29.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE XX

                                                                  foto do google


O Inverno foi mais difícil que nunca para o Manuel e família. A mulher continuava débil sem forças, três crianças pequenas, mais a mãe,  a casa sem comida e o bolso sem dinheiro.
O Bernardino, amigo de há muito tempo e caseiro de uma das quintas da Seca, levava alguns legumes. As galinhas que ele fora criando, foram aos poucos desaparecendo para completar as refeições. A mulher não tinha forças para ir lavar as roupas ao tanque na quinta. E a toda a hora era preciso lavar fraldas.  De uma barrica que já não era usada na Seca, Manuel fizera uma celha para ela lavar a roupa em casa. Fora só serrá-la ao meio e betumar as frinchas para não perder a água. Mas então… e a água? Como encher a celha, indo buscar a água longe e com uma bilha de cada vez? Aí o ti’Abel deu uma ajuda, levando a água num barril na carroça. O pessoal, residente na Seca, tentava ajudar como podia, mas podia muito pouco, pois todos viviam irmanados, numa vida difícil, embora uns mais que outros, dado o número de filhos e a casa que habitavam, pois o pessoal mais antigo, habitava casa com luz e água, e só isso já facilitava muito a vida. 
Completamente dedicado à família, mal termina o trabalho no armazém da lenha, que como sabemos era duríssimo, Manuel vai fazer (quando os há) o serão na seca. 
Em Março com o final do trabalho na Seca do Bacalhau, deixa de fazer os serões e se por um lado tem mais tempo livre, por outro o dinheiro minga ainda mais no seu bolso. 
O Manuel tem assegurado o seu trabalho de lenhador, mas a mulher, como todos os anos,  fica sem ganhar, até que voltem os navios, e este ano há mais uma pessoa a sustentar, Piedade, a mãe que viera para cuidar dos netos.
Felizmente o ti’Luís Estaca, dono da mercearia da Telha onde Manuel vai buscar o”avio” para a casa, sempre lhe facilita os bens essenciais tenha ou não dinheiro para pagar. Ele tem pena da vida daquele homem, e ao mesmo tempo confia em que ele lhe pagará logo que tenha dinheiro. Afinal, já lhe fiou noutras alturas quando ainda solteiro era um estroina, e nunca deixara de lhe pagar, não era agora, que o ia fazer.
E tem razão, porque o Manuel assim que recebe vai pagar o que deve, mesmo que fique outra vez de bolsos vazios para a próxima semana.
Entretanto a mulher do Manel, parece ter perdido a alegria e a saúde. O filho faz o seu primeiro ano de vida, e as miúdas estão com dois e três anos.
Manuel fez ao lado do barracão, um pequeno chiqueiro, e sonha com o dia em que possa comprar um bacorito, que ele pudesse criar e lhe desse carne para a família. Manuel só sabe fazer duas coisas na vida. Trabalhar que nem besta de carga, e sonhar com tudo o que possa impedir a sua família de passar fome.
Durante o Verão a mulher do Manuel parece ter melhorado bastante, e assim quando os navios chegam com o bacalhau, ela está pronta para trabalhar e ajudar as despesas. Ele também pode agora ganhar um pouco mais aproveitando os serões. 
Porém pouco tempo depois de começar a trabalhar a mulher do Manuel voltou a piorar. Não largou o trabalho mas era visível o seu esforço e a sua debilidade.

28.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE XIX

                   
                    Três dos navios da seca

No dia 20 de Junho, dia em que a segunda filha faz 1 ano, precisamente três horas antes, nasce o tão almejado filho. O rapaz esperado desde o primeiro momento enchendo de alegria e orgulho o seu coração. Podia agora cumprir a promessa que fizera em pequeno. Dar ao filho o nome do filho do patrão, que sempre o tratara como amigo e lhe ensinara a ler.
Nesse dia quase não dormiu. Dividido entre a contemplação do filho, e  da mulher, que parecia mais cansada que das outras vezes, atento às duas raparigas, uma extremamente franzina, – não pôde ser amamentada como devia, por causa da nova gravidez – e a mais velha a caminho dos 3 anos e sempre a querer ver e brincar com a irmã, como se ela fora um boneco. Manuel estava alerta com ela. Lembrava-se do susto que apanhara uns meses atrás, quando fora dar com ela a meter pão na boca da irmãzita, e esta quase sufocada já a ficar negra. Tivera que lhe pegar pelos pés, virá-la de cabeça para baixo, e dar-lhe umas palmadas nas costas, até que por fim saltaram os pedaços de pão. E o pior foi a cara de anjinho da garota, quando disse na sua linguagem ainda trapalhona que “a mana estava a chorar, devia ter fome”. Ficou desarmado sem coragem de a castigar. Mas a partir daí o berço da menina ficou protegido por uma cancela na porta do quarto.
No mês seguinte foi a vez do Varandas ver nascer o seu primeiro rapaz.
O tempo que roda, passando sempre pelas mesmas datas numa rotina sem limite, trouxe de novo os navios e reiniciou a safra. Com três filhos pequenos, e sem ninguém que cuide deles, a mulher do Manuel não pode ir trabalhar.
E ele não consegue com o seu salário, sustentar a família.  Começou a semear alguns legumes que ajudariam, mas sem água potável perto, só à mercê da chuva, não conseguira mais do que uns raquíticos pés de couve galega. O resto do terreno estava livre de chorões e silvas, pronto para ser cavado e semeado, mas ele desistira de o fazer, pela falta de água. Fazia-lhe falta um poço. Se ele tivesse um poço, outro galo cantaria.
Era urgente que a mulher pudesse ir trabalhar, e assim o Manuel escreveu à mãe, pedindo-lhe para deixar a aldeia e vir viver consigo. Piedade já não tinha idade para trabalhar no campo, não tinha família na aldeia, nada a prendia lá.
E foi assim que no fim de Outubro, a Piedade veio viver para o grande barracão. Tomava conta dos netos e a nora podia voltar ao trabalho, apesar dela achar que a nora não estava lá muito bem de saúde.
 E o Natal desse ano não foi um Natal feliz para o nosso Manuel, apesar do rapazinho que tanto desejara. É que a mulher nunca mais fora a mesma desde o parto. Emagrecera imenso, tinha grandes olheiras, parecia estar sempre com dores. Manuel estava muito preocupado.

27.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE XVIII


Casas na Telha, hoje quase uma terra fantasma.

