31.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XL


Foto do Incêndio do Teatro Nacional D. Maria II-
                                    foto do DN



Os anos mudam, mas a vida na Seca, como no resto do país nada melhora. Pelo contrário, a repressão é cada vez maior, o medo também. No início desse ano o sogro do Manuel, morre em Lisboa em casa de uma filha. 
Na Seca o pessoal continua a sua labuta diária, cada dia mais preocupada com os filhos, pois toda a gente tem um amigo, ou um vizinho cujo filho foi mobilizado para a guerra em África. 
Manuel não era racista. Nunca conhecera nenhum negro, mas sabia que existiam e para ele eram criaturas de Deus como ele.  Desde que tinha o rádio ouvia algumas vezes uma estação emissora que contava o que se passava nas províncias Ultramarinas. A mulher estava sempre a ralhar pois era muito perigoso ouvir aquele emissor, mas o facto de viver isolado junto ao rio, não era muito credível que por ali andassem os homens da PIDE. Eles preferiam outros ambientes, as tabernas por exemplo, onde os homens com um copito a mais se tornavam mais confiantes e descuidados. Ou os locais de trabalho. 
Depois tinham-lhe dito que colocando um copo de água sobre o aparelho, eles não conseguiriam saber o que ele estava a ouvir, desde que o rádio não estivesse com o som demasiado alto. Não sei se havia alguma base científica para isso, sequer sei se seria verdade, mas ele acreditava nisso e fazia-o sempre religiosamente, como quem cumpre um ritual. Depois como em boca fechada não entra mosca, ele não comentava com ninguém o que ouvia. 
No Verão desse mesmo ano, Galvão Teles aumenta a escolaridade obrigatória para seis anos, mas aos filhos do Manuel já de nada serve que já estão a trabalhar excepto a do meio que continua a tirar excelentes notas, e que será finalista no próximo ano. 
Dir-se-ia que 64 fora o princípio do fim do regime fascista, e da guerra no Ultramar, que nesse mesmo ano se estendeu a Moçambique, com a primeira acção da FRELIMO, em Chai no distrito de Cabo Delgado. 
As colónias desde Cabo Verde a Moçambique estão em guerra com Portugal, pelo seu direito à independência. 
E esse ano termina com o grande incêndio que destruiu o Teatro Nacional D. Maria II em Lisboa.

30.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXIX


                                                                      Foto do google



Pouco antes do seu aniversário, Manuel acabou de pagar a motorizada e resolveu comprar  um rádio a pilhas. Era um rádio grande, com gravação e leitura de cassetes.  Era um bocado caro, mas o dono da loja facilitava o pagamento em prestações, e depois os filhos mereciam ter música em casa. Não era por ele que continuava com a sua velha galena a ouvir o que gostava, quando tinha tempo para isso. Mas as crianças não terem um rádio, numa altura em que já tanta gente tinha TV era uma tristeza.
Nesse Verão, um dos cunhados casa-se e vai viver para Palhais. Entretanto a filha mais velha vai passar um mês ao norte, a casa de familiares pois há quase três meses anda com uma tosse que não passa apesar de todos os xaropes tomados. Dizem-lhe que quando assim é, só mudança de ares. Também nesse mês, morre no hospital em Lisboa a sogra do Manuel de cancro na garganta, e a mulher traz para casa o pai, que no ano anterior sofrera um AVC e ficara afectado mentalmente.  Combina com os irmãos e fica decidido que cada filho, cuidará do pai durante um mês.
 Ainda nesse ano, pouco depois dos anos da filha mais velha, enquanto Manuel pisava a uva com alguns amigos, no lagar do Bernardino, começa a germinar-lhe na cabeça um desejo. Poder no ano seguinte fazer vinho. 
O Bernardino, caseiro de uma das quintas da seca, e amigo de longa data do Manuel, tinha um grande lagar onde todos os anos fazia vinho. Não que na Seca houvessem vinhas. Mas ele comprava a uva na zona de Palmela, que depois vinha numa camioneta até à Seca. Fazia sempre muito mais do que precisava para consumo próprio, pois o pessoal do norte gosta da pinga caseira e mais ninguém na Seca tinha lagar. Assim sempre lhe pediam para fazer com ele o vinho. Uns compravam um barril de 100 litros, outros de 150 ou uma pipa de 200 litros. No ano anterior, também Manuel comprara uma pipa de 100 litros. E este ano ia pelo mesmo.  Mas começa a pensar que talvez quem saiba um ano possa fazer o seu próprio vinho.
Em breve recomeça a safra do bacalhau. O pessoal anda cada vez mais apreensivo. As poucas notícias que lhe chegam sobre  as colónias, são cada dia mais preocupantes, mas a PIDE está cada dia mais activa e ninguém se atreve a pensar em voz alta o que lhes vai na alma, pois nunca se sabe quem  os está a ouvir, e às vezes, até as paredes têm ouvidos. O clima de desconfiança que reinava entre o pessoal, acabara com a alegria de anos antes, e tornava a tarefa mais pesada.
A 22 de Novembro o presidente Kennedy é assassinado.
A América é lá tão longe, mas por estranho que pareça, Manuel e alguns dos seus camaradas na Seca, têm uma admiração especial pelo homem, e ficam quase tão chocados como se lhes matassem um amigo pessoal.

