mar
mar
e o sonho
sonho.
E luta
sofre
ama
e vive...

Essa vida
que não tens
mas anseias
conhecer.



27.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXIX



            Jardim Constantino, um espaço verde entre a casa e o trabalho do casal



 Abandonado, o casarão junto ao rio, onde o Manuel passara uma boa parte da sua vida, e onde vira nascer dois dos seus filhos, foi demolido. O gerente, temia, que os arames farpados que separavam a seca, da azinhaga fossem cortados e o casarão ocupado.
Depois, o portão junto ao casarão estava selado, o pessoal na seca, que já não chegava aos cem trabalhadores, (antes da mecanização, chegaram a ultrapassar os quatrocentos) era quase só o que vinha do norte, e os poucos trabalhadores dos arredores, entravam pelo outro portão, do qual a Gravelina era a porteira.
Para o Manuel, foi como se lhe arrancassem um pedaço da alma. Há quase nove anos que lá não vivia. Mas ele continuava a cultivar o terreno, e o casarão com todas as suas memórias era sua companhia diária, enquanto cavava, regava ou sachava.
A vida do Manuel era agora muito diferente. Tinha os filhos "arrumados" ( o rapaz continuava solteiro, mas alugara uma casa ali pertinho e vivia independente) fazia o seu vinho todos os anos, com a ajuda dos cunhados que ajudara a criar, e dos genros, na pisa da uva, e até fazia uns passeios de vez em quando, de comboio, que o filho como empregado da CP, tinha direito a umas quantas viagens por ano. 
Um ano depois, a filha do meio arranjou casa em Lisboa, na Alexandre Braga, ali mesmo ao pé do emprego, já que o casal trabalhava na Pascoal de Melo. 
Era muito bom para eles, que assim deixavam de ter que madrugar e de pagar transportes, uma economia de tempo e dinheiro, de relevo.
Para o Manuel e mulher, foi uma tristeza, pois era o afastamento da neta, que agora estava numa fase de gracinhas que os trazia enfeitiçados.
Para a mais velha também foi muito doloroso. A rapariga, que apesar de tudo o que já tinha feito, continuava estéril, dedicara-se à sobrinha, como se fosse sua filha. Porém a vida é mesmo assim, a família tinha que se concentrar no que era melhor para eles, e conformar-se. Depois Lisboa, não é o fim do mundo, fica ali logo do outro lado do rio.


26.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXVIII

       O Manuel e mulher, segurando a vela no baptizado da neta, ao colo da mãe


Nessa altura, a filha mais velha, trabalhava de novo na Seca do Bacalhau. A jovem que antes de ir para Angola, trabalhava na secretaria da Escola D. Fernando II em Sintra, e que durante os dois anos em que estivera em Luanda trabalhara como sabemos na secretaria do Colégio Marista, não conseguiu quando voltou a integração na escola. A prioridade de empregos era para os retornados, e ela não era retornada. Depois também havia o pormenor dos estudos. Ela tinha a prática de quase cinco anos de emprego em secretarias escolares. Sabia tudo sobre o trabalho, mas não tinha estudos. Havia entre os desempregados gente com toda a espécie de estudos, de modo que a jovem regressou ao trabalho na seca do Bacalhau onde fez a safra. Com menos esforço do que em outros tempos, (o trabalho estava muito mais mecanizado), mas também com muito menos alegria, pois havia menos gente, e  sobretudo gente mais velha. As jovens que em outros tempos trabalharam com ela, ou tinham arranjado outros empregos, ou tinham casado e dedicavam-se aos filhos e à lide doméstica.
Terminada que foi a safra, a jovem ficou em casa.
Depois das eleições para a Assembleia constituinte a 25 de Abril, realizaram-se a 27 de Junho as eleições para a Presidência da República, nas quais seria eleito Presidente o General Ramalho Eanes.
Naquele tempo, ir votar era uma alegria. O povo tinha bem presente o que tinham sido os anos do regime anterior e novos e velhos toda a gente ia exercer o seu dever de cidadania com vontade de que a democracia ainda bebé, ganhasse força e tivesse "pernas para andar"
 Em Julho o marido foi para o Algarve patrulhar as praias, e a jovem foi com ele. O marido era natural de Lagos tinha lá a família, e foi para lá que eles foram. 
O Manuel tinha um sonho desde há muitos anos. Havia de ir um ano às festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo. Desde menino, ainda lá na aldeia, já ouvia falar nelas, mas a vida nunca lhe proporcionou ensejo para realizar esse sonho.E foi assim que aproveitando as férias, a que passou a ter direito depois do 25 de Abril, foi em Agosto desse ano às ditas festas. E foi lá que receberam o telegrama contando que eram avós de uma menina, e que mãe e filha estavam bem. 
Terminada a época balnear, o genro do Manuel regressa à base no Alfeite, e o casal retoma a vida ali perto da casa paterna onde a filha vai a toda a hora encantada com a sobrinha.
Dias depois do baptizado da menina, da qual os avós foram os orgulhosos padrinhos, a mãe da bebé perguntou à irmã mais velha:

-Queres tomar conta da menina, quando eu regressar ao trabalho?
-Claro que sim, - respondeu de imediato o coração pulando de alegria.
- É claro que te vou pagar.
- Não precisas. Não fico com ela por dinheiro.
- Eu sei. Mas a outra pessoa eu ia pagar, por isso vou saber quanto é que estão a levar, e o que pagaria a outra, é o que te pagarei. E ainda fico a ganhar, pois estou mais descansada, deixando-a contigo, que se a deixasse com uma estranha.
E foi assim que a menina passou dentro em pouco a ser cuidada pela tia. A jovem vivia encantada com a bebé. Sempre adorara crianças e o facto de não poder ter filhos, fez com que se agarrasse ainda mais à sobrinha.
Os navios retornaram,  a safra foi-se fazendo, agora com uma ou outra greve pelo meio, os tempos  eram outros, o povo já não admitia certas prepotências.