No inicio do ano da graça de 1949, o António muda-se com a mulher e os filhos para uma casa na Telha. Mais longe do trabalho, mas mais perto da mercearia, da escola, da padaria.  E melhor que isso, com electricidade e o chafariz à porta. No Barracão ficou um quarto vago que foi ocupado pelos dois filhos do Aires, o morador mais antigo, dos três que ficaram.
Em Abril, nasce a segunda  filha do Varandas. A mulher do Manuel, vai a caminho do oitavo mês e ele continua aguardando o filho tão desejado.
E finalmente chegou o mês de Junho, o mês em que Gravelina daria à luz o segundo filho, acontecimento que se deu no dia 20. E o Manuel sofre nova decepção. A mulher dava à luz outra menina. 

Outra "racha" disse quando a parteira lhe comunicou o facto, e virou costas sem sequer querer ver a filha. Mas se ele tinha o coração ao pé da boca e sempre reagia a quente, esse mesmo coração era do tamanho do mundo, e logo se impunha. Não findou o dia, e ele já estava de novo encantado com a filha mais nova.
No inicio da nova safra, o Carlos, muda-se com a família, para a Seca de Alcochete, e em Outubro, o Manuel descobre que a mulher está de novo prenhe. Mais uma vez, renascem-lhe as esperanças do filho homem, pelo qual suspira. Mas a vida está cada dia mais difícil, quatro bocas para alimentar são demais para o que ganha, e ele leva noites a pensar na maneira de conseguir mais dinheiro. Decidido vai falar com o gerente, e pede-lhe autorização para cultivar o terreno à volta do casarão.
O gerente ri-se. “Se conseguires alguma coisa, que não sejam chorões e silvas, podes ficar com isso. Mas diz-me uma coisa: - Vais regar o terreno com a água salgada do rio, ou com as bilhas de água que a tua mulher vai buscar à Telha?”
Manuel não se importou. Começou por roçar os silvados e os chorões. Depois à volta da casa construiu uma capoeira onde colocou uns quantos pintos, comprados no mercado de Azeitão.

Antes de o ano acabar o Aires muda-se também para uma pequena casa na Telha e o Manuel da Lenha fica sozinho no imenso barracão com a mulher e as filhas.
Em Novembro o Varandas anunciou que a mulher estava outra vez prenhe.

E chegámos à segunda metade do século XX.
Que começa com a morte de Militão Ribeiro na Penitenciária de Lisboa, depois de ter feito uma greve de fome.  No país, cada vez se levantam mais vozes, contra o governo fascista. Porque o povo está cada dia mais pobre. E a repressão vai aumentando.
Em Maio inicia-se o julgamento de Álvaro Cunhal, que acaba sendo condenado à prisão perpétua.
Na Seca, a mulher do Manuel está como no ano anterior prestes a dar à luz. Ele anda sorumbático. Teme a vinda de outra rapariga.  Vai continuar a tentar ter um filho homem, ou vai desistir desse sonho, que na época é o sonho de todos os homens?

MANEL DA LENHA PARTE XVII




No final de Dezembro, o José Varandas era também pai de uma menina. E começava um estranho desafio com o amigo e cunhado Manuel. Ver quem teria primeiro o filho homem, com que ambos sonhavam.
Em Fevereiro, do ano seguinte, o Capitão e  gerente da Seca, chamou o Manel, e disse-lhe que precisava daquela "casa" para a nova porteira. Mas atendendo a que ele tinha sido pai há pouco, se ele quisesse ir viver para o barracão junto ao rio, já lá viviam três casais, mas o barracão era grande, e tinha quatro quartos pelo que um estava livre, podia mudar-se para lá. Mais tarde se veria. Claro que ele aceitou. Não tinha dinheiro para outra opção.
Na mudança, a mulher do Manuel descobre que as poucas roupas que tinham comprado de enxoval antes do casamento se estavam a estragar todas, devido ao salitre entranhado nas tábuas com que o marido fizera a mobília.
O casarão, como ele lhe chamava, era um enorme barracão assente em pilares de cimento, com 1 metro de altura, para que a água passasse por baixo nas tempestades de Inverno, ou nas marés vivas de Agosto, pois ficava bem na margem do rio Coina. Tinha quatro quartos, com portas e chave, e um salão de 11 metros de comprimento por 4 metros de largura. Contrariamente aos quartos, este salão não tinha nenhum forro por baixo do telhado, pelo que não raras vezes pingava lá dentro quando chovia. A meio do salão uma grande mesa comprida, e de cada lado um banco corrido de madeira. A mesa era utilizada pelos quatro casais. A um canto do salão, sobre uma bancada de cimento,  dois tijolos,separados por uma grelha de ferro servia de fogão. A luz era fornecida pelos candeeiros a petróleo, e a água, as mulheres iam buscá-la ao chafariz da Telha, em bilhas de barro, que transportavam à cabeça, sobre uma rodilha de pano, por elas chamada de sogra. Entre o barracão e o chafariz uns quinhentos metros bem medidos. Os casais davam-se bem, eram colegas e amigos, gente da mesma terra em busca de trabalho e uma vida melhor.
A primeira obra do Manuel no casarão, foi a construção de um forno, junto ao fogão, para as mulheres poderem cozer pão.
Se por um lado não havia grande privacidade, pois cada casal dispunha apenas de um quarto para si e para os filhos, por outro havia sempre uma mulher disponível para cuidar dos miúdos, dois rapazes do Aires, um casal do António, mais um rapaz do Carlos, e a menina do Manuel.
 Manuel sempre desejara um filho e tinha-se mentalizado de que assim seria, mas passada essa primeira decepção, encantou-se com a sua menina, e passa todos os momentos livres com ela, ensinando-lhe caretas e gracinhas.
Em Agosto, o Varandas veio com a novidade. A mulher estava outra vez “prenhe”. Desta vez é que vinha um menino.
A filha do Manuel faz 1 ano, em Setembro, e é uma miúda franzina mas saudável.
“Esta sai ao pai” dizia ele com orgulho, já esquecida a desilusão do ano anterior. 
Um mês depois, regressam os bacalhoeiros e recomeça a labuta de cerca de 400 pessoas. É a altura em que regressam os que partiram para a aldeia, e é a festa do reencontro.
E a mulher do Manuel, descobre que vai ser de novo mãe.
Renovam-se-lhe as esperanças do filho homem que tanto anseia.

