9.12.16

A LENDA DO MADEIRO DE NATAL





 Os Madeiros, ou fogueiras do natal, fazem parte das tradições natalícias de algumas aldeias de Portugal, sobretudo da região das Beiras e consistem em grandes fogueiras que se acendem no centro da aldeia, na praça principal ou no adro da igreja na véspera de Natal. Curiosamente a sua origem é pagã, ligada às celebrações celtiberas do Solstício de Inverno, em que se acendiam enormes fogueiras ao ar livre durante o mês de Dezembro. Este foi um dos poucos costumes pagãos que a igreja católica não conseguiu extinguir, optando, ao invés, assimilar o costume, passando a ideia de que são fogueiras para “aquecer o menino Jesus” e unir as pessoas para as celebrações natalícias. A tradição do Madeiro começa logo com a recolha da lenha. Esta é feita pelos homens que a devem ir cortar às serras e bosques, durante a noite, algures durante o início de Dezembro. No dia seguinte, usa-se um carro de bois a que a tradição manda que seja roubado (embora, claro, se faz com o conhecimento do dono), para ir recolher a lenha cortada à serra. Antes do carro dos bois ser carregado com a lenha é decorado com flores e rama da época pelas mulheres. Depois de carregada a madeira é a população conjunta que puxa o carro até ao centro da aldeia. No dia 24, ao final da tarde, a população volta a juntar-se para acender “O Madeiro” e na noite de Natal, depois da Missa do Galo, os habitantes da aldeia reúnem-se à volta da fogueira para cantar cânticos de natal e festejar. Em muitas aldeias, estas fogueiras são mantidas acesas ininterruptamente até ao Dia de Reis. Sobre as fogueiras do Natal conta-se na região das Beiras uma lenda que procura integrar este costume com a história da Natividade. Eis a lenda: Naquela noite de 24 dezembro alguns pastores da região de Belém dirigiam-se para casa, depois de um dia passado a apascentar o gado, quando o anjo da anunciação lhes apareceu. Os pastores quando viram o anjo assustaram-se. O anjo, porém, disse-lhes: — Não se assustem, pois eu trago-vos Boas Novas, que são de grande alegria. Hoje na cidade de David nasceu o Messias. Para que o reconheçam procurem por uma criança envolta em panos e deitada numa manjedoura. O Anjo queria dizer que o menino Jesus encontrava-se num estábulo e os pastores, compreendendo as suas palavras, partiram à procura de um estábulo, por toda a povoação de Belém onde estivesse uma criança recém-nascida. Encontrado o sítio os pastores reconheceram estarem perante o Messias e Rei do povo judeu, pelo que se ajoelham em devoção. Depois ficaram muito admirados com a pobreza do local e as simples vestes do menino, insuficientes para o proteger do frio. Perante isto trataram logo de arranjar maneira de resolver a situação, ido procurar galhos e acendendo uma fogueira à frente do humilde estábulo para iluminar o local e aquecer o menino Jesus. De seguida foram espalhar a notícia do nascimento de Cristo pelas povoações vizinhas, estabelecendo postos de vigília e de sinalização com fogueiras para indicar o caminho e para aquecer todos os peregrinos que quisessem ir visitar o menino Jesus. Assim nasceram as fogueiras de Natal.

da tradição oral portuguesa, no livro "Contos de Natal Portugueses" da Luso-livros

17 comentários:

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Nalgumas terras estas fogueiras de Natal atingem dimensões impressionantes.
Um abraço e bom fim-de-semana.
Andarilhar

António Querido disse...

E vai de roda, siga a roda, vamos falar de lendas! Mais uma muito bonita que acabei de ler sobre o Natal.

O meu abraço

aluap Al disse...

É verdade Elvira, estas práticas persistem até aos nossos tempos apesar da igreja cristã em épocas remotas as condenar. Próximo da minha terra um padre escreveu um livro (P. Luís Lemos) em que referiu isto "o pároco faça por extirpar os abusos dos serões e cepo do natal e os que os cometerem sejam mandados para a torre de Viseu".
Na minha terra ainda se faz o cepo de natal no largo da aldeia, porque quando o povo quer, não há nada nem ninguém que se oponha.
Passe um bom fim de semana.

Anete disse...

Interessante conto, Elvira!... Não conhecia a tradição das fogueiras.
Um bj

Ailime disse...

Boa tarde Elvira,
Gostei muito da sua partilha sobre as fogueiras e do conto!
A terra onde nasci que fica na fronteira da Beira Baixa com o Ribatejo e o Tejo a separar-nos do Alentejo (local privilegiado), não havia a tradição da fogueira enquanto vivi lá os meus primeiros treze anos. Mais tarde passaram a fazer uma fogueira no Largo Central, mas mais para aquecimento da população na altura fria do Natal.
Um beijinho e bom fim de semana.
Ailime

Edumanes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Edumanes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Edumanes disse...

Gostei dessa lenda,
pelos homens inventada
ainda há quem pretenda
que ela seja continuada!

Mas, para a nova geração,
como dantes terá menos valor
junto da lareira ao serão
da lenha ardida havia calor!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Maria do Mundo disse...

Na minha terra não se faz. Mas acho uma tradição muito engraçada.

Isa Sá disse...

Tenho ficado a conhecer algumas lendas por aqui!


Isabel Sá
Brilhos da Moda

Majo Dutra disse...

Nunca vi uma fogueira de Natal.
Deve ser hábito de zonas frias.
Fiquei a saber mais...
~~ Abraço, Elvira ~~

Elisa Bernardo disse...

Sempre a aprender por aqui :)
beijinho grande e bom fim de semana
elisaumarapariganormal.blogspot.pt

Rui Espírito Santo disse...

Curiosa a coincidência, que estava a ler aqui e anunciarem na TV RTP1- Portugal em Directo - 18:00, uma reportagem sobre isto mesmo em Idanha-a-Nova !
Esteve a ver-se agora mesmo e voltarão ao assunto.
Claro que hoje os carros são puxados a tractor ! :)

Abraço, Elvira ! :)

maria disse...

Adorei!!!

José Lopes disse...

Na terra do meu pai, por mim adoptada, ainda existe o madeiro de Natal, e registe-se que fica na Beira Alta.
Cumps

Jack Lins disse...

Olá Elvira,
Belo conto e eu não conhecia.
Grande beijo

Odete Ferreira disse...

Estão bem presentes em muitas terras. Por cá, deixaram de ser feitas há já alguns anos.
Pela região transmontana, há inúmeros festejos ligados à tradição céltica que atraem imensos visitantes.
BJ, amiga