25.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXVII

           As duas filhas do Manuel, na última foto antes da saída para a Igreja em 1975


Em Julho, numa nova carta, a filha dizia que o pedido do marido tinha sido deferido, e por isso já não saía da Marinha. O Manuel suspirou de alívio, pois começavam a chegar os navios carregados de gente , anteriormente residente nas colónias e que fugiam da guerra civil que se avizinhava, com os vários partidos de libertação a lutarem todos pelo mesmo objectivo. A cadeira do poder, pós independência.
O resto do ano e os primeiros meses do seguinte, foram de grande preocupação para o Manuel e mulher. Por um lado, tinham a filha mais nova, entusiasmada com os preparativos do casamento, que se realizaria logo que a irmã chegasse. É que em princípio a filha ficará a viver lá em casa após o casamento, e é preciso fazer algumas alterações, porque uma coisa é um casal a viver com os filhos numa casa  e outra bem diferente, são dois casais a viver na mesma casa, mesmo esta sendo bastante espaçosa como a que eles habitavam.
Por outro, todos os dias os retornados traziam novas de histórias de horror e guerra, muitos chegavam apenas com a roupa que tinham vestida, tal a pressa com que fugiram, apenas interessados em salvar a vida. 
As cartas da filha, iam chegando regularmente, mas  se havia um atraso, já eles ficavam numa aflição.
A falar verdade, eles só ficaram descansados, quando em Março de 75, foram ao aeroporto e viram a filha e o genro, saírem do Boeing  707, recém chegado de Angola.
Poucos dias mais tarde, a família está toda reunida para assistir ao casamento da segunda filha do Manuel, que se realizará em Lisboa.
Entretanto a filha mais velha já alugou casa, por sinal a poucos metros da casa paterna. 
Finalmente o casal, tem os filhos todos perto, e pode viver agora um pouco mais descansado.
Quase no final de 75, a filha mais nova anuncia que está grávida. O Manuel e a mulher ficam radiantes com a notícia do primeiro neto. Agora eles já sabem que a filha mais velha, tem mantido ao longo dos seis anos de casada uma luta árdua contra a esterilidade, sem sucesso até à data.


24.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXVI


                         1º de Maio de 1974. Imagem de arquivo da RTP


Enquanto em Portugal se vivem tempos de euforia, e também de alguns excessos que sempre acontecem nos processos revolucionários, a filha e o genro do Manel, têm um outro problema. É que o jovem como atrás se disse tinha metido um requerimento à Marinha para sair após a comissão, e na actual conjuntura política, a Marinha era o emprego certo que tinha e a saída era uma incógnita que talvez se transformasse num grande erro a prejudicar todo o futuro do casal. Analisados todos os prós e contras, o jovem faz novo requerimento à Marinha a solicitar, a continuação. Informa, que anteriormente requisitara a saída por não estar de acordo com  a política do governo vigente, mas dado que a revolução tinha deposto o mesmo, tinha desaparecido o motivo que lhe fizera pedira a baixa, e pedia por isso que essa petição fosse anulada.
Posto isto, só lhe restava rezar, para que o pedido fosse aceite. Ele sabia, que em democracia, Portugal não podia continuar a colonizar outros povos. E com a independência, decerto a maioria do povo a viver em África regressaria ao "puto",  (era assim que em África designavam Portugal).
O país não ia ter emprego para tanta gente. E ele teria 32 anos, 11 dos quais na Marinha.
Isto mesmo, contava a filha, numa carta que o Manel recebeu no último dia do mês de Abril.
No dia seguinte, era o 1º de Maio. O primeiro depois da queda do Governo. Milhões de Portugueses vieram para as ruas por todo o país. Ninguém queria ficar em casa, nesse dia tão importante para os trabalhadores, o primeiro que se vivia em Liberdade. Ao som do grito de guerra, "O povo unido, jamais será vencido" empunhando a bandeira nacional, bandeiras partidárias ou slogans políticos, o povo desfilou pelas ruas de Norte a Sul do País. Mas não só. Também nas colónias o 1º de Maio foi festejado, com a exigência da libertação dos presos políticos. 
Na verdade, a ordem de libertação dos presos políticos, uma das primeiras medidas da Junta, foi apenas para a Metrópole. Só no 1º de Maio, com a substituição do governador de Cabo Verde pelo Comandante-Chefe Comodoro Pedro Fragoso Matos, nomeado Encarregado do Governo, foram libertados os presos políticos do Tarrafal

23.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXV

                                   A rendição da PIDE-DGS. Foto de Alfredo Cunha

 Finalmente a Junta de Salvação Nacional foi aprovada, tendo como Presidente da República, o General Spínola. Esta decisão ia contra o que o MFA, tinha decidido anteriormente, pois quando delinearam o golpe, escolheram para Presidente o General Costa Gomes.
Perto da meia-noite, são aprovados, os primeiros decretos lei, embora só no dia seguinte perto das nove e meia, a Marinha, apoiada por uma força do Regimento de Cavalaria 3, tenha obtido a rendição de Silva Pais, o dirigente da PIDE-DGS.
Talvez tenha sido o dia mais longo, da história de Portugal, mas fora apesar disso um dia de extrema felicidade para o povo, pois a revolução tinha vencido o regime totalitário e repressivo que vigorava há quase 50 anos, sem deixar que os opositores se organizassem, e dividissem o país dando origem a uma guerra civil.   
Apesar dos quatro mortos na noite anterior pela sinistra polícia política, o povo estava em festa por todo o país. Exigia-se o fim das guerras nas colónias, embora ninguém soubesse muito bem como iria acabar.
Para o Movimento das Forças Armadas e Junta de Salvação Nacional ia começar agora um novo trabalho, por ventura mais árduo do que a preparação da revolução.
No dia seguinte Sexta-feira, Manuel foi chamado ao escritório, e foi-lhe comunicado que a filha ia telefonar dentro de minutos, por isso era para ele aguardar ali pelo telefonema. O pobre do Manuel ficou a tremer. Que se passaria para a filha telefonar de Luanda? Teria acontecido alguma coisa com o marido? Não teve muito tempo para conjecturas, pois logo de seguida a filha telefonou.
Disse que estavam bem, não podia estar muito tempo ao telefone, as chamadas eram muito caras, queria saber se estavam todos bem, e se a revolução era séria, se o regime tinha mesmo caído.
Ele confirmou e logo de seguida a filha despediu-se mandando um abraço para a família e desligou.
Quando ele saiu do escritório, já a mulher estava a chegar, esbaforida com medo de alguma má notícia. É que na Seca, sempre se utilizou o sistema de chamar o trabalhador ao escritório, por um altifalante. Faziam-no uma vez e repetiam-no mais duas vezes. De modo que todos os trabalhadores ouviam, e quase sempre quando tal acontecia, as notícias não eram boas.
O Manuel contou à mulher o que se passava, e ambos retomaram o seu trabalho.