26.2.16

MANUEL DA LENHA PARTE XVI


                                                                            foto minha

 Ele e a mulher não se importavam de ir viver para lá se o gerente autorizasse. E ele autorizou.
No fim de Março, eles mudaram-se para essa ”casa”. Era uma barraca de madeira, com uma cozinha, e dois quartos. Não tinha electricidade, não tinha água, mas tinha o telhado forrado, o que a tornava mais confortável no Inverno. E no Verão, a sombra do pinheiro, refrescava a casa.
Manuel era um homem muito habilidoso. Com uma fita métrica, um martelo, escopro e plaina, farinha e água, (para fazer cola), pregos e madeira, ele era capaz de fazer maravilhas. Mas onde ir arranjar a madeira?
Todos os anos, quando os navios chegavam, os botes eram trazidos para terra, para que fossem reparados. Eram trocadas as tábuas que estavam em mau estado, substituídas por novas, e calafetados, para que não apresentassem perigo quando voltassem ao mar. Á porta da oficina, amontoavam-se as tábuas velhas, e pequenos pedaços de novas. Manuel conseguiu autorização para utilizar essas tábuas, e com elas fez um armário para a cozinha, uma arca para guardar as roupas, o berço para o filho e uma mesa. No ferro velho comprou uma cama e duas cadeiras de ferro, que lixou e pintou de novo, comprou um fogão a petróleo, e o resultado foi a casita “mobilada" e pronta a habitar, para onde se 
mudaram.
O tempo segue a sua marcha inexorável, Umas vezes mais rápido outras vezes mais lento, do que o nosso próprio desejo. O Manuel estava desejando, que o filho nascesse, embora ele só fosse esperado para o final de Setembro. 
Porém no início de Setembro, uma daquelas tempestades de Verão, que fazem duvidar se estamos realmente nessa estação. Na noite do dia dois para três, a trovoada rugia estrondosa como se estivesse por cima das suas cabeças. Ele abraçava a mulher que tremia de medo, e tentava esconder dela o seu próprio pavor, quando um enorme relâmpago fez da noite, dia, e o trovão os ensurdeceu, ao mesmo tempo que lhes parecera que o chão tremia. A mulher apavorada sentia a criança “aos saltos” e ambos sentiram o cheiro a queimado. Pouco depois a trovoada afastou-se mas eles não mais dormiram. A mulher começou com contracções antes de tempo. Talvez por causa do medo, do susto que a mãe sofrera, o certo é que a criança se aprestava para vir ao mundo. Quando pelas sete da manhã, Manuel tentou abrir a porta de casa, não o conseguiu, pois metade do pinheiro, fora cortado de alto a baixo pelo raio que o ferira, e encontrava-se caído frente à porta. Tremendo, a pensar no perigo que correram, ele chamou a mulher. Ela no entanto não se levantou e apenas lhe pediu que fosse chamar a parteira.
Sem poder abrir a porta, aprestava-se a partir os vidros da janela para sair, quando o vigia, os outros moradores da seca chegaram para remover o pinheiro, e saber se eles estavam bem.
Nessa mesma manhã às onze horas e vinte da manhã, Manuel sofreu a sua primeira decepção depois do casamento.O menino com que ele sonhara, desde o início do ano, não existia. O filho era afinal uma rapariga.

                                                             A  1 º filha do Manel da lenha





25.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE XV


O Manel e a mulher, na foto do casamento.

O povo diz que gente apaixonada, anda na horta e não vê as couves, e com o nosso herói assim era. Ele estava preocupado, esperava os documentos para o casamento, e tinha medo que em vez deles, viesse a policia para o prender. Ele não tinha  em seu poder, a caderneta militar que todos os mancebos recebiam quando passavam à reserva, uma vez que tinha desertado.
E por causa disso, os amigos diziam-lhe que ele não podia casar, era desertor. A policia era agora mais repressiva que nunca. Especialmente porque naquela altura se deu, a revolta da Mealhada. A revolta organizada por um grupo de oficiais milicianos a partir do Porto, que marcharam até à  Mealhada, onde foi detida, e os seus chefes presos.  Felizmente poucos dias depois os documentos chegaram, ninguém procurou por ele e Manuel aquietou os seus receios. 
 Novembro chegou e com ele o tão ansiado dia do casamento. A 9 de Novembro na igreja de Santa Cruz no Barreiro, o Padre Abílio Mendes casava o Manuel com a sua amada Gravelina.
Foi seu padrinho o seu irmão João, e a mulher com quem casara dois anos antes.
A partir desse dia, a mulher do Manuel, saiu do Seixal e passou a trabalhar na Seca da Azinheira, e o bote e os remos foram dispensados. Sem casa, ele vivia na malta dos homens e a mulher na das mulheres.
Apaixonado pelo futebol, não passou despercebido ao Manuel, a estreia em Famalicão a 24 desse mês dos “Cinco Violinos” um quinteto de jogadores do Sporting, que haveria de despertar a admiração de todos os aficionados do futebol.
Pouco depois do começo do novo ano, chegam as novidades à vida do Manuel. O seu amigo e agora cunhado, Varandas, casa-se e vai viver para o pátio da Quinta das Canas, mesmo à entrada da Seca da Azinheira. E a mulher do Manuel descobre que está prenhe.
No início de Março, a mulher do Manuel passou mal, ele pensou que ela ia abortar e foi grande o susto. 
Tudo começou numa noite em que a mulher jantou com ele na "malta" dos homens. O jantar era batatas com bacalhau, mas um outro casal comeu caldeirada de chocos. Gravelina sentiu desejos de comer a caldeirada, mas por vergonha não aceitou, apesar de lhe ter sido oferecida, pelo outro casal, por saberem que estava grávida. Porém já tarde da noite, na sua "malta" começou a passar mal, sentia uma vontade enorme de comer a caldeirada. O vigia foi chamar o marido que ficou em pânico. Porém o casal que comera a caldeirada, tinha guardado o caldo que sobrara para fazer no dia seguinte uma sopa, e deu ao Manuel uma chávena de caldo que a mulher bebeu sôfrega. E acalmou. 
Este facto porém, fez Manuel pensar que não queria a mulher longe dele até o bebé nascer, e que por isso a mulher não iria para a aldeia, para junto de Piedade como inicialmente tinham pensado.
 Ele quer que ela fique junto de si, mas de Março a Setembro, a Seca não tem trabalho a não ser para os que trabalham na manutenção. Logo a mulher não poderá ficar na "malta" das mulheres, que será fechada no fim da safra, e o que ele ganha, não dá para alugar uma casa.
O nosso Manuel foi falar com o Capitão, gerente da Seca, para tentar resolver o seu problema. Como ele trabalhava o ano inteiro e a mulher estava grávida, ele queria uma casa para viver com ela. O pior é que as casas estavam todas habitadas. Só estava vaga a barraca do Pinheiro Manso.

