2.2.16

CAROLINA - FINAL



Em Lisboa, arranjou trabalho numa casa grande, onde já havia uma cozinheira e uma outra rapariga que tomava conta dos bebés. Aí trabalhou dois anos, gostava da casa, dos meninos e das colegas. Aos patrões demasiado altivos nunca se afeiçoou, mas sentia-se feliz. Até ao dia em que conheceu Jorge e se enamorou perdidamente.
Conheceu-o numa das suas folgas enquanto passeava no Jardim da Estrela. Ele não era de Lisboa, estava na capital a cumprir tropa. Virgem de todas as emoções foi presa fácil do rapaz malandro que era Jorge. Assim quando se deu conta ele tinha desaparecido e ela estava grávida. Os patrões puseram-na na rua, mal souberam da gravidez, e Carolina perdida, sem saber o que fazer foi bater à porta do irmão mais velho.
Influenciado pela mulher, o irmão acabou por a recolher em casa, embora inicialmente a quisesse mandar de novo para a terra. Porém, por volta do quarto mês, Carolina sofreu um aborto espontâneo e daquele episódio apenas restou a amargura e a descrença nos homens. Poucos meses depois estava de novo a trabalhar como “criada de servir” numa casa em Belém.
Passaram os anos, vieram outros namoros, mas quando ela dizia que já não era "honrada", a atitude dos rapazes mudava, deixavam de falar em casamento e passavam a querer levá-la para a cama. Carolina, foi ficando cada dia mais amarga e perdendo a esperança noutra vida que não aquela de cuidar de casas alheias e de filhos  dos outros.  E assim, os anos foram passando, e de repente, já tinha 27 anos. Na época, depois dos 25, as mulheres já não sonhavam com o casamento, contentavam-se em serem tias. Foi nessa altura que conheceu o marido. Era Domingo de Páscoa,  e à saída da igreja, as suas mãos tocaram-se na pia da água benta. Olharam-se por segundos e sentiu-se corar.
Virou-se e saiu da igreja quase a correr. Ele seguiu-a e quando ela se preparava para entrar no jardim da casa onde trabalhava,  segurou-a pelo braço e perguntou-lhe se era casada. Perante a negativa ele perguntou-lhe  se queria casar com ele. Ela achou a pergunta descabida e sem sentido mas ele insistiu.
Sem saber o que pensar, ela respondeu-lhe que embora não sendo casada, já estava "desonrada".
Ele disse que não fora isso que perguntara, apenas queria saber se ela queria casar com ele. Era pobre, mas tinha trabalho certo, vivia com uma irmã, estava farto da vida de solteiro, tinha acabado de pedir ao Senhor uma boa companheira, achara que o encontro na pia de água benta era um sinal divino e não lhe importava o passado, já que esse era individual e só pertencia a ela. O que lhe importava era o presente, e queria saber se ela faria parte dele.
Não falava de amor, ele chegaria com o tempo, ele entregara o futuro a Deus, e confiava n’ELE de olhos fechados.
Carolina ficou encantada, e três meses depois estavam casados.
Apesar da pobreza não se arrependera nem por um segundo.
- Lina, "tás" pronta mulher? Já aqui estão os padrinhos do menino.
Sacudiu a cabeça, e o seu rosto iluminou-se num sorriso enquanto respondia.
- Ó homem, manda-os entrar enquanto eu acordo o menino e o visto. 



fim

elvira carvalho

26 comentários:

✿ chica disse...

Quanta coisa lhe passou na cabeça em pouco tempo. Agora lá estava e era o dia de batizar o menino. Lindo,Elvira! Muito bom sempre te ler! bjs, tudo de bom,chica

Cristina Sousa disse...

Olá, gostei muito do teu blog.

Beijinho e dia feliz

Janita disse...

Bela história de vida! Um conto breve, mas que resumiu toda uma existência, como eu gosto. Sem muitas delongas, cativante e (quase) real.

Os tempos mudaram muito, e ainda bem, em relação à sexualidade feminina. Lembro-me de haver, lá na minha rua, nos longínquos finais dos anos 50, era eu uma criança, mas sempre atenta às conversas dos adultos, uma moça que perdeu a virgindade com o namorado que casou com outra.
Nunca mais essa rapariga saiu de casa e ficou solteira, porque o povo dizia que ela estava"desonrada".
Que tempos e mentalidades retrógradas, santo Deus!!

Infelizmente, hoje, passou-se para o outro extremo...

Um abraço e parabéns, Elvira!

Edumanes disse...

Na vida há dias assim!
nem sempre se acerta no amor
como brota no campo ou no jardim
o perfume das pétalas da flor.

Na vida há alegrias e tristezas,
sempre assim terá sido e continuará
por no amor serem tantas as incertezas
nunca ninguém enumerá-las saberá?

Gostei do conto,apesar de alguns contratempos,
Carolina, na sua vida encontrou a felicidade!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira,
continuação de boa semana, um abraço,
Eduardo.

LopesCa Blog disse...

Outros tempos.
Todos devemos ser felizes :)


Blog LopesCa/Facebook 

São disse...