21.5.16

PORQUE ME APETECE...



E hoje apeteceu-me poesia. Para "desenjoar" da história do Manel que já vai longa


O meu olhar é… mágico


O meu olhar é mágico. 

Ele é o portal de entrada na vida que me rodeia.

É a borboleta que dança inebriada

Sobre um canteiro florido.

Ele é a alegria esfuziante da criança,

Que brinca

Sob o atento olhar da mãe, que sonha

Para ela um futuro radioso.

Ele é o Amor latente nos jovens

Que trocam beijos num banco de jardim.

O meu olhar é mágico

Ele é a lágrima escondida na solidão dos idosos

A quem o desemprego levou

Os filhos na mala da emigração.

É a dor sem tamanho daquela mãe

A quem um acidente brutal roubou

A luz dos seus olhos.

Ele é o mar que no horizonte

Se funde no espaço celeste.

Ele é a nuvem que passa

O vento que verga as árvores

E o sol que a todos afaga.

O meu olhar é mágico

Porque ele é o portal das emoções

Que compõem a Sinfonia da Vida.



Maria Elvira Carvalho.


in  Antologia de Poesia da Chiado Editora " Entre o sono e o sonho"

20.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXIV


                                     Foto do Google. Desconheço o autor..


O dia ia longo. Por todo o país o povo seguia ávido os comunicados que a rádio transmitia, num misto de ansiedade e temor. Ansiavam ouvir que tudo tinha terminado, e o país estava livre do fascismo, e ao mesmo tempo, temiam que as coisas dessem para o torto e despoletasse uma guerra civil. Em Lisboa, contrariamente aos constantes apelos para a população ficar em casa, o povo estava em peso na rua, apoiando e incentivando os militares.  Por serem espectadores atentos,eles sabiam exactamente o que se passava coisa que o resto do país, ouvindo apenas às notícias transmitidas não tinha.
À medida que o povo, vê as Forças do Movimento conquistarem objectivos, começa a sentir-se confiante, e a dirigir-se em massa para a rua António Maria Cardoso, onde se situava a sede da PIDE-DGS. Estes, vendo a sua sede cercada pela população, abrem fogo sobre o povo., tendo efectuado 4 mortos e 45 feridos, que serão socorridos pela Cruz Vermelha, e levados para o Hospital S. José e Hospital Militar.
Os tiros disparados na sede da PIDE-DGS, ouvem-se no Largo do Carmo, onde o capitão Andrade Moura, do Regimento de Cavalaria 3 informado por populares do que se passava, faz deslocar uma viatura blindada, e alguns jeeps para o local. Com grande dificuldade, consegue aproximar-se e monta um cerco à sede da PIDE. Não tem no entanto pessoal suficiente para um assalto às instalações. 
Com tudo a correr como esperado, vivia-se no Posto de Comando um ambiente descontraído, interrompido pelo Capitão Rosado da Luz, que informa que a "guerra ainda não está ganha" e conta a situação na rua António Maria Cardoso.
O Major Otelo, pede ao general Spínola, para convencer o ex-Ministro do Interior, César Moreira Baptista, preso na unidade, para convencer o director da PIDE, Silva Pais a render-se. No telefonema, Silva Pais mostra-se disposto à rendição, caso as Forças Armadas garantam a protecção dos seus agentes.
Enquanto isso, vão-se chamando pelo telefone, os elementos indigitados para a Junta de Salvação Nacional. Foram chegando o General Costa Gomes, o Capitão de Fragata Rosa Coutinho, o Brigadeiro Jaime Silvério Marques, o Coronel Galvão de Melo, Capitão de Mar e Guerra Pinheiro de Azevedo. O General Diogo Neto está em Moçambique.
Perto das vinte e três horas inicia-se uma reunião entre a Junta de Salvação Nacional, e os oficiais do MFA.  Dando corda ao seu projecto de poder pessoal, Spínola afirma que é necessário rever o programa do MFA que anteriormente assinara. Vítor Crespo responde agreste " os blindados e tropas ainda estão na rua, se for preciso continua-se com o golpe".







Volto a lembrar que todos este factos, são objecto de pesquisa, de jornais da época, do arquivo da RTP, e sobretudo da base de dados históricos. Na altura eu estava em Luanda. Lembro também que se introduzo a revolução, nesta espécie de biografia do Manel, é porque entendo que ela mudou por completo a Nação e o povo. E o Manel era apenas uma pequena partícula desse povo sofrido.