MANEL DA LENHA - PARTE XIV


                                    foto do google

Um mês depois, da bomba atómica ter deflagrado em Hiroxima, num domingo, de Setembro, o Manuel encontrou no Terreiro do Paço o seu amigo Varandas. Foi uma festa, e ele ficou a saber que o amigo estava a trabalhar na Seca de bacalhau do Seixal, com duas das suas cinco irmãs. E logo combinaram um encontro lá no Seixal, no próximo Domingo, para conversarem sobre as suas vidas, desde que deixaram de se ver quando Varandas fora para os Açores.
Assim no domingo seguinte, Manuel foi como combinado, até à Seca do Picado no Seixal para se encontrar com o Varandas. E aí conheceu duas das irmãs do amigo. E embora elas fossem tão semelhantes fisicamente, que quase pareciam gémeas, o seu coração logo se enfeitiçou por uma delas e não houve parecenças que o baralhassem.
Logo nesse dia falou ao amigo que gostaria de namorar a Gravelina.
O Manuel, não era um homem bonito. De estatura média, era magro, o rosto moreno, testa alta, olhos pequenos e vivazes, e usava um pequeno bigode, muito à moda na época, que mais tarde ficaria associado ao ditador alemão.
Contudo, não foi por isso que ela não ficou nada entusiasmada com a ideia. Naquele tempo não havia o culto à beleza que hoje temos, e depois sempre se ouviu dizer que "quem o feio ama bonito lhe parece". E se Manuel não era um homem bonito, também não se podia dizer que fosse feio.
Algumas das colegas de trabalho, da jovem, que já conheciam o Manuel das safras no outro lado do rio, na Azinheira, falavam do rapaz como sendo dado à borga e às saias. E depois era mais velho, tinha quase 9 anos a mais que ela. Foram esses os factos, que contribuíram para que não lhe agradasse a ideia, de um possível namoro.
O rapaz porém era teimoso, e contava com a amizade do Varandas, que era o irmão mais velho da jovem. E naquela época, as jovens ouviam o irmão mais velho com o mesmo respeito que dedicavam ao pai. E assim depois de alguma insistência, o Manuel começou a namorar a Gravelina, no Natal de 1945.
Ele estava perdidamente apaixonado. Tinha esquecido as idas a Lisboa, e tudo o que isso implicava. Todos os tempos livres, lhe serviam para ir ver a amada. Na verdade a Seca da Azinheira, (era conhecida por este nome, por ter nascido numa localidade chamada Azinheira Velha, embora o verdadeiro nome fosse Parceria Geral de Pescarias,) e a Sociedade Lisbonense de Pesca de Bacalhau, conhecida por Seca do Picado, situada na Ponta dos Corvos, ficavam praticamente em frente uma da outra, apenas separadas pelo rio Coina. Para ir ver a jovem, Manuel tinha que atravessar o rio e na Seca havia sempre um bote e um par de remos disponíveis para o fazer. Mas às vezes o mau tempo fazia perigar as visitas. Como naquele dia, 20 de Janeiro de 1946, noite de chuva forte, e ventos intensos, em que ao regressar com o Aires, que também tinha ido ver a namorada, perderam os remos, e Manuel mergulhou várias vezes, perante o terror do amigo, até os conseguir apanhar e regressarem assim com dificuldade, mas sãos e salvos. 
E a Primavera chegou, e partiu, e o Verão, seguiu-lhe os passos, e na Azinheira, Manuel achava que o tempo tinha parado. Faltavam menos de dois meses para o casamento e ele só pensava nesse dia. O bote e os remos não tinham descanso um só dia, e todos os dias faziam a travessia entre a Seca da Azinheira e a Seca do Seixal.

23.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE XIII



O Gazela, por muitos considerado o mais belo navio bacalhoeiro
foto do google



No ano seguinte, começa a adivinhar-se a derrota alemã. A Europa já passara e saíra dos piores momentos da ocupação nazi.
Mas em Portugal as condições de vida eram cada dia mais degradantes. Enquanto o governo exportava para os países em conflito, principalmente para a Alemanha, açúcar, tabaco e volfrâmio, em Portugal havia racionamento para alguns, e fome para a grande maioria.
Os pobres viam-se privados dos bens mais elementares. E quando um despacho Salazarista obrigou à diminuição de salários, a indignação ferveu.
Na Seca do Bacalhau, foi necessário substituir o lenhador, que por demais idoso, já não tinha forças para manusear os pesados troncos de azinheira. O escolhido foi o Manuel, que deixava assim de trabalhar na safra, e passava para o armazém da lenha.
Naquela altura, todos os fogões na seca, eram a lenha. Entre a “malta” dos homens, e a oficina onde se faziam as peças de serralharia, havia um armazém sempre cheio de troncos de azinheira e pinheiro, que chegavam em camiões e eram depois cortados, rachados e transformados em pequenos cavacos, que eram o combustível, dos grandes fogões das “maltas”, mas também dos pequenos fogões de todos os residentes na seca, incluindo os caseiros das duas quintas. O trabalho do Manuel, consistia não só em preparar esses troncos, serrando-os primeiro em  bocados mais pequenos, numa enorme serra de rodear, rachando-os depois em pequenos cavacos, trabalho para o qual usava não só um machado, como também quando os troncos eram mais duros, uma cunha de aço e duas marretas, uma de oito quilos e outra de dezasseis, que ele baptizara de Segunda-feira.
Depois dos troncos transformados em cavacos, havia que transportá-los até ao seu destino em carros de mão.
 Foi nessa altura que ganhou o apelido que o acompanhou o resto da vida, “Manel da Lenha”. E como durante todo o ano havia gente a morar na Seca, o Manel passou a ter trabalho o ano inteiro, e deixou de ir à aldeia.
O nosso Manel, com ordenado certo todas as semanas, e sem a companhia da mãe (Piedade, continuava agarrada à aldeia onde nasceu) tornou-se num homem diferente. Amigo de borga, e de mulheres, gastava tudo o que lhe sobrava, nas "casas de meninas" em Lisboa.