29.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXVIII


Soldados portugueses na Guiné. Foto do  Google.



O resto do ano correu sem nada de muito importante na vida do Manuel, a não ser que um dia fez uma visita relâmpago, ao forno do tijolo, onde o filho estava a trabalhar e ficou tão horrorizado com o trabalho e o calor a que o miúdo era exposto que nesse mesmo dia o trouxe com ele para casa, dizendo que aquele trabalho era desumano, pois os homens mais velhos mandavam o miúdo executar as tarefas que a eles menos lhe agradavam. Pouco tempo depois o rapaz haveria de ir trabalhar para uma serração também em Palhais.  A mulher, desde que começara a fazer a tal injecção mensal, que lhe receitam em Coimbra andava bem de saúde. A injecção era cara, mas ele dava por abençoado esse dinheiro. A filha mais velha estava de novo a trabalhar na safra e a do meio continuava a estudar sempre com as melhores notas. A vida melhorara sensivelmente para o Manuel, que continuava a semear cada vez mais coisas no quintal que também era cada dia maior. Criava agora dois bacoritos, que depois de criados mataria. Um ficava para a família o outro vendia e sempre ficava um dinheirinho extra para as injecções da mulher e para algo mais que surgisse de repente. A alimentação para os porquitos, ele conseguia de inverno nas maltas na seca, e de verão nas casas da Telha.  E foi assim que terminado aquele ano de má memória, se iniciou outro que naquele lugar os anos se sucediam sempre iguais e rotineiros.Manuel voltou a entusiasmar-se com o Carnaval, e a elaborar as suas máscaras. 
Enquanto isso, nas colónias ultramarinas, o desejo pela independência é cada vez maior, as hostilidades sucedem-se , na Guiné inicia-se a luta armada, com um ataque do PAIGC ao quartel de Tite. 
Na seca o pessoal com filhos em idade de ir para a tropa, está apreensivo, Temem a chamada dos filhos para esse temido e desconhecido teatro de guerra. A mulher do Manuel preocupa-se pelo futuro do filho, mas ele acredita que até o rapaz ter idade de ir para a tropa, já o caso estará resolvido. Ele pensa que não deve sofrer por antecipação. Com tantas dificuldades que já passara, ele habituara-se a viver um dia de cada vez, preocupando-se apenas com o momento presente. 
Costumava dizer à mulher, "Para quê pensar no futuro, se o presente me é tão pesado, e me dá tanto em que pensar?"



ACABEI DE REGRESSAR: AGRADEÇO TODO O CARINHO DISPENSADO NAS MENSAGENS QUE ME DEIXARAM, E ESTAREI PELOS VOSSOS BLOGUES SE NÃO HOJE MESMO, AMANHÃ DE CERTEZA.

21.3.16

TRÊS EM UM COMO NO SUPER...



Hoje é o dia mundial da árvore e da Floresta, e todos sabemos a falta que elas nos fazem. Apesar disso todos os anos mãos criminosas fazem arder milhares delas.




Mas hoje também é o dia mundial da poesia e aqui deixo também a minha contribuição para o dia.








DEIXA



Deixa que a vida
não seja desespero
mas só vida.

Deixa que o mar
não seja túmulo
mas só mar.

Deixa que o sonho
não seja pesadelo
mas só sonho.

Exige
JUSTIÇA
PAZ
AMOR.

E vive...

Deixa
que a vida
seja vida,
e o mar
mar
e o sonho
sonho.
E luta
sofre
ama
e vive...

Essa vida
que não tens
mas anseias
conhecer.











Tão importante ou mais ainda, é que hoje também é o dia Internacional da Eliminação da discriminação Racial









Amigos  a partir de hoje vou estar ausente. Voltarei no fim do mês. Até lá, não irei aos vossos cantinhos. Desejo-vos uma Santa e Feliz Páscoa.