19.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXIII

Fotos da Chaimite BULA que transportou Marcelo Caetano após a rendição. Foto daqui

Seis e meia da tarde, chega a Lisboa, o Agrupamento do Norte, e dirigem-se ao RAL 1.
Contactam com o Capitão Rosário Simões que acabava de convencer o Coronel Frazão a aderir ao Movimento. Encontram aí também a força da Escola Prática de Infantaria. Seguem para a Manutenção Militar no Beato, onde as viaturas militares reabastecem,sendo distribuídas rações de combate para dois dias. 
Cerca das 19 horas, o Capitão Rui Rodrigues, recebe ordem para se deslocar com uma força, formada pelo RAP 3 do  Agrupamento do Norte, ao Comando da Região Aérea de Monsanto, e prender o Ministro do Exército, o Ministro da Defesa e o Ministro da Marinha, que aí se tinham refugiado. Estas entidades foram depois  conduzidas ao Posto de Comando na Pontinha.
Meia hora mais tarde, no Largo do Carmo, a abarrotar de população entusiasmada, o Capitão Salgueiro Maia, teme que a operação da retirada dos membros do governo acabe numa onda de violência, que os obrigue a abrir fogo, e a provocar uma chacina. Ordena que a Bula, uma Chaimite, encoste à porta de armas, e nela entram Marcelo Caetano, Rui Patrício e César Moreira Baptista, acompanhados de outros membros do Governo que acabava de se render.
A auto metralhadora avança devagar por entre a multidão dirigindo-se para o posto de comando na Pontinha.
Cerca das vinte horas, a força comandada por Costa Correia, chega ao Ministério da Marinha no Terreiro do Paço, sendo informado pelo chefe do Estado Maior da Armada, de que já tinha sido comunicado oficialmente a adesão da Marinha ao Movimento.
Às vinte e trinta, Spínola chega ao posto de comando com os membros de governo presos. Cumprimenta Otelo e os restantes oficiais dizendo: "Senhores oficiais , devo informá-los que acabo de assumir o poder no Quartel do Carmo. Agora vamos ao trabalho".



Recordo que todos este factos, são objecto de pesquisa, de jornais da época, do arquivo da RTP, e sobretudo da base de dados históricos. Na altura eu estava em Luanda. Lembro também que se introduzo a revolução, nesta espécie de biografia do Manel, é porque entendo que ela mudou por completo a Nação e o povo. E o Manel era apenas uma pequena partícula desse povo sofrido.







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18.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXII

Foto do Regimento de Lanceiros 2. em 1980. Desconheço o autor da mesma.

Pelas 16 horas, o capitão-mar-guerra Pinheiro de Azevedo, comandante da Força de Fuzileiros do Continente, nomeia o capitão tenente Costa Correia para comandar uma força constituída por um Destacamento de Fuzileiros Especiais e uma Companhia de Fuzileiros . A força deveria dirigir-se ao Ministério da Marinha e obter a declaração formal de adesão da Marinha por parte do Chefe de Estado-maior da Armada. 
Enquanto isso, o Dr. Nuno Távora e o Dr. Feytor Pinto são recebidos pelo ainda Presidente do Conselho Marcelo Caetano, informam-no da disponibilidade do General Spínola, para aceitar a sua rendição e assumir o poder. Marcelo que se encontrava acompanhado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, e o seu Adjunto Militar Coutinho Lanhoso, decide pela sua rendição desabafando"assim o poder não cai na rua"
É redigida pelo Comandante Lanhoso a seguinte mensagem.  "O Presidente do Conselho está pronto a entregar o Governo ao General António de Spínola, e espera-o, para tal fim, no Quartel do Carmo" 
Enquanto Nuno Távora e Feytor Pinto se dirigem com a missiva a casa do General Spínola, Salgueiro Maia,  dirige-se ao Quartel do Carmo onde dialoga com o Comandante da unidade e outros oficiais verificando que a intenção era de rendição. Salgueiro Maia pede para falar com o Prof. Marcelo Caetano. E é recebido por ele. A conversa decorreu a sós e com grande dignidade. Nela o Prof. Caetano solicitou que um Oficial General fosse receber a transmissão de poderes para que o governo não caísse na rua, confirmando a sua rendição. 
Entretanto o General Spínola recebe os dois mensageiros, lê a missiva, mas diz não reconhecer a letra do Presidente. O telefone toca. É  Marcelo Caetano, que confessa a 
sua derrota ao estar cercado por uma força de blindados e por uma multidão ululante. Afirma que ao render-se o queria fazer perante alguém que pudesse garantir a ordem pública. Não desejaria render-se a um capitão. Pede a Spínola para vir assumir o poder. Spínola afirma que nada tem a ver com o Movimento. Marcelo Caetano mais uma vez lhe pede para vir quanto antes. 
Depois desta conversa, o general Spínola, liga para o Posto de Comando e fala com o Major Otelo. Pede para ser mandatado para receber a rendição do Presidente do Conselho, Marcelo Caetano. Spínola é mandatado para receber a rendição, e é informado que os dirigentes do regime, serão conduzidos ao Funchal por um DC 6 da Força Aérea.
Depois dirige-se ao Quartel do Carmo, aceita a rendição de Marcelo e informa-o que seguirá em avião militar para o Funchal.
A essa mesma hora, a Escola Prática de artilharia, sob o comando do Capitão Mira Monteiro, consegue a rendição do Regimento de Lanceiros 2.
Um pouco mais tarde, a Escola Prática de Infantaria, liberta os restantes oficiais presos no RAL 1 por terem participado no 16 de Março. 




Relembro que todos este factos, são objecto de pesquisa, de jornais da época, do arquivo da RTP, e sobretudo da base de dados históricos.