21.2.16

MANUEL DA LENHA - PARTE XII




                                                      Foto do google

Nessa altura, quando o tempo ia bom, eles faziam serão de manhã e à noite. 
Às cinco e meia da manhã, o vigia batia na porta das "maltas" e das casas da seca gritando:
- Serão.
O pessoal saltava da cama à pressa, passava uma água fria no rosto, para acordar, vestia-se e engolia à pressa um naco de pão de véspera, empurrado com um copo de vinho, que àquela hora o fogão ainda não foi aceso e por isso não há café.
Já sabiam que mais tarde, volta das oito, o gerente sempre mandava distribuir  o "mata-bicho". Dois ou três, figos secos e um cálice de aguardente.
Começavam a estender o bacalhau na rua às seis, para que a seca estivesse já quase cheia ao nascer do sol. 
Nos dias gélidos de Inverno, manuseando o bacalhau molhado, as mãos enchiam-se de frieiras. Mas ninguém recusava um serão pois sempre eram mais uns escudos no fim de semana.  E à noite depois de recolher o bacalhau, se havia pouco lavado, os trabalhadores faziam serão a lavá-lo e a salgá-lo. Era preciso aproveitar ao máximo o bom tempo, nunca se sabia quando o tempo mudava, e o trabalho parava. 
 O bacalhau não ficava seco num dia, nem pouco mais ou menos, eram necessários vários dias de seca. 
Quando começava a secar, havia meia dúzia de homens, os escolhedores, que andavam de mesa em mesa, separando o bacalhau por categorias. Juntavam em pequenos montes, de pele para cima, o graúdo, separado do crescido, do corrente e do miúdo. Faziam-no sem qualquer balança, sopesando-o apenas nas mãos. O que ainda não estava bem seco ficava na mesma estendido, nas compridas mesas de arame, de pele para baixo. Mais tarde quando se ia apanhar o bacalhau, apanhava-se primeiro o que ainda não estava bem seco, que regressava ao armazém donde tinha saído, e só depois se apanhava o dos montes, que era levado para pilhas diferentes, consoante a sua categoria, e deixado noutro armazém que era só para o bacalhau seco. Neste armazém, havia dois elevadores, monta-cargas, e o bacalhau era levado para o primeiro andar, onde era pesado e amarrado em fardos de 60 kg, e metido em sacos de serapilheira. Era o enfardamento. Uma mulher cozia depois a “boca” do saco e estava pronto para partir. 
Mais tarde, esses fardos, desciam por uma tábua de escorrega, muito semelhante às que se usam nos parques infantis, para uma mesa, onde dois homens, um de cada lado da mesa, lhe pegava pelas "orelhas" e  os colocavam em carros de mão, que as mulheres levavam à "cabeça "da ponte, onde por outro escorrega, desciam para o bojo de um fragata, que depois os levava para os grandes armazéns de Lisboa.
As mulheres seguiam em carreira cada uma com seu fardo,na ida pela direita dos carris, na volta pela esquerda, sempre em fila indiana,  lembrando um carreiro de formigas gigantes.

 Mas naquele ano, por causa da guerra, e dos submarinos alemães, os navios tinham trazido pouco peixe e o tempo sem trabalharem devido ao mau tempo, fez com que ao acabar a safra, quase não tivessem dinheiro para o comboio de regresso. E o nosso Manuel lá foi de novo para a terra, trabalhar para o Sr. Américo, aguardando que os meses até Setembro passassem rápidos, pois que a vida da aldeia, já não tinha atractivos que o prendessem.

MANEL DA LENHA - PARTE XI




      O Crioula, actualmente ao serviço da Marinha, como navio-escola.
                                                  foto do google

Outras vezes, quando o patrão tinha pressa, o gerente propunha uma empreitada ao pessoal. Tinham que fazer naquele dia a descarga de X toneladas. Quando acabassem iam para casa com o dia ganho. Na ânsia de saírem umas horas mais cedo, que algumas vezes nem a uma hora chegava, o pessoal levava o dia a correr e fazia num dia o trabalho de quase dois. Mas os dias de Inverno são pequenos, o frio aperta, e a promessa de que iam para casa quando acabassem, funcionava como a cenoura à frente do burro. 
Hoje, pode parecer estranho , como o pessoal da seca, que acredito fosse um espelho do que ia pelo país, se sujeitava, a trabalhos tão duros e tão mal pagos. Para isso contribuíam três factos. Primeiro, eram tempos de guerra, onde a fome assentara arraiais, e grande parte do povo, vivia o momento com um sentimento de religiosidade exacerbado, em que o sofrimento era aceite como natural. Costumavam até dizer, "Jesus Cristo, também sofreu e era Deus". Segundo, na seca, a grande maioria dos trabalhadores eram analfabetos, cujo conhecimento do mundo se confinava ao trabalho do campo, na sua aldeia, durante meio ano, e ao trabalho na seca, o outro meio. 
Terceiro, o pessoal lá empregado era maioritariamente feminino, cerca de 350 mulheres para 50 homens, que se sentiam agradecidas ao ditador Salazar, porque livrara Portugal da guerra, e assim os seus homens, filhos, ou irmãos não iriam para a frente de batalha.
Mais tarde, o bacalhau saía do frigorífico, em carros de mão, transportados por homens, para o armazém de lavagem. Aqui, era mergulhado em tinas compridas, meias de água, onde se punha o bacalhau tal como era retirado dos navios. De cada lado da tina seis mulheres munidas de uma escova. Curvavam-se e apanhavam o bacalhau pelo rabo e com a escova lavavam-no de ambos os lados, enquanto entoavam modinhas populares, que tornavam as horas mais curtas e o trabalho menos penoso. E era ouvi-las em coro, mais afinadas que coro da igreja, entoando modas, como esta:


Água leva o regadinho
Água leva o regador
Enquanto rega e não rega
Vou falar ao meu amor

Ou esta:

Ao passar o ribeirinho
Pus o pé, molhei a meia,
Namorei na minha terra
Fui casar em terra alheia

Ou ainda:

Ó Rosa, arredonda a saia,
Ó Rosa, arredonda-a bem!  
Ó Rosa, arredonda a saia,
Olha a roda que ela tem


Às vezes fazia-se um despique, com as mulheres de umas tinas, desafiando as outras para uma desgarrada. Entusiasmadas, as horas passavam mais depressa, e até as dores nas costas se esqueciam.
Depois de lavado, o bacalhau, era jogado em outros carros de mão e empilhado com sal limpo. Ficava assim dois ou três dias, depois era banhado, para retirar o sal que não derretera, e levado para a seca ao sol. Sempre em carrinhos de mão, à força de braços.

