1.2.16

CAROLINA


A mulher que sentada na beira da cama se  entregava à tarefa de entrançar a sua farta e negra cabeleira, não teria mais de 30 anos, embora pequenas rugas, a fizessem parecer mais velha.
Era muito bonita, talvez um pouco alta demais para o comum das mulheres portuguesas, mas muito bem proporcionada. Muito morena de cabelos e olhos negros. Na aldeia quando era menina, e as outras crianças por qualquer razão se zangavam, chamavam-lhe farrusca por causa do seu tom de pele. Ela crescera com esse desgosto, mas agora estava na moda aquela cor e não raras vezes ela notava os olhares de inveja que lhe lançavam.
Lançou um breve olhar sobre o berço onde um bebé dormia tranquilamente. Hoje era um dia especial. O menino ia ser baptizado. Não haveria festa, o dinheiro era escasso, a vida estava muito difícil. Mas para ela o dia em que o seu menino ia ser apresentado ao altar e purificado com o sacramento do baptismo, seria sempre um dia especial.
Acabou de entrançar o cabelo e enrolou a trança no alto da cabeça prendendo-a com alguns ganchos.
Alisou a saia rodada que lhe chegava a meio da perna, dobrou um velho pedaço de lençol impecavelmente limpo em triângulo como se fosse um lenço, dobrou outro pedaço igual de modo a ficar como uma tira que colocou por cima do anterior, ficando assim com as fraldas preparadas para mudar o menino quando ele acordasse. Debaixo da cama retirou uma caixa que colocou em cima da mesma. Lá dentro repousava o vestidinho de crepe azul que a madrinha entregara na véspera para o baptizado.
 Foi até à cozinha, pegou as malgas do pequeno-almoço que tinham ficado a escorrer e guardou no armário. A cafeteira de alumínio foi pendurada na grade de madeira na parede.
A casa era pequena, apenas o quarto e a cozinha, mas apresentava-se limpa. No quintal, separada da casa alguns passos, uma pequena divisão, com uma sanita e um chuveiro. Claro que era aborrecido que não estivesse ligada à casa, especialmente de noite e de inverno, mas ainda assim Carolina achava que tinha muita sorte pois tinha água canalizada, coisa, que na maioria das casas, daquele pátio não existia. Não tinha electricidade, mas nunca faltara o petróleo para o candeeiro.
Sentou-se de novo na beira da cama, junto ao berço do filho e enquanto aguardava o marido que fora ao barbeiro à Telha, deixou que as lembranças saltassem da gaveta das memórias, onde ela as trancara.
Carolina era a sexta filha de um casal já entrado na idade e que já tinha cinco rapazes entre os vinte e os nove anos. Fruto de um descuido do pai, a mãe que julgava estar na menopausa só se apercebeu da gravidez quando já era demasiado tarde para a “pôr a estudar”.
A mãe falecera poucos meses após o seu nascimento, vítima de complicações surgidas pós parto e o pai culpava-a pela morte dela. Os irmãos não sabiam o que fazer com ela e não fora uma vizinha tomar conta dela, talvez não tivesse sobrevivido. Até porque os tempos eram muito difíceis, a segunda guerra mundial tinha acabado havia pouco tempo alguns bens essenciais ainda eram racionados. Não fora por isso uma criança desejada e muito menos amada.
Mas como diziam na aldeia, “mal de quem vai, quem cá fica, trambolhão daqui, trambolhão dali, tudo se cria”
Quando Carolina entrou na adolescência mostrava já que iria ser uma bela mulher, e aí começou nova luta, já que os irmãos, diziam que ela estava uma bela "franguinha" e o mundo estava cheio de gaviões. E não a deixavam pôr o pé fora de casa, e ela tinha ânsias de liberdade. Entretanto o pai faleceu, os dois irmãos mais velhos casaram e foram viver para a cidade grande, o terceiro casara e fora viver com o sogro na aldeia vizinha. Na velha casa de família restava ela e um dos irmãos, já que o mais novo emigrara para o Brasil, na esperança de um futuro mais risonho. Farta da vida na pequena aldeia, escrevera aos dois irmãos, pedindo para ir viver com eles na cidade, mas não recebeu resposta.
Então começou a juntar algum dinheirito, do que o irmão lhe dava para as compras da casa, e um belo dia de Verão fugiu de casa rumo a Lisboa. Acabara de fazer 16 anos mas o seu corpo era já o de uma mulher.


CONTINUA

15 comentários:

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Ficamos à espera de saber das aventuras de Carolina em terras lisboetas.
Um abraço e boa semana.

✿ chica disse...

Que bom! mais um conto lindo em capítulos! Gostei do início! bjs, chica e lindo fevereiro!

Edumanes disse...

Tem cuidado Carolina,
não te percas na aventura
para que os teus sonhos menina
sejam realizados com ternura!

Começo interessante,
até fala de pele farrusca
a lua ilumina a noite escura
no céu, da terra distante!

Boa tarde e continuação de boa semana, amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Janita disse...

A vida da Carolina não tem sido, e parece que ainda não é, fácil!
Gosto desta personagem, assim como gostei deste seu regresso ao passado.
Aguardo as sua recordações de vivências pela cidade grande!

Um abraço, Elvira. Boa semana.

António Querido disse...

A Carolina deve ter tido grandes aventuras, numa grande e antiga cidade como Lisboa e viagens sobre as águas do Tejo! Irei acompanhando.
Com o meu abraço.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Olá Elvira! Por coincidência, estou retornando a blogosfera no início da história/estória da Carolina, pois pelo que li, promete ser muito bonita.

Muito obrigado pela visita e amável comentário deixado nos nossos humildes espaços, bem como da honrosa compreensão em função do meu afastamento para um pequeno descanso.

Abraços e uma ótima semana para ti e para os teus.

Furtado.

ONG ALERTA disse...

Vamos esperar Bjbj Lisette.

Crocheteando...momentos! disse...

Gostei da personagem e das suas vivências...boa noite

Crocheteando...momentos! disse...

Gostei da personagem e das suas vivências...boa noite

Graça Sampaio disse...

Aí vem nova novela... Muito bem!! Cá estamos para a receber...

Beijinhos, senhora contista!

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
Já começou bem o conto, vou tentar acompanhar, mas pelo ao menos ler eu vou. Estou com dificuldades em digitar.
Efeitos das infiltrações.
Beijos
Minicontista2

Elisa Bernardo disse...

Aqui continuamos...sempre a acompanhar. Muitos beijinhos
elisaumarapariganormal.blogspot.com

Pedro Coimbra disse...

Nome da minha cunhada mais nova.
Que seria o nome da minha filha se não fosse o da tia.

Andre Mansim disse...

Aí vem mais um belo conto! Tenho certeza disso!
Começou bem, apresentando-nos a bela Carolina, suas mazelas e vivências. Casa simples, mas pela imagem que me passou, muito acolhedora. Vamos ver no que vai dar.

Snif.... O livro ainda não chegou!!!!

Um beijão, Deus te abençoe!

Mariangela do Lago Vieira disse...

Com toda certeza, a Carolina dará volta por cima superando todos os sofrimentos e desafios!
Vou aguardar!
Abração Elvira!
Mariangela