17.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXI


                               Foto de Alfredo  Cunha
Pouco depois das 13 horas, o Rádio Clube Português começa a transmitir aos microfones as ordens do Comando do Regime, que se mostra desorientado e fica ainda mais desmoralizado por ter sido interceptado o seu sinal.
O povo está na rua, segue com entusiasmo tudo o que se passa, apercebe-se da tentativa de cerco e a informação chega rápida aos militares, e daí ao Posto de Comandos, que dá ordem ao Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz , que se encontrava a caminho da Trafaria para libertar os militares ali presos em consequência do 16 de Março,  para inverter a marcha e ir para o Largo do Carmo, a fim de apoiar a retaguarda da Escola Prática de Cavalaria.
Com este reforço, as forças do regime desmobilizam, seguindo alguns para os respectivos quartéis, enquanto outros se colocam às ordens do capitão Andrade Moura, aderindo ao Movimento. 
Às duas e meia, o Radio Clube Português, difunde um comunicado, em que noticia os objectivos já conquistados e informa do cerco no Quartel do Carmo a Marcelo Caetano e outros membros do governo ali refugiados.
Enquanto isso, via rádio, Otelo contacta Salgueiro Maia. Diz que a GNR tenta ganhar tempo, pelo que é preciso forçar a rendição. A prisão de Marcelo desmobilizaria as forças que ainda se mantêm fieis ao governo.Diz para forçar os portões da GNR ou por encosto de blindado, ou por rajadas de metralhadora. Salgueiro Maia mostra alguma reticência em abrir fogo e Otelo manda-lhe por estafeta, a seguinte mensagem
"Com o megafone tenta entrar em comunicação e fazer um aviso-ultimato para a rendição. Eu já ameacei o coronel Ferrari, mas ele parece não ter acreditado. Com auto metralhadoras rebenta as fechaduras do portão para verem que é a sério. Julgo que não reagirão. Felicidades. Um abraço. 
Otelo"
Salgueiro Maia, concede um prazo de dez minutos, para a rendição do Quartel do Carmo, findo o qual abrirá fogo. 
Enquanto no Carmo, se espera por uma resposta ao ultimato de Salgueiro Maia, é dada a ordem à Escola Prática de Cavalaria, estacionada no Cristo-Rei para se dirigir à Trafaria e libertar os 11 oficiais, ali presos pela tentativa de golpe a 16 de Março.
Esgotado o tempo dado por Salgueiro Maia, sem que a rendição fosse efectivada, este deu ordem ao Tenente Santos Silva para com as metralhadoras da sua Chaimite,  abrir fogo sobre a parte superior da frontaria do quartel. São disparadas várias rajadas estoirando vidraças da frontaria do edifício. 
Isto teve um efeito arrasador sobre o animo das forças leais ao governo. Marcelo Caetano já sabe que no Regimento de Lanceiros 2, apenas o comandante e 2º comandante, estão com ele. Todos os restantes oficiais e praças assumiam posições hostis ao regime.
Ainda assim não surge a almejada rendição. Salgueiro Maia, envia o coronel Abrantes da Silva para negociar a rendição, mas este é feito refém.
Suspeitando que as suas forças possam ser atacadas por um heli canhão, Salgueiro Maia prepara-se para utilizar armas pesadas, e ordena a colocação de um blindado em posição de tiro.
Os motores arrancam, e a população civil procura abrigos. Inicia-se a contagem, mas ao chegar a dois, surgem junto do Capitão Salgueiro Maia conduzidos pelo Tenente Assunção dois civis que se apresentam como o Dr. Pedro Feytor Pinto (Director dos Serviços de Informação) e Dr. Nuno Távora, secretário do Dr. Pedro Pinto (Secretário de Estado da Informação e Turismo) que portadores de uma credencial do General. Spínola pretendendo dialogar com o Prof. Marcelo Caetano. É autorizada a sua entrada no quartel. 



Relembro que todos este factos, são objecto de pesquisa, de jornais da época, do arquivo da RTP, e sobretudo da base de dados históricos.


16.5.16

MANUEL DA LENHA - PARTE LXX

                           Foto de Alfredo Cunha


Quando o Manuel e a mulher chegaram ao trabalho, já na seca, se sabia que estava a decorrer um golpe de estado em Lisboa. Cabe aqui recordar que a seca, pertencia à família Bensaúde com sede em Lisboa, logo era normal a sede contactar o escritório da mesma, todas as manhãs. O gerente, comentou com o empregado, que por sua vez comentou com o encarregado, e em pouco tempo o pessoal já todo sabia, e torcia para que tudo desse certo, mas não se atreviam a manifestar-se, com receio de que as coisas dessem para o torto, e pudessem sofrer as consequências. 
Também o filho foi posto ao corrente logo que chegou ao trabalho, na CP.  Quem não sabia de nada era a filha, que embora de rádio ligado, não obtinha mais do que música e os tais apelos à calma, que de vez em quando eram transmitidos.
Naquele tempo, não se tinham ainda inventado os telemóveis, e em casa do Manuel nem sequer havia telefone. Se houvesse, talvez o namorado da rapariga, lhe contasse que estava no Terreiro do Paço e lhe dissesse o que se estava a pensar.
Às onze e meia, já com as forças do governo neutralizadas, e os ministros e chefes militares, refugiados no quartel do Carmo com Marcelo Caetano, ou em Lanceiros 2 , chega do comando de operações a ordem para sair, uma coluna para o Largo do Carmo, a fim de obter a rendição do Presidente do Conselho, e outra coluna irá sitiar o quartel general da Legião Portuguesa, mantendo-se o resto dos militares, em posição no Banco de Portugal e Rádio Marconi.  Um quarto de hora depois, Salgueiro Maia desloca-se com a coluna da Escola Prática de Cavalaria, para o Largo do Carmo. As restantes unidades, sob o comando de Jaime Neves, irão sitiar o quartel general da Legião Portuguesa, que se rende sem grande resistência.
Mais ou menos à mesma hora, o Rádio Clube Português, lê um comunicado em que se informa que o Movimento domina de norte a sul do país, e que em breve chegará a libertação.
Só então a filha do Manuel percebe o que se passa. E pensa que se não tivesse ficado em casa, talvez pudesse ver "in loco" o que se passava.
Às 13 horas, Salgueiro Maia está já no Largo do Carmo, quando o comando do regime dá ordens às forças que ainda se mantinham fiéis o cercarem. Assim a desfalcada Cavalaria 7, toma posições no Largo de Camões, forças da GNR ocupam o Largo da Misericórdia,e Rua Nova da Trindade. Uma força da polícia de choque ocupa o Largo do Chiado.   