19.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE X


                                                       O Argus

Nos primeiros dias de Janeiro, Piedade regressa à terra. Na bagagem levava a lembrança da cidade grande, e do imenso mar, que a rodeava.
A safra do bacalhau termina a 23 de Fevereiro, e o pessoal volta à terra, nesse ano com menos dinheiro, que o Inverno foi chuvoso, e quando chovia, não se trabalhava. Naquele tempo as estufas ou seca artificial, ainda não funcionavam, e se chovia não se podia estender o bacalhau na rua. Então o pessoal ficava nas "maltas" sem trabalhar e sem ganhar, mas como é evidente tinham que comer, e lá se iam as migalhas amealhadas. Quando os navios vinham carregados, o trabalho estendia-se por todo o mês de Março e às vezes princípio de Abril.
Quando os navios chegavam, o primeiro trabalho, era fazer a descarga, trazendo o bacalhau para terra. Os navios precisavam ficar vazios, para se proceder à limpeza, e reparação quando necessária.
 Depois eram vistoriados e reparados os dóris, pequenos barcos a remos que na seca, chamávamos de botes, pois naquele tempo, a pesca era feita à linha, do seguinte modo. Quando o navio mãe, chegava aos bancos de bacalhau da Terra Nova ou Gronelândia, fundeava, desciam-se os pequenos botes para o mar, já com um homem dentro, pois a pesca era feita assim, cada bote um homem. E cada homem começava a pescar no seu pequeno bote, com uma linha cheia de anzóis e iscas. Quando o bote ficava cheio, ele remava até ao barco para descarregar e voltava à pesca. Horas e horas seguidas, sem descanso, que havia que aproveitar o tempo quando ele dava, pois de um momento para o outro se levantava a "borrasca" e tinham que regressar ao navio, sob pena de o bote ser engolido pelas ondas que a "borrasca " levantava
Um bote em más condições, era a diferença entre a vida e a morte, nos mares gélidos do norte.
Por isso o trabalho de descarga do navio, era essencial, quanto mais rápido melhor. E a Seca tinha naquela altura quatro navios. O Crioula, que muitos anos mais tarde foi transformado em navio escola, e pertence à Marinha Portuguesa. O Argus, um escuna de quatro mastros, que na década de cinquenta, seria imortalizado por Alan Viliers, o grande escritor e navegador australiano, que fez nele, uma viagem aos bancos de bacalhau,  o Hortense, um lugre de três mastros, e o Gazela, um lugre-patacho de três mastros, por muitos considerado o mais belo barco bacalhoeiro de sempre. A descarga era feita navio, a navio. Só depois que um ficava completamente vazio se passava para outro. E era feita assim.
De manhã uma lancha com algumas mulheres ia para bordo do navio. Lá, se dividiam, umas desciam ao porão, para apanharem o bacalhau, e o mandarem para o convés, onde outras o apanhavam e atiravam para a lancha que o levava até à ponte de madeira, onde outras mulheres o tiravam da lancha e o passavam de mão em mão pelos degraus, até uma "zorra" (1) que quando cheia, era empurrada por carris para terra. Aí era pesada, e de novo empurrada até às grandes câmaras frigoríficas onde era empilhado.
Por vezes este trabalho era feito debaixo de chuva intensa.



1) Zorra, era o nome que dávamos a uma grande caixa metálica com rodas semelhantes às dos comboios, que se deslocava em carris metálicos, empurrada pela força de duas mulheres.

18.2.16

FOTOS DO LANÇAMENTO DO MEU LIVRO


Como sabem decorreu hoje o lançamento do meu livro "Rosa". O que ainda não sabem, nas que foi dito no lançamento do livro, é que ele só existe, porque eu tenho este amigo fantástico.
Este homem de nome Joaquin Duarte, professor na Universidade em Valência que se interessou pela história, a debateu na sua aula de Cultura Portuguesa e com os seus alunos fez a tradução para castelhano, e fez a publicação bilingue.  Não fora isso, e esta era mais uma história na gaveta, como tantas outras. Um enorme obrigado a ele e aos seus alunos. 



Dois amigos de há 40 anos. O poeta Luís Filipe Maçarico, a poetisa São Banza 


 Parte da assistência. Família, colegas e amigos, e professores.
 A Drª Fátima Carvalho, que dirige o espaço abriu a sessão.
 Do meu lado esquerdo, a minha professora de Literatura Portuguesa, Paula Leite.
 A vereadora de cultura que me fez uma promessa. Editar um livro meu de poesia.
  O momento em que falei do Joaquin e dos seus alunos.
 A Irene Alves, do blogue  Magia


E pronto. Só me resta dizer que estou muito feliz.





17.2.16

É JÁ AMANHÃ...

 É já amanhã dia 18 de Fevereiro o lançamento do meu livro. A todos os que queiram estar presentes e vivam perto, ficarei muito feliz com a vossa presença.


No lançamento, estarão comigo.duas pessoas, que me honram com a sua amizade, desde os anos 70.
 O poeta e blogger Luís Filipe Maçarico, e a poetisa e blogger São Banza.

Porque estes dois dias serão complicados, não vos poderei visitar. 
Agradeço a vossa compreensão

16.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE IX



                      estação se Santa Apolónia. foto do google
Decidido, mas sem dinheiro para o comboio, resolveu seguir a pé para a terra. Não seria uma viagem rápida, mas também não tinha pressa. Lá, era certamente o primeiro sítio onde iriam procurá-lo. E foi andando, ficando um dia ou dois nas quintas que lhe apareciam no caminho. 
O trabalho do campo não tinha segredos para ele, e assim ganhava algum dinheiro, além de encher a barriga. E foi deste modo que nos primeiros dias de Agosto chegou à aldeia. Se a Piedade ficou surpresa, porque pensava que o filho estava no quartel, Manuel não ficou menos surpreso ao saber que ninguém o tinha ido procurar.
Ele não sabia que na confusão que se vivia na altura, (não esqueçamos que a guerra estava em pleno na Europa, e quase todos os meses partiam soldados portugueses, para as províncias ultramarinas,) ninguém tinha anulado a sua passagem à reserva, mas ainda assim resolveu seguir a sua vida e quando o Ti Alfredo apareceu na aldeia para o engajamento de pessoal para a Seca do Bacalhau, na nova safra que se avizinhava, ele engajou-se de novo.
Nesse ano os navios chegaram com pouco bacalhau. A pesca tinha-se tornado uma actividade duplamente perigosa Se até aí, já o era, dadas as frágeis condições em que os pescadores enfrentavam o mar, a partir daí tinham um novo e não menos perigoso inimigo. Os submarinos alemães.
Portugal era um país neutral, e a nossa frota bacalhoeira, fora totalmente pintada de branco, ostentando o pavilhão português bem à vista, mas ainda assim os pobres pescadores, levavam o dia com o credo na boca.
Por isso nesse ano, o engajamento de pessoal foi menor e se deu primazia aos mais jovens e fortes. Manuel estava entre eles.
No final desse ano, Laurinda, que continuava a viver no Fogueteiro, mandou dinheiro à mãe para ela vir passar o Natal a sua casa. Afinal Piedade, ainda nem conhecia os netos. E convidou também os irmãos, que trabalhavam na Seca da Azinheira. Queria juntar toda a família.
Pela primeira vez na vida, Piedade saiu da aldeia, e veio de comboio para Lisboa. Assim naquele dia 22 de Dezembro, ela saía do comboio em Santa Apolónia, onde já a esperava o genro e ficava abismada com o tamanho da cidade. Mas o que mais lhe custou e a deixou completamente apavorada, foi o cacilheiro. Era Inverno, o mar estava “picado” e Piedade rezou durante todo o tempo que durou a travessia.