20.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXVII


      Capela do quartel, foto do google




 Estávamos em Maio de 62, num daqueles dias quentes, que mais parecem de Julho, quando à Seca, chegaram dois polícias numa carrinha, em busca do Manuel. Ele estava no trabalho, no armazém da lenha, e lá chegados os polícias deram-lhe voz de prisão, e levaram-no sem sequer poder avisar a família. Entrar algemado na carrinha, foi para o Manuel uma vergonha e dor tão grande, que ele pensou não resistir. Ao mesmo tempo que mandava um vigia avisar a mulher do Manuel, o Capitão, gerente da seca, telefonou para o posto no Barreiro, para saber do que era acusado, um homem que levava a vida a trabalhar, e não se metia em escaramuças nem políticas. Foi então informado, de que a ordem viera de Lisboa, com a acusação de que Manuel era um desertor.
 Parece que à época, os mancebos aptos para a tropa, não ficavam livres depois de ela acabar, mas passavam a uma situação de reserva que só terminava aos 45 anos. Manuel fizera 44 em Abril. Ora todos os anos, eram vistos os processos, de todos os mancebos que cumpriram tropa e estavam nessa idade. E encontraram a caderneta militar do Manuel, que lhe devia ter sido entregue quando da passagem à reserva. Daí a investigarem o tempo de tropa dele foi um passo. E logo descobriram a deserção. E em consequência disso, Manuel estava agora preso e ia ser mandado para Lisboa. Precisamente para o quartel de Caçadores 5 em Campolide, de onde tinha desertado em 1941.
Uma vez no quartel, foi-lhe dito que teria de cumprir os quase dois anos de tropa que lhe faltavam quando desertou. Como porém em Abril de 63, faria 45 anos, e passava à reserva, ficaria na tropa até essa data. Ou seja, quase um ano.
Dá para imaginar o sofrimento do Manuel? Os jovens militares, gozavam com ele, mal acabava a formatura. Não estava em prisão no quartel. Estava na tropa, embora sem licença de saída.
Recebia a visita da mulher no quartel, e mortificava-se com a situação da família, agora sem o seu ordenado, que era o único na casa até à próxima safra, e ainda obrigada a gastar dinheiro em viagens para as visitas. Chorava todos os dias. E tudo por causa de umas malfadadas botas da tropa, que não pudera pagar ao estado.
Trabalhador humilde, sempre pronto a qualquer trabalho, mesmo que nada tivesse a ver com o armazém da lenha, alegre e bem-disposto, apesar de todas as dificuldades, o Manuel granjeara a simpatia, não só de todos na Seca, como do próprio patrão, que vivia em Lisboa e só muito raramente vinha à seca. Lembro, que ela era gerida pelo capitão Aníbal. Porém quando o patrão precisava de um homem para qualquer trabalho na sua casa, ou jardim, telefonava para a seca e o capitão mandava para lá o Manuel.
Boa pessoa, sabendo reconhecer os méritos do Manuel, o patrão deu ordem ao gerente da seca, para manter o ordenado do Manuel enquanto ele estivesse ausente. Não satisfeito com isso, o patrão, usou de toda a sua influência, (e se era influente a família Bensaúde) para retirar o Manuel daquela agonia. E foi por isso que ele, voltou à liberdade no início de Setembro, bem a tempo de dar um beijo à filha no dia dos seus 15 anos.



19.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXVI




painel de azulejos contando a história do Santa Maria,  existente no prédio construído no local onde nasceu Henrique Galvão . Foto minha
Nota, não lembro a data exacta do aprisionamento, embora lembre do facto. Neste painel, a data é 1960, mas todas as pesquisas que fiz no google me dizem que foi em 1961.


No final do ano escolar, o filho fez exame e a filha também passou para o segundo ano com excelentes notas.
 A mais velha trabalhava  agora na quinta, ganhava pouco, mas não conseguira outro trabalho. Tocava a vaca na nora, dava comida à criação, fazia recados aos caseiros.  E quando os navios chegassem lá ia trabalhar na seca. 
E assim foi que ao Verão se sucedeu o Outono e depois o Inverno, sem grandes mudanças nem sobressaltos que já ninguém esperava outra coisa, do que aquilo a que a vida os habituara. A excepção, fora que a filha mais velha do Manuel também se inscrevera na escola Alfredo da Silva no início do ano escolar, para estudar à noite.  
Porém nem um ano lectivo aguentou, o trabalho na seca era muito duro. Manuel saía do armazém às cinco e rendia a filha para que ela se fosse arranjar e fosse para a escola, onde entrava às sete. 
Saía às onze, e entre chegar a casa, comer alguma coisa e 
preparar as coisas para o dia seguinte, ia para a cama 
depois depois da uma. E se havia serão de manhã, às seis 
já estava no local de trabalho. Era impossível aguentar, mas 
ela queria porque queria estudar, e o pai não se opôs, 
apesar do sacrifício extra de terminar por ela o trabalho e de 
ir buscá-la à noite à paragem do autocarro, pois tinha receio 
de que alguém fizesse mal à miúda na azinhaga de caminho 
para casa. Desistiria no final de Janeiro, extenuada.
Mas esse Janeiro de 61 estava decidido a ficar na história, e não por esse facto pois quem eram eles, senão povo ignorado e ignorante que apenas lutava pela sobrevivência, como todo o povo na época, salvo claro os favorecidos da sorte.
  É que em 22 de Janeiro , Henrique Galvão, um barreirense, capitão do exercito português, e  opositor do regime de Salazar, comandou o "assalto" ao paquete Santa Maria, chamando a atenção do mundo para o regime ditatorial que se vivia em Portugal. 
Na seca, o pessoal não se atrevia a comentar, a PIDE estava mais activa que nunca, e o povo temia a sua própria sombra.
Com grande sacrifício, o Manuel acaba comprando uma motorizada em segunda mão a prestações.
Um a um passeia os filhos na  "pendura" para que eles sintam a sensação e participem da sua alegria. A mulher é que era pior. Ela não queria de modo nenhum, andar naquela "geringonça" tinha medo.  E tanto assim que meses mais tarde, quando o marido conseguiu convencê-la, ainda não tinham chegado à Telha e já ela se deixara cair num monte de areia na berma  da estrada.  O engraçado é que o marido  só deu por isso dois kms à frente e voltou para trás
aflito com medo da mulher se ter ferido. Encontrou-a em casa sem qualquer ferimento, mas mais relutante do que nunca em voltar a pôr o corpinho em cima da motorizada.
"Ná, quem fez este corpinho, já não faz mais nenhum"- costumava dizer. 


E porque hoje é o dia do pai, votos de feliz dia para todos os homens que sabem honrar o sagrado nome de pai. Para o Manel da Lenha que como todos sabem foi meu pai, o meu eterno obrigada, onde quer que esteja meu pai.