Relembro que todos este factos, são objecto de pesquisa, de jornais da época, do arquivo da RTP, e sobretudo da base de dados históricos.

BENFICA CAMPEÃO - PARABÉNS

Ao Benfica e especialmente a todos os meus amigos benfiquistas, os meus parabéns.

15.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXIX

                              Foto de Alfredo Cunha


Pelas seis da manhã, uma coluna de carros de combate e transporte de tropas da Escola Prática de Cavalaria comandada pelo capitão Salgueiro Maia instala-se no Terreiro do Paço. Corta os acessos aos ministérios, Banco de Portugal, Marconi, Câmara Municipal de Lisboa e 1.ª Divisão da PSP. Marcelo Caetano, líder do Governo, refugia-se no Comando-Geral da GNR, no largo do Carmo. Lisboa sempre foi o grande centro de emprego para as gentes da margem sul, que todas as manhãs desembarcavam no Terreiro do Paço, vindo do Barreiro, Seixal, Almada ou Montijo, rumo aos seus empregos. Mas naquela manhã, os primeiros a desembarcar, vindos da margem sul, verificaram que os tanques estavam na rua e foram aconselhados pelos militares, a regressarem a suas casas. Coisa que poucos fizeram, pois o povo, esperava à demasiado tempo por uma mudança.
Pelas nove horas, a fragata "Almirante Gago Coutinho" toma posição no Tejo, frente às forças de Salgueiro Maia, instaladas na Praça do Comércio. 
Pouco depois das nove e meia, chega ao Terreiro do Paço uma força liderada pelo Brigadeiro Junqueira dos Reis, 2.º comandante da Região Militar de Lisboa, constituída por quatro carros de combate M47, uma companhia de atiradores do Regimento de Infantaria 1 e alguns pelotões de Polícia Militar.
Dois dos carros de combate, comandados pelo major Pato Anselmo, colocam-se na Ribeira das Naus, os outros dois, comandados pelo coronel Romeiras Júnior, posicionam-se na Rua do Arsenal em frente das forças de Salgueiro Maia. Na Avenida Ribeira das Naus apela-se às forças do regime para aderirem à revolta. Seguem-se momentos de grande tensão. Se as forças do regime, abrirem fogo, e a Fragata apoiar, será uma carnificina, e o fim da revolução. Salgueiro Maia toma a decisão de tentar convencer as forças do regime a desistirem e a passarem-se para o seu lado, coisa que consegue, pois cerca das dez e meia, o major Pato Anselmo rende-se e os dois carros de combate, bem como as tropas que os acompanham, passam para o lado do MFA, ficando sob o comando de Salgueiro Maia.
Na rua do Arsenal continua o comandante Junqueira Reis com os outros dois carros de combate. Ele não se rende, e apesar de várias tentativas de negociações, está disposto a abrir fogo sobre os revoltosos, mas depois de ter por várias vezes dado essa ordem, os seus homens não lhe obedeceram. Incapaz de os obrigar, resolveu ficar no local, não se unindo aos revoltosos. 
Para quem em casa ligava o rádio, não havia mais nada que breves comunicados apelando à calma e à manutenção em casa, seguidos de música militar, ou revolucionária.




Relembro que todos este factos, são objecto de pesquisa, de jornais da época, do arquivo da RTP, e sobretudo da base de dados históricos.

12.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXVIII

                             Foto de Alfredo Cunha

Ele nem se atreve a ler à mulher a última parte da carta, e pede ao filhos que nada lhe digam por enquanto.
Nesse mesmo dia, Tomás e Caetano almoçam em Belém com os presidentes da Assembleia Nacional, do Supremo Tribunal de Justiça, e outras individualidades do regime.
Três dias depois, realiza-se o último Conselho de Ministros de Caetano. Enquanto isso no regimento de engenharia da Pontinha,  Otelo, Jaime Neves e Garcia dos Santos, ultimam os preparativos, para a instalação do posto de comando do golpe de estado.
No dia 24 às 22 horas, Tomás inicia aquela que seria a sua última visita oficial à Feira das Indústrias. À mesma hora, Otelo chegava ao regimento de Engenharia 1 na Pontinha, e verifica os últimos pormenores. Faltavam 5 minutos para as 23 horas, quando os Emissores Associados de Lisboa transmitem a senha para o desencadear do golpe. E depois do adeus, de Paulo de Carvalho.
O relógio despertou um pouco antes das seis e meia, como todos os dias em casa do Manuel. A mulher saltou da cama e dirigiu-se à cozinha para acender o esquentador. foi à casa de banho e procedeu à sua higiene, saindo de seguida para dar lugar à filha que entrou acompanhada do seu pequeno transistor, que ligava mal se levantava. Enquanto a filha tomava o seu banho, Gravelina começou a preparar os pequenos almoços, o marido e o filho não tardariam a levantar-se. Quando a filha já despachada entrou na cozinha , estava a dar no rádio o sinal horário das sete. E em vez das notícias, ouviu-se apenas um comunicado, pedindo à população para se manter em casa e aguardar serenamente novas notícias.  A filha comentou com a mãe, que alguma coisa se passaria em Lisboa, já que desde que se levantara apenas ouvia música revolucionária e marchas militares. E depois daquele comunicado, ela não iria trabalhar nesse dia.
Pouco depois, a família reunida à mesa, todos especulavam sobre o que se estaria a passar.
Eles não sabiam que durante a noite, os militares saíram para a rua, e que aquela hora decorria um golpe de estado que visava derrubar o governo




Nota  
Há 8 dias que estou com grandes dificuldades  no Sexta. Umas vezes não consigo entrar nos vossos blogues,  Outras consigo entrar e não consigo comentar, chego a levar 2 minutos à espera de abrir uma página. Neste momento estou com dificuldades até para aceder às mensagens que pretendo publicar. Não sei que se passa. Peço a vossa compreensão, visitar-vos-ei e comentarei sempre que possível. 