15.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE VIII

Voltamos hoje à história do nosso Manuel. Para os mais assíduos, encontrarão neste episódio uma história que já conhecem pois de toda a história eu fiz um resumo com a história das botas roubadas e do resultado desse roubo, que postei o ano passado com o titulo de "A história de um par de botas ... do estado".
foto do google
No quartel, Manuel faz amizade com outro soldado, o Varandas, também pertencente ao seu concelho mas de uma terra vizinha.
Uma amizade que se vai manter toda a vida. Um dia recebe uma carta de Laurinda, informando que tem mais um sobrinho. Desta vez, um rapazinho, mas Manuel, há muito que não vê a irmã e ainda não conhece os sobrinhos.  
A guerra propaga-se e muitos "filhos da escola" de Manuel, partem para África, na tentativa de defender as nossas colónias. E para os Açores. Entre os que partem está o seu grande amigo, Zé Varandas.
No quartel, Manuel recebe uma carta da Piedade, escrita pelo Sr. Américo, que mostra a aflição do seu coração de mãe, com as notícias dos soldados que vão para a “guerra”.
Dois anos depois, o Manuel está prestes a terminar o tempo de tropa e a passar à reserva. Nessa altura porém uma certa manhã, ao levantar-se deu por falta das botas.
 Quando ele viera para a tropa, o Sr. Américo, tinha-lhe dito “Manuel, tem cuidado com as tuas coisas no quartel. Anda por lá filho de muita mãe e de vez em quando, algumas coisas desaparecem. Se te faltar alguma coisa, não te queixes, tira essa mesma coisa a quem te ficar mais perto. Ele tirará a outro e no fim, tudo estará certo”.
Ele ouviu mas nunca lhe tinha faltado nada e aos poucos foi deixando de se preocupar. Naquele dia porém, não tinha botas para a formatura e como tinha acordado  depois dos outros, já não podia tirar as botas de ninguém. A poucos dias de sair tropa, Manuel, teve que participar a “perda” das botas. E tinha que pagar umas botas novas ao exército.
Como porém ele não tinha dinheiro para pagar as botas, e havia falta de mancebos nos quartéis, por via do “sangramento” para os Açores e para as colónias, foi-lhe proposto que ele poderia pagar a dívida ao estado com mais dois anos de tropa, "voluntária". Sem outra alternativa, aceitou.
Porém ao fim de três meses, Manuel que era ajudante de cozinheiro, estava farto, não só dos tachos e das panelas, como da vida da tropa, e num dia em que saiu de licença, depois de algumas voltas pela cidade, pensou que não o apanhavam mais no quartel, e desertou.  


14.2.16

14 de FEVEREIRO - DIA DO NAMORADOS

                           foto do google
(poema dedicado ao mais-que-tudo, num dos aniversários de casamento)



POEMA DO NOSSO AMOR NASCIDO
 

Ainda me recordo do tempo de solidão
quando na estação do meu desejo
embarquei ao encontro de ti.
Era Primavera? Não. Era ainda Inverno.
Mas o tempo não contava. Era um montão
de horas encerradas
na penitenciária do passado.
E foi justamente nessa altura
que te encontrei.
Trazias a noite agonizante
em teus cabelos,
enquanto nos teus olhos dourados
raiava a aurora.
Nunca te tinha visto e no entanto
soube logo que eras tu. No teu sorriso
- branco malmequer que desfolhaste,
me perdi. Com a força do desespero
que agoniza em silêncio,
o nosso amor nasceu. Depois...
bem, depois, não estava previsto
-mas aconteceu...a maçã do saber
adormeceu em nós.
A cidade, o rio, as gentes,
a vida e até a própria morte
deixaram de nos importar.
Há alguma coisa mais importante que
um homem e uma mulher que se amam?...
Lembras-te? Era o tempo dos beijos
a saber a pôr do sol,
das madrugadas amanhecendo
nos sorrisos sem palavras.
Era o tempo em que os nossos corpos,
prenhes de Amor, cavalgavam
pelas montanhas da Ilusão.

Maria Elvira Carvalho


poema publicado na Antologia "Entre o Sono e o Sonho"  Chiado Editora 

13.2.16

S. VALENTIM

  



Porque amanhã se festeja o dia dos namorados que tem por patrono S. Valentim , procurei saber mais sobre este santo. E o que encontrei é uma série de artigos lenda, em que ora me aparece um simples padre que casava os jovens, numa altura em que o imperador Claudius II teria proibido os casamentos, por precisar de mancebos para a guerra, e que por causa disso foi condenado à morte, recebendo enquanto esperava a execução o apoio e o agradecimento dos jovens que anteriormente casara.  Numa outra lenda que começa de igual maneira, a proibição do imperador Claudius, II, no ano 270 A.C.
Insatisfeito com a proibição, o bispo Valentinus desafiou a autoridade do rei e começou a realizar casamentos escondidos. Após descoberto, foi preso e condenado à morte. Na prisão, Valentinus apaixonou-se por uma moça cega, filha do carcereiro. Com um milagre, ele recuperou a visão de sua amada e deixou-lhe uma carta antes de ser decapitado. No bilhete, lia-se “from your Valentine” (do seu Valentinus). A morte teria ocorrido a 14 de Fevereiro, no ano 269 antes de Cristo. Uma e outra dão Valentim como mártir.
No entanto, parece que esta data, foi como quase todas as datas religiosas católicas escolhida para se sobrepor a Lupercalia, uma grande festa pagã que se realizava nessa data.
Na antiga Roma, Fevereiro era o mês oficial do início da Primavera. E o dia 14 de Fevereiro era dedicado à deusa Juno,  que além de ser a rainha de todos os deuses, era para os romanos a deusa das mulheres e do casamento. A 15 de Fevereiro começava a Lupercalia, que celebrava o amor e a juventude.
No decorrer dessa festa, havia um sorteio de  nomes de jovens de ambos os sexos, que teriam que ficar juntos enquanto durasse a festa. Acontece que não raras vezes, estes "casais" se apaixonavam e acabavam mesmo por casar. Introduzindo o São Valentim no dia 14 de Fevereiro, como patrono dos namorados, fez-se a adaptação da Lupercalia ao cristianismo, e acabou-se com a tradição pagã.
Muitos têm sido os festejos a  S, Valentim ao longo dos séculos.  Os Celtas costumavam vestir as crianças de adulto, e depois elas iam de porta em porta cantando canções de amor. Nesse tempo,  no País de Gales, os apaixonados trocavam neste dia, colheres de madeira com as seguintes gravações. Um coração, uma fechadura e uma chave, que significava
"Só tu tens a chave do meu coração"
Durante a Idade Média, na França e na Inglaterra, os jovens sorteavam o nome dos seus 
pares e coziam-nos nas mangas da roupa durante uma semana. Se alguém ostentasse um coração cozido à roupa era sinal de que estava apaixonado.
Parece consensual, que foi Charles, o duque de Orleães, o primeiro a utilizar cartões de São Valentim.  Tendo sido feito prisioneiro na batalha de Agincourt, e levado para a Tower of London, em 1945, terá enviado pelo São Valentim, vários poemas e bilhetes de amor a sua esposa que se encontrava em França.
O "borda de água" assinala o dia como sendo S. Valentim
Dia dos namorados e dos afectos.



Fontes:  Wikipédia, Cupido




MANEL DA LENHA - PARTE VII


Pinhal na Seca.

Os filhos se os havia, ficavam com a mãe, se eram muito pequenos, se eram crescidos ficam separados com o progenitor do seu sexo. As "maltas" não tinham casa de banho propriamente dita. Mas os edifícios, embora distantes um do outro, estavam situados pertinho do rio e aí havia umas espécies de “guaritas” com um buraco que dava para o rio e onde o pessoal aliviava as suas necessidades fisiológicas. Aliás havia várias dessas “guaritas” estrategicamente espalhadas pela muralha que circundava o rio, para alívio do pessoal durante as horas de trabalho. Nessa época, não haviam preocupações ecológicas, ou pelo menos na Seca, ninguém se preocupava com a poluição do rio.
Marido e mulher podiam comer juntos, em qualquer um dos edifícios, mas à noite, quando o vigia, fazia soar as onze badaladas no sino da Seca, cada qual teria que estar na “malta” que lhe correspondia, sob pena de dormir ao relento. Por causa disso, os casais não podiam ter a sua intimidade normal de casados. E então levavam seis meses de abstinência? Não.
Na Seca havia um pequeno pinhal, e um extenso canavial que se estendia até à Telha. Eram esses dois sítios que os casais utilizavam como ninho de amor.
Tinham até um nome de código. Quando se ouvia alguém dizer que ia "aviar a caderneta" ou que tinha "aviado a caderneta" toda a gente sabia o que era.
 Em finais de Setembro, ou na primeira semana de Outubro, chegavam os navios, carregados de bacalhau, pescado na Terra Nova e na Gronelândia, e a Azinheira ganhava vida. Em finais de Março, quando a safra acabava, todos os trabalhadores ficavam sem trabalho, e cada um regressava à sua terra, à sua casa, e na Seca ficavam meia dúzia de pessoas, que ajudavam o gerente na manutenção, bem como os caseiros, que trabalhavam as duas quintas, e os militares da guarda-fiscal, que preenchiam a guarnição do posto que lá havia. Manuel também regressava à aldeia, voltava para o campo, na quinta do antigo patrão e ficava a contar os dias até Setembro, para voltar.
Enquanto Manuel, entrava nesta vida rotineira, Piedade recebia na terra uma carta da filha anunciando-lhe que ia ser avó, e também que o marido arranjara trabalho no Alfeite, e por isso iam viver para a Cova da Piedade.
João era agora electricista, e ficava na Seca a tempo inteiro pois era necessário manter os geradores e câmaras de refrigeração, em perfeitas condições para quando os navios regressassem. A Seca, tinha uma casa das máquinas, onde havia uns potentes motores que geravam a electricidade necessária para se auto abastecer.
Nesse ano, Manuel que tinha ficado apurado, quando fora às "sortes", é chamado para a tropa. Faz a recruta em Viseu, e vem para Campolide, para o Batalhão de Caçadores 5, em Agosto de 1939, com a Europa em convulsão, a poucos dias da invasão da Polónia, pela Alemanha de Hitler, que ditaria oficialmente o início da Segunda Guerra Mundial.


11.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE VI


foto minha
O ano de 1935 foi para Manuel, o ano da sua libertação da aldeia, do conhecer de outras terras, outras gentes, pois foi nesse ano que veio pela primeira vez para o sul, para trabalhar na Seca do Bacalhau. Tinha 17 anos e há três, que pedia à mãe para lhe deixar ir trabalhar para junto dos irmãos. Era um jovem franzino mas de muita “genica”. Brincalhão, sempre com um chiste na ponta da língua, Manuel era a antítese dos seus irmãos.
Os três anos seguintes, foram para Manuel uma nova rotina. Nos fins de Setembro, ia de camioneta até S. Pedro do Sul, e aí apanhava o comboio para Lisboa. Atravessava o Tejo e ia a pé pela Caldeira do Alemão, na margem do rio Coina, até à Azinheira Velha, nos arredores do Barreiro, onde funcionava a Seca de Bacalhau. Aí trabalhavam perto de quatrocentas pessoas. Muitos “ratinhos” como ele. Mas também muitas mulheres dos arredores, especialmente da Baixa da Banheira, Barreiro e Palhais,embora de Palhais, não fossem muitas, pois também lá havia uma seca de bacalhau, embora não tão grande, quanto a da Azinheira. Os “ratinhos” eram os homens e mulheres do norte, e eram assim chamados pelos “camarros”, nome antigo porque eram conhecidos os barreirenses, e que segundo a lenda era atribuído aos pescadores, que utilizavam as terras barrentas do rio para descansar. Cama sobre o barro, camarro. Embora nessa altura, os barreirenses, ou “camarros” fossem uma minoria, pois a maior parte das pessoas a viverem no Barreiro, eram na sua maioria, algarvios e alentejanos, que tinham vindo para o Barreiro atrás de uma vida melhor, e de um emprego nas fábricas da CUF, ou nas fábricas de cortiça do Nicola e do Alemão. E então, a grande maioria das mulheres que trabalhavam na Seca, viviam nas redondezas e eram mulheres ou filhas de homens que trabalhavam nessas fábricas. Os homens que trabalhavam na safra, na Azinheira, vinham do norte do país, onde quase não havia trabalho, a não ser nos campos. Claro que quando os homens eram casados e tinham filhos, a família os acompanhava. Na Seca havia meia dúzia de habitações. Para o Capitão, - o gerente – e para os empregados de escritório, o electricista, o ferreiro, e os capatazes. O resto do pessoal, se dividia por dois enormes edifícios, chamados de "maltas” .Uma “malta" para os homens, outra para as mulheres. A ”malta” era uma espécie de caserna, com uma parte de quartos, cada um com várias camas, uma zona para duches, e um enorme fogão a lenha, que ocupava toda a parte central do edifício, onde em tempo de actividade, havia duas cozinheiras, na malta das mulheres, e dois cozinheiros na malta dos homens, e um enorme refeitório de longas mesas de pedra, e bancos corridos de madeira. Estes fogões e estes refeitórios iguais nas duas “maltas” serviam não só para o pessoal residente durante as “safras”, mas também para o pessoal dos arredores que ali trabalhavam, que levavam a comida em cru numa pequena panela, deixavam no refeitório, e quando chegava a hora das refeições, ela estava pronta e quentinha.