Sempre achei uma profunda estupidez a honra da Mulher se encontrar entre as pernas e a do Homem não!!

Beijinhos agradecidos pelo amável convite :)

Mariangela do Lago Vieira disse...

Que lindo Elvira!
A honra está no coração, e nas atitudes. Muitas vezes perde-se a felicidade
por ignorância!
Que bom que Deus mandou-lhe este presente!
Gostei muito!
Abraços,
Mariangela

Blog da Gigi disse...

Lindo!!!!!!!!!!!! Beijos

Ana S. disse...

Naquele tempo as mulheres que não eram "honradas" dificilmente casavam. Ficavam para tias! Felizmente há excepções e há quem consiga ter um final feliz.
Abraço

Fê blue bird disse...

Elvira, li a história da Carolina de uma assentada, pois a sua escrita é tão cativante que visualizei tudo como se estivesse presente.
Carolina teve sorte pois naquela época nem sempre aparecia um homem que tivesse aquela mentalidade.

Um beijinho


Portuguesinha disse...

Tanto em tão pouco Elvira!!
Fiquei totalmente absorvida pelas palavras, pelas descrições, imaginei na minha mente o que terá sido a vida de familiares, alguns sabendo que passaram por isso, outros imaginando que terá sido assim...

Gostei em particular que mostrasse essa forma pura de decidir unir uma vida a outra. Não por amor carnal, atracção e beleza avassaladores, mas por algo maior, um amor pela vida, pela necessidade de um companheiro, um filho.

Como já lhe disse uma vez, acho que a maioria das pessoas hoje não entende o a variedade de condições para uma união por conveniência. Esta não tem de ter aquela conotação "Má" que lhe damos hoje em dia. Pode-se dizer que, nesta história, a união foi por conveniência. De ambos. Que queriam afastar a solidão... Nem conheciam o nome um do outro, e já existia a possibilidade de casamento.

Obrigada por abrir essa porta para o passado. Tão distante e contudo, tão recente. Muitos pensam que o conhecem, de ouvir falar de como era difícil a vida e das regras rígidas que existiam. Mas poucos olham para trás procurando o lado emocional.

Anete disse...

Li agora o seu conto e gostei muito, Elvira! Parabéns novamente pela criatividade e beleza na arte de escrever.
Boa noite e boa 4a feira.

Odete Ferreira disse...

Gostei imenso de ler esta curta narrativa.
Mesmo que tivesse sido ficcionada, é um retrato de época.
Parabéns! Bjo, Elvira :)

Pedro Coimbra disse...

Infelizmente muitas outras "mulheres desonradas" não tiveram a mesma sorte e o mesmo destino da Carolina.
Conheci algumas que, sobretudo em meios pequenos, foram sobrevivendo.
Até um dia....
Um abraço

Andre Mansim disse...

Que lindo Elvira!
Tudo não passou de uma retrospectiva em um pequeno momento.
Como a vida as vezes passa à nossa frente como um filme né?

Gostei muito.

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, os tempos mudam, a mentalidade também, as gerações a seguir à minha encaram as coisas de uma maneira mais saudável, uns anos atrás a mulher era educada para servir o seu marido e ter filhos, o homem era educado para ser forte e proprietário da mulher, foram os efeitos de um regime fascista e colonizador que sempre considerou a mulher com um objecto de quinta categoria.
só as mentalidades ditadoras continuam a considerar que a mulher é propriedade deles, são os mesmos que diziam e dizem que a mulher foi desonrada.
AG

Elisa Bernardo disse...

Como eu gostei de ler esta história :) adoro a forma como escreve :) obrigada por estes momentos Elvira. Beijinho grande
elisaumarapariganormal.blogspot.com

Blog da Gigi disse...

Ótimo dia!!!!!!!! Beijos

Berço do Mundo disse...

Ausentei-me uns dias e quando volto, pum, um novo final de história. A sua inspiração é profícua, Elvira. Parabéns.
Beijinhos, um doce restinho de semana
Ruthia d'O Berço do Mundo

ONG ALERTA disse...

Adorei Bjbj Lisette.

Isa Sá disse...

Gostei da história...

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

© Piedade Araújo Sol disse...

Elvira

gostei de ler e como já disse, a Elvira tem muito jeito para a narrativa.

um beijo

:)

Silenciosamente ouvindo... disse...

Li com toda a atenção.
Se tiver possibilidade dia 18 estarei presente.

Bjs.
Irene Alves

tulipa disse...


http://tempolivremundo.blogspot.pt/

Hoje é dia do 2º aniversário.
Vem beber um chá comigo.
Beijinhos.

(passarei com mais tempo para ler a bela história)

cesar farias disse...

Apesar dos pesares, mesmo com tanta descrença e desconfianças, finais felizes existem, sim. Fiquei curioso pelo seu livro, Elvira.

Jaime Portela disse...

Um final excelente.
Que acabou em bem, apesar das vicissitudes da vida.
Hoje já não se coloca o problema da mulher não ser honrada... mas antigamente era uma questão essencial.
Continuação de boa semana, Elvira.
Beijo.