11.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXVII

                                  foto do Google

De Angola continuam a chegar cartas da filha. Trazem quase sempre fotos dela com a afilhada, mas não falam em filhos. Nem ele nem a mulher compreendem que gostando tanto de crianças, eles não tenham tido filhos nos cinco anos que estão a fazer de casados. Mas isso não é o pior. O pior conta-lhe a filha, na carta que recebe no início de Abril. Diz que o marido está farto de guerras e que meteu os papeis para abandonar a marinha no fim da comissão. Diz que já tem promessa de emprego em Luanda, que ela também está muito feliz com o emprego no Colégio Marista, e que pensam fixar residência em Luanda. Se a ele lhe custa, ter a filha tão longe, a mulher não para de chorar. 
Por esses dias, morre Georges Pompidou e  Marcelo vai ao funeral.
No dia 4 desse mês de Abril, as Brigadas Revolucionárias fazem explodir  uma bomba a bordo do navio Cunene, que se preparava para partir para África.
Três dias depois, Otelo Saraiva de Carvalho, envia pelo   major Carlos de Morais, o programa do MFA para Spínola, e este reúne com Costa Gomes.
Na altura, Manuel, como a maior parte do povo, trabalhador e pouco instruído, não sonha sequer que se aproxima a revolução. Mas ela está a ser "cozinhada" há muito tempo,  e está quase pronta para ser servida a um país ávido de mudança.
Na Semana Santa, a população branca, manifesta-se em Nampula, contra os padres italianos que acusam de ser aliados da Frelimo, e contra o bispo D. Manuel Vieira Pinto que vai regressar à metrópole.
No dia 13 de Abril, sábado de Aleluia, Spínola recebe o novo programa do MFA, já com as alterações por ele sugeridos ao primeiro.
No dia seguinte, Domingo de Páscoa, Spínola reúne com Costa Gomes, mas este não se mostra favorável a um levantamento militar no continente.
Dias depois, um comunicado da DGS anuncia a prisão de 15  pessoas relacionadas com a preparação do 1º de Maio. Informam que foram encontrados na sede do jornal "Notícias da Amadora" panfletos revolucionários. 
Manuel faz 56 anos no dia 20 de Abril, e no dia do seu aniversário, chega carta da filha. E dá conta de que o marido acabara de meter o requerimento para sair da marinha. Diz que virão à metrópole no fim da comissão, para apadrinhar o casamento da irmã, e voltarão para Luanda.

9.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXVI




A 9 de Março, é decretado estado de prevenção rigorosa em Lisboa, que se estende por três dias. Enquanto isso as forças militares e políticas movimentam-se em sentido contrário, às decisões governamentais.
Dias depois reúne-se em S. Bento a "brigada do reumático". À cerimónia, faltam os chefes militares mais influentes, entre eles, Costa Gomes, Spínola e Silvério Marques. Em consequência, Marcelo demite Costa Gomes e Spínola, e faz mais uma remodelação do governo.
A 16 desse mesmo mês, dá-se o golpe das Caldas. O Regimento de Infantaria 5 subleva-se e sai para a rua, numa tentativa de fazer a revolução. Esperava que outros quartéis em todo o país o seguissem, mas isso não aconteceu. Sem hipótese acabam por se render ao brigadeiro Serrano, segundo comandante da região militar de Tomar. Duzentos militares foram presos, mas a revolução não fora debelada. Fora apenas adiada. Com o tradicional humor português, contava-se por todo o país,  dias depois.
"Lisboa ainda é virgem. O das Caldas não conseguiu entrar"
No final do mês, Marcelo vai ao estádio José Alvalade, assistir ao Sporting - Benfica, e numa impressionante orquestração é intensamente ovacionado. E nesse mesmo dia,  após os incidente no Instituto Superior de Economia, a escola é encerrada.
Na Seca, a safra já terminara. Apesar de haver cerca de metade do pessoal de outrora, ela acabara mais cedo. E isso devia-se a dois factos. O Inverno não fora tão rigoroso como em outros anos, e as máquinas introduzidas.  Na Seca estão agora além do Manel, o pessoal residente na Seca. O armazém está encerrado a maior parte do tempo, e o Manuel junta-se ao restante pessoal, na limpeza e pintura dos grandes armazéns, no roçar das ervas daninhas sob as mesas de arame, onde o bacalhau é estendido, na reparação dos arames partidos, e em tudo o que é necessário para que tudo esteja em ordem quando os navios voltarem. A pouca lenha que sobrou, já está toda transformada em cavacos, e Manuel vai ao armazém uma vez por semana carregar o carro de mão e abastecer as residências. Em Agosto virão as camionetas cheias de grossos troncos de árvores, cortados com aproximadamente um metro de comprimento, que ele terá de empilhar no armazém, para depois transformar em cavacos que alimentarão a seca durante a safra. Para esse trabalho, terá a ajuda da mulher, bem como das outras mulheres residentes na Seca. É uma autentica obra colocar toda a lenha em pilhas até ao tecto, que terão que ficar bem seguras, para não correr o risco de desabarem e ficar soterrado sob elas. Porque alguns dos troncos são bem retorcidos e de difícil encaixe, mas ele não consentia que mais ninguém os empilhasse, porque só confiava no seu trabalho. Assim ele fica no armazém, enquanto as mulheres transportam para dentro os troncos que ele empilha. Quando a pilha, atingia a sua altura, pouco mais de um metro e sessenta, começava outra. Quando a terceira atingia cerca de um metro, uma das mulheres ia para essa pilha, ele para a segunda, e começava a subir  a primeira da seguinte forma. As  mulheres que traziam os troncos para dentro,iam colocando-os na terceira pilha. A mulher que lá estava, ia apanhando-os e passando-os para a segunda pilha, onde o Manuel se encontrava. Este por sua vez, apanhava-os e colocava-os na primeira. Quando subia um bocado, mandava que fosse feita outra pilha, de modo a que os troncos fossem empilhados em escada, e que uma pilha nunca subisse muito sem o apoio da seguinte. 
Era trabalho moroso, e pesado, mas ele tinha que sentir segurança. E nunca teve qualquer acidente nos 44 anos que foi lenhador.