  

18.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXV




Iniciava-se a década de 60, a gloriosa década de 60, o mundo inteiro está em mudança, mas em Portugal, a politica de isolamento, castrava à nascença, qualquer indício de modernidade vindo do estrangeiro. Por outro lado a maioria do povo seguia uma vida de miséria, provações e medo.  E na seca, a vida continuava absolutamente igual ao que sempre fora.  A mulher do Manuel, era simultaneamente porteira,e trabalhadora da Seca,  já que era ela quem abria o portão, para o pessoal que vindo do Barreiro, encurtava caminho, passando pela caldeira do Alemão, e seguindo junto ao rio, até ao portão de entrada na Seca, que lhe ficava à porta. Quando passavam as últimas pessoas, fechava o portão à chave, e seguia com elas para o trabalho de lavar, salgar, banhar, estender ou enfardar o bacalhau. À tarde saía um pouco mais cedo para ir abrir o portão, por onde o pessoal passava de regresso a casa. Cabia-lhe ainda, a ingrata tarefa de revistar os cabazes que o pessoal trouxera com o almoço, não fora alguém esconder nele algum bacalhau. Na Seca havia outro portão, que servia para os trabalhadores que moravam na Telha, ou vinham de Palhais, ou Santo António. Era a entrada principal por onde passavam os carros.
Além dos três filhos com pequena diferença de idade, o casal cuidava ainda dum sobrinho, que tinha quase a idade do filho deles, e tinha escrito aos tios, logo que terminou a primária, a pedir para vir morar com eles, pois queria fugir da miséria na aldeia.
No casarão vivia ainda o cunhado mais novo  do Manuel, que entretanto saíra da tropa e fora trabalhar para a Siderurgia no Seixal. Namorava uma rapariga de Palhais, que trabalhava na Seca, queria juntar uns tostões para o casamento e vivendo com a irmã não pagava renda, era mais fácil.
A filha mais velha já trabalhava na Seca, sempre ajudava o orçamento.  Ficou assim a trabalhar na seca durante a safra. O pior eram os meses em que o trabalho na seca estava parado. A miúda já se inscrevera em lojas, mas sempre queriam alguém com experiência e ninguém tem experiência antes do primeiro trabalho.
O pequeno terreno que desbravara ao mato, ajudava com os legumes, e a mercearia ele mandava pôr no rol, que pagava religiosamente quando a próxima safra começava.
A filha do meio estudava na Escola Industrial e Comercial Alfredo  da Silva no Barreiro, porque depois de muito pensar, de pesar os prós e os contras, Manuel decidiu que ia dar à filha a oportunidade de estudar. Pelo menos naquele ano, depois se veria se ela sabia ou não aproveitar a oportunidade. O filho, que finalmente começara a falar como gente, recuperara o tempo perdido, e está agora na 4ª classe no Barreiro. 

17.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXIV


Foto de Rui Pires do blog Olhares d'Ouro




No ano anterior, sabendo que depois da matança do porco, e com as frutas e legumes que semeava no quintal, ia fazer menos despesas, o Manuel resolvera inscrever toda a família, para uma excursão de oito dias a Lamego, a fim de assistirem às festas da Senhora dos Remédios. Falara com o organizador, e fora pagando um tanto todas as semanas, a fim de ter tudo pago na hora da partida no final de Agosto. As crianças estavam muito felizes e ansiosas pela viagem, pois tirando uma ida até ao Montijo para a festa da Senhora da Atalaia, e uma ou outra viagem a Lisboa, quase sempre rumo ao hospital, como quando a filha fora operada à garganta, não conheciam nada mais que a seca, e o Barreiro.  
A viagem foi muito interessante, visitaram algumas belas localidades que ele próprio não conhecia, como Tomar, onde visitaram o Convento, e o jardim. Neste um dos elementos da excursão tirou uma fotografia ao grupo, para mais tarde recordarem. Na excursão iam outros familiares e os vizinhos tudo gente amiga, como se fossem uma só família. As crianças estavam deslumbradas com tudo o que viam, e ele tinha pena de não ter uma máquina fotográfica para registar esses momentos de felicidade.  Na Figueira da Foz, ficaram pouco tempo mas ainda assim as crianças, ficaram maravilhadas com o tamanho da praia. Ao quarto dia chegaram enfim a Lamego. Nessa noite não encontraram alojamento, ficaram na camionete, e ninguém dormiu pois durante toda a noite se ouviam os ranchos folclóricos. 
No dia seguinte, assistiram à imponente procissão cujos andores eram transportados por carros de bois, com as crianças vestidas de anjinhos sentadas aos pés dos santos, em nuvens de algodão.
Saíram logo depois da procissão em direcção à Régua. E no dia seguinte iniciou-se o regresso, onde ainda se visitaria entre outras terras o Luso. A viagem correra bem até aí, tudo era alegria.  Mas no Luso a Gravelina teve outro ataque daqueles já referenciados. 
Primeiro perdeu os sentidos, e depois começou a rasgar-se, a morder-se, e a atacar quem dela se aproximava, ao mesmo tempo que gritava. Chamada uma ambulância, foi levada para o hospital de Coimbra. Ele seguiu com a mulher e os filhos ficaram na camioneta com a restante família e vizinhos.
Duas horas mais tarde, já a camioneta estava em Coimbra o Manuel chegou com a indicação de que a Gravelina tinha ficado internada para exames. Ele viria buscá-la quando tivesse alta.
Escusado será dizer que se acabou a alegria para o resto da viagem.
Dias mais tarde, o Manuel foi chamado ao escritório da seca para lhe comunicarem que tinham recebido um telefonema do hospital a comunicar que a  Gravelina teria alta no dia seguinte.
Foi o irmão João que lhe emprestou o dinheiro para a viagem, e assim Manuel foi buscar a mulher.
Parece que o seu mal seria consequência da cirurgia que tinha feito.
Tinha que levar mensalmente uma injecção até à idade da menopausa. E o que é certo, é que se foram os "encostos" que os vizinhos diziam que tinha.

16.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXIII



E ainda que conseguisse, havia a mais velha. Saíra da escola no ano anterior, gostaria de estudar, lia tudo o que apanhava à mão e até gostava de escrever histórias. Decerto ia ficar revoltada da irmã ir estudar e ela não. Mas por outro lado, ela, a mais velha era uma moça forte, tinha já quase o corpo de uma mulher e podia melhor aguentar o trabalho, do   que a outra, que fora sempre uma miúda franzina, e medrosa. Por outro lado havia o rapaz. A professora acabara de lhe comunicar que o miúdo ia fazer a passagem. Mas não sabia o que seria no próximo ano.
 Ele até parecia um miúdo inteligente, mas era “pelego”. 
Até parecia castigo. Tanto que ele desejara aquele filho. E afinal depois que ele nascera multiplicaram-se os seus problemas. Primeiro com a doença da mulher, depois, o miúdo gostava de se isolar, de brincar sozinho. Tivesse ele uns pedacitos de madeira uns pregos e um martelo e ele brincaria uma tarde inteira sozinho. Ou um balde com água e terra. E era vê-lo entretido em grandes construções.
Assim naquela noite enquanto mostrava aos filhos o monumento iluminado lá ao longe, Manuel erguia uma prece ao Cristo Redentor, suplicando ajuda para o seu menino.
 Alguns dias mais tarde, depois de uma conversa com o irmão e cunhada, o Manuel decide que a filha do meio vai estudar. A miúda fez os exames de quarta  classe e admissão com distinção, ganhou uma pequena bolsa de estudos, o tio forneceria os livros, já que os dois filhos estudavam, e naquele tempo os manuais escolares não mudavam todos os anos, e a mulher do empregado de escritório,dava algumas roupas que já não serviam às filhas.Roupas boas, de qualidade, que fariam com que a sua menina não fosse, “a vergonha da escola”. Claro que a mãe teria que as adaptar ao corpo da miúda, mas isso não era problema. Além disso a prima também ajudaria dando algumas explicações se a miúda precisasse. Ainda assim Manuel interrogava-se sobre a justiça de dar àquela filha a possibilidade que uma vida que os outros dois não teriam.






15.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXII



                 Foto da Câmara de Almada

Nesse ano em Novembro, o Manuel mata o seu primeiro porco. Já matara um no ano anterior, mas vira-se obrigado a vendê-lo aos vizinhos porque estava sem dinheiro para comprar roupas de agasalho para os filhos, e medicamentos para a mulher. Agora não. As carnes iriam para a salgadeira. As tripas depois de muito bem lavadas pela mulher seriam cheias, e iriam para o fumeiro. Ele iria tratar e curar um presunto, até já tinha um gancho na trave do barracão para o pendurar. O outro seria cortado em bocadinhos, temperado com uma mistura de sal, alho, vinho e especiarias. Depois de fritos os bocados,  seriam conservados em banha num pote de barro. A banha era feita em casa com as gorduras e toucinho derretido.  Finalmente as crianças iriam ter carne para comer o ano inteiro. Em dias de festa, matava-se uma galinha para desenjoar a carne de porco. Ou um coelho. Mas estes eram raros. Quase todos os anos lhes chegava a moléstia e iam todos para adubo. Os meses passaram, a safra, agora com mais um navio estende-se até quase ao final de Maio.
 Naquela noite quente de Junho, Manuel sentou-se nas escadas do barracão com os filhos e mostrou-lhes o Monumento que se via iluminado para lá das águas do rio. Ele gostaria de levar a família a ver de perto o recém inaugurado Cristo-Rei, mas onde arranjar dinheiro para as passagens? Até à nova safra em Outubro, só podia contar com o seu salário, e as bocas a comer eram sempre as mesmas, e cada vez comiam mais. Por essa altura outros problemas atormentavam o Manuel. A professora da segunda filha, agora na 4ª classe,   mandara-o chamar para lhe dizer que achava um crime que a sua filha não fosse estudar, dado que era uma criança muito inteligente. Dissera-lhe ainda que ela própria, ia prepará-la para o exame de admissão, e pedir uma ajuda uma bolsa ou lá o que era para ela poder continuar a estudar. Se por um lado ele ficava feliz pela inteligência da sua menina, por outro interrogava-se como a conseguiria pôr a estudar.
 É que ainda que a professora conseguisse a tal ajuda, isso não era tudo. A miúda não podia ir estudar para o Barreiro com as tamanquitas de madeira com que ia para a primária. E as roupas? As que tinha estavam demasiado velhas e ele não lhe agradava que a miúda se sentisse envergonhada junto das outras crianças. Ali na Telha, todos os miúdos eram filhos de pais iguais a ele. Todos irmãos na miséria. Mas na outra escola, só andavam filhos de outros pais. Que até podiam não ser ricos, mas que tinham outras posses, lá isso tinham. 

14.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXI


                         Foto de Luís Miguel Correia


Apesar de todas as vicissitudes da vida,  pouco depois do Ano Novo,  já andava às voltas com o seu fato e máscara de Carnaval.  Ele sempre fora um homem alegre, brincalhão e a época carnavalesca sempre lhe permitia extravasar essa alegria. Sempre fazia máscaras estranhas, deuses ou demónios de um qualquer mundo imaginário, muito parecidas com as máscaras tribais que hoje vemos na televisão. A morte da mãe, e os problemas de saúde da esposa, levaram-no a interromper essa prática, que retomara  nesse ano da graça de 1958
Em Abril, a safra já tinha terminado e o pessoal que ali trabalhava todo o ano, voltara à rotina de reparar tinas, caiar armazéns, reparar arames partidos e cortar o canavial. A 19 desse mês, é lançado à água a nova aquisição da seca, um dos navios mais bonitos da pesca do bacalhau. O Neptuno, o navio-motor em aço, construído nos estaleiros de São Jacinto em Aveiro.
Na seca, um dos cunhados do Manuel continua na tropa, e o outro conseguiu por esses dias empregar-se na CUF, e embora continuasse a viver no barracão, como trabalhava no turno da noite, dormia de dia, e Manuel deixou de contar com a sua ajuda. Os filhos estavam na escola. A mulher cuidava da casa, e  da criação que entretanto fora conseguindo, e por vezes dava uma ajuda na rega. Mas ele não gostava muito de a ver no quintal. Ela continuava com problemas de saúde. Agora de vez em quando tinha uns ataques que ninguém a segurava. Os vizinhos já falavam que ela devia ter algum “encosto”, quem sabe, alguma promessa que decerto a Piedade fizera e não pagara, e agora andava a atormentar a nora.
Manuel não sabia se havia de acreditar ou não. Mas lá que eram uns ataques esquisitos eram. No último esteve largos minutos desacordada e depois de repente, começara a gritar, rasgara a roupa, arranhava-se e mordia-se e ele aflito até mandara as crianças para casa do cunhado, para elas não verem assim a mãe. Depois que recuperou, andou quase uma semana prostrada e sem forças. Agora estava bem mas e até quando?
No terminar das aulas, a filha ficou bem no exame da 4ª classe e Manuel sentiu-se feliz por isso. Pena que o filho não tivesse passado. Mas ele sabia que a culpa não era do miúdo, se ele não conseguia fazer-se entender.

13.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXX





                                                                        Foto do google


Janeiro de 57, trás o chamamento de um dos cunhados do Manuel para a tropa. O outro arranjara trabalho numa vacaria, na quinta do Himalaia e só vinha dormir a casa. A filha mais velha do Manuel, está agora na 4ª classe e a escola na Telha só vai até à 3ª classe. Logo a miúda foi para a escola feminina nº 5 no Barreiro. Muito mais longe de casa, vai pela caldeira do Alemão, até à Verderena, e depois daí, é que é mais perigoso, pois é a estrada principal, e os pais temem que a miúda não tenha o cuidado suficiente para não ser apanhada por algum carro.
A miúda do meio continua  na Telha. E o rapazinho acompanha o pai ou a mãe no trabalho, entretendo-se por ali a brincar.
Nesse início de ano, o Luís foi para a tropa para a Trafaria. Uns meses antes fora às sortes, e como ficara aprovado, Manuel achou que era altura de o levar à "desobriga"
Caramba o rapaz não havia de ir para a tropa antes de ser homem. Então um dia levou-o a Lisboa, a uma casa que conhecera bem dos seus tempos de solteiro, e entregou-o aos cuidados de uma experiente "menina"
A "dama do pente verde" escolhida pelo jovem, quando a dona da casa, posta ao corrente do que o Manuel pretendia, fez vir à sua presença, algumas mulheres.
Entretanto na Seca, falava-se dum novo navio bacalhoeiro, que estava a ser construído em Aveiro, nos estaleiros de S. Jacinto e que dizia-se era maior e ia trazer muito mais bacalhau, e por consequência muito mais trabalho para aqueles que dependiam dele para a sua sobrevivência.
O tempo não pára, aos dias sucedem-se as semanas e a estas os meses. A vida no velho barracão continuava com grandes dificuldades, especialmente durante o Verão, quando Manuel é o único a ganhar para os cinco. Ás vezes o cunhado quer contribuir com alguma coisa, mas ele não aceita, afinal ele também não ganha muito, e tem que se bastar a si próprio.  A vida no país está cada vez mais conturbada, no final de Julho os salineiros entram em greve, e no início de Agosto é publicado um despacho, decretando que a Siderurgia Nacional se instalaria no Seixal. Isto dá início à maior crise política da margem sul, pois a população de Alcochete, tinha grandes esperanças de que a Siderurgia fosse para lá. Sonhava-se com isso, para tirar o conselho da miséria em que vivia, confinado apenas ao trabalho de quase escravidão das salinas. Além do mais, as Salinas ficavam paradas todo o Inverno, e os homens não tinham onde ganhar o pão de cada dia.
Vários políticos demitiram-se em bloco, entre eles o presidente da Câmara.
Na Seca da Azinheira, dizia-se que a instalação da Siderurgia, do outro lado do rio, ia empurrar este para o lado de cá. Manuel ficou apreensivo. O barracão ficava a uns escassos dez metros da água quando eram as marés vivas, ou quando havia grandes tempestades. Certo que ele estava assente em pilares de cimento com um metro de altura.
As águas nunca iriam entrar em casa. Mas e o quintal em frente, que tanto lhe custara a romper por entre chorões e silvas? E os animais em capoeiras junto à casa e assentes no chão? Como iam sobreviver?
A somar a tudo isto, a greve dos salineiros, ameaçava deixar a seca paralisada, pois sem sal não se podia fazer a cura do bacalhau, e então toda aquela gente que  contava com a safra para ter trabalho, não iria ser chamada, e ficavam sem meios de sustento.


10.3.16

MANEL DA LENHA PARTE XXIX

        As filhas do Manuel com as coleguinhas. 

Em Outubro de 56 a segunda filha do Manuel foi para a escola. Agora ficava só o filho em casa pois ainda não tinha idade. Arménio, tinha um problema com a fala. Era um miúdo muito inteligente, que com terra e água, se entretinha em grandes construções, mas pronunciava mal as palavras,  Entendia toda a gente, mas poucos o entendiam a ele. Chamava as irmãs, Elvira, de Nebida, e Lourdes, de Nudes. E os pais, de Pachino e Machina. Mas havia outras palavras que saíam ainda mais arrevesadas, algumas autênticas asneiras.
Um dia a mãe, levou-o ao médico, que uma vez por semana ia à seca. Porém ele disse que só o tempo o poderia curar, se é que algum dia ficaria curado.
 Uma camarada lá na seca, (ali, mulheres e homens tratavam-se de camaradas, sem a conotação política que mais tarde se lhe atribuiu na política), disse à mãe, para meter o miúdo num fole ª), e correr sete freguesias, carregando-o no dito fole. Porque a mãe não acreditou na mezinha, ou porque não teria forças para carregar o miúdo, as sete freguesias que distavam muito umas das outras,  não o fez.  O certo é que faltava um ano para o catraio ir para a escola, e a sua linguagem era tão arrevesada que às vezes nem a própria mãe o entendia.
Também em Outubro chegaram os navios, e o trabalho na seca recomeçou. O miúdo ia para a seca com a mãe, e o tio, que tomara conta deles enquanto mais pequenos foi trabalhar também, até porque precisava de dinheiro para as suas coisas, e a irmã e o cunhado quase nunca o tinham para lhe dar.
Nesse mesmo ano, ainda Novembro não ia  a meio, um violento temporal abateu-se sobre a seca. O vento parecia ciclónico e as chuvas intensas, "varreram" a Azinheira. O barracão, ficou sem telhado, e a chuva encharcou tudo o que havia para encharcar. Felizmente que as duas meninas estavam na escola, e o pequenito tinha ido com a mãe para o trabalho. O Manuel também estava no trabalho bem como o cunhado, o que fez com que pelo menos não houvessem danos físicos.
Com pena do Manuel, que não tinha dinheiro para comprar e pôr um telhado novo, o Capitão mandou entregar-lhe telhas de lusalite, iguais às que cobriam os diversos armazéns, e o Manuel lá pôs o "telhado " com a ajuda do cunhado e de um amigo e vizinho. Foi uma trabalheira, mas à noite o barracão estava coberto. Apesar disso, nessa noite, todos dormiram no chão, enrolados em sacos de serapilheira, dos que serviam para ensacar o bacalhau, e que o gerente lhes deu, já que toda a roupa ficara encharcada, e até os colchões de palha de centeio teriam que ser esvaziados e a palha posta a secar ao sol
Pouco tempo depois, com a ajuda do cunhado, Manuel pode enfim comprar um leitão no mercado. Pôs um balde na malta dos homens para recolher os restos de comida, e levar para o porquinho.


ª) saco ou bolsa de couro

9.3.16

MANUEL DA LENHA - PARTE XXVIII



                                                               foto do google

Com água em abundância, a vida melhorou um pouco para o casal. Manuel, ia roçando o terreno e cavando courelas, onde semeava, os mais diversos legumes, e alguns frutos, como melão e melancia.  Nesse trabalho, sempre feito antes ou depois do seu horário normal de trabalho no armazém, era ajudado pelos dois cunhados que continuavam a viver lá em casa. 
Nas noites quentes de Verão, ele sentava nas escadas de madeira, ao lado dos filhos, olhando as estrelas.
-Paizinho, quantas estrelas há no céu ? - Perguntava a filha mais velha
-Ninguém sabe. Não se podem contar.
- Porquê? - Interrogava a miúda.
- Porque nascem verrugas em quem as conta. 
Num outro dia:
- Paizinho, tenho uma afta
- Anda cá. Vamos tratar disso. Vês aquela estrela. Aquela ali mais brilhante? Diz comigo:
"Estrelinha a minha afta diz que seques tu e medre ela, e eu digo que medres tu e seque ela."
E repetíamos por nove vezes.
Em Junho vinham os Santos populares. Pelo S. João,  ele construía enormes e coloridos balões de ar quente. E faziam-se fogueiras, que os mais novos saltavam cheios de alegria.
A vida melhorava lentamente no barracão. Já havia galinhas. De vez em quando uma galinha ficava choca. Manuel escolhia os ovos um a um colocando-os contra a luz, para verificar se eram ou não galados. Aos filhos fazia confusão, porque não serviam todos os ovos, e ele explicava, que dos ovos que não eram galados, não nasciam pintos. Os ovos simplesmente apodreciam se fossem postos debaixo da galinha choca. Então os não galados só serviam para comer.  Mas às vezes ele dizia:
- Este tem duas galaduras. E punha de parte.
Então porque é que esse não serve? Com duas galaduras devia ser melhor, dizia a miúda mais velha.
E ele paciente explicava:
-Não serve porque a segunda galadura, vai fazer com que o pinto nasça deformado. 
.Às crianças fazia uma certa confusão, mas iam guardando na memória os ensinamentos do pai. 
Porém o sonho do bacorito no chiqueiro estava mais difícil de conseguir.

8.3.16

8 DE MARÇO 2016 - DIA INTERNACIONAL DA MULHER.

Para todas as MULHERES, amigas ou não, conhecidas ou desconhecidas, neste dia que se convencionou ser da MULHER, (como se não o fossemos todos os dias) e que devia ser jornada de luta, pela igualdade de direitos, pela dignidade, e pelo respeito,  e está convertido quase só, a almoços ou jantares de mulheres,que uma vez por ano se reúnem e festejam a data divertindo-se,  enquanto todos os dias outras mulheres são maltratadas, violadas e violentadas,(algumas até à morte) escondidas e envergonhadas, na prisão em que se tornou o lar com que sonharam.Em pleno séc. XXI a  vida de muitas mulheres, ainda se pode retratar com essas duas imagens.








Sejam felizes, mas não se esqueçam das que o não são


Posto isto, deixo-vos com um trecho de um poema 

de Vinicius,de que muito gosto.






O Desespero da Piedade. 





E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!

Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!

Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.

Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.

Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.

Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.

Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.

Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.

Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.

Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.

Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.

Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.

Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!


Vinicius de Moraes

7.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXVII




No início de Abril, depois que a safra terminou, Manuel deitou mãos à obra, para construir um novo poço. Como o primeiro poço, estava mesmo ao pé da porta, e a água era um pouco salobra, ele resolveu procurar água num outro sítio, um pouco mais afastado. Começou por roçar um silvado, sob o qual acreditava, passar um veio de água doce. Os amigos não acreditavam que a menos de 30 metros do rio, a água, não fosse igualmente salobra. Porém a vara bifurcada dizia-lhe que ali havia água, e ele arriscou.
Fez dois moldes redondos de madeira, um com menos 8 cm de diâmetro que o outro. Untou com sebo o maior por dentro, e o mais pequeno por fora. Meteu um dentro do outro e encheu o espaço entre os dois com uma mistura de cimento água e areia. Depois que o cimento secou, tirou o molde e colocou o anel de cimento no sitio onde ia cavar. Tinha 1 metro de altura e metro e meio de diâmetro. Saltou para dentro desse anel, e começou a cavar e a encher baldes de terra, que a mulher e os cunhados se revezavam para despejar noutro local.
Manuel ia cavando, e a borda de cimento que formava o poço ia descendo acompanhando o buraco. Quando a parte de cima ficou ao nível do chão, Manuel parou de cavar e fez novo anel de cimento. Entretanto montou um tripé com uma roldana, e uma corda para puxar os baldes de terra. Pronto este anel, com a ajuda dos cunhados,  colocou-o em cima do primeiro, ligou-o com cimento, saltou para dentro do poço e recomeçou a cavar. Claro que este trabalho era feito à tarde, depois do dia de trabalho, e sobretudo ao fim de semana. Este processo foi repetido meticulosamente.A cada novo anel havia que aprofundar mais um metro o buraco. A 3 metros começou a aparecer água.  E era água doce. Fresca e leve. Mas ainda continuou a cavar mais dois metros.. Este último pedaço foi o mais difícil e trabalhoso, já que era necessário tirar não só a terra que ele ia cavando, mas também a água que ia enchendo o poço, para que pudesse continuar cavando. Foi montada uma nova roldana, e um dos  cunhados foi também para dentro do poço.  E ia escoando a água num balde para que o Manuel pudesse continuar a cavar e a encher outro balde com a terra. Lá em cima, a mulher e o irmão  iam esvaziando os baldes. 
 Por fim foi feito um novo anel de cimento para pôr à superfície de modo a ficar uma protecção alta, que foi tapada com uma grelha metálica, para evitar alguma tragédia com os miúdos. 
A meio de Maio, o poço estava finalmente pronto. Mas nessa altura Manuel deu-se conta que não podia semear os terrenos à volta e regá-los balde a balde. Então resolveu construir ao lado do poço um tanque grande. Ia servir para a rega, mas também para  a mulher lavar a roupa, e até para os catraios tomarem banho no Verão, depois do banho no rio.
Manuel dedicou-se de alma e coração, à construção do tanque em cimento, deixando-lhe na lateral junto ao fundo, um buraco redondo. Depois foi ao ferro velho e comprou um tubo largo de ferro, que colocou no dito buraco no tanque. Assim depois de encher o tanque, a balde, tirava a rolha do tubo e a rega ficava mais fácil, pois a água seguia pelos regos.