8.5.16

MANEL DA LENHA PARTE LXV


                A foto da filha e do genro do Manuel com a afilhada

                                                 foto minha


A 25 de Fevereiro de 1974, explode uma granada num café em Bissau. Resultado, um morto e 63 feridos. No dia seguinte Marcelo Caetano recolhe-se no Buçaco. Regressa no fim do mês, é recebido por Américo Tomás e pede-lhe a exoneração, que não é aceite.
O país está sentado sobre uma bomba relógio. Por um lado os militares cansados da guerra querem acabar com ela o mais rápido possível. Por outro a poderosa máquina montada por Salazar e  mantida por Américo Tomás, que quer manter tudo como está a sacrifício da vida do povo que sofre cada vez mais com a repressão, e com a perda dos seus filhos, mortos numa guerra inglória, e por fim com os Movimentos de Libertação, cada vez mais apoiados internacionalmente.
No meio de tudo isto temos um povo, maioritariamente  a caminho da velhice, que viu sair os seus filhos ou para a guerra, ou fugidos de salto para a França, e que nem podia desabafar a sua revolta, sob pena de acabar vendo o sol através das grades do presídio. Manuel era parte integrante deste povo. Com 56 anos, tivera a sorte de ter visto o filho cumprir o serviço militar sem ir à guerra, mas vira alguns amigos perderem os seus filhos, vira  o sobrinho ficar estropiado, e tinha a filha, o genro e um sobrinho por lá que não sabia quando voltariam e se voltariam.
A 5 de Março o Movimento dos Capitães reúne-se em Cascais no estúdio do arquitecto Braula Reis. Melo Antunes apresenta o que seria um esboço do programa.  Elegem como chefes do Movimento, Costa Gomes e Spínola. A comissão militar, fica a cargo de Casanova, Monge e Otelo. Na comissão política, Melo Antunes Victor Alves e Vasco Lourenço.
Poucos dias depois, na intenção de acabar com o movimento, vários dos seus membros são transferidos para outra unidades militares.
E o Manuel recebe carta da filha com as fotos do baptizado da filha da ex-vizinha.


Nota 1 A quem me pediu os nomes das filhas do Manuel, apesar deles serem referenciados nos capítulos a seguir ao seu nascimento, aqui vão de novo.
A mais velha chama-se Elvira, aí está nessa foto 42 anos mais nova.
A segunda filha chama-se Lourdes.




Nota 2
A maioria dos factos que decorrem na época e que achei por bem incluir nesta história de família, são históricos, e para os conseguir servi-me das pesquisas por jornais da época, pelo google, e pelos factos registados no anuário. Porque na época, o Manuel, como a maioria do povo,  não sabia o que se passava para mo relatar depois.

7.5.16

DESILUSÃO






DESILUSÃO 



Quando eu tinha vinte anos
Sonhava construir,
Um mundo melhor
com as minhas próprias mãos.

Queria acabar com a miséria
abraçar a Felicidade.

Queria acabar com a guerra
e abraçar a Paz.

Queria estrangular a hipocrisia
e abraçar a Verdade.

Quando eu tinha vinte anos
tinha o futuro cheio de sonhos
e de projectos.

Agora que tenho setenta
tenho as mãos estragadas
de tanta luta inglória.
Tenho os ombros curvados
do peso das desilusões.
Os olhos sem brilho
de tanta lágrima derramada.
E o futuro cheio 

de pesadelos
e interrogações.




5.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXIV




Enquanto a vida na seca continuava, agora com menos de metade do pessoal de outrora, já que a modernização do método de trabalho fazia com que não fossem necessárias tantas pessoas, o relógio do tempo não para, e em Portugal e no resto do mundo, ele como dizia o poeta, pula e avança. A segunda filha do Manuel pensa casar no próximo ano. Tanto ela como o namorado têm emprego estável nas respectivas empresas, a rapariga está quase a fazer vinte e cinco anos, e já está para lá da data padrão de casamento na época. O namorado é um pouco mais velho, já foi à tropa, e já fez uma comissão nos comandos em Timor. Porém quando crianças, as filhas tinham feito um pacto. Se um dia se casassem uma seria madrinha da outra. Por isso a mais nova fora madrinha da mais velha, e agora esperava que o cunhado terminasse a comissão em Angola, para casar e ter a irmã como madrinha.
Estávamos em Fevereiro, Spínola acabava de lançar o livro "Portugal e o Futuro"  e quase em simultâneo aparece o primeiro comunicado do Movimento dos Capitães, que defendia a democratização e a procura de uma solução política para a questão das colónias.
E como que a dar-lhes razão, agrava-se a situação na Guiné, primeiro com uma explosão a meio do mês no quartel-general de Bissau, e já quase no fim do mês, uma bomba em Bissau, faz um morto e 63 feridos. 
No dia 8 desse mês de Fevereiro, sai o primeiro comunicado do Movimento dos Capitães, defendendo a democratização, e a procura de uma solução política para o Ultramar.
O livro de Spínola, é oferecido por Costa Gomes a Silva Cunha, que por sua vez o dá a Marcelo Caetano. Este dirá ao acabar a sua leitura  "tinha compreendido que o golpe de Estado militar; cuja marcha eu pressentia há meses, era agora inevitável." 
No dia em que o livro é posto à venda, no jornal República lê-se na primeira página  "A vitória exclusivamente militar é Inviável" 
No dia seguinte o Expresso transcreve várias passagens do livro de